Título: Vidas Cruzadas

Autoria: Dream-Devil

Género: Romance, Drama

Nota: A história está dividida em duas fases. Os primeiros 17 capítulos são a primeira fase e os seguintes capítulos a segunda fase.

Total de Capítulos: 34

Sumário: As vidas das várias personagens cruzam-se no local de trabalho. Entre problemas de trabalho e problemas pessoais, dramas e romances, amizades e rivalidades, na revista Vidas existe de tudo. Para algumas das personagens, a felicidade espreita ao fim do túnel, enquanto para outras a viagem turbulenta ainda agora começou.

Fase 1: Antes

Capítulo 1: A Revista

"Será que esta gente não sabe limpar nada? Não, dá muito trabalho ser-se minimamente asseado! É mais fácil deixar o trabalho todo para mim, como se eu fosse a escrava deles. Lá por ser empregada da limpeza, não quer dizer que tenha de fazer tudo." resmungou Adélia Palmeirim, abanando a cabeça ligeiramente.

Era uma manhã de terça-feira e o edifício da Castro Meireles Publicações, um edifício grande com sete pisos, situado na cidade de Monte Branco, estava em pleno funcionamento. A empresa tratava da publicação de jornais e revistas, de temas variados. No terceiro piso do edifício localizava-se a redação da revista Vidas, que tinha como tema principal reportagens e entrevistas, quer com famosos, quer com pessoas anónimas, sobre vários temas das vidas das pessoas. Adélia era uma das empregadas da limpeza da empresa e estava encarregue, da limpeza do terceiro piso, entre outros.

Era frequente Adélia reclamar de muitas situações, principalmente do estado em que as pessoas deixavam as coisas na sala de refeições. Papeis espalhados e sujidade por muitos lados era sempre o que Adélia encontrava na manhã de cada dia em que limpava a sala de refeições. Naquele dia tinha sido o micro-ondas que tinha sido utilizado e deixado completamente sujo. Com sessenta anos e cabelo castanho encaracolado, Adélia já não tinha muita paciência para o desleixe dos outros.

"Em vez de jornalistas e afins, esta gente parecem ser porcos!" exclamou Adélia, falando sozinha e esfregando o interior do micro-ondas. "Da próxima vez que vir a dona Helena vou falar-lhe do estado em que os outros deixam esta sala de refeições. A dona Helena sim é uma pessoa civilizada e de boa índole. Não é como a maior parte dos outros, que são jovens e irresponsáveis!"

Enquanto Adélia continuava a limpar a sala de refeições, na sala principal daquele piso, onde se situavam as secretárias dos empregados da revista Vidas, as pessoas estavam atarefadas. Na receção, o estagiário Fábio Meira estava encarregue de algumas tarefas, entre as quais atender as chamadas e encaminhá-las se assim fosse necessário. Cátia Tristão estava sentada à sua secretária, a fazer a revisão a alguns dos textos a serem publicados na edição seguinte da revista. Izilda Sampaio levantou-se da sua secretária e caminhou até à porta do gabinete de Helena. Bateu à porta e pouco depois a voz da chefe da redação indicou-lhe para entrar.

O gabinete da chefe da redação tinha uma secretária ao meio, algumas prateleiras e também armários para arquivos e outros materiais. Helena Damásio estava sentada atrás da sua secretária, tendo levantado os olhos do computador portátil que tinha pousado na secretária. Tinha quarenta e cinco anos, cabelo castanho longo e olhos da mesma cor. Izilda entrou no gabinete e fechou a porta atrás de si. Avançou até perto da secretária e estendeu uma folha de papel a Helena, que a agarrou.

"Esta foi a resposta que obtivemos da Champ-cuidados." disse Izilda, enquanto Helena passava os olhos pelo que estava escrito na folha. O assunto era relativo a uma das marcas, neste caso de champôs e cuidados higiénicos, que tinha publicidade na revista Vidas. "Dizem que neste momento não conseguem pagar o valor da publicidade, só para o mês que vem."

"Isto não pode ser. Já há três edições da revista que a Champ-cuidados não paga o valor da publicidade que colocamos e é uma página inteira para eles. O diretor foi muito claro anteriormente, de que se não fosse pago o valor rapidamente, não podíamos voltar a colocar publicidade deles na revista." disse Helena, abanando ligeiramente a cabeça. "Eu vou falar com o diretor para confirmar a situação."

"E o que é que fazemos se não pudermos colocar a publicidade da Champ-cuidados na revista? Não podemos ficar com uma página vazia."

"Obviamente que não, Izilda. Vamos fazer o seguinte, eu vou falar com o diretor para confirmar se retiramos mesmo a publicidade da Champ-cuidados da revista, pelo menos até eles pagarem a publicidade que já tiveram. Se o diretor mantiver a opinião de não colocarmos a publicidade, eu aviso-te. Aí teremos de informar a Champ-cuidados e depois, se ainda assim não pagarem, teremos de contatar alguma das outras marcas e confirmar se querem colocar mais uma página de publicidade."

Izilda acenou afirmativamente e pouco depois saiu do gabinete. Izilda tinha trinta anos e era muito bonita. O seu cabelo castanho e ondulado caía-lhe pelos ombros e os seus olhos eram de um castanho claro profundo. A revista Vidas ia para as bancas todas as sextas-feiras, o que queria dizer que no final da tarde de quarta-feira a edição da semana teria de estar pronta, para ser enviada para a impressão e no dia seguinte, quinta-feira seria feita a distribuição, para na sexta-feira as revistas poderem ser vendidas em diversos pontos. Izilda regressou à sua secretária, suspirando. Por vezes haviam muitas coisas complicadas a resolver. Aquela situação da publicidade da Champ-cuidados era uma delas.

A sala principal do terceiro piso tinha diversas secretárias, três gabinetes e a sala de reuniões. O gabinete do diretor da revista, que era também diretor de outras revistas e o dono da empresa, ficava logo à esquerda depois de alguém entrar na sala principal. Por norma o diretor passava ali muito pouco tempo. Ao lado do gabinete ficava a sala de reuniões e depois ao fundo os gabinetes de Renato e Helena. Fábio tinha a receção para si, tendo uma secretária grande e quadrada, enquanto os restantes membros da revista Vidas tinham uma secretária cada um, algumas juntas uns dos outros e outras mais separadas, mas todas elas equipadas com computadores para que os profissionais pudessem realizar o seu trabalho.

A revisora Cátia sentava-se bem perto da receção, sendo que a secretária de Izilda ficava logo à sua frente. Em frente ao gabinete de Helena havia uma secretária grande com quatro divisórias, onde trabalhavam alguns jornalistas, como Adriana e Humberto. A secretária do fotógrafo Carlos ficava logo à frente do gabinete de Renato. Naquele momento, Carlos estava no gabinete de Renato e os dois estavam, mais uma vez, a desentender-se, como acontecia muitas vezes. O fotógrafo, de trinta e três anos, cabelo castanho e barba, apontou para uma fotografia que estava em cima da secretária.

"Renato, desculpa mas é óbvio que a fotografia que eu escolhi fica muito melhor do que essa!" exclamou Carlos, apontando de seguida para outra fotografia que estava em cima da secretária de Renato, sendo que tinha sido Carlos a tirar ambas as fotografias. O gabinete de Renato era parecido com o de Helena, apesar de ser um pouco mais pequeno.

"Carlos, eu é que sou o diretor de arte e edição gráfica, portanto a palavra final é minha. Eu compreendo que até aches que esta fotografia é melhor, mas não é a que se enquadra melhor no texto ou no que queremos passar na entrevista." disse Renato, tentando permanecer calmo, apesar de estar aborrecido. Estava farto que Carlos o estivesse sempre a afrontar. Afinal, Renato era seu superior. "Portanto, assim será."

"A minha opinião não vale nada, é isso? Eu aqui só sirvo para tirar fotografias e entregá-las a ti? Nem sei para que é que me pedem para eu escolher as que acho mais adequadas, se depois tu acabas por não achar o mesmo e escolher outras diferentes."

"Podes e deves dar a tua opinião, o que não podes é questionar as minhas decisões. Como eu disse, a decisão final é minha. Eu já falei com a entrevistada, falei-lhe da escolha das fotografias e ela aceitou. Portanto, o assunto está encerrado. Não faças tanto drama. As fotografias continuam a ter sido tiradas por ti na mesma, só que nem sempre se pode publicar aquelas que tu achas que deviam ser publicadas. Agora se fazes favor, vai trabalhar que deves ter coisas importantes para fazer e eu preciso de paz para fazer o meu trabalho também."

Furioso, Carlos saiu do gabinete, batendo a porta com estrondo. Regressou à sua secretária e sentou-se. Detestava ter de se submeter a todas as ordens de Renato. Raramente Carlos conseguia levar a sua avante. Ele era um dos fotógrafos da revista e achava que conseguiria escolher quais as fotografias que ele tirava e eram adequadas para cada artigo em que fora encarregue de fotografar. Porém, Renato não tinha a mesma opinião na maioria dos casos.

"De futuro, pode ser que eu suba de posto e depois a minha opinião comece a contar para alguma coisa." pensou Carlos, abanando a cabeça. "O Renato nunca foi fotógrafo e lá porque tem formação na área da arte e edição, pensa que sabe tudo. Os chefes são sempre assim, só ouvem o que querem... bem, a Helena não é, mas da outra vez quando fui falar com ela, tentando passar por cima da autoridade do Renato, as coisas correram mal. É melhor deixar-me estar quieto."

Entretanto, Adriana levantou-se da sua secretária. Olhou para a secretária do namorado, mas achou melhor não ir ter com ele naquele momento. Carlos estava aborrecido e nessas alturas era melhor deixá-lo acalmar um pouco sozinho. Adriana avançou pela sala e foi até à secretária de Izilda, que estava a terminar de falar com um representante de uma marca de produtos de beleza, que tinha contatado para saber preços de publicidade na revista. Adriana tinha a mesma idade do namorado, longo cabelo loiro e olhos azuis claros, que eram tão bonitos quanto misteriosos.

"Parece que perdermos uma das marcas ou estamos preste a perdê-la, mas já consegui outra." disse Izilda, contente consigo mesma. Assim não teriam de andar a contatar outras marcas para aumentarem o espaço de publicidade. Olhou para Adriana, vendo que ela estava um pouco tensa. "O que é que se passa? Estás bem?"

"Podemos ir falar para outro lugar? Não demora muito. Aqui podem ouvir-nos." disse Adriana, baixando a voz.

Izilda acenou afirmativamente. Cátia parecia absorvida na revisão que estava a fazer, mas ainda assim Adriana não queria falar ali, onde podia ser ouvida. Ela e Izilda saíram da sala, atravessaram o hall do terceiro piso e entraram na sala de refeições. Adélia, que ainda estava ali a limpar, lançou-lhes um olhar acusador quando entraram e preparava-se para ralhar com elas, como suspeitas da sujidade do micro-ondas, mas Adriana e Izilda escapuliram-se rapidamente para a casa de banho feminina e fecharam a porta.

"Então o que é que se passa?" perguntou Izilda. "Há algum problema? É entre ti e o Carlos? Discutiram?"

"Não, não discutimos. Está tudo bem entre nós." respondeu Adriana, encostando-se a um dos lavatórios da casa de banho. Suspirou. Estava um pouco nervosa e precisava de falar com alguém. Ela e Izilda eram amigas, além de colegas de trabalho, pelo que Adriana resolvera desabafar. "Eu tenho uma suspeita e estou nervosa por causa disso."

"Uma suspeita? O que é que queres dizer com isso? Espera! Estás a suspeitar que o Carlos te anda a trair ou algo assim?" perguntou Izilda, começando a andar de um lado para o outro da casa de banho. "Isso é algo grave. Tens alguma prova?"

"Calma, eu não disse que suspeitava de nenhuma traição. Não tem a ver com isso. Acontece é que eu... não sei, suspeito que talvez possa estar grávida."

"Grávida? Oh... mas isso é bom, não é?"

"Não sei, talvez sim, talvez não. Eu costumo ser muito regular na minha menstruação, mas agora estou com alguns dias de atraso. Ainda não falei disto ao Carlos, porque é apenas uma suspeita. Também ainda não tive coragem de ir à farmácia comprar um teste de gravidez..."

"Mas já o devias ter feito, Adriana! Esta situação é importante e pode mudar a tua vida e a vida do Carlos também. Diz-me uma coisa, vocês não usam proteção?"

"Claro que usamos. Não somos irresponsáveis, Izilda. Acontece que nem sempre os métodos contracetivos são cem por cento fiáveis, portanto... pode ter acontecido, ainda assim. Eu precisava de falar com alguém e por isso é que pedi para falar contigo. O que é que achas que devo fazer?"

"Não é óbvio? Deves fazer o teste de gravidez. Olha, fazemos assim. Arranja maneira de te livrares do Carlos para o almoço. Saímos juntas e vamos à farmácia. Compramos lá um teste de gravidez e depois logo se verá se estás grávida ou não." disse Izilda, aproximando-se da amiga e colocando uma mão no braço de Adriana. "Vai correr tudo bem, não estejas nervosa."

Adriana não queria estar nervosa, mas era algo que não conseguia evitar. Já pensara em ser mãe, mas pensara primeiro em casar-se. Ela e Carlos ainda nem sequer viviam juntos, quanto mais vir agora uma criança inesperadamente. Ainda assim, se fosse o caso, obviamente que Adriana aceitaria a situação, mas como é que Carlos reagiria? Adriana abanou a cabeça. Não valia a pena estar a massacrar-se com ansiedade. Izilda iria com ela à farmácia à hora de almoço e depois iria saber-se.

Quando as duas saíram da casa de banho, Adélia estava à espera delas e procedeu a reclamar com ambas, até que elas alegaram que teriam mais cuidado com o que utilizassem e saíram rapidamente da sala de refeições. Pouco depois, Helena saiu do seu gabinete e indicou a Izilda que já tinha enviado à Champ-cuidados um e-mail com a indicação sobre o término da publicidade deles na revista enquanto não pagassem.

"Eles mandaram a mesma resposta de antes." disse Helena. "Portanto, por favor vê com as outras marcas se alguma está interessada em aumentar as páginas de publicidade nesta edição. Sei que não deve ser fácil mas..."

"Não tem problema. Recebi um contato de outra marca a querer saber o preço da publicidade na nossa revista. Mostraram-se interessados. Só não lhes garanti que podíamos publicar a publicidade já nesta edição, porque não sabia a resposta da Champ-cuidados, mas sendo assim, vou ligar à nova marca, para tratarmos de tudo."

"Ótimo, isso são boas notícias. Bom, pelo menos este problema parece estar a resolver-se rapidamente." disse Helena, algo aliviada.

Pouco depois, Helena regressou ao seu gabinete. O estagiário Fábio foi encarregue de enviar um fax e Cátia levantou-se para ir falar com Adriana sobre um dos artigos dela e uma dúvida que tivera no que Adriana queria dizer exatamente. Enquanto isso, Humberto, o jornalista que tinha a sua secretária ao lado da secretária de Adriana, apesar de haver uma divisória entre ambos, estava aborrecido. Tinha ainda de terminar um dos seus textos, mas estava sem grande motivação. Com vinte e nove anos, Humberto tinha cabelo espetado, de um castanho muito escuro, quase preto e olhos cinzentos.

"Não é justo que todos os meus amigos tenham namoradas ou amigas coloridas ou assim e eu não tenha nada." pensou Humberto, aborrecido. "Aqui no escritório nenhuma das mulheres quer nada comigo. A Cátia até é gira, mas disse-me logo que não estava interessada em mim. A Adriana namora e a Izilda riu-se na minha cara quando a convidei uma vez para sair. Desta maneira, ainda acabo a ter de me contentar com uma mulher mais velha, como a Adélia."

Ao pensar aquilo, Humberto abanou rapidamente a cabeça. Não queria ter de ficar com uma velha, a não ser que fosse uma velha rica e que tivesse pouco tempo de vida. Talvez assim até fosse apelativo. Respirando fundo, Humberto virou a sua atenção para o seu computador. Acedeu à internet e fez uma busca por sites de relacionamentos. Encontrou vários e acedeu a um deles, lendo a informação básica.

"Tenho sempre a opção de me inscrever aqui. Ponho as minhas características e o que quero numa mulher e assim encontram o par perfeito para mim." pensou Humberto, algo hesitante. Depois, acabou por tomar um decisão. "Também não é como se eu tivesse nada a perder. Vou inscrever-me e quem sabe até não encontro a mulher certa... ou então pelo menos posso encontrar as erradas, com quem me divertir."

Vidas Cruzadas

À uma da tarde, chegou a hora de almoço, pelo que as pessoas do escritório do terceiro piso começaram a levantar-se dos seus lugares para irem almoçar. Helena costumava ir almoçar a casa, para passar o tempo de almoço com o marido e daquela vez não era exceção. Adriana aproximou-se de Carlos e indicou-lhe que iria almoçar com Izilda, para terem conversas de mulheres.

"Está bem, faz como quiseres. Acho que hoje não sou boa companhia para ninguém." disse Carlos, dando um beijo rápido à namorada. "Vou aproveitar a hora de almoço para comer alguma coisa em qualquer lado e dar uma volta para espairecer."

"Fazes bem. Não vale a pena ficares aborrecido com o Renato. Isso não resolve nada."

"Eu sei, mas imagina que eras tu, que és jornalista, a teres os teus textos recusados ou alterados pela Helena? Eu quero fazer bem o meu trabalho, mostrar resultados e que os melhores sejam impressos, mas o Renato não me dá ouvidos. Acha sempre que a opinião dele é que é certa. Eu é que tiro as fotos e sei ver quais ficam melhores ou não."

Carlos, Izilda e Adriana acabaram por entrar no elevador e descerem com Helena para o rés-do-chão. Depois, Carlos foi para seu lado, Helena rumou ao seu carro e Adriana e Izilda entraram no carro de Izilda, partindo pouco depois. Por essa altura, Adélia já não andava por ali, tendo também indo almoçar. Cátia, Fábio, Humberto, Renato e outros trabalhadores do terceiro piso dirigiram-se à sala de refeições, que tinha quatro mesas. Renato aqueceu a sua comida no micro-ondas e sentou-se na mesa mais ao fundo. Era um homem alto, de quarenta e cinco anos e cabelo preto.

Por norma, Renato trazia sempre algo de casa, aquecia a comida no micro-ondas e sentava-se, sozinho, na mesa do fundo. Visto os outros saberem que ele não gostava muito de conversar e depois de tentativas frustradas para o fazerem juntar-se a eles noutra mesa, costumavam não o incomodar. Nas raras vezes que Helena almoçava sem ser em casa, juntava-se a Renato na mesa do fundo e nesse caso ele não reclamava, visto que os dois se davam bem. Naquele dia, Renato começou a comer com calma, pensando no trabalho, mas também na sua filha, que já não via há algum tempo. A mãe dela estava a dificultar as visitas.

"Lá por estarmos separados, não quer dizer que eu não queira fazer parte da vida da minha filha." pensou Renato, comendo um pouco de arroz. Sentia a cabeça a latejar ligeiramente. "Mas não, a minha vida é cada vez mais dificultada e a decisão do tribunal, de eu a poder visitar quando quisesse, desde que informasse, não está a ser cumprida. Nem mesmo o tempo que ela devia passar comigo, de quinze em quinze dias. O meu advogado diz que está a tratar do assunto, mas não vejo resultados nenhuns. Continuo sem poder ver a minha filha porque a mãe dela não deixa."

Enquanto Renato se mantinha na mesa do canto, os outros aqueceram a sua comida. Cátia, Fábio e Humberto sentaram-se na mesma mesa. Cátia tinha trazido frango com arroz, enquanto que Fábio trouxera massa com carne. Já Humberto trouxera uma espécie de carne com arroz, mas que era algo difícil de distinguir visto que a sua comida tinha um aspeto empapado. Cátia franziu o sobrolho e Humberto abanou a cabeça.

"Não saiu muito bem a comida." disse ele. "Isto em termos de aspeto, visto que em termos de sabor há de estar uma maravilha. Eu sou bom cozinheiro."

"Pois, por acaso vê-se." disse Fábio, rindo-se ligeiramente.

Humberto lançou-lhe um olhar aborrecido e comeu uma garfada da sua comida. Teve de se conter para manter uma expressão neutra, mas a verdade era que a comida estava péssima. Tinha posto sal demais. No entanto não ia dar parte de fraco à frente dos colegas de trabalho, pelo que comeria o que pudesse e continuaria a dizer que a comida estava ótima. Fábio acabou por perguntar a Cátia como estavam a correr as revisões que estava a fazer. O estagiário tinha vinte e quatro anos, apenas menos um ano que Cátia. Enquanto Fábio tinha cabelo castanho aloirado, o cabelo de Cátia era castanho arruivado, pelos ombros.

"Até ao momento, bastante bem. Tive apenas uma dúvida num dos textos da Adriana, mas já está esclarecida. Felizmente que a maioria das pessoas entregou os textos a tempo e portanto fui logo adiantando trabalho. É muito mais complicado quando deixam os textos para serem revistos no último dia." respondeu Cátia, lançando um olhar a Humberto. "Estou a referir-me a ti, Humberto. Onde é que estão os dois artigos que já me devias ter entregado?"

"Um deles está terminado e o outro está quase. No final da tarde já os terás, não te preocupes." disse Humberto, não parecendo muito preocupado. Gostava do seu emprego, mas não gostava que o pressionassem demasiado.

"Espero bem que sim. Não podemos ter atrasos, porque amanhã a edição final da revista tem de estar pronta para ir para impressão."

"Eu sei, Cátia. Já trabalho na revista há mais tempo que tu, portanto sei muito bem o que tenho de fazer e os prazos. Já te disse que não precisas de te preocupar. És demasiado stressada. Devias ser mais calma."

"Quando se trata de trabalho, tenho de ser o mais profissional possível. Afinal, hoje em dia arranjar emprego é muito difícil. Não quero de maneira alguma ficar sem este. Eu ainda vivo em casa dos meus pais e se bem que eu tenha dois empregos, não quero perder este. Tenho de ajudar nas despesas lá de casa e colocar algum dinheiro de lado, para o futuro. Tenho de zelar para que corra tudo bem aqui, no meu outro emprego, em casa..."

Humberto descansou-a, dizendo que não iria perder o emprego. Não era como se a revista estivesse a despedir pessoas, nem ele se atrasaria a entregar os seus textos, pondo o seu emprego e o de Cátia em risco. Ela pareceu relaxar mais um pouco, apesar de ter uma postura ainda um pouco severa. Fábio acabou por mudar a conversa para uma série de televisão que ele e Cátia costumavam ver. Humberto pôs parte do seu comer de lado, colocando-o num guardanapo, quando nenhum dos outros dois estava a ver.

"Eu até gosto bastante do casal principal, mas não me parece que eles fiquem juntos por muito tempo. Neste tipo de séries arranjam sempre alguma coisa para fazer os protagonistas separarem-se." disse Fábio.

"É verdade. Tens razão nesse sentido, mas a ver vamos." concordou Cátia, abanando a cabeça.

"Olhem, eu só vi a série uma vez, quando estava a fazer zapping. Não me interessei nada pelo que estava a acontecer, até porque não percebi nada porque não a acompanho." disse Humberto. "A única coisa que sei dizer é que e a protagonista é uma brasa. Faz-me lembrar a mulher com quem me envolvi na semana passada, mas depois cansei-me dela."

"Humberto, tu não tens respeito nenhum pelas mulheres." disse Cátia, algo aborrecida. Estava farta de ouvir Humberto falar das suas conquistas e da maneira como descartava as mulheres. "Um dia ainda vais ser tu a ser abandonado por alguma e depois nessa altura vais sofrer bastante. Quando isso acontecer, vais pensar a sério no que tens andado a fazer."

Humberto encolheu os ombros. Na verdade, apesar de tentar, era difícil conseguir seduzir as mulheres ou pelo menos, seduzi-las rapidamente. Humberto frequentava discotecas e bares, tentava namoriscar, mas as mulheres apesar de por vezes se mostrarem interessadas, queriam levar as coisas com calma. De vez em quando, Humberto sentia-se frustrado. Por um lado, queria algumas noites de paixão, mas sem compromisso. Por outro, pensava que talvez até aparecesse alguma mulher que fosse certa para si e aí não precisaria de mais nenhuma.

Até ao momento, isso não tinha acontecido. Humberto achava que se os outros pensassem que não tinha ninguém, isso diminuía a sua masculinidade. Por isso, inventava conquistas falsas. Inventava nomes e locais onde conhecera as mulheres e o que fizera e depois que as deixara. Ele saía sempre por cima. Dessa maneira, as mulheres no escritório não o viam com muito bons olhos e os homens achavam-no aborrecido, sempre a falar no mesmo. Mas na opinião de Humberto era melhor do que o verem como um falhado no campo amoroso. Fábio aturava Humberto pois sendo ainda novo no escritório, sempre era melhor ter alguém por perto do que ninguém e Cátia tolerava-o desde que ele não falasse demasiado das suas conquistas.

"Não vale a pena tentares falar com o Humberto sobre isso, já sabes que ele não nos ouve sobre as suas paixões." disse Fábio.

"Pois não, é a minha vida e só a mim me diz respeito." concordou Humberto.

"Então, da próxima vez fazes bem em manter isso só para ti, que aqui ninguém tem interesse em saber dos teus relacionamentos, conquistas ou lá o que forem." disse Cátia, num tom ríspido.

Pouco depois, Humberto terminou de comer o resto da sua comida péssima, levantou-se e dirigiu-se à sala de fumo. Cátia, que também terminara de comer, arrumou as suas coisas num saco e abanou a cabeça.

"Não percebo o é que é as pessoas acham de tão interessante no tabaco." disse ela, olhando para Fábio. "Sabem que faz mal à saúde, mas ainda assim continuam a fumar. Não parece fazer sentido, pelo menos para pessoas inteligentes e apesar de ser como é, o Humberto não é burro."

"Nunca fumaste pois não?" perguntou Fábio. Cátia negou com a cabeça. "Bem me parecia. Eu já fumei. Foram só uns meses. Uns amigos convenceram-me a experimentar e durante uns meses fumei. Depois, tanto por causa da minha saúde, como pelo dinheiro que estava a gastar, deixei-me disso. É difícil explicar a sensação de fumar, mas não é mau, a não ser que não suportes fumo."

"E não suporto. Não venham fumar para ao pé de mim. Se querem matar-se lentamente, muito bem, mas eu dispenso ficar com um cancro no pulmão por ser fumadora passiva."

Vidas Cruzadas

Depois de saírem do trabalho no carro de Izilda, Adriana e amiga tentaram decidir se deveriam ir primeiro almoçar ou à farmácia comprar o teste de gravidez. Adriana ainda estava mais nervosa do que antes. Por um lado, queria saber, por outro, não queria, pelas consequências que poderia haver se estivesse grávida. Izilda acabou por decidir que deviam ir primeiro à farmácia.

"Portanto, compramos o teste de gravidez, depois vamos a um restaurante qualquer, comemos lá e podes fazer o teste de gravidez na casa de banho. Não é o local ideal, mas de certeza que servirá." disse Izilda, parando o carro perto de uma farmácia. "Está bem?"

"Sim, está bem." respondeu Adriana.

Adriana respirou fundo. Sentia-se até algo intimidada para entrar na farmácia e pedir um teste de gravidez. Ao ver que a amiga não se decidia a sair do carro, Izilda indicou que iria com ela à farmácia. Adriana agradeceu. As duas saíram do carro, entraram na farmácia e Adriana tirou uma senha. Ficaram à espera que as pessoas que estavam antes delas fossem atendidas. Quando o número delas foi chamado, aproximaram-se do balcão da farmácia. Um homem de cerca de trinta anos, com bata branca, perguntou-lhes em que podia ajudar.

"Ora bem, eu queria um teste de gravidez, por favor." disse Izilda, tomando a palavra.

Adriana sentiu-se profundamente grata por a amiga falar por ela. Era estranho que fosse fácil entrar numa farmácia e pedir o que quer que fosse para outra pessoa, mas para ela própria, sendo um teste de gravidez, até parecia que era algo errado, o que não era nada verdade. Izilda, confiante e animada como costume, não tinha qualquer problema em pedir o que fosse, fosse para ela ou não.

"Nós temos vários testes de gravidez." explicou o farmacêutico. "Tem ideia do que pretende?"

"Não faço a mínima ideia. Quero um qualquer que me diga se estou ou não gravida, pronto." respondeu Izilda, de forma desprendida. O farmacêutico olhou-a atentamente, parecendo esperar algo mais. "Olhe, embebedei-me, envolvi-me com quem não devia e preciso de saber se fiquei grávida. Você deve perceber mais de testes de gravidez do que eu, portanto qual é que é o mais fiável?"

O farmacêutico indicou duas marcas e foi buscar duas caixas. Depois perguntou a Izilda de quanto tempo pensava que poderia estar grávida. Izilda lançou um olhar a Adriana e respondeu que talvez havia cerca de um mês. Sendo ainda pouco tempo, o farmacêutico recomendou então uma das marcas e Izilda aceitou. Na hora de pagar, Adriana fez questão de ser ela a pagar. Afinal, mesmo tendo sido Izilda a falar, o teste era para ela e não deixaria a amiga gastar dinheiro naquilo. Depois, saíram da farmácia.

"Pronto, está feito." disse Izilda, ao entrarem no carro. "Então, fiz bem o meu papel? Quer dizer, podia ter optado por uma desculpa que não me fizesse passar por uma bêbada que se envolveu com um qualquer, mas pronto. Nem sabia que haviam várias marcas de testes de gravidez e tudo o mais. Já fico a saber, se qualquer dia for eu a precisar de fazer um teste de gravidez. Claro que para isso é necessário eu arranjar um namorado primeiro."

"Obrigada pelo que fizeste, Izilda. Aliás, por tudo o que estás a fazer, por seres boa amiga e me estares a acompanhar."

"Obviamente que eu te iria acompanhar e vou continuar a fazê-lo no que for preciso. Vá, agora vamos lá almoçar, que já estou com imensa fome. E se tu estiveres grávida, convém que te alimentes devidamente, porque os bebés precisam de estar bem nutridos."

Vidas Cruzadas

Por essa altura, Adélia estava a almoçar num espaço reservado ao pessoal que não trabalhava nas revistas e jornais, como as empregadas da limpeza e os seguranças. O espaço ficava no segundo piso, era mais pequeno do que as outras salas de refeições e Adélia já reclamara disso, mas sem qualquer tipo de sucesso. Naquele momento, ela estava sentada a comer um pedaço de frango, falando com a sua colega Lucinda Agrela, que era uma mulher de cerca de quarenta anos, com cabelo castanho que costumava usar apanhado num rabo de cavalo.

"É verdade Lucinda, disseram-me que a minha irmã Goreti agora está a separar-se do marido. Parece que encontrou outro homem e se apaixonou por ele, portanto quis o divórcio. Vinte anos esteve ela casada, vê bem, para agora se separar do marido."

"Ao fim de vinte anos? Será que ela não se vai arrepender?" perguntou Lucinda, franzindo o sobrolho. "Isto é, por acabar assim com um casamento de tanto tempo."

"Talvez se arrependa, mas olha, eu vou dizer-te que no meu caso, que me casei três vezes, enviuvando uma vez e divorciando-me duas vezes, em termos dos divórcios não me arrependo nada. Ou há condições de se manter o casamento ou não." disse Adélia. "O meu primeiro ex-marido, o Eduardo Nélson, atreveu-se a levantar-me a mão uma vez."

"Bateu-lhe?"

"Claro, o que é que achas que levantar a mão significa? Que ele andava a fazer sinais com as mãos? Bateu-me, mas levou resposta porque eu dei-lhe um pontapé nas partes intimas e depois peguei no rolo de cozinha. No final de contas quem foi parar ao hospital foi ele e depois pedi o divórcio, como é óbvio."

Lucinda abanou a cabeça ligeiramente, visto que não sabia daqueles detalhes da vida de Adélia. Afinal a mulher mais velha, que estava sentada à sua frente, poderia não ser tão frágil como parecia. Adélia gostava de saber da vida de todos e quanto à sua própria vida, tomava as rédeas de tudo. Com ela, ninguém brincava, sem levar algo em troca. O seu ex-marido Eduardo Nélson tinha aprendido essa lição.

Vidas Cruzadas

Por sugestão de Izilda, ela e Adriana foram até um restaurante que tinha serviço bastante rápido. Visto que já tinham gasto algum do tempo de almoço a irem à farmácia, não podiam dar-se ao luxo de demorarem muito tempo para almoçarem e arriscarem-se a chegar atrasadas. Não que fossem muito controladas, mas sendo que no dia seguinte tudo na revista tinha de estar pronto, a presença de todos a horas era essencial. As duas entraram no restaurante, que estava decorado em tons cremes e sentaram-se numa mesa ao canto. Um empregado de mesa veio trazer-lhes a ementa e escolheram rapidamente um prato do dia.

"E para beberem?" perguntou o empregado, empunhando um bloco de notas e uma caneta.

"Hum... bom, talvez um pouco de vinho não faça mal." disse Izilda, olhando para a lista de vinhos. "Se bem que... eu não devia... não sei..."

"Bebemos apenas água. Pode ser uma garrafa de meio litro. Natural, por favor." disse rapidamente Adriana.

O empregado de mesa acenou afirmativamente, apontou o que Adriana tinha dito e afastou-se, levando também as ementas consigo. Izilda ficou algum tempo parecendo indecisa, mas Adriana lançou-se um olhar severo. A amiga suspirou. Sabia como ficava quando bebia e que uma bebida levava a outra e mais outra. Simplesmente não conseguia controlar-se. Adriana sabia disso e todos no escritório também, visto que numa das festas Izilda bebera demais e fizera um espetáculo deplorável.

"É difícil querer beber e não poder." disse Izilda, voltando a suspirar. "Mas suponho que tenho de te agradecer por me teres travado. Eu tento controlar-me, mas às vezes é difícil."

"Izilda, já nos conhecemos desde que começámos a trabalhar juntas, o que já foi há algum tempo e tu sabes tão bem como eu que as bebidas alcoólicas são a tua fraqueza. Tens de ter cuidado... não é normal que te descontroles da maneira que acontece e se cedes... tu própria me disseste que a tua mãe tinha um problema de alcoolismo. Conviveste com isso desde pequena."

"Sim, é verdade e pensei que eu nunca chegaria a esse ponto. Sabes... tenho algum receio de me tornar em algo como a minha mãe. Se eu já perco o controlo se beber... se qualquer dia não tenho alguém para me travar ou se não tenho bom senso... ainda me torno uma alcoólica. Não quero isso, de maneira nenhuma. Estragaria a minha vida por completo."

"Vai correr tudo bem. Eu estou aqui e podes contar com o apoio de todos no escritório. Já te disse antes, mas se algum dia te sentires tentada a beber demais e não tiveres ninguém por perto para te parar, podes ligar-me sempre. Eu irei a correr ter contigo." disse Adriana, sorrindo ligeiramente. "Afinal, as amigas servem para os bons e maus momentos, não é verdade?"

Izilda acenou afirmativamente com a cabeça. A sua infância não fora propriamente feliz. A sua mãe bebia muito, o seu pai trabalhava imenso e estava pouco tempo presente em casa. Izilda tinha a irmã mais velha para olhar por ela, mas ainda assim não se sentira muito feliz em casa. Quando chegara à escola secundária, fizera muitos amigos e começara a passar menos tempo em casa. Tornara-se mais confiante e feliz visto passar menos tempo com a família. Pensara que nunca gostaria de ser como a mãe, mas o futuro viera a revelar-lhe que se não tivesse cuidado, poderia ir pelo mesmo caminho.

"Não quero falar mais de bebida, nem de descontrolo, nem nada." disse Izilda, afastando o assunto. "O que importa agora é a tua situação. Temos de confirmar se estás grávida ou não."

"Depois do almoço fazemos isso." disse Adriana. "Acho que tenho de ir à casa de banho agora... mas a confirmação fica mesmo para depois do almoço, está bem?"

Izilda acenou afirmativamente com a cabeça. Adriana levantou-se e foi até à casa de banho. Izilda ficou a olhar para as outras pessoas que estavam no restaurante. Alguns falavam e comiam, havia pessoas em grupos, outras sozinhas. Várias delas tinham vinho branco ou tinto nos seus copos. Izilda afastou o olhar e logo depois o empregado de mesa voltou com a garrafa de água. Izilda encheu o seu copo e bebeu. A água não lhe faria mal e mesmo que houvessem tentações à sua volta, teria de ignorá-las. Pouco depois, Adriana voltou da casa de banho e sentou-se no seu lugar à frente da amiga. Tinha uma expressão estranha no rosto, que não passou despercebida a Izilda.

"O que é que se passa, Adriana?"

"Já não vou precisar de usar o teste de gravidez."

"Não estou a perceber..."

"Quando fui à casa de banho, apareceu-me o período." explicou Adriana. "Portanto, como é óbvio, não posso estar grávida."

Durante alguns segundos, nenhuma delas disse nada. Izilda não sabia se devia mostrar-se contente ou triste com aquilo. Afinal, a vida não era sua e ainda não percebera efetivamente o que é que Ariana pretendia, se seria estar grávida ou não. A própria Adriana sentia-se confusa. Por um lado, estava aliviada. Uma gravidez inesperada e indesejada, poderia ser muito complicada. Por outro lado, durante uns segundos tinha pensado como seria ser mãe e agora isso já se confirmara que não iria acontecer, pelo menos para já.

"Como é que te sentes?" perguntou Izilda, estendendo uma mão por cima da mesa e tocando na mão da amiga.

"Um pouco aliviada, um pouco confusa... enfim, se calhar precipitei-me logo a pensar que poderia estar grávida, a imaginar como é que depois podiam ser as coisas. Talvez tenha sido melhor assim. Quero ser mãe um dia, mas será melhor se for planeado. Eu e o Carlos nem vivemos juntos ainda, quanto mais vir uma criança assim de repente."

"Mas ainda assim o teu tom de voz é triste."

"Já passa. Afinal, não é como se tivesse ficado com menos do que já tinha. A minha vida vai continuar como normalmente. No futuro, terei filhos. Um casal, menino e menina, espero eu." disse Adriana. O empregado de mesa voltou novamente, daquela vez trazendo a comida para as duas. Depois voltou a afastar-se. "Agora, será melhor concentrarmo-nos a comer. E mais uma vez, apesar de ter sido falso alarme, obrigada pelo teu apoio Izilda."

Vidas Cruzadas

A hora do almoço estava a chegar ao fim quando Helena estacionou o seu carro, um modelo já algo antigo com uma pintura azul escura com alguns riscos, num local reservado para si no estacionamento da empresa. Depois de ter estacionado o carro, Helena ficou algum tempo lá dentro, pensativa.

"Já parece que se está a tornar costume do Alexandre não vir almoçar a casa e só me avisar em cima da hora." pensou Helena, sentindo-se aborrecida. "Mais uma vez almocei sozinha. Dantes nunca acontecia. Encontrávamo-nos sempre ao almoço, mas agora diz sempre que está com muito trabalho. Mais vale começar a não ir a casa, se é para comer sozinha."

Helena e Alexandre, o seu marido, estavam casados há quase quinze anos. Nunca tinham tido filhos, pois ambos se dedicavam muito à vida profissional e nunca tinham tido grande vontade de criar uma família mais numerosa. Tinham-se um ao outro e era suficiente. Helena estava satisfeita com o seu trabalho e amava o seu marido. Costumavam fazer tudo juntos, mas nas últimas semanas Alexandre estava mais distante. Até aos almoços, que faziam sempre juntos, começara a faltar. A resposta era sempre que tinha muito trabalho e não tinha tempo de ir a casa ao almoço ou tinha de ficar a trabalhar até mais tarde.

Helena saiu do carro e dirigiu-se ao edifício da Castro Meireles Publicações. Ela entrou quase ao mesmo tempo que Carlos, que tinha vindo da sua volta. Passara por uma loja de sanduíches e comprara uma, dando depois uma volta para espairecer. Sentia-se agora mais calmo, apesar de continuar aborrecido com Renato. Os dois subiram no elevador até ao terceiro piso. Pouco depois, também Izilda e Adriana chegaram e o trabalho na redação foi mais uma vez retomado por todos os que lá trabalhavam.

Humberto apressou-se a terminar de redigir o seu último texto e entregou-o, juntamente com o outro a Cátia para ela lhe fazer a revisão. Ela mostrou-se satisfeita por poder fazer o seu trabalho agora que já tinha todos os textos. Humberto regressou à sua secretária e resolveu confirmar se tinha alguma resposta sobre o site de relacionamentos onde se tinha inscrito. Ficou agradado quando verificou que tinha já uma resposta de alguém compatível.

"Foi muito rápido, tal como o site dizia." pensou Humberto, enquanto clicava na informação sobre a pessoa que o site tinha sugerido como compatível. O site tinha informação básica de cada pessoa inscrita, caraterísticas que essa pessoa tinha e que achava importante que a pessoa que procurava tivesse. "Vamos lá ver se é uma jovem bonita, inteligente e... e mais nada, que basicamente só pus que tinha de ser jovem e bonita. Inteligente não importa muito, desde que tenha uns seios grandes."

Depois de clicar no link para o perfil da pessoa a que tinha respondido, Humberto ficou um pouco aborrecido por o perfil não ter fotografia. O seu próprio perfil ainda não tinha fotografia, mas apenas porque só se registara naquele dia e como não tivera acesso ao seu computador pessoal, só quando tivesse escolheria uma fotografia sua para lá colocar. Leu a descrição da pessoa e abanou a cabeça.

"Chama-se Bernardete Sampolho, tem vinte e cinco anos, é morena, magra, gosta de música e festas. Bom, seria melhor se tivesse uma fotografia, mas considerando que até ao momento só obtive esta resposta, é melhor marcar logo um encontro, visto que ela é aqui da cidade." pensou Humberto.

Depois de mais uns cliques, Humberto escreveu uma mensagem, a combinar um encontro para o dia seguinte, na hora de almoço. Alguns minutos mais tarde, veio uma mensagem de confirmação. Depois de uma troca de mensagens, o local de encontro ficou combinado. Humberto recostou-se na sua cadeira e pensou em como seria Bernardete. Esperava que ela fosse realmente bonita e uns seios grandes eram sempre algo apreciável.

Vidas Cruzadas

As horas passaram e ao final da tarde as pessoas começaram a ir embora. Cátia foi a primeira a sair, pois além de trabalhar na redação da revista Vida, ainda tinha um part-time alguns dias por semana numa loja de roupa, para ganhar algum dinheiro extra. Não era muito, mas ajudava e era mais algo com que podia contar para ajudar os pais nas despesas. Aos poucos, todos começaram a ir embora, mas Helena ficou no seu gabinete a terminar de tratar de um assunto, até que o seu telefone tocou. Atendeu e era um dos seguranças do edifício.

"Uma mulher está aí para falar comigo?" perguntou Helena, ao ouvir o que o segurança, Osvaldo, dizia. "Como é que se chama? Leonor? Não estou a ver quem seja, mas está bem, se ela diz que quer falar comigo com urgência, muito bem, mande-a subir."

Pouco depois, a porta de uns dos elevadores do terceiro piso abriu-se e uma mulher saiu. Era alta, com cabelo longo e preto. Vinha vestida com roupas encarnadas e ao sair do elevador ficou a olhar para um lado e outro, para saber para onde se deveria dirigir. Nessa altura, Adélia apareceu, subindo as escadas. Tinha, de alguma maneira, perdido uma medalha que costumava trazer ao pescoço, presa num fio e andava à procura dela, antes de ir embora para casa.

"Sabe onde é que fica o gabinete da Helena Damásio?" perguntou a mulher, de nome Leonor.

"Ah, é fácil. É só ir por esta porta aqui, atravessar a parte do escritóri gabinete do fundo, à direita. Mas se calhar é melhor eu levá-la lá. Venha comigo." disse Adélia. A mulher abanou a cabeça e seguiu-a. As duas entraram na redação deserta. Só havia luz no gabinete de Helena, portanto não era difícil identificá-lo. "Então, não me lembro de alguma vez a ter visto por aqui. O que é que vem tratar com a dona Helena?"

"São assuntos pessoais." respondeu Leonor, ao chegarem à porta do gabinete. "Obrigada por me ter indicado onde ficava o gabinete."

Leonor bateu à porta do gabinete e Helena mandou entrar. A mulher entrou e fechou a porta atrás de si. Adélia franziu o sobrolho. O seu instinto, que normalmente era apurado, dizia-lhe que havia ali alguma coisa interessante. Portanto, como era costume na sua vida, Adélia esqueceu os assuntos menores, como era o caso de encontrar a sua medalha e encostou o ouvido à porta do gabinete para conseguir ouvir a conversa.

"Posso saber porque é que queria falar comigo? Não me parece que nos conheçamos." perguntou Helena, dentro do gabinete. Olhou para a mulher à sua frente com atenção. "Então?"

"Não nos conhecemos pessoalmente, é verdade, apesar de eu já a ter visto e já ter ouvido falar muito sobre si." respondeu Leonor, com bastante calma e um ar algo altivo. "Eu trabalho no mesmo hospital que o seu marido."

"Ah sim? Também é médica?"

"Sou enfermeira." esclareceu Leonor, cruzando os braços. "Mas vou direta ao que me trouxe aqui. Queria falar consigo pessoalmente e visto que sabia onde trabalhava, resolvi vir aqui logo que saí do meu emprego."

"E qual é o assunto? Aconteceu alguma coisa ao Alexandre?"

"Não aconteceu nada de mal ao seu marido, mas resolvi vir aqui dizer-lhe algo que acho que deve saber. Acontece que o seu marido a anda a trair."

"Desculpe?" perguntou Helena, surpreendida. Levantou-se da cadeira onde estava sentada. "O que é que está a dizer?"

"O que ouviu. O seu marido não é nenhum santo. Eu também não sou, verdade seja dita. Envolvemo-nos, eu e ele. Durou algumas semanas, mas depois ele resolveu acabar tudo comigo. Muito bem, ele era casado e eu sabia disso, portanto aceitei, pensando que ele se arrependera do que fizera e só queria estar com a mulher. Mas esta semana descobri que ele se envolveu com outra enfermeira." disse Leonor, parecendo bastante aborrecida. "Fiquei furiosa. Trocou-me por ela, com certeza e ainda por cima continua a enganá-la a si, portanto tomei uma decisão e vim aqui contar-lhe a verdade."

E chega ao fim o primeiro capítulo. A Adriana descobriu que afinal não está grávida, o Humberto marcou um encontro através do site e a Helena deparou-se com uma mulher que lhe diz que andou envolvida com o marido dela. No próximo capítulo, iremos descobrir como a Helena irá reagir a isto.