Quando amanheceu o Sol subiu pálido, como sempre, no horizonte, pintando de azul férreo o delinear das montanhas longínquas. Entre o recorte do vale, a luz escapava intensa, um feixe branco que, quando dispersava, tingia as agulhas da floresta na vertente da cor do céu. Do ponto alto onde ela se encontrava, toda a encosta parecia coberta por uma ténue manta de fumo azul-claro.

Quando o céu não estava encoberto, a alvorada rompia sempre daquela maneira; a exibição daqueles tons gélidos na montanha sempre magnífica. E Lennox assistia sempre que precisava do seu conforto. O amanhecer era sempre certo quando o futuro era incerto. Podia contar que as suas cores frias lhe empalideceriam sempre a sua tez já clara, quando jorrassem do horizonte. Hoje, porém, deixava aquele brilho ofuscá-la por outra razão. Ela deixava que a luz lhe preenche-se o olhar cinzento porque sabia que ele jamais refletiria aquela paisagem.


Na noite antes da Partida, a atmosfera entre as famílias de cada um dos Escolhidos costuma ser pesada. Ninguém gosta de levantar esse tema, no entanto é impossível de o ignorar. Entre a Kayla e os seus pais isso não é exceção. O tom quando falam entre eles é triste e o seu olhar não espelha senão saudade, por isso tentam evitá-los. Enquanto comemos sob um círculo de luz trémula do candeeiro a velas acima, o ambiente é desconfortável. É estranho ver a Kayla assim, ela que é perita a esquivar-se à negatividade e à tristeza. O seu habitual sorriso que lhe rasga a cara numa careta provocadora não está lá. O seu olhar cabisbaixo quando leva uma colher quase vazia à boca está morto. Suponho que esse seja o olhar do luto, o olhar que me assombrou a face no ano que se seguiu à morte dos meus pais. É cruel a Kayla ter de o suportar quando os seus pais estão mesmo à sua frente. Eles, que tal como ela, forçam a sopa pela garganta abaixo, o seu olhar derrotado.

É uma cena difícil de testemunhar e faz-me perder o meu já pouco apetite. Mas mesmo assim fico, levando colher atrás de colher até à minha boca forçadamente. A minha presença é como uma bengala para os três, uma forma de, momentaneamente, se refugiarem dos seus pensamentos Quando pouso a colher grosseira de madeira sob a tigela e passo o braço sobre a boca para a limpar, Dora, a mãe da Kayla, vê uma oportunidade para quebrar o silêncio.

-Queres mais sopa, querida?- o seu tom é doce, mas não consigo evitar sentir a dor que a sua voz denuncia.

Apresso-me a recusar a oferta. O meu apetite já se esgotou há muito tempo, apenas comi para além dele por educação. Ela própria remexe o fundo da tigela com a colher, claramente sem vontade de continuar.

- Não, não quero obrigada - Mas estava muito boa – acrescento – Não sei de que é que te queixas – digo ainda, dando uma cotovelada a Kayla.

Noutra situação qualquer ela entraria na defensiva, começando uma tempestade de argumentos impossíveis de ripostar. A Kayla sabe ser muito dissuasiva quando o vento não sopra a seu favor e, apenas com as frases certas e umas caretas muito persuasivas a combinar, consegue virá-lo num piscar de olhos. Tem o talento para as palavras. Dá-lhes um toque especial que roubam a atenção de todos, principalmente quando conta histórias. Exatamente o oposto de mim nesse aspeto. Porém, eu possuo uma coisa que ela não possui. O bom senso, estratégia. Apesar de uma exímia argumentação, a Kayla nem sempre sabe jogar com ela e é aí que eu entro. Somos duas numa só. Ela é a lâmina e eu sou o punho que a desfere e, juntas, cortamos o pio a qualquer um. Não consigo pensar num tempo em que a Kayla não estivesse a meu lado. Ela esteve sempre. Sempre foi a minha metade, parte de mim, como uma irmã. Afinal nenhuma de nós as tem. Acho que, inconscientemente, nos juntamos para preencher esse vazio. Um vazio que cresceu com a morte dos meus pais. Tinha 15 anos na altura e desde aí que vivo sozinha, na casa onde eles um dia desapareceram. No entanto, nunca poderei ficar suficientemente grata pela maneira como a família dela me acolheu como sua filha. Lembro-me até da temporada em que, fazia eu dias como uma órfã, cheguei a viver com eles. Não me passou despercebido que ante as dificuldades em me sustentarem, os seus próprios pais passaram fome. Posso já não viver mais com eles, porém ficar-lhes-ei eternamente grata. Após seis meses à tragédia decidi começar a tomar conta de mim e poupá-los a tamanha dificuldade, mesmo que eles não a admitissem para meu bem; mudei me então para a casa dos meus pais, a minha casa apesar de tudo. Depois de terminar os anos de escola, tornei-me aprendiza do carpinteiro de Lutus (mesmo sob um olhar preconceituoso de muitos, já que esta não seria a profissão mais adequada para uma senhora), aprendi a caçar coelhos e aves já que o meu pagamento é todo em peixe e vegetais, e a Kayla consegue costurar-me o suficiente para me manter confortável. Mesmo assim dão-me a sua companhia durante muitas refeições; seja como for a solidão já não me incomoda como antes. Aprendi a sobreviver-lhe.

Desta vez a Kayla só encolhe os ombros ao mesmo tempo que estica os lábios, não conseguindo chegar, porém, a um sorriso.

Quando Jorge, pai de Kayla, desiste finalmente de tentar comer a tão remexida sopa levanta-se para lavar a gamela. Dora e Kayla aproveitam a desculpa para fazer o mesmo.

No fim, despeço-me de ambos com um beijo na bochecha e, hoje, também, com um abraço demorado. Com o meu queixo sobre o ombro de Dora murmuro-lhe um agradecimento, quase inaudível com a emoção. "Obrigado…Por tudo". Ela aperta-me com mais força e sinto a sua respiração contra o meu peito descompassada… a respiração de um choro abafado. O mesmo faço com Jorge. Quando me afasto do seu abraço, a sua mão demora-se na minha face.

- Tomem conta uma da outra.

Assinto, mesmo que levemente. Depois sigo a Kayla até a porta e até onde a noite que cai lá fora. Enquanto caminho, não consigo evitar que uma lágrima me deslize pela bochecha. Afinal estes foram os meus pais durante três anos e não consigo deixar de sentir um aperto no peito quando penso em deixá-los. Quando penso em perdê-los, como perdi os meus. Pergunto-me se, depois de amanhã, os voltarei a ver.

A casa deles é modesta e pequena, como todas as casas da aldeia. Em poucos segundos, estamos ambas à soleira da entrada em silêncio; sem saber muito bem o que dizer, as palavras presas na garganta. Encostada ao pegão da porta com os braços cruzados sobre o peito, ela fita a noite com um olhar vazio, os seus pensamentos provavelmente muito longe dali. Sigo-o deixando-me perder nos meus próprios, ficando ali as duas, confortavelmente em silêncio. Por isso, quando as palavras lhe saem pela boca, num suspiro quase impercetível, viro-me para ter a certeza que ela fora a autora delas. Quando vejo os seus olhos escuros vidrados em mim tenho a confirmação que queria.

- O quê?

- A Amabel.- Repetiu mais firmemente. Porém, não o suficiente para evitar que uma tremura lhe traísse a voz. – A irmã dela não voltou. Os irmãos Beril, o sobrinho do lenhador, os dois filhos do físico Joel. Ninguém voltou. Há sete anos que não sabemos nada deles. E como eles muitos mais antes de nós termos sequer nascido.

Não lhe respondo. Não sei o que lhe dizer. Em vez disso o meu olhar vagueia de novo para o horizonte, onde a noite cai sobre as montanhas, o pôr-do-sol azul da cor do mar a dar lugar à escuridão que assenta a cada segundo.

- Ouvi os meus pais comentarem isso há uns anos atrás. Não entendi muito bem do que é eles falavam na altura. Mal me lembro daquela última vez que isto aconteceu. Éramos ainda tão pequenas que nem percebíamos o que se passava. – Ela inspira pesado. Quando continua, não me escapa outro tremor na sua voz. - É óbvio que não vamos voltar. – declara.- Toda a gente já o sabe. O idiota pensa que somos ingénuos.

Ao mencioná-lo, olho instintivamente para a estalagem onde o Mensageiro provavelmente já dorme e uma acendalha de raiva revive. Foi ele que nos comunicou a Eleição. Chegou hoje, ao início do dia, num barco maior que os próprios usados pelos pescadores. A razão é óbvia. Enquanto para a pesca o barco deambula apenas junto à costa, um barco daquelas dimensões é feito para viagens. Viagens para além da costa e do que se vê no horizonte. Uma viagem sem retorno.

No entanto, por mais que eu adore Lutus, por mais que eu vá sentir a sua falta, falta da minha casa, falta dos pais da Kayla, falta da Maggie... acho que a minha dor não chega aos calcanhares que aquela que a Kayla deve sentir. Nos seus olhos vidrados de sofrimento, vejo um sentimento familiar neles, um sentimento que conheço demasiado bem. Perda. Ela vai perder a família; eu já perdi a minha. Não tenho ninguém de quem possa sentir saudade dessa maneira. E, durante uns terríveis e dolorosos momentos, sinto-me agradecida por nunca me ter ligado aos pais dela dessa maneira. Porque eu não aguentaria passar por esse sofrimento outra vez. Não. Ele derrubar-me ia; e temo que seria para sempre.

Na sua miséria, só consigo pensar numa maneira de a consolar. É a mesma que ela usou comigo três anos atrás. Eu sei que um olhar vale mais que mil palavras, mas não é um olhar de pena ou de solidariedade que a Kayla precisa. Não são também as palavras certas. Por isso abraço-a. Quando o faço, os seus braços não me deslizam para as costas, retribuindo-o. Caídos ao seu lado, sinto-os a tremer debaixo do meu aperto. Sinto os soluços de um choro abafado saltarem lhe do peito para o meu. Ela deixa cair a cabeça no meu ombro chorando mágoa pelas lágrimas que me molham o vestido. Agarro-a contra mim como se a puxasse da borda de um precipício. Não duvido que ela estivesse prestes a cair num. Eu própria estive à beira da queda se não tivesse sido ela. Desta vez, eu sou a sua âncora e não vou deixar que as profundezas daquele abismo a levem.

Na quietude da noite escura e fria que caí sobre Lutus, ela chora baixinho, não se atrevendo a deixar-me ir sem ter a certeza que a dor não a levará de novo para a berma. Ela vai perceber, mais cedo ou mais tarde, que isso não irá acontecer. Por hoje, eu sou a sua égide, mas ela terá de encontrar forças para encontrar o seu caminho de volta.

Antes de me fazer à estrada entre a floresta até à minha casa, decido fazer uma paragem em casa da Magda. Desde a soleira da Kayla cruzo a praça em calçada granítica onde todas as semanas o mercado dá vida às bancas espalhadas em toda a sua área. Dispersas em roda acolhendo o poço no seu centro, os seus toldos dançam ao sabor da brisa. Aconchego-me mais no meu xaile, sem conseguir evitar que um arrepio me erga a penugem da pele. As casas de ofícios mais vulgares como a ferraria, a carpintaria, a estalagem, a taberna e mesmo a escola que frequentei anos atrás flanqueiam-na, as suas portadas agora iluminadas na escuridão por lâmpadas vidradas e pirilampos irrequietos no seu interior. Atrás de mim oiço as portadas da padaria de Dora e Jorge fecharem num estalar de madeira. Pelo canto do olho, vejo a Kayla pendurar numa viga uma candeia a óleo, protegida pela pequena abóbada em madeira do alpendre. Uma relíquia do mundo novo, chamou-lhe ela uma vez. O mundo que existe para lá do Oceano de Naveia e que eu nunca consegui bem colocá-lo em pensamentos. Não consigo imaginar o que nunca vi. Suponho que virei a descobri-lo em breve, pois é para Sul que o barco segue. E é para Sul que Letanhos fica. A cidade do progresso e do desenvolvimento, como descreve o Mensageiro. É de lá que ele veio, ele e o seu magnífico barco para nos levar com ele. Pela alvorada atracou, comunicou os Escolhidos e deu-nos um dia para fazermos os preparativos. Despedidas incluídas, ainda que ele não tenha usado essa palavra exatamente. Preferiu "preparativos". Tão insensíveis como frias foram as suas palavras. Tão desprezível como indiferente ele foi. Espero que o amanhã não chegue porque não sei se quero alguma vez ter de lhe pousar a vista em cima. Mas suponho que deva estar agradecida por ser um dos sortudos que poderá ir viver no Mundo Novo…Não creio. Afinal eu não pedi nada a ninguém.

Avanço sobre a rua despida de som, ladeada de árvores despidas de folhas pela invernia. Ao longe um cão ladra e tantos outros respondem com uivos uníssonos. As nuvens negras e pesadas que roubam ao céu a lua, pairam ameaçadoras sobre Lutus. Estugo o paço e rodo à minha esquerda onde percorro uma nova rua, desta vez mais curta. A noite já caiu, mas mesmo assim reconheço as casas pela sua estrutura exterior. Quase todas elas possuem um alpendre suportado por duas colunas que protegem a porta, mesmo que ligeiramente, contra a fúria do vento quando a escuridão assenta. Em todas, candeias (ainda que poucas) e lâmpadas de pirilampos balançam de forma sinistra à mercê da aragem que cresce. Ao fundo da rua fica a única casa com um anexo contíguo, com tábuas roídas de falhas pelo tempo. Pelas frechas sangra uma luminosidade frágil do seu interior. Pela porta ligeiramente entreaberta, a luz escapa com a mesma fragilidade. Aproximo para a abrir. De repente, um clarão branco cega-me pela sua brecha, dizimando o negrume da noite pela sua intensidade, aparecendo e voltando a desaparecer em milésimas de segundo. Apanhada de surpresa, sou forçada a levar os braços à cara antes de sequer poder empurrar a porta para trás. Já está a fazer das dela. Tamanha intensidade de luz vai desenhando-me formas negras na visão quando os abro novamente, e tenho de os piscar muitas vezes até elas começarem a desaparecer aos poucos.

- Maggie?- chamo-a, não muito alto.

Lá dentro oiço uma cadeira arrastar-se para trás e em segundos a porta é aberta para trás. Sona, o porco-espinho, é a primeira a aparecer atrás dela, disparada numa correria frenética, as suas unhas a rasparem o soalho, como arame a raspar em madeira. Ela salta-me para os pés e a sua língua pequena começa-me a lamber as pernas nuas. Aninho-me para a afagar, mas, depois penso melhor e volto-me a erguer. Uma sombra comprida projetara-se sobre mim entretanto, denegrindo o pavimento pintando levemente de laranja pela luz inconstante de velas. Contra a fraca luminosidade, o seu rosto é escuro contra a noite, a sua expressão é negra tal como os seus olhos, sem qualquer brilho ou vida. Mas, depois ela envolve-me no seu braço, levando-me para o interior protegendo-me do frio.

- Lennox- ela diz, quase surpresa – Entra.

Depois puxa-me o meu xaile pela cabeça e enrola-me com outro substancialmente mais quente. O conforto que ele me oferece é aconchegante, e faz-me sentir segura. Ele desperta em mim um sentimento de pena daquilo que poderia ter sido. Desta vez não por Kayla, mas por mim. Eu poderia ficar cá. Poderia estar com Maggie sempre que pudesse. Mas obrigo-me imediatamente a parar. Não há lugar para fantasias nem para a palavra se. Se nada disto tivesse acontecido. Se o destino não me obrigasse a escolher caminhos que não quero seguir. Se tudo fosse diferente. Mas não é. E a última coisa que alguma vez farei é chorar sobre o leite derramado. Não há lugar para crentes em milagres neste mundo. Devemos aceitar. E é o que farei; mas não sem antes me despedir de Maggie.

Os seus olhos azuis muito escuros sondam-me, quase que surpreendida com a minha presença ali. Fazem-me lembrar os olhos profundos da minha mãe. Mas não me deixo enganar. Ela sabia que eu viria, mesmo depois do que aconteceu. Mesmo assim, ela faz um espetáculo para mo fazer descrer. Ela vira-se de novo para a sua mesa de ingredientes, de ervas e de sais coloridos, puxando a cadeira atrás de si, sentando-se enfaticamente.

- Pensava que não vinhas.- Claro que pensavas.

- Porque não? – Eu jogo o dela, como faço sempre. Esta é a sua maneira de mostrar segundas intenções, de dizer algo sem o dizer propriamente. A Magda gosta de falar indiretamente.

Ela vai remexendo em várias ervas, em frascos rotulados, lendo o nome de cada um e puxando alguns para o lado antes de inspirar o ar para falar.

- Pensei que tinha ficado claro que a tua amiga não te queria aqui.- Não sinto desprezo nas palavras, apenas angústia. E sei também que fora a sua intenção dize-las com indiferença. Falhou redondamente. A situação com Magda é que…toda a gente a vê como uma forasteira, alguém que não encaixa na definição de normal, uma aberração. Desviam-se dela como se desviam do mau cheiro e isso magoa-a. Mais doloroso ainda é que ela só quer ajudar, a sua vida roda à volta das artes da cura; é o seu ofício. Mas ninguém leva a sério a Magda Curandeira. Em vez disso chamam-lhe bruxa; um termo obsoleto, no entanto, não muito longe da verdade. Ela faz magia no que toca à cura. Acho que as pessoas apenas temem o que não percebem. E a Maggie é definitivamente uma mulher misteriosa, mas também solitária. Foi isso o que me chamou à atenção nela. E foi o que me tornou, porém não oficialmente, sua aprendiza. Mas não foi só as artes da cura em que ela me instruiu. Não. O conhecimento de Magda não cabia em Lutus por si só. Ela ensinou-me outra coisa. Outra coisa que o resto das pessoas ignora, finge que não existe. E por ela se recusar a ignorá-la, é tratada como uma diferente. A meu ver ela definitivamente é diferente, pois ela teve a coragem de não desistir na força invisível que nos rodeia. No poder. Na Aura. A força que nos liga às nossas almas no reino animal. A mesma força que ligou a Magda à Sona e que nos permite manipular os elementos a eles ligados. Terra, Ar, Água. E Fogo. Porém o último é o mais recôndito de todos. A minha mente pouco imaginativa não consegue pensar em tais criaturas, ligadas intimamente a um elemento tão feroz, destrutivo. A Magda apenas falou-me apenas de três. O Rambo o réptil que cospe lavaredas, a Fénix a ave feita de cinzas e a Laurea o mamífero que nada nas profundezas de vulcões submarinos. Parecem parte de uma história. Ficção. Uma que me intrigou. E me pôs a sonhar. Eu, Lennox. A rapariga cética e sem imaginação, sem dote para as palavras. A Aura. O poder da vida que gira em torno de cada um de nós. Um poder que nos torna especiais e únicos, e que nos dá um lugar para pertencer.

Eu conheci a Magda só apenas uns meses os meus pais…desaparecerem. Era apenas uma rapariguita cujo destino decidiu pô-la à prova e atirá-la dum penhasco. Eu cresci desde essa altura e mudei também. Não era mais a menina de olhos cinzentos brilhantes e um sorriso largo desenhado nos lábios. Esse foi-me roubado. Mas esse fazia parte de mim. E a Magda sabia-o, e fez tudo para ajudar me a recuperá-lo. Ela faz-me lembrar a minha mãe. Tem a mesma expressão cheia de segredos que a minha mãe tinha. Vejo cada esquina da sua face fina cheia de sabedoria. Despertou algo dentro de mim naquelas noites em que ela me falava sobre a Aura enquanto atirava ervas para uma bacia, salpicando com Prisco, com Larvia, com Sésamo, preparando remédios. O desejo por aquela conexão que ela me falava…crescia. Ela sabia que eu a iria compreender, não a julgaria, nem fugiria dela aterrorizada. Eu pertencia àquele mundo e não o iria ignorar ou temer. A Aura corria fundo nas minhas veias, assim como corria nas dela. A Kayla não acredita nisso. O meu entusiasmo não chegou para a cativar. Heresia, truques da mente é o que ela lhes chama: a influência que a Maggie tem para com o seu elemento. A manipulação da Terra, o poder que a Sona lhe dá. Acho que a Kayla só acredita no poder das palavras. Mesmo assim, ela nunca a viu fazer nada disso. Ou quer, pelo menos. Os rumores que a rodeiam chegam para a denegrir e para marcá-la como uma má influência. Uma das coisas que me irritam em relação a ela é, para além da sua teimosia, o facto de não ter o espírito para formar a sua própria opinião. Por isso, quando os seus pais lhe disseram para se manter afastada da Magda Curandeira, ela não ponderou muito sobre o assunto e viu razão no lado deles, ordenando então que eu fizesse o mesmo, para meu bem. Então, desde aí, encontro-me com ela sem que a Kayla saiba. Também desisti de mencionar a Aura na presença dela…ou de qualquer um. Um concelho da Maggie caso eu não queira acabar como ela. Odiada.

Enquanto vai deslizando os dedos pelos rótulos dos frascos vislumbro-lhe a cicatriz desenhada na palma esquerda. A princípio julgo que é impressão minha. Depois tenho a certeza e os meus olhos saltam-me da cara ao mesmo tempo que o meu queixo cai no chão. Pelo canto do olho, ela vê-me especada. Ela ergue uma sobrancelha em questionamento. Será que ela ainda não viu que a mão dela está a brilhar?!

- Maggie…Olha para a tua mão.

Ela baixa a cabeça num movimento rápido e, tão rápido como a baixa como também se ergue da cadeira. A cicatriz dela, o símbolo que a liga à Sona, desenha-lhe na palma da mão esquerda um triângulo de três traços não ligados simbolizando as três fases da vida, nascimento, existência, morte, e uma espiral no seu interior que simboliza o ciclo a ela ligado. Sempre a achei bela. Agora vejo um rio de luz branca correr lhe entre os sulcos da sua pele, quase ofuscando-a a si própria quando a ergue à altura dos olhos. Parece uma candeia.

- O que é isso, Maggie?- a minha voz está mais calma do que eu me sinto. A curiosidade está a arrebentar dentro mim.

Ela dardeja familiaridade, com uma leve incompreensão. Aquilo já lhe aconteceu antes. Mas não acho que ela saiba o que aquilo significa. Está tão surpreendida quanto eu. No entanto, ela sabe alguma coisa porque uma leve esperança cresce devagar na sua expressão à medida que ela roda a mão, espalhando a luz como um farol pelas paredes de madeira. Entretanto a Sona trepara pela perna da cadeira até ao seu colo e até ao tampo da mesa, erguendo-se nas suas patas traseiras em direção a ela. O seu pequeno nariz, reluzente na sua humidade, fareja esfomeadamente o ar que lhe rodeia a mão, como se a tentar conectar. Eventualmente, o brilho é tão intenso contra a fraca luminosidade do anexo que tenho de cerrar a vista. A minha impaciência parece chegar a um limite.

- Maggie!

Os meus olhos alarmados tentam procurá-la por entre a cortina branca que se forma. Está a ficar descontrolado. Só consigo recuar, encandeada, enquanto ela se expande cada vez mais. Engoliu a Magda.

Mas, de repente, a cortina cai e, tudo o que consigo ver por entre o meu pestanejar incessante agora habituado à claridade, é uma silhueta cruzar-me disparada até à porta. Rodo nos calcanhares, mas não a sigo, demasiado atordoada para o fazer. Ela também não vai longe. Em passos largos, caminha até ao centro da rua e fica a olhar para o céu noturno. Na extremidade do seu braço esquerdo, vejo finas lâminas de luz escaparem-se daquilo que parece ser uma luva a envolvê-la. Mais do que nunca, os acontecimentos dos últimos segundos ficam bem aquém da minha compreensão. Mesmo assim, a incendiar de perguntas, espero paciente no interior acolhedor da cabana. Uma brisa fria da noite viola o conforto do seu calor e enfio a cara fundo na gola do xaile de Magda, aquecendo-me com o meu bafo. Lá fora, ela não parece minimamente incomodada. Arrepio-me por mim e por ela.

Subitamente, lembro-me de Sona e reparo que também o pequeno porco-espinho correra até ao centro da calçada em granito erguendo-se nas patas traseiras em direção ao céu. Elas ficam especadas durante tanto tempo que até acho que ganham um torcicolo no pescoço. Levemente, a luz branca na mão dela desvanece-se, até que a escuridão cai sobre ela.

Ela vem a bufar, claramente irritada, quando retorna em passo decidido para o anexo, atirando com a porta atrás dela. Sona segue-a em passinhos minúsculos, mas energéticos na sua dianteira.

- Porra!-Depois arrasta a cadeira para trás, apenas para se limitar a continuar de pé; debruça-se sobre o encosto balançando o corpo para a frente e para trás. Nem a reconheço. A curandeira e a sua calma, a sua paciência características, a sua serenidade...evaporadas, pois ela está definitivamente a ferver por dentro.

Os meus olhos inquisidores procuram os seus. Eles faíscam de volta com ferocidade. Não preciso de dizer o seu nome pela milésima vez para ela começar a falar.

- Já é a terceira vez hoje! - explode exasperada. – A segunda num espaço de minutos!

Minutos?!

Fico perdida e a confusão estala na minha cabeça. Há minutos estava eu aqui e acho que me lembraria se tivesse testemunhado isto antes. Mas a minha memória está a zeros. Ela deve estar a fazer confus...

Não.

Aconteceu, sim. É como se um raio me tivesse iluminado. Eu estive aqui. Sim. Agora lembro-me. Aquela luz. A luz que mesmo por frechas de tábuas roídas me cegou pela sua brutalidade.

- Antes de eu entrar...- Raciocino em voz alta. – Aquilo...era a mesma coisa?

Ela só anui.

- Pensava que eras tu que... e eras tu- Nem consigo organizar as palavras. Saem aos tropeções, à medida que as ideias se tentam compor. – Quer dizer, aquilo...não é voluntário, certo? – Como se a evadir à questão, ela desprende o olhar do meu e prefere a mesa de ervas e de sais à sua frente para se focar, em vez de mim. Nem pensar que a vou poupar a uma explicação. Não agora que eu vi tudo. Os meus pés daqui não saem enquanto este assunto não for revirado tim por tim e até que esta história faça algum senso. Nem que eu lhe esbarre o caminho e passe aqui a noite. Nem que o Mensageiro me arraste para aquele seu maldito barco de vela mais alta que a própria montanha. Mas ela não mo faria. Mesmo assim, prefiro jogar pelo seguro. Não lhe leva muito tempo para começar a recitar a história do início.

- Pronto. Sim. Isto já me aconteceu antes e não foi só hoje – a sua cara gira num movimento brusco, as suas feições pintadas por sombras negras quando a baixa subtilmente. – E também não sei o que significa, se é isso que vais perguntar.- Com isto fecho a boca que se preparava para falar e contenho as perguntas para o fim. Já devia saber que a Maggie não gosta de ser interrompida. – Antes de tu entrares, estava a acontecer outra vez... estava a ganhar força mas, não sei porquê, parou quando me chamaste.

O seu tom muda como do vinho para a água quando o diz e, aquela insegurança, deixa-me desamparada.

Eu preparava-me para a interromper novamente, o meu redemoinho de questões presas na minha boca soltas numa ventania. Mas aquilo consegue calar-me, e já não sei bem o que pensar. Então, puxo de uma cadeira enterrada debaixo da mesa e sento-me, compondo as ideias, tentando interiorizar.

Do chão de tábuas velhas Sona olha para mim com duas lascas negras penetrantes. Apesar de não falar, ela tem pensamentos, entende-nos e consegue expressar-se, limitadamente porém. Nem sempre conseguimos entender o que ela nos tenta dizer. Porém, por trás do seu focinho pequeno de pelo macio e castanho, desvendo uma faceta séria, como se ela fosse entendida do que a Maggie me está a contar. Não duvido que o seja. Ela é sem dúvida alguma a ouvinte mais fiel da Maggie. É estranho pensar que numa criatura tão pequena e tão doce como aquela, por entre todos os cantos do seu cérebro tão pequeno, se guardem os segredos e todas as memórias que são da Magda. Por outro lado, a Sona faz parte dela e ela faz parte da Sona. Não poderia ser doutra maneira. A Aura corre densa nas suas veias. Ela tranca olhares comigo desde o chão; de repente, pergunto-me o que lhe vai na cabeça.

- Uma coincidência provavelmente. – Completa, encolhendo os ombros. – Tem vindo a repetir-se ao longo dos anos, mas não assim...-, ela tenta arranjar a palavra certa - periodicamente, digamos. – Depois cai em silêncio, permitindo-me acompanhar-lhe o raciocínio. Mas eu não sou estúpida. Eu já me adiantei; a minha mente trabalha agora a mil à hora, encaixando factos, juntando peças, formando explicações para aquilo que me é desconhecido. Porque eu não me contento na ignorância. O meu cérebro busca sempre uma forma de lhe escapar, de compreender. Acho que a Magda não me conhece tão bem como eu julgava. Aliás, não há muito que interiorizar. Tal como ela disse, não há nada a ligar-me à sua cicatriz encandeada e a sua periodicidade. Conhecendo-a como conheço, a conexão que ela fez entre mim e a evasão da luz foi só um dos seus truques manipuladores para me dar algo em que cismar... E para me calar.

- Eu tenho uma teoria, porém. – Ela diz subitamente, fazendo-me erguer a cabeça de imediato. Também arranjei algumas. Estou curiosa por ver se elas nos levam pelo mesmo caminho. Vendo-me intrigada, ela prossegue. – Tu sabes que eu sou muito provavelmente a única em Lutus com ligações à Aura. – Assinto. É verdade. – E também sabes, querida Lennox, que eu, ao longo da minha vida, apenas tive contacto com uma única pessoa a ela ligada.

As memórias das longas conversas tidas com Magda vão emergindo. - O teu pai… - Réstias do seu passado e o pouco que eu sei sobre ela.

O que ela me contou.

Ela anui. Um toque de saudade faz-lhe descair um pouco a sua habitual rigidez.

- Ele era um Térreo. Como eu. – Os seus olhos encontram os de Sona, a ponte que a une ao seu pai. Ela evoca-o pelas habilidades que partilhavam. Algo que era dele e que também é dela; uma forma de preservar a sua memória, pelo que ele foi. Um manipulador do elemento Terra tal como Magda.

Desejava também tê-lo. Uma herança dos meus pais. À parte do cabelo ondulado negro e tez pálida da minha mãe e dos olhos cinzentos e estrutura musculada do meu pai presentes no meu físico, eu não tenho a marca da minha família em mim. A minha personalidade poderá ser talvez a única coisa que ainda os faz viver nos pensamentos. Eu não era pequena quando eles saíram da minha vida e ainda tenho a sua imagem bem presente. Eles ainda me visitam em sonhos… e pesadelos desde que fiquei órfã. As suas silhuetas por vezes são tão reais, tão vívidas que é tortura vê-los e não poder tocá-los. Às vezes vejo a minha mãe antes de adormecer. Vejo-a aparecer sob a padieira de pedra escura do meu quarto, aproximar-se, sentar-se sobre a minha cama de palha. Depois ela inclinava-se sobre mim e, antes de eu fechar os meus, os seus olhos ternos guiavam-lhe um beijo de boa noite na minha testa. E, eu sentia-o. Firme, cheio de calor contra a minha pele fria. Ali, tão perto dela, envolta no seu círculo protetor, costumava pensar que tudo não passara de um pesadelo terrível. A minha mãe estava comigo outra vez. Não estava sozinha. No final do dia, ela tinha voltado para me dar um beijo de boa noite. Mas depois, como a chama duma vela quando é soprada, o ar ficava frio de repente e, quando voltava a abrir os meus olhos, deparavam-se apenas com a sombra do crepúsculo a inundar o quarto pela janela e com a solidão.

Como que despertadas pela memória as suas mãos gesticulam em movimentos deslumbrantes no ar, a sua intenção direcionada pelo seu foco nuns vasos de terra em cima da mesa de madeira, repleta de sais. Debaixo da terra castanha no seu interior, brotam caules frágeis que sobem, vagarosamente, dançando perante os meus olhos. Quando compridos o suficiente, eles procuram se uns aos outros, unindo-se e enrolando-se sobre si, formando uma cadeia de tranças, cujos rebentos dão origem a folhas compridas que caiem sob o seu peso. Por último, crescem botões ainda a desenvolverem-se, que levariam até à primavera para florirem. Não com a Magda. Os seus dedos manejam todo o seu sistema, puxando para fora a flor que amadurece no seu interior. Em segundos, vejo todo um botão verde pálido rasgar-se num cetro de pólen amarelo-torrado até todo ele evoluir para uma margarida de pétalas brancas frágeis. Não consigo evitar sorrir perante aquilo. Mesmo sentada no lado oposto da mesa, consigo sentir um aroma refrescante subir-me às narinas. Deixo-o entrar devagar e saboreio-o. Maggie deixa pender a cabeça para trás, admirando o seu trabalho. Ela tem um gosto especial por margaridas; é por isso que o seu jardim transborda delas.

- Acho que esta luz aparece quando há outro elemento por perto.

Franzo as sobrancelhas. Essa era de longe a possibilidade mais provável na minha opinião.

- O que é que te faz ter tanta certeza?

- Na verdade é mais um pressentimento. Eu nunca conheci ninguém no continente ligado a um elemento, não posso ter a certeza. Mesmo assim... algo diz-me...- ela para, encarando-me assim de repente. O mar profundo nos seus olhos quase me podia afogar pela sua intensidade. A seus pés, Sona inquieta-se.- Sinto-o. É algo que eu sinto. É... não te consigo mesmo explicar.

Fico a olhá-la, sem saber o que lhe dizer. Acho que devo confiar nela. Afinal, não sei nada do que ela sabe ou sinto o que ela sente. Não tenho uma Sona. Por isso, após uma breve ponderação, faço-lhe a pergunta mais óbvia.

- Quem achas que é, então?

Ela apenas expira pesadamente, fechando os lábios com força. Depois abana a cabeça levemente.

- Olhaste para o céu quando saíste porta fora,- insisto- achas que é um Aéreo?

A Maggie responde-me com uma voz calma e paciente. É tão natural nela como as suas próprias mãos.

- Não sei Lennox, não sei mesmo.

Subitamente o seu rosto torna-se cansado, as suas olheiras cavadas fundo. A Maggie não tem mais respostas para mim, nem para ela. Por isso, cesso as questões. Esta poderá ser a última noite com ela e eu quero aproveitá-la. Nunca mais a voltarei a ver depois de amanhã. Quero ter a certeza que me lembro do rosto dela. Quero certificar-me que as minhas memórias com ela não são perdidas.

Ela volta a remexer nos frascos rotulados em cima da mesa. Aqueles puxados para o lado há pouco, ela pega neles e entrega-mos nas mãos, fechando-as sobre a dela. Sinto os seus dedos no meu queixo, pedindo que encontre o seu olhar. Ela consegue trazer um sorriso às faces finas e enrugadas pelos anos.

- São elixires de Prisco e de Lenhas. Eles têm o nome escrito. – Os três frascos descansam frios contra a minha pele pálida. Por entre os meus dedos entrelaçados nos dela, vislumbro as rolhas de cortiça que os selam. – Sabes para que servem. – Não é uma pergunta.

Assinto, a minha expressão séria.

- Obrigada, Maggie. – Inclinando-me sobre ela, atiro os meus braços por cima dos seus ombros e ela envolve os dela em mim. Consigo sentir os seus dedos longos pressionarem contra as minhas costas, puxando me para ela. Faço o mesmo, fechando o nosso abraço com força até lhe memorizar o cheiro a pinhal, até memorizar o toque suave dos seus cabelos lisos, até que a sua presença seja tão familiar em mim quanto o meu próprio corpo. Quero lembrá-la ao pormenor, porque ela foi uma das estrelas a iluminar-me quando a noite caiu de repente.

Quando se afasta, beija-me na testa, como a minha mãe me faz em sonhos, e murmura-me as suas últimas palavras.

- Não te percas, Lennox. Não te percas de ti mesma.