Capítulo 7: Mãe Problemática

A manhã de segunda-feira amanheceu solarenga. As nuvens no céu eram escassas, mas havia uma ligeira brisa. Izilda estacionou o seu carro e pouco depois estava a entrar no edifício da Castro Meireles Publicações. Cumprimentou o segurança Osvaldo ao passar por ele e depois dirigiu-se ao elevador. Humberto, que estava a entrar no elevador, segurou a porta até Izilda lá chegar. Depois, o jornalista carregou no botão para o terceiro andar.

"Obrigada, Humberto." disse Izilda, sorrindo ligeiramente. "Hoje vai ser mais um dia difícil. A Helena ligou-me a dizer que estava doente. Desta vez, está mesmo doente, não é para esconder nada como da última vez."

"E foi ela que te disse isso? Já mentiu uma vez, pode estar a fazê-lo novamente." disse Humberto, abanando a cabeça e não parecendo convencido. "Vai-se a ver, o marido, durante o fim-de-semana foi vê-la e os dois acabaram por fazer as pazes, pelo que agora talvez tenham tirado o dia para estarem um com o outro."

"Não me parece que seja esse o caso. Primeiro, a Helena não deve perdoar o marido pelo que ele fez e segundo, mesmo que o fizesse, não me parece que ela fosse faltar ao trabalho só por causa disso."

Humberto encolheu os ombros. Pouco depois as portas do elevador abriram-se e os dois saíram para o hall do terceiro piso, entrando depois na sala principal de trabalho. Fábio já estava por detrás da sua secretária na receção e deu-lhes os bons dias. Izilda caminhou até ao gabinete de Renato e bateu na borda da porta, que estava aberta. Renato indicou-lhe para entrar.

"A Helena também te ligou, a dizer que não vinha trabalhar por estar doente?" perguntou ela.

"Sim, ligou. Confirmei com ela que era mesmo uma doença e não outra coisa qualquer, como da outra vez. Parece que durante o fim-de-semana ficou engripada e agora está de cama, mas diz que em princípio amanhã já deverá vir trabalhar." respondeu Renato.

"Felizmente que hoje não é o dia de fecho da revista, como da última vez, ainda assim ela pediu-me para tratar de algumas coisas extra, visto que não está cá." disse Izilda, suspirando. "Bom, vou trabalhar. Até já."

Izilda foi para a sua secretária. Por essa altura, Adriana, que também já tinha chegado, estava a ultimar a informação sobre uma entrevista que fizera na sexta-feira. Junto com Carlos, tinham ido entrevistar uma pessoa conhecida do mundo da televisão e Carlos tirara imensas fotografias. Durante o fim-de-semana, ela e Carlos tinham andado à procura de apartamentos para alugarem, depois da situação com a falsa vidente. Carlos falara com uma das pessoas que trabalhavam num jornal no edifício e depois de ter visto alguns anúncios juntamente com Adriana, os dois tinham ficado interessados em verem alguns dos apartamentos.

Tinham marcado visitas através dos números de telefones presentes nos anúncios e às horas marcadas, tinham aparecido nos locais indicados. Porém, se a principio tinham ido animados, depois de verem as descrições dos apartamentos e algumas fotografias, por norma dos exteriores dos apartamentos, rapidamente se tinham desiludido com os apartamentos. O primeiro que tinham visitado era muito pequeno, nada correspondendo à descrição que tinham lido. O segundo a mesma coisa. No terceiro, o interior era péssimo. No quarto apartamento, cujo anúncio tinha imagens do interior, a maioria das divisões eram boas, mas a varanda estava super degradada e um dos quartos tinha rachas em todo o lado.

Ao fim de sete visitas a diferentes apartamentos, Adriana e Carlos tinham ficado desanimados. Comparados aos apartamentos que tinham agora, os outros eram muito piores. Adriana já começava a pensar que se não conseguissem, em breve, descobrir um apartamento melhor, cederia e iria viver para o apartamento de Carlos. Era melhor isso do que estar a adiar a situação mais tempo só porque não conseguiam encontrar outro bom apartamento.

Carlos levantou-se da sua secretária, com uma pen na mão, contendo as últimas fotografias tiradas, na entrevista onde estivera com Adriana. Caminhou até ao gabinete de Renato e entrou sem grandes cerimónias e sem bater à porta, visto que a porta continuava aberta. Pousou a pen em cima da secretária de Renato e indicou-lhe que estavam ali as fotografias que tirara.

"Pus numa pasta à parte aquelas que achei melhores. Mas como sempre, deves discordar." disse Carlos, cruzando os braços.

Renato colocou a pen no computador e passou os olhos pelas fotografias todas e depois por aquelas que Carlos tinha escolhido. Abanou ligeiramente a cabeça e de seguida indicou a Carlos que as fotografias estavam boas e iriam usar aquelas que ele achara que seriam melhores. Carlos foi apanhado de surpresa e abriu a boca de espanto.

"Espera, estás a dizer-me que vais mesmo usar as fotografias que eu escolhi?" perguntou Carlos, desconfiado. "Não vais mudar nenhuma?"

"Não, não vou. Estas estão boas e são adequadas também. Fizeste uma boa escolha."

"Ou isto é algum tipo de milagre, visto que acontece muito poucas vezes ou então estás doente." disse Carlos. "Sentes-te bem, Renato?"

"Não, não sinto, mas isso também não te interessa, nem quero falar no assunto. Não tens outras coisas para fazer? Eu tenho bastante que fazer. Se não tens mais nada a dizer-me, agradecia que saísses."

Carlos abanou a cabeça e saiu do gabinete, voltando à sua secretária. Era óbvio que algo estava a perturbar Renato, ao ponto de ele nem contestar as fotografias que Carlos escolhera. O fotógrafo perguntou-se o que seria. Depois pensou que não interessava o que fosse ou deixasse de ser. Renato aceitara as fotografias que ele escolhera e isso era bom. De resto, se estava a acontecer algo na vida de Renato e ele não queria partilhar, o problema era dele.

Um pouco mais tarde, Dionísio Castro Meireles entrou pela porta da sala de trabalho do terceiro piso e a sua presença foi rapidamente notada. Fábio gaguejou uns bons dias, ficando de imediato nervoso. A presença do dono do edifício e diretor de várias das publicações ali era intimidante. Além de Dionísio raramente sorrir, o seu tom de voz costumava ser frio, o que fazia a maioria das pessoas temê-lo e também respeitá-lo. Era isso que o próprio queria que acontecesse.

Não era muito frequente Dionísio andar pelos outros andares, tirando o último andar, onde ficava o seu escritório principal e onde passava a maioria do tempo, quando estava na empresa. Porém, naquela manhã começara a percorrer os departamentos das revistas e jornais, vendo tudo estava a funcionar, como as pessoas estavam a trabalhar e avaliando mentalmente tudo, visto que tinha de tomar uma decisão sobre o que fazer e onde encaixar Sebastião.

Depois do ultimato que o pai lhe fizera, Sebastião ficara a pensar, mas como Dionísio já sabia que ia acontecer, acabara por ceder. Dionísio sabia que o filho era demasiado mimado para se impor a ele e dizer que não iria trabalhar, até porque aí perderia o acesso a tudo o que o pai lhe proporcionava. Assim, no domingo, Sebastião falara com o pai e aceitara que teria de trabalhar, mas indicara de imediato que não queria um emprego reles.

"Se vou trabalhar, então que seja num bom emprego." dissera Sebastião, de braços cruzados e expressão séria. "A conversa de uma pessoa começar uma carreira profissional por baixo não se aplica a mim. Aliás, ficaria mal se eu, de uma família de posses, tivesse um emprego que não fosse do meu nível. E também não me parece bem ter de andar aí à procura de emprego, pai. Nós temos uma empresa, portanto encontre-me um bom emprego lá."

Dionísio acabara por concordar com aquilo. Com o filho por perto, além de o poder controlar, também ficaria a saber de tudo o que ele fizesse dentro da empresa. A esperança de Dionísio vinha no sentido de que talvez, apenas talvez, depois de começar a trabalhar Sebastião ganhasse realmente responsabilidade. Assim, Dionísio decidira começar a ver os departamentos e descobrir algum local onde pudesse encaixar o filho. Seria fácil se Sebastião aceitasse um cargo menor, como ser estagiário, mas o filho não aceitaria isso. Dionísio caminhou pela área de trabalho, enquanto as pessoas olhavam para si. Ao chegar ao gabinete de Helena, encontrou-o vazio. Virou-se, olhando para a pessoa que estava ali mais perto.

"Onde está a chefe de redação?" perguntou ele.

"A Helena está doente e não veio hoje." respondeu Adriana, que ia a passar. Izilda tinha-lhe contado do porquê da chefe não ter ido trabalhar.

"Não veio trabalhar? Outra vez. Ainda na semana passada foi a mesma coisa." disse Dionísio, com o olhar a endurecer. "E o diretor de arte?"

"Penso que está no gabinete dele."

Dionísio afastou-se e foi até ao gabinete de Renato, trocando algumas palavras com ele. Queria saber como estavam a correr as coisas e quem trataria dos assuntos que Helena deixara pendentes e dos quais não poderia tratar. Pouco depois, Izilda foi chamada ao gabinete. Ela indicou que estava tudo controlado. Helena voltaria do dia seguinte e até lá, ela e Renato conseguiriam dar conta do assunto.

"Na semana passada foram vocês os dois que me fizeram a apresentação do número da revista Vidas, substituindo a Helena Damásio e agora voltaram ao mesmo." disse o diretor, com um tom algo acusatório.

"Verá que nada ficará por fazer." assegurou Renato, abanando a cabeça. "Poderemos demorar um pouco mais, mas dividimos o trabalho da Helena entre os dois e tudo funcionará no final."

"Sim, pode ter a certeza. E amanhã a Helena já estará de volta." assegurou Izilda.

Um pouco mais tarde, Dionísio completou a sua volta pelo terceiro piso. Foi até ao elevador e carregou no botão. Faltava-lhe verificar dois outros pisos e departamentos, mas já tinha uma ideia em mente. Iria ver, com atenção, como se desenrolavam os assuntos do dia no departamento do terceiro piso. Na semana anterior, tanto Renato como Izilda tinham feito um bom trabalho. Agora, talvez acontecesse o mesmo.

"O diretor de arte já está connosco há bastante tempo. Sei que ele é competente. A Helena Damásio também é, mas agora anda a falhar. E quanto àquela jovem, nem me lembro como se chama. Sei que trata da publicidade e relações públicas. Está a fazer mais do que lhe seria exigido e está a cooperar bem. Precisamos de mais profissionais assim." pensou Dionísio, enquanto as portas do elevador se abriam. "Portanto, vai custar-me mandar despedir uma pessoa, mas se a revista Vidas consegue funcionar sem a Helena... será um bom cargo para o Sebastião. Se ele fizer asneira, os outros dois conseguem compensar o que ele fizer de mal. Neste momento, a Helena parece ser alguém descartável."

Alguns minutos mais tarde, Cátia levantou-se da sua secretária e avançou pelo hall do terceiro piso, entrando na sala de refeições e depois passando para o arquivo, que ficava num espaço de onde se podia ter acesso apenas pela sala de refeições. Sendo revisora e também responsável pelos arquivos, por vezes era necessário ir verificar situações de edições anteriores para confirmar certos factos ou temas. Não gostava especialmente do arquivo, cheio de móveis e gavetas poeirentas e parecendo um espaço muito fechado, mas era o seu trabalho e tinha de ir lá de vez em quando. Cátia passou alguns minutos no arquivo e depois saiu, voltando à sala de trabalho. Aproximou-se da receção e pousou uma das revistas. Apontou para ela.

"Fábio, tira-me três cópias das quatro páginas centrais." disse Cátia. "Preciso de verificar umas situações."

"Se já estás de pé, porque é que não tiras tu as cópias?" perguntou Fábio, parando de escrever ao computador.

"Porque esse é o teu trabalho. Tu és estagiário, lembras-te? Tens de fazer o que te for pedido e não reclamares. Mas estás a recusar-te a fazeres algo que eu estou a pedir? Será que tenho de fazer queixa de ti? Antes de ti, era eu a estagiária e nunca ninguém teve nada a apontar-me. Sempre fui profissional. Mas se tu não és, claro que posso sempre reclamar juntos dos recursos humanos e do diretor e..."

"Deixa estar, eu tiro as cópias." disse Fábio, pegando na revista.

Lançou um olhar aborrecido a Cátia, mas afastou-se para ir fazer o que ela lhe indicara. Cátia sorriu ligeiramente, satisfeita. Fábio e a sua amiga tinham-na irritado na loja, portanto agora teria uma espécie de vingança sobre o rapaz. Poderia ser com pequenas coisas, mas seria interessante irritá-lo. Pouco depois, Fábio afastou-se da fotocopiadora e entregou a Cátia o que ela tinha pedido.

"Muito bem, as cópias até não estão más." disse Cátia. Esperava que algumas saíssem tortas e que isso servisse como pretexto para fazer Fábio tirá-las novamente, mas não fora o caso.

Cátia regressou à sua secretária. Na secretária em frente, Izilda terminara de abrir algumas cartas. Todos os dias eram recebidas cartas, e-mails e faxes na revista sobre temas da revista, opiniões das pessoas e afins. Izilda estava encarregue de dar resposta aos contatos que assim fossem necessários e escolher alguns textos e opiniões para serem publicados na secção de opinião da revista.

"Então, a Helena lembrou-se de faltar outra vez, não foi?" perguntou Cátia.

"Ela está doente." respondeu Izilda, sem tirar os olhos de uma carta que tinha nas mãos. "Não está a faltar porque quer."

"Da última vez também disse que estava doente e depois foi o que foi. Há pessoas que parecem não ter responsabilidade. Quem é que vai fazer o trabalho dela? Tu e o Renato, outra vez? Será que as pessoas não sabem aquele lema do não falte, você faz falta?" perguntou Cátia. "A mim parece-me que a Helena está é a habilitar-se a ganhar uma viagem só de ida para a fila do centro de emprego."

"Lá estás tu novamente a criticar os outros e a seres mazinha, Cátia. Ninguém tem culpa de ficar doente, não é?" perguntou Izilda, abanando a cabeça e encarando Cátia. "E a Helena é uma boa profissional. Está a passar uma fase difícil na vida, talvez por isso tenha adoecido também. Devíamos apoiá-la em vez de dizer mal dela."

Nesse momento, o telemóvel de Izilda tocou. Ela remexeu na mala, que deixara nas costas da cadeira e tirou de lá o telemóvel. Atendeu a chamada e Cátia reparou que a expressão da colega ia ficando cada vez mais séria à medida que ouvia o que lhe estavam a dizer no outro lado da linha. Depois, Izilda agradeceu e desligou a chamada. Levantou-se rapidamente e caminhou até ao pé de Adriana.

"Eu vou ter de sair rapidamente." disse ela. "Surgiu uma emergência. Se alguém perguntar por mim, inventas qualquer coisa?"

"Sim, mas o que é que se passa?" perguntou Adriana, levantando-se da sua cadeira. "O que aconteceu?"

"É a minha mãe." respondeu Izilda. Adriana sabia bem que a mãe de Izilda tinha um problema com o álcool. A própria Izilda também o tinha, mas por isso mesmo tentava afastar-se de beber bebidas alcoólicas. "Ela estava a fazer um tratamento numa clínica, para tentar ficar sóbria e resistir ao álcool. Mas ligaram-me agora a dizer que ela fugiu."

"O que aconteceu?"

"É a minha mãe." respondeu Izilda. Adriana sabia bem que a mãe de Izilda tinha um problema com o álcool. A própria Izilda também o tinha, mas por isso mesmo tentava afastar-se de beber bebidas alcoólicas. "Ela estava a fazer um tratamento numa clínica, para tentar ficar sóbria e resistir ao álcool. Mas ligaram-me agora a dizer que ela fugiu."

"Fugiu?" perguntou Adriana, abrindo a boca de espanto. "Mas ela não estava propriamente internada, não é? Podia sair se quisesse."

"Sim, mas ela saiu às escondidas. Procuraram pela clínica toda, sem sucesso. Ela não estava em lado nenhum e a janela do quarto estava aberta, pelo que acham que ela saiu por lá e depois deve ter fugido pela saída das traseiras da clínica. Eu tenho de ir à procura dela, não vá ela fazer alguma asneira."

"Está bem, se perguntarem por ti eu invento alguma coisa para explicar a tua ausência. O diretor não ficou nada satisfeito por a Helena não estar cá, pelo que se ele aparecer novamente por aqui, é melhor que não fique a saber que saíste por motivos pessoais. Vai lá. Boa sorte."

Izilda acenou afirmativamente, voltou para junto da sua secretária, pegou na mala e no casaco e depois saiu pela porta. Cátia arqueou as sobrancelhas e Humberto, que tinha ouvido apenas um pouco da conversa entre Adriana e Izilda, abanou a cabeça. Depois resolveu não se preocupar com isso, visto que não tinha nada a ver com o assunto. Iria mas é trabalhar, principalmente para esquecer o desastre que era a sua vida amorosa.

Vidas Cruzadas

Depois de ter saído do trabalho, Izilda foi no seu carro até à clínica Boa Esperança, onde a mãe estivera a tratar-se por causa da sua dependência do álcool. Falou com um dos responsáveis da clínica diretamente, tentando obter mais alguma informação sobre a fuga da mãe, mas não lhe conseguiram adiantar mais nada de concreto.

"Como sabe, nós aqui não prendemos ninguém. As pessoas que aqui estão, fazem-no de livre vontade, tirando um ou outro caso pontual, de problemas mentais, em que é preciso autorização para a pessoa poder sair. Portanto mesmo que ela quisesse sair pela porta da frente, poderia fazê-lo. Não sei porque fugiu desta maneira, mas não podemos ser responsáveis por isso." disse o homem, que era um dos diretores da clínica, um homem magro e careca.

Izilda ficou séria ao ouvir aquilo. Nestas alturas, quem deveria ter responsabilidade tentava sempre descartar-se, para não arcar com as culpas. Tinha sido deixada a indicação explícita de que se Ester, a mãe de Izilda, dissesse que queria sair ou ir embora, ligassem de imediato para a filha para a informarem antes de a deixarem sair. Izilda recebera um contato, sim, mas já depois de a mãe ter saído às escondidas.

Vendo que na clínica não conseguiriam indicar-lhe mais nada, Izilda saiu de lá e começou a pensar para onde poderia ter ido a mãe. Para casa? Era uma possibilidade, mas a casa ainda ficava longe, portanto parecia-lhe improvável que a mãe tivesse partido para lá a pé. Podia, claro, ter apanhado um táxi, visto que tinha algum dinheiro consigo. Tirando essa situação, a outra alternativa era mais óbvia. Ester poderia ter tido uma recaída e ter ido para um local que lhe vendesse álcool.

"Se for isso, então qualquer café, restaurante, supermercado ou algo do género serão alternativas de locais onde ela poderá estar. Também pode andar a vaguear por aí. Não posso ligar ao pai, a preocupá-lo. Ele já anda tão cansado com tudo. E a minha irmã também. Eu vou tentar encontrar a minha mãe." pensou Izilda, abanando a cabeça. "E se não a encontrar, então irei falar com eles para vermos o que devemos fazer."

Izilda decidiu começar a procurar a pé, nos locais que estivessem mais perto. Passou por cafés, onde entrou, perguntando pela sua mãe. Tendo uma fotografia dela na carteira, Izilda mostrou-a na esperança de que alguém a reconhecesse, mas ninguém a vira e confirmava-se que ela não entrara lá. Izilda passou por um restaurante, que ainda nem estava aberto naquela altura, pelo que a mãe também não fora lá. Perguntou numa pequena mercearia, mas também não tinham visto Ester. Só num café mais longe o dono do café olhou atentamente para a fotografia e abanou a cabeça.

"Tenho a impressão, apesar de não poder dizer com certeza absoluta, que a vi passar aqui na rua, mas não entrou no café." disse o homem. "Foi naquela direção."

Izilda agradeceu e partiu, na direção que o homem indicara. Era difícil procurar, sendo que parecia que todas as ruas ou quase todas tinham um café ou mais. Quando Izilda começava a perder a esperança, passou por mais um café e ao olhar para o seu interior, avistou a mãe. A jovem parou de andar e respirou fundo. A mãe, que tinha cerca de cinquenta e cinco anos e cabelo castanho arruivado pelos ombros, estava sentada numa mesa, com um copo de vinho pousado à sua frente. Izilda acabou por entrar no café e com passos decididos aproximou-se da mãe.

"Mãe, o que é que estás aqui a fazer?"

Ester levantou os olhos para olhar para a filha e durante alguns segundos não disse nada. Os seus olhos pareciam algo baços e não mostrava muita emoção. Parecia quase que como se estivesse em transe. Izilda acabou por puxar uma cadeira e sentou-se, em frente à mãe. Se a tentasse levar dali sem mais nem menos, era provável que houvesse um escândalo, com Ester a debater-se. Isso já acontecera em mais do que uma ocasião e Izilda não queria repetir a experiência.

"Porque é que fugiste da clínica?" perguntou Izilda, tentando soar mais calma do que estava realmente. "Saíste pela janela e pela porta das traseiras, não foi? Não avisaste ninguém, não disseste nada. Foi para isto que fugiste? Para vires beber?"

"Porque é que fazes perguntas, se já sabes as respostas?" perguntou Ester, com um olhar duro. "Sim, precisava de beber. Estava farta de estar enfiada naquela clínica, a fazer tratamentos, a tentarem mexer com a minha cabeça de que a bebida é má e tudo o mais. Tinha de sair dali. Se tivesse tentado sair pela porta da frente, iriam avisar-te e tu irias tentar impedir-me. Por isso, escapar pela janela e pelas traseiras foi a melhor solução que encontrei."

"Para vires beber. Mas não paraste num café perto da clínica, pois não? Pensaste com certeza e com razão que te procurariam nas imediações, portanto andaste até mais longe." disse Izilda. Ester encolheu os ombros, mas a filha sabia que tinha razão no que estava a dizer. "Já bebeste álcool?"

"Só um copito. Este será o segundo." disse Ester, apontando para o copo que tinha em cima da mesa. "Eu não quero voltar para aquela clínica, Izilda. Não vou voltar lá."

"Portanto, vais fazer o quê? Voltar para casa, para voltares a beber também? Achas que o pai ainda não sofreu o suficiente, tendo de trabalhar e aturar as bebedeiras da mulher? Tu disseste-me que te ias tratar e estava tudo a correr bem." disse Izilda, numa voz dura. Estava muito aborrecida e desapontada. "Tu prometeste que te tratarias."

"É verdade que prometi e tentei, mas não consegui. A bebida ajuda-me imenso e vocês querem tirar-me isso. Estão a ser cruéis." disse Ester. Tentou agarrar o copo de vinho, mas Izilda colocou a sua mão à frente, impedindo-a. "Deixa-me beber. Eu sei o que faço. Tu és minha filha, mas não tens o direito de me estares a impedir de fazer o que eu quiser."

"Estou farta. Não aguento mais isto." disse Izilda, com algumas lágrimas a surgirem-lhe nos olhos. "O que é que tu achas que eu sinto quando vejo que a minha mãe a cada dia se afunda mais? Era suposto tu seres um exemplo para as tuas filhas e uma boa esposa, mas a verdade é que não és..."

"Izilda, não me fales dessa maneira."

"Falo, porque é a verdade. A minha infância foi difícil. Tu bebias muito e o pai trabalhava imenso para nos sustentar. Eu também tenho um problema com a bebida, sabes? Se calhar até é algo genético, não sei, mas eu luto contra isso. Não quero ser uma bêbeda, que não saiba fazer nada da vida e que esteja totalmente dependente dos outros." disse Izilda, levantando-se da mesa. "Se queres afogar-se em álcool, então faz isso. Eu não quero saber. Já sofri demais com isto. Era suposto os filhos apoiarem-se nos pais e não os pais serem fonte de preocupação constante para os filhos. Eu quero seguir com a minha vida e fico sempre a pensar que qualquer dia encontro a minha mãe em coma alcoólico."

"Izilda..."

"Não digas mais nada. Se não queres fazer o esforço de te tratares, por ti e por todos, então não faças. Mas ouve bem, esquece que eu sou tua filha. A partir daqui, deixo de me preocupar." disse Izilda. Não era bem verdade que assim fosse. Iria sempre preocupar-se com a mãe, mas naquele momento queria magoá-la com palavras, como a mãe a magoara a vida toda, com as suas atitudes e bebedeiras. "Faz a tua vida e espero que no fim não termines sozinha. O meu pai é boa pessoa, mas não é um santo. Até para ele há limites e qualquer dia... nem quero dizer coisas que depois me arrependa, portanto vou-me embora agora."

Izilda levantou-se e caminhou para a porta, com lágrimas finalmente a soltarem-se dos olhos. O café era pequeno, pelo que só lá estavam outras três pessoas, além dela e da mãe. As pessoas, que a determinado momento tinham visto a cena, viram Izilda sair do café bastante transtornada. Depois de sair do café, Izilda deu alguns passos até parar. Encostou-se a uma parede e deixou as lágrimas fluírem. Sentia-se péssima. Porque é que a mãe não conseguia ter força para se tratar? Para se tornar numa pessoa melhor, sem o álcool a interferir com tudo?

Uma mulher que ia a passar na rua aproximou-se de Izilda, perguntando-lhe se estava bem. Izilda disse-lhe que estava tudo bem, não era preciso preocupar-se. Ainda assim, a mulher tirou um lenço da sua mala e estendeu-o a Izilda, para ela limpar as lágrimas. Depois, a mulher afastou-se. Izilda respirou fundo, tentando controlar-se e eliminar as lágrimas. Chorar não iria resolver nada. Pouco depois, Ester saiu do café. Ao ver que a filha ainda estava por ali, aproximou-se rapidamente dela.

"Izilda..."

"O que queres agora?" perguntou a filha, limpando uma última lágrima. "Ficaste sem dinheiro para mais vinho e vieste pedir-me algum, foi?"

"Não. Desculpa, filha. Desculpa." disse Ester, com uma expressão séria no rosto. "Eu sei que não fui boa mãe, nem para ti, nem para a tua irmã. Por vezes a vida é muito difícil e o álcool sempre foi o meu escape. Com o álcool tudo se tornava melhor, eu podia esquecer os problemas e fingir que eles não existiam."

"O álcool não resolve nada, só torna tudo pior. Se ainda não conseguiste perceber isso, então nunca te poderás tratar realmente. Eu já não vou aborrecer-me mais com isto. Já me desapontaste o suficiente e não só a mim."

"Eu sei... fui egoísta... tive um momento de fraqueza." disse Ester, engolindo em seco. "A necessidade de beber foi mais forte do que eu. Mas eu não quero voltar a estar sempre a beber... na verdade não quero, mas ao mesmo tempo quero beber... é muito difícil de explicar. É difícil de resistir."

"Para isso é que pagámos para fazeres o tratamento na clínica. Em vez de te manteres forte e fazeres o tratamento até ao fim, decidiste fugir sem ninguém saber e beber às escondidas. Mãe, não há uma cura para o alcoolismo. Podem ajudar-te a controlares-te, a pensares de maneira diferente, mas todos os dias, em todo o lado, há muitas tentações. Seja nos cafés, nos bares, nos restaurantes ou até mesmo em casa, no que pudemos usar para cozinhar. Se não tens força suficiente para aguentar... se calhar nem vale a pena tentares mais. Tal como eu não vou tentar mais ajudar-te. Cheguei ao meu limite."

Izilda virou costas à mãe e começou a caminhar pela rua. Ester que fizesse o que quisesse. Toda a vida fora assim. A família de Izilda não era rica e viviam com algumas dificuldades, mas só por isso a mãe ia-se abaixo e bebia? Existiam muitas famílias em situações semelhantes, portanto isso não era desculpa. Ester sempre fora fraca. Izilda tentava não ser como a mãe. Também sentia o apelo das bebidas alcoólicas, mas tentava resistir-lhes.

"Leva-me de volta à clínica!" exclamou Ester. Izilda virou-se lentamente e encarou a mãe. "Eu não quero desapontar mais as pessoas, nem a ti, nem ao meu marido, nem à tua irmã... eu volto para a clínica."

"Não deves voltar por causa de nós, senão será tudo em vão. Primeiro, tens de querer voltar por ti, para aprenderes a controlar-te."

Ester acenou afirmativamente com a cabeça, deu alguns passos e depois abraçou a filha. Izilda hesitou, mas acabou por abraçar a mãe de volta. Ester não queria perder o que tinha. Já perdera anos do seu casamento e momentos importantes da vida das duas filhas por causa do álcool. Não queria perder mais nada, mas também não sabia se conseguiria realmente resistir ao álcool. Mas voltaria a tentar. Tentaria pensar como quando começara o tratamento na clínica. Talvez o pensamento positivo ajudasse. Depois de quebrarem o abraço, Izilda concordou em fazer o caminho de volta com a mãe, até à clínica.

Vidas Cruzadas

No edifício da Castro Meireles Publicações, Renato estava no seu gabinete, a terminar de editar a paginação para as fotografias que Carlos lhe levara. Renato não quisera causar mais confusões, pelo menos daquela vez, pelo que aceitara a sugestão de Carlos das fotografias que seriam melhores para o artigo, até porque efetivamente Carlos escolhera quase todas as que Renato considerava serem as melhores.

"E também porque não estou com cabeça para mais discussões. Só quero que a minha vida entre nos eixos, mas até ao momento continua tudo confuso." pensou Renato. "O meu advogado nunca mais me dá nenhuma informação sobre a situação do teste de ADN. Estou farto de esperar."

Como que se atendendo aos seus desejos, o telemóvel de Renato tocou logo de seguida. Renato pegou nele, vendo que era o seu advogado a ligar-lhe. Apressou-se a atender de imediato. Será que ia ter finalmente a informação que pretendia? Talvez até Dália tivesse recuado, dizendo que mentira e não seria necessário nenhum teste de ADN. Isso tiraria um peso dos ombros de Renato.

"Renato, lamento a demora, mas as conversações com o advogado da Dália não foram amigáveis e ele não se mostrou muito cooperante." disse o advogado de Renato, do outro lado da linha. "De qualquer maneira, já conseguimos chegar a algum lado."

"E o que é que isso quer dizer?"

"A sua ex-mulher alega, efetivamente, que a Filipa não é sua filha, Renato. Claro que eu interpus logo um pedido para o teste de ADN. Já ficou marcado para o final desta semana. Estou a notificá-lo disso e o advogado da Dália deverá estar a fazer o mesmo com ela." respondeu o advogado. "Depois dos testes de ADN, as dúvidas ficarão dissipadas e saberemos se temos ou não hipóteses no processo."

"O que é que lhe parece que vai acontecer? Disse-me que eu tinha hipóteses de ficar com a minha filha."

"E, se de facto a Filipa for sua filha, como espero que seja o caso e tendo em conta o comportamento da sua ex-mulher até agora, bem como o facto de estar desempregada, vai ter muitas hipóteses de ficar com a guarda da sua filha." disse o advogado, com uma voz confiante. "Você tem um emprego estável, uma boa casa e o rol de mentiras e incumprimentos da Dália será tão grande que o juiz não poderá ignorar isso. Agora, tudo depende do teste de ADN."

Vidas Cruzadas

O caminho entre o café e a clínica foi feito praticamente em silêncio, apesar de Izilda e Ester caminharem lado a lado. Ester queria cumprir com o que dissera, voltar para a clínica e terminar o tratamento, mas não sabia se conseguiria aguentar o tratamento até ao fim. Não era como se a torturassem na clínica, mas a verdadeira tortura era estar longe do álcool. E depois, quando saísse da clínica, o que aconteceria? Em casa seria muito mais difícil.

"Se houver algum momento em que sintas que não consegues aguentar, liga-me." disse Izilda, ao chegarem à entrada da clínica. "Não voltes a fugir, porque isso preocupa toda a gente."

"O teu pai e a tua irmã sabem que eu fugi?"

"Não, não lhes contei. Consegui encontrar-te sozinha e eles não ficaram a saber. Se prometeres que não voltas a fazê-lo, não lhes direi. Será algo a que eles podem ser poupados." disse Izilda. A mãe indicou-lhe que não voltaria a fugir. "Ótimo. Então vamos entrar."

Ester acenou afirmativamente com a cabeça e as duas avançaram para dentro da clínica. A mulher que estava na receção levantou-se mal as viu entrar. Era claro na sua expressão que se sentia aliviada por ver Ester. Se algo lhe tivesse acontecido, o prestígio e fama da clínica poderiam ser abalados. A rececionista chamou um dos médicos, que surgiu prontamente.

"Ainda bem que nada de mal lhe aconteceu, Ester." disse o médico, tentando parecer amigável, mas ainda assim o seu tom de voz tinha bastante censura à mistura. "Pregou-nos um susto a todos."

"Mas ela agora está de volta." disse Izilda, trocando um olhar para a mãe. "Irá ficar aqui até terminar o tratamento. Qualquer coisa que aconteça, quero que me avisem. E tu mãe, vê se me ligas mais vezes, para eu saber como estão a correr as coisas."

"Está bem, eu faço isso." disse Ester, abanando a cabeça. O médico indicou-lhe para o seguir, para a levar até ao quarto. Ester hesitou, lançando um último olhar à filha. "Desculpa Izilda. Desculpa o meu comportamento... eu vou tentar fazer tudo bem agora. Pela minha família... e por mim."

Izilda tinha plena noção de que não era fácil para a mãe estar na clínica, mas também não era fácil estar em casa. O problema do álcool perseguia-a em qualquer lado, mas ao menos agora mostrava-se disposta a continuar com o tratamento. Izilda tinha dúvidas se o tratamento resultaria, mas mesmo que não fosse um completo sucesso, talvez ajudasse um pouco. No café, Ester ficara a olhar para o copo de vinho à sua frente, claramente debatendo-se se o deveria beber ou não. Isso já mostrava um pouco de autocontrolo, mesmo que antes disso já tivesse bebido outro copo de vinho.

Quando o médico e a mãe desapareceram por uma porta, Izilda virou-se para sair da clínica e regressar ao trabalho. Tinha muito que fazer. Quando ia a sair, quase chocou com um homem que vinha a entrar. Tanto ela, como o homem pediram desculpa um ao outro. O homem tinha cerca de trinta anos, com cabelo preto, pele morena e era de estatura média. Trazia vestida uma camisa branca e calças escuras.

"Lamento imenso, não a vi." disse o homem, por uma segunda vez. "Estava pensativo e sem atenção ao que estava à minha frente. Acontece sempre que venho aqui."

"Não tem problema, eu também não estava com toda a atenção." disse Izilda, abanando a cabeça. "Eu também fico muito pensativa de cada vez que aqui venho. Mas em princípio, já não será preciso vir aqui muito mais vezes."

"Se me permite a indiscrição, você está a fazer algum tratamento aqui?"

"Eu? Não, não estou. Quem está aqui é a minha mãe. Está a tratar um problema com o álcool." respondeu Izilda. Depois mordeu ligeiramente o lábio. Não era necessário ter dito aquilo a uma pessoa que nem conhecia. "Mas o tratamento não deve durar muito mais tempo. Se ela o fizer até ao fim, tudo deverá correr pelo melhor, espero eu."

"Então espero que a sua mãe melhore depressa." disse o homem, abanando a cabeça. "Eu também tenho um familiar meu aqui na clínica. É um tio, que tem alguns problemas psicológicos. No caso dele, a recuperação é difícil, mas tenho notado melhorias de cada vez que aqui venho vê-lo."

"Ainda bem que assim é." disse Izilda. Depois olhou para o relógio de pulso. "Peço desculpa, mas tenho de me ir embora. Já estou atrasada."

"Foi um prazer conhecê-la." disse o homem e os seus olhos brilharam ligeiramente. Ele sorriu a Izilda. "Talvez nos venhamos a ver novamente por aqui. Eu gostaria disso."

"Ah... hum, talvez nos voltemos a ver, quem sabe?" disse Izilda, um pouco embaraçada. O homem continuava a sorrir intensamente para ela. "Adeus então."

"Olhe, eu chamo-me Ivo Serrano. Qual é o seu nome?" perguntou o homem, quando Izilda já se afastara um pouco. Ela virou-se para trás e disse o seu nome. "Izilda? Um nome algo invulgar, mas bonito. Assenta-lhe perfeitamente."

Izilda não soube o que dizer, pelo que voltou a virar costas e foi embora o mais rápido possível. Quando chegou ao carro, sentou-se e ficou algum tempo parada antes de o colocar em andamento. Ester estava de novo na clínica e talvez não fosse dar mais problemas, pelo menos até o tratamento estar terminado. E agora conhecera aquele homem, Ivo, que se mostrara interessado nela, sem sombra de dúvidas, visto que ele tinha sido muito óbvio.

"Mas eu nem o conheço, nem nada e provavelmente não o vou ver mais." pensou Izilda, colocando finalmente o carro em andamento. "Foi um encontro do acaso e apesar de ele até ser bonito... é melhor nem pensar em coisas românticas agora. Tenho a minha mãe com que me preocupar, trabalho para fazer e a minha própria fraqueza com o álcool para me aborrecer, portanto não preciso de mais coisas complicadas na vida. Os romances podem ser muito bons ou muito maus e complicados. Comigo, costuma ser a segunda situação."

Vidas Cruzadas

As horas passaram e ao almoço Izilda falou com Adriana e Carlos sobre como encontrara a mãe e contou-lhes em pormenor o que acontecera. As duas, juntamente com Carlos, tinham-se sentado numa das mesas da sala de refeições. Como era costume, Renato sentara-se, sozinho, numa mesa ao fundo. Fábio, Humberto e Cátia estavam sentados à mesma mesa, mas apenas porque não haviam mesas suficientes para Fábio e Cátia se sentarem longe um do outro, visto que nenhum se queria sentar junto de Renato, porque ele os intimidava ou um deles ir para a mesa de Izilda, Adriana e Carlos, porque os três estavam sempre a conversar uns com os outros e sendo que nem Cátia, nem Fábio tinham tanta confiança com eles, sentir-se-iam à parte e a intrometerem-se.

"Espera lá, espera lá." disse Adriana, levantando a mão em direção a Izilda. "Portanto levaste a tua mãe até à clínica e esbarraste com um desconhecido que te elogiou. Isso é interessante. Fala mais disso."

"Não tenho mais nada para dizer. Vim-me embora e pronto. Tinha de vir trabalhar, portanto não ia ficar a falar com ele, até porque nem o conhecia de lado nenhum." disse Izilda, terminando de comer a massa que trouxera para o seu almoço. "Nunca mais o devo ver."

"Cometeste o erro de lhe falares no tal homem, agora a Adriana não te vai largar até saber tudo." disse Carlos, com um sorriso. Adriana lançou-lhe um olhar como quem dizia que ele não se devia meter. "E agora vou calar-me, porque caso contrário a Adriana não vai ficar satisfeita. Quando ela fica assim..."

"Ok, chega, Carlos. Já sei que tu achas que eu não devo dizer nada sobre a vida amorosa dos outros, mas eu sou uma romântica, queres o quê? Izilda, sabes lá se o tal homem não é a pessoa certa para ti. Podia ser um encontro do destino. Se ao menos soubesses o nome dele..."

"Hum... ele disse-me que se chama Ivo e perguntou-me o nome também." disse Izilda. Adriana abriu logo um sorriso. "Não, não comeces a pensar em nada. Já estou arrependida de ter falado nele. Esquece o assunto. O que me importa realmente nisto tudo é que a minha mãe voltou para a clínica, nada mais."

"Pronto, pronto, eu não vou dizer mais nada, pelo menos por agora." disse Adriana. "Mas tu mereces alguém que te ame, Izilda. E quanto à tua mãe, de certeza que vai correr tudo bem agora. Temos de pensar positivo."

Um pouco mais tarde, Fábio saiu da sala de refeições, depois do seu telemóvel tocar. Tinha sido um alívio. Humberto, percebendo que Cátia e Fábio estavam aborrecidos um com o outro, tinha primeiramente tentado fazer conversa, o que não dera muito resultado. Depois, tentara fazer Cátia e Fábio falarem um com o outro, o que dera ainda menos resultado. Antes de Fábio atender a chamada, viu que era Natália, sua colega de casa a ligar-lhe, o que era incomum àquela hora.

"Estou, Natália? Passa-se alguma coisa, para me estares a ligar agora?" perguntou Fábio, algo preocupado. Natália sabia que ele estava no local de trabalho e ao contrário de Gilberto, que ligava a Fábio pela mínima situação, Natália só lhe ligaria se fosse algo mesmo importante.

"Não é uma situação de vida ou de morte, mas achei que devia ligar-te. Claro que podia esperar até chegares a casa, mas acho que é melhor saberes já. Sabes que o Gilberto tinha enviado o currículo para muitas empresas, não é? Ele esperava conseguir emprego na área dele. Foi a várias entrevistas, como também sabes e hoje de manhã ficou a saber que lhe foi dado emprego. Mas é noutra cidade, em Vale Azul."

Fábio ficou calado durante alguns segundos, absorvendo a informação. Vale Azul ainda ficava bastante longe. Apesar de Gilberto andar à procura de um novo emprego, Fábio não pensara que ele acabasse por encontrar emprego tão longe. Pediu pormenores a Natália. Ela informou-o que uma das empresas onde Gilberto tivera uma entrevista ficara interessada em tê-lo como funcionário, mas não em Monte Branco e sim noutra filial da empresa.

"E ele vai aceitar?" perguntou Fábio.

"Ele ainda não disse que sim, mas ao que tudo indica, parece-me que ele vai aceitar, visto que é uma proposta muito boa. Fábio, eu estou a ligar-te para te avisar disto e para te dizer para pensares. Se gostas do Gilberto, diz-lhe agora. Eu sei que tu me disseste que não o amavas, mas tens a certeza? Se gostas dele, diz-lhe e pode ser que ele decida ficar."

"Eu... tenho de pensar. Obrigado por me teres ligado a avisar, Natália. Depois falamos."

Fábio desligou a chamada e respirou fundo. Não esperava aquilo, assim tão de repente. Ainda mais, sendo que Gilberto recebera aquela notícia do emprego e não lhe ligara a informá-lo, enquanto no passado lhe ligava várias vezes, por situações menos importantes. Fábio caminhou, entrando na área de trabalho e acabou por se sentar na sua cadeira da receção. O que deveria fazer?

"Eu não o amo, eu sei disso, mas não posso dizer que não gosto dele." pensou Fábio. "Como é que posso dizer-lhe que não gostava que ele fosse para longe? Não posso dizer-lhe isso, como se o estivesse a pressionar para ficar, não seria justo. O mais acertado a fazer seria falar com ele, desejar-lhe boa sorte e deixá-lo seguir com a sua vida. Sim, é o mais acertado. O que temos não nos leva a lado nenhum... talvez fosse isto que era preciso para que tanto ele, como eu, possamos de futuro encontrar alguém por quem nos apaixonemos de verdade."

Vidas Cruzadas

Era já final da tarde quando Helena ouviu a campainha da porta tocar. A casa de Helena ficava numa rua sossegada, que tinha dois estilos distintos de casas. Algumas eram casas simples e grandes vivendas. Helena ficara doente durante o fim-de-semana e passara a manhã dessa segunda-feira quase sempre de cama. Agora, com a ajuda de medicamentos, já estava a sentir-se melhor. Tinha-se sentado no sofá da sala, a ver um pouco de televisão para se distrair. Ao ouvir a campainha, Helena levantou-se do sofá e apertou melhor o seu robe branco contra o corpo. Ao chegar à porta, espreitou pelo olho mágico e ficou surpreendida ao ver quem estava do outro lado.

Do outro lado da porta estava Adélia. Por uns segundos, Helena hesitou entre abrir ou não a porta. Porque é que Adélia a viera visitar? Para saber mais sobre a sua vida e coscuvilhar? Talvez quisesse comprovar que ela estava doente. Respirando fundo, Helena decidiu abrir a porta. Se não abrisse, então Adélia provavelmente arranjaria motivos para dizer que ou ela estaria muito doente de cama, que nem se conseguira levantar para abrir a porta ou então que ela estava a fingir a doença e nem estava em casa quando lá fora, tendo saído para se divertir e tendo faltado ao trabalho.

"Olá Adélia." disse Helena, abrindo a porta.

"Dona Helena, então como está? Fiquei a saber que estava doentinha e então lembrei-me de lhe vir fazer uma visita." disse Adélia. Ela já pensava dar algo a Helena, no trabalho, mas como ela não aparecera e visto que Adélia sabia onde Helena morava, decidira ir lá. "Trouxe-lhe umas coisinhas que de certeza vai gostar. Desculpe lá se entrei logo pelo seu portão, mas como não estava fechado, entrei por ali adentro. Quase que ia derrubando aquele flamingo de vidro que você tem no jardim."

Helena não soube o que dizer, mas deixou Adélia entrar na sua casa. Os olhos de Adélia começaram logo a percorrer cada recanto, vendo tudo o que Helena tinha em casa. A sala de estar estava algo desarrumada, visto que estando doente, Helena não estava com cabeça para arrumar tudo. Adélia vinha carregava com um saco de plástico num dos braços e uma caixa de cartão com alguns furos no outro. Pousou a caixa no sofá da sala e o saco de plástico em cima de uma mesa.

"No saco trouxe-lhe uma canjinha, feita por mim, que está muito boa. Achei que se calhar não ia sentir-se bem para andar a cozinhar, portanto fiz a canja. Tem também lá outra caixa com um pedaço de bolo, se lhe apetecer." disse Adélia, sorrindo. "Tem de recuperar as forças."

"Obrigada Adélia, mas não era preciso ter-se incomodado..."

"Não foi incómodo nenhum, dona Helena." disse Adélia, com desprendimento. Normalmente não costumava fazer muitas coisas pelos outros, mas até achara interessante preparar comida para Helena e era uma espécie de boa ação. Depois, Adélia apontou para a caixa que pousara no sofá. "E trago-lhe ali uma surpresa. Acho que vai gostar."

"Uma surpresa?"

"Sim, sim. Olhe, eu sei que visto que agora se está a separar do seu marido e também não tem filhos, anda um pouco sozinha." disse Adélia, aproximando-se da caixa de cartão. Tirou a tampa, pondo-a de lado e depois pôs as mãos na caixa. Logo de seguida, ergueu de lá um cachorrinho com pêlo preto e laranja. "Portanto, lembrei-me de lhe arranjar uma companhia. Aqui tem uma cadelinha, raça yorkshire terrier, que é das melhores, acredite em mim. Vai fazer-lhe companhia, dar-lhe alegrias e um animal é sempre fiel ao seu dono, portanto pelo menos com a cadela sabe que não vai ser traída. Ela chama-se Ginga."

E este capítulo chega ao fim. Enquanto a Helena ganhou um novo membro da família, a Izilda teve de lidar com um problema familiar e o Fábio tomou uma decisão. No próximo capítulo, Helena enfrenta mais um problema e Humberto é surpreendido.