Capítulo XXIII

– Como pode fazer isso? – a voz de Bea tremia de indignação, e reprovar-se por isso apenas piorava seu nervosismo. – Nós deveríamos representar o oposto deles! Esperança às quatro luas! Não imitá-los! Se eu conseguir colocar as mãos em vocês...

Ela agitou-se, fazendo os guardas puxarem seus braços atados. O Guelfo Branco circulava de um lado a outro do corredor num indicativo de se deleitar com as críticas da rebelde, sem perder a mesma expressão superior no rosto. Lucio e Matteo também estavam algemados, não muito distantes de Bea – esta constatando haver no mínimo dois guardas para cada um deles, sem contar Leo. As palavras seguintes do comandante, aliás, serviram para explicitar ainda mais a situação:

– Rebelde ou clérigo, todos já deveriam ter aprendido que fazer ameaças requer uma carga energética num punho pronta a ser disparada, o que não é seu caso... E, considerando essas mãos enfaixadas, bem... Menos ainda?

Todos os soldados lhes apontavam os canhões de prótons, não havendo sequer um espasmo de hesitação em cumprirem as ordens do Guelfo, muito menos arrependimento. A "operação" devia seguir daquela maneira há anos, os corpos congelados nas cápsulas decerto já tendo incluído diversos membros da resistência que ousaram questioná-la. Mas Bea não estava disposta a se calar. Quanto mais Leo tagarelasse, uma saída àquele impasse poderia acabar sendo vislumbrada.

– Você simplesmente lava as mãos? – a guerreira rebateu. – Saiba que o faz em sangue!

– A circulação cessa próxima do zero absoluto, então sua alegação é imprecisa – o superior rebelde sorriu. – Nós não estamos matando essas pessoas. Apenas acelerando um processo de caça feito pela Igreja para tirarmos vantagens à rebelião. Entenda: por serem quem são, esses indivíduos encontrariam o mesmo destino de uma maneira ou de outra. O Bispo exige que "Alessandro Esposito" lhes entregue regularmente os hereges e sodomitas descobertos em Caesarea Lunar. Por fazermos isso, nosso disfarce segue intacto e chegamos a um patamar que nenhuma outra base da resistência chegou. Temos tanto capacidade de organizar um ataque maciço contra o Papa, quanto pesquisar formas de reconstruirmos a civilização longe de seu domínio. Considera isso um crime?

– Seu Judas desgraçado! – vociferou Matteo, apenas para os guardas circundantes o conterem com mais força. – Usa essa desculpa esfarrapada de "fortalecer a resistência" para esconder seu preconceito e o de todos os outros aqui! No fundo pensa igual ao Papa! Que civilização é essa que quer reconstruir sem direitos fundamentais àqueles diferentes do padrão religioso?

– "Direitos fundamentais"? Consegue ouvir a si próprio? – o comandante ironizou, apontando ao curativo sobre a orelha ferida de Matteo. – Democracia, Nações Unidas, direitos humanos... Todos conceitos ultrapassados, desintegrados pelas tempestades de antimatéria que varreram a Terra. A vida é outra, e precisamos jogar pelas mesmas regras da Igreja se quisermos sobreviver. Por isso mesmo vocês três farão parte da próxima entrega ao clero.

– Não pode estar falando sério! – protestou Lucio.

– O Bispo Drusus já notificou estar enviando uma equipe para verificar as instalações em busca da menina. Nós entregaremos vocês, junto aos outros prisioneiros congelados, para que o clero mantenha a confiança em Esposito, e ficaremos com a Estigmata. Com a ajuda dela decifraremos os fragmentos das Escrituras e chegaremos rapidamente à verdade que contêm.

– Acham mesmo que ela vai ajudar vocês? – Bea provocou. – Mais ainda: que o Bispo vai cair na desculpa que inventarem para ter perdido a menina? Eles varrerão tudo de cima a baixo, descobrirão o esquema de vocês e depois farão com que conheçam a inversão térmica mais extrema de todas: do congelamento em cápsulas às chamas da fogueira!

Atenta a cada centímetro do corredor, Bea não deixou de notar o leve tremor nos coletes táticos de dois dos soldados, cada um vigiando um de seus companheiros. O coração acelerou, tentando contê-lo para não produzir indícios externos que a autossabotassem. Isso que estou vendo é hesitação?

Ela tinha de ganhar mais tempo... fazer com que os subordinados percebessem o quão errado era tudo aquilo!

– Esse miserável está fazendo com que se voltem contra as próprias pessoas que pensam defender! – argumentou, o olhar percorrendo a face de cada um deles. – Não percebem?

– Chega de falar grego! – o Guelfo Branco perdeu o ar astuto e aparentou genuinamente se irritar, voltando para perto de Bea. – Vamos botar um selo criogênico sobre esses malditos! A começar por essa meretriz!

– É assim que acusa quem lhe expõe a verdade? Como alguém que se vende? – Bea deu um risinho, emendando a fala a um sacudir dos braços acorrentados magneticamente. – Uma meretriz vende o próprio corpo... Ao menos não precisa vender os corpos dos outros para obter vantagens!

Num mísero segundo, o rosto de Leo contorceu-se em cinquenta expressões diferentes de raiva.

– Já chega! – ele exclamou, um dedo em riste na direção de Bea. – Não precisamos entregar esses prisioneiros inteiros. Como a meretriz está tão animada a colocar os bracinhos de fora, quero que quebrem um por um os dedos dessas mãos enfaixadas dela!

Pupilas se entreolharam abaixo dos capacetes e visores dos soldados rebeldes. A adrenalina tomava o ar, tal qual exalada por seus pulmões.

– Não me ouviram? – o Guelfo queixou-se, constatando que nenhum dos comandados se mexera para cumprir a ordem. – Não falo como seu superior, mas lembrando de tudo que deixaram para trás em nome da rebelião. Estes três são uma ameaça à causa! Quero os dedos da meretriz quebrados, agora!

Um dos guardas, antes ao lado de Lucio, finalmente se adiantou, apanhando do cinto um bastão de combate. Uma das extremidades era capaz de liberar choques elétricos por ativação de um botão, mas seu portador só precisava contar com o peso da arma nos golpes que efetuaria.

Outro dos soldados, dos dois junto a Bea, agarrou-lhe um dos braços e estendeu-o para que a palma da mão enfaixada fosse colada a uma parede, os dedos abertos e à mostra.

– Bea... – Matteo preocupou-se.

Em resposta, a guerreira lhe dirigiu um olhar muito mais terno e tranquilo do que ele poderia esperar.

Está tudo bem – foi o que o rebelde conseguiu traduzir de sua expressão.

Sem aviso, o cassetete desceu sobre os dedos uma primeira vez.

Nem Lucio ou Matteo conseguiram olhar. A arma ressoou contra a mão, os estalos lhes causando calafrios. Não esperavam propriamente um grito de Bea, por conhecerem sua força – nos instantes até abrirem os olhos, confirmando que ela não emitira sequer um gemido. O que os surpreendeu de verdade, no entanto, foi o semblante da companheira: ainda sereno, inabalável, como se nada houvesse acontecido.

A dor do golpe, contraditoriamente, aparentou ser sentida pelo Guelfo Branco, o qual, possesso devido à reação da inimiga, bradou:

– De novo, agora!

No curto espaço de tempo antes de o bastão encontrar de novo os dedos de Bea, os outros dois prisioneiros conseguiram vislumbrá-los intactos, sem nem mesmo lesões sobre a pele.

Novo golpe, o eco do metal plastificado colidindo com as falanges espalhando-se por todo o corredor.

Nenhuma queixa da parte de Bea; e nesse momento todos os guardas já estavam estupefatos pela mão da guerreira não apresentar dano algum.

– Mas o que pensam estar fazendo? – Leo era o auge da revolta, tomando o cassetete da mão de seu soldado e erguendo-o ele mesmo na direção do membro exposto de Bea. – Terei de lhes mostrar como se faz?

Num arco longo de seu braço e um grito de fúria, o Guelfo Branco golpeou a mão da mulher uma terceira vez...

Somente para atingir o gerador de campo da algema em seu pulso, destroçando-o em inúmeros e minúsculos pedaços, e liberando o punho da guerreira imediatamente.

No segundo em que, por puro instinto, realizou sua reação com a mão livre, Bea pôde ouvir, em sua mente, o esclarecimento sobre o que acabara de acontecer... mais uma vez na voz pueril, e ao mesmo tempo detentora de todos os segredos, da Estigmata:

Porque isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras: nenhum dos seus ossos será quebrado.

Os dedos de Bea desceram até o coldre de Leo, apanharam o cabo da pistola laser e, muito mais rápidos do que o antigo dono poderia assimilar, pressionaram o gatilho à altura de seu queixo.

O corpo do líder da base ainda permaneceu instantes de pé, sem reação, antes de cair para trás com a cabeça fumegante – metade desta semiderretida, a outra transformada num pedaço de carvão.

Por todo um minuto, o corredor congelou da mesma forma que o interior das câmaras de criogenia no laboratório ao lado.

A ação seguinte transcorreu veloz, seus lances mal podendo ser notados por um espectador desatento – algo, aliás, fatal a um atirador de reflexos mais vagarosos. Dois dos soldados rebeldes permaneceram fiéis ao comandante morto, um deles sendo aquele que há pouco tentara quebrar os dedos de Bea, e apontaram a ela seus canhões. Antes que pudessem carregar seus disparos, todavia, os demais reagiram, sacrificando os próprios colegas com disparos certeiros de suas armas já preparadas.

Os corpos da dupla jaziam com regiões pulverizadas de seus trajes, os restos de revestimento ocultando terríveis queimaduras de terceiro grau, enquanto os remanescentes libertavam Lucio e Matteo das algemas. Bea, checando quantos disparos restavam à carga da pistola laser roubada de Leo, não sabia se o que surtira mais efeito haviam sido suas palavras, a crueldade do comandante ou a demonstração da invulnerabilidade que sequer cogitara possuir. Mas estava feliz por, de todo modo, haver funcionado.

Os demais gastaram mais algum tempo reorganizando-se até a pergunta inevitável vir, feita por Matteo:

– Bea, o que foi aquilo?

Ela inspirou, sentindo as mãos perfuradas formigarem e doerem – algo que não acontecera durante todo o momento de tensão com o Guelfo e seus guardas. Aqueles que haviam aderido ao seu lado disfarçavam, porém não conseguiam ocultar os olhares curiosos, até amedrontados. Lucio juntara-se ao namorado com a mesma dúvida estampada no semblante.

– E-eu não sei... – o gaguejar da guerreira foi involuntário. – Não sabia que isso aconteceria, não podia prever...

Escondeu, no entanto, ter sido guiada pela intuição. Não, não previra racionalmente que seus ossos não seriam quebrados, mas a confiança... o impulso que a levara a reagir daquela maneira...

Súbito, virou-se. Agarrando o cadáver de um dos rebeldes mortos, ergueu-o até a porta do laboratório principal, o mesmo que adentrara há pouco e onde descobrira os prisioneiros encapsulados. Não soube bem se o que liberou acesso foi o escaneamento de um dos olhos do morto, ao retrair sua pálpebra com um dedo, ou a quantidade de sais em seu corpo. De todo modo, surtiu efeito; e a seguir ela estava dentro novamente.

Lucio e Matteo a acompanharam de perto, a tempo de ver sua sequência de tiros contra o tanque criogênico central, fazendo o líquido azulado vazar a princípio pelos buracos e depois rompendo todo o revestimento, o sistema nervoso e membros conservados de Alessandro Esposito desfazendo-se na torrente.

– Isto é para não reaproveitarem este esquema sórdido de modo algum... – Bea murmurou com desgosto.

Voltando-se à entrada, a moça surpreendeu-se por não ver apenas os dois parceiros usuais atrás de si, mas todos os outros rebeldes amotinados aguardando instruções.

O estranhamento deixou-a momentaneamente sem ar.

Líder, eu? – questionou-se com uma ponta de receio, logo substituída por um maior volume de esperança.

O que Gibelino disse sobre os Estigmatas, seu poder de cativar, servir como símbolo de devoção... – flagrou-se recordando. – Será que...?

– Três de vocês, protejam este perímetro e a sala secreta com os prisioneiros nas cápsulas! Aguardem instruções até descobrirmos como descongelá-los em segurança e retirá-los da base! – ela instruiu de repente, evitando ter mais tempo para pensar. – Os demais, temos dois objetivos: Lisa di Lorenzi e a Estigmata. Devemos encontrá-las e partir com elas numa nave viável. Como esta base conseguiu controle dos hangares de Caesarea, é para onde deveremos nos deslocar.

– Então a traidora Di Lorenzi também é um objetivo? – Lucio retrucou.

– Eu não sei se você percebeu... – Matteo afirmou, verificando a munição do canhão de prótons do qual acabara de se apoderar, e entregando outro ao parceiro. – Mas depois do que presenciamos aqui, nossos conceitos de lealdade e traição ficaram bem mais relativos!

E complementou, já se dirigindo fora do laboratório:

– Lisa merece ser salva, sim. Inclusive pelas informações que possui, as quais ainda não obtivemos.

Bea concordou maneando a cabeça. Lucio era teimoso; e existiam, sim, motivos para desconfiarem de Di Lorenzi, mas ainda não haviam chegado ao fundo daquilo – o que exigia a mecânica viva.

– Vamos! – ordenou a guerreira.

Juntando-se ao seu inesperado pelotão, Beatrice continuava sem saber o que esperar, porém aquele estranho pressentimento se manifestava em si mais uma vez...

Mesmo com uma batalha árdua, eles venceriam.