Capítulo XXVII

– Então você também é uma Estigmata? – Lucio lançou sentado atrás da mesa da cabine de reuniões, Matteo ao seu lado com as mãos unidas e cotovelos apoiados sobre o tampo. – Tem os mesmos poderes que a menina? Por quanto tempo nos escondeu isso?

– Eu não sabia até invadirmos a base de pesquisas em Lucas! – Bea replicou impaciente, sentindo que o próprio ar do recinto ameaçava sufocá-la, carregado de tanta desconfiança e acusação. – Aliás, não tenho certeza de sequer ser uma Estigmata antes de encontrar a menina, ela tomar minha mão na dela e abrir a primeira chaga!

O contrabandista acenou com a cabeça de modo evasivo, desviando o olhar a uma parede. Matteo suspirou, fitando novamente as marcas nas mãos da aliada: já limpas da crosta vermelha anterior, mas ainda liberando sangue a cada instante. Ao invés de curativos envolverem seus punhos completamente, fitas estendiam-se pelas palmas e dedos somente sobre os cortes abertos quando Bea segurara a adaga de Ag. Deixar as chagas expostas a todos da nave fora uma decisão para tornar igualmente clara sua intenção de não mais tratar aquilo como um segredo.

– Apesar de me doer dizer isso, a menina deveria estar aqui... – murmurou Lucio. – Ela pode esclarecer melhor o que você é, e o que está acontecendo.

– Ela nada revelou além de alusões vagas até agora... – Bea andou diante da mesa, braços cruzados. – Nada garante que explicará qualquer coisa. E se explicar, quando.

– Como é, exatamente... – Matteo oscilou, o desconforto quanto a perguntar aquilo estampado em seu rosto. – Ter esses poderes?

Beatrice avançou até uma das janelas da cabine, dando as costas aos colegas e observando demoradamente a superfície de Iessu; a qual, em toda sua impetuosidade, era, ainda assim, constante – bem diferente de sua atual condição. Considerou um alento a grandeza do gigante gasoso em comparação à sua diminuta e falha constituição mortal: sendo uma Estigmata ou não, era impossível pensá-los em pé de igualdade. A comparação acabava reforçada pelo planeta ter o nome do Salvador, Bea sendo apenas alguém que recebera seus estigmas, estando bem distante de sua perfeição.

Ponderando tudo isso, ela respondeu, sem virar-se:

– A primeira manifestação ocorreu pelo dom da cura... Foi assim que salvei Lisa de sua queimadura no trem, e fiz aquele soldado se reerguer durante o confronto na base rebelde. Não me perguntem como acontece: apenas toco a pessoa, me concentro, e os ferimentos desaparecem!

– Isso sem dúvida nos ajudará agora que a Igreja colocou toda sua frota atrás de nós, e a menina só colabora quando bem entende – Lucio afirmou sem ironia.

– As tropas não param de comentar sobre você, principalmente depois de resistir à agressão do Guelfo Branco – Matteo emendou. – Considerando que também liderou com sucesso a libertação daqueles prisioneiros, já está se tornando um símbolo de luta. O que Gibelino queria.

Bea baixou o olhar às mãos perfuradas, abertas à altura de seu ventre.

– Não sei se estou pronta para isso, me tornar um "símbolo"... – confessou. – Vocês e toda a resistência podem ver isto como uma graça, uma vantagem estratégica... Mas, se estivessem chagados, sem dúvida considerariam um fardo. Matteo, quando o procurei na base, desconfiada do Guelfo Branco... é porque eu havia ouvido as preces dos prisioneiros dentro daquelas cápsulas. Desolados, sentindo-se abandonados por Deus... rogando por perdão ou pelo fim. Conseguem se imaginar em meu lugar? Assumindo a responsabilidade de arcar por tantas pessoas?

O silêncio indicou compreensão, e Bea sentiu-se confiante em se voltar de novo aos dois, ainda que o dilema a fizesse sofrer. Foi Matteo que, demonstrando maior segurança em sua própria postura corporal, arrematou:

– Talvez a chave não seja a menina. Penso que ela tenha surgido para revelar a verdadeira Estigmata. O destino de derrubar o Novo Vaticano é seu, Bea.

Destino, destino... Ah, ela odiava a palavra! O avô a treinara para ser autossuficiente, além de uma alma sempre sedenta por conhecimento, mas nada disso apontara à posição de comando na derrubada de um império. Deveria dar crédito àquela teoria? Mesmo quando as evidências eram genuinamente sobrenaturais?

Ela levou um momento para minimizar os pensamentos e reaproximar-se da mesa, soando frustrada:

– Pouco poderemos fazer em menor número e sem armas ou frota, no entanto. Não basta inspirar a rebelião: é preciso dar-lhe condições de combate.

– Acredito que o Evangelho de Nicodemos aponta uma solução, mas além de ter sido feito em pedaços, eles agora estão nas mãos do Papa! – Matteo lembrou irritado.

– A Igreja ter o Evangelho no fundo não é algo importante... – considerou Bea. – Isso explica a displicência da Guarda Suíça ao nos atacar, não hesitando em danificar o compartimento que o continha.

– Por que acha isso? – Lucio soou perdido.

– O Novo Vaticano tem sua própria cópia das Escrituras. Só que ela é inútil sem alguém que consiga interpretá-las. Por isso o interesse na Estigmata, e a disposição em eliminá-la depois que ela caiu em poder da rebelião.

– Alguma pista de onde essa cópia possa estar? – Matteo perguntou esperançoso.

– Pista não, certeza: a Biblioteca em Nova Alexandria. Meu avô contou no leito de morte existir uma versão do Evangelho em seu acervo, mas nunca obtive acesso a ele, por todo o tempo que morei nas ruas da cidade. Conseguiremos essa cópia, e por meio dela usaremos a menina para descobrir o conteúdo. Até eu posso lê-la, se desenvolver o conhecimento necessário até lá!

– Você tem certeza de ainda estar... mudando? – Lucio inquiriu um tanto incerto.

– É a tendência até o momento. A primeira chaga se abriu em minha mão esquerda. Dias passaram até a outra surgir na direita. Considerando as marcas na menina, o processo não terminou... E por mais que isso traga dor, habilidades que ainda não possuo podem surgir junto com as feridas!

O contrabandista levantou-se, esfregando os olhos avermelhados pela falta de sono. A preocupação, todavia, também pesava em seus ombros:

– É um bom plano, mas existe o risco de cairmos numa armadilha já pensada pelo clero, levando a menina de volta a eles para que consiga decifrar o Evangelho como a cabeça de João Batista oferecida na bandeja... Teremos de calcular cada passo. E repito: trazer a traidora conosco não foi uma boa escolha!

– Na verdade foi, e vou explicar a razão! – Matteo alongou-se astuto em seu assento. – Concordo com Bea a respeito de Lisa trabalhar não à Igreja, e sim a uma terceira facção interessada nas Escrituras, que inicialmente tentou roubá-las de nossa base em NoPat. Trazendo-a conosco, atrairemos seus contratadores... E teremos ajuda na infiltração da Biblioteca, um dos lugares mais bem guardados das quatro luas.

– Entendo a lógica, mas com isso teremos de lidar com a Igreja e os contratadores! – Lucio continuava cético. – Boa sorte em trazer essa gente ao nosso lado, e evitar que Lisa nos passe a perna na primeira oportunidade!

E, enquanto se dirigia à saída, acrescentou:

– Talvez esse risco não existisse se você houvesse deixado a perna dela gangrenar. Não basta ter "poderes divinos", Bea... É preciso discernir quando usá-los ou não.

A porta se abriu e fechou antes que qualquer um dos rebeldes conseguisse rebatê-lo.

– A cabeça dele é mais dura que grafeno... – Matteo resmungou.

– Não se preocupe – Bea caminhou até ele, calma e compreensiva. – Ele entenderá, com o tempo.

A guerreira fez uma pausa reflexiva antes de continuar:

– Você deveria falar com ele. Lucio viu algo no núcleo de Ioannes que o perturbou.

– Agradeço sua disposição em ajudar... Mas como sabe disso?

– Depois de decolarmos, dei conta que ele fazia algo que já há anos julgava-o incapaz de fazer... Eu captei uma oração, vinda dele.

Matteo acenou com a cabeça de forma lenta, assimilando a situação. Fez menção de avançar rumo à porta, porém foi interrompido por Bea:

– Hei, espere!

O rebelde se virou. A nova Estigmata percorreu a distância que os separava.

Sem mais nada dizer, Beatrice conduziu a mão direita ao ouvido ferido de Matteo. Com cuidado, desfez o curativo, desenrolando as tiras em torno do que restara de sua orelha até deixá-la totalmente à mostra, embebida em algum sangue.

A seguir, pousou a palma sobre o órgão mutilado, cobrindo-o completamente. Matteo queixou-se por um momento, estremecendo de dor... Nos instantes posteriores, entretanto, exalou tranquilo e aliviado – a orelha totalmente restituída quando Bea removeu a mão, algo que o rapaz confirmou ao tateá-la de imediato com os dedos, olhar maravilhado.

– Obrigado... – ele sorriu.

– Um incentivo para que converse mais seguro com o Lucio! – a aliada afirmou, soando cúmplice e divertida. – Agora vá.

Matteo deixou a cabine, e Bea, sozinha, retornou até a mesa, sentando-se num dos bancos... Olhando fixamente as mãos perfuradas estendidas sobre o móvel, tal qual cobrasse delas uma série de respostas que ainda não possuía.


Matteo esperou que uma dupla de combatentes da resistência deixasse o corredor para adentrar a cabine-dormitório, torcendo para mais ninguém estar nela àquele momento além de Lucio.

Fosse pela inesperada prece do namorado ou suas próprias, o desejo foi concedido.

– Resolveu ouvir a voz da razão e tirar uma soneca? – o contrabandista riu. – Se nossa próxima parada é Marcos, não quero perder mais segundo algum fora de uma câmara de estase até chegarmos lá!

– Quero sim descansar, mas antes precisamos ter uma conversa... – Matteo aproximou-se sem jeito, porém distante de perder a determinação.

Lucio encarou-o calado até o parceiro falar:

– Aconteceu alguma coisa em Ioannes que eu deveria saber? Durante a fuga no trem, ou depois?

O contrabandista bufou, olhando desconfiado para a orelha novamente sadia de Matteo:

– Além de curandeira, a Bea também está lendo pensamentos agora?

– Ela ouve quem chama por Deus... E a menina também, pelo visto, por mais assustadora que essa ideia possa soar! – o rebelde explicou meio desconcertado. – Conhecendo-o bem como o conheço, se recorreu a isso, é porque algo realmente grave ocorreu.

Circulando inquieto pela cabine, Lucio encostou-se a uma das câmaras, olhar percorrendo sua superfície transparente como se procurasse nela algum problema, até somar coragem para partilhar os seus:

– Eu nunca contei, mas fui uma criança escravizada. Trabalhar nas minas de Ioannes até desmaiar de exaustão é a memória mais antiga que tenho.

Matteo recuou, uma vertigem asfixiante tomando-o como se tivesse sido atirado à imensidão do espaço sem um traje de proteção e estoque de oxigênio.

– E-eu não sei o que dizer...

– Conforme cresci, essas lembranças passaram a se misturar e enevoar, parte como um mecanismo de defesa... Até eu encontrar um armário com meu nome num dos vagões daquele trem. Tudo retornou bem nítido... e doloroso. Trouxe consigo uma questão: desde o início, estou lutando pelo direito de viver neste universo. Foi assim que fugi das garras da Igreja, que me libertou das minas somente para me mandar a um tipo diferente de cativeiro, tornei-me contrabandista... Quando nego sua luta, a tão preciosa luta da resistência, talvez seja por estar cansado de batalhar, Matteo. E sem perspectivas de isso um dia terminar, ainda mais com um final que nos favoreça...

– Você não pode desistir!

– Acredita mesmo nisso? Depois de ver pessoas como nós congeladas e entregues à morte daquela maneira por soldados da própria rebelião? Acha que isso mudará com outros governantes no lugar do clero? Que todos abrirão mão de seus preceitos religiosos para aceitar dois homens como um casal?

Conforme enumerava suas incertezas, lágrimas brotaram no rosto de Lucio, escorrendo ao chão. As últimas, todavia, foram aparadas pelo ombro de Matteo assim que abraçou o amado com força, acariciando suas costas.

– É por querer estar com você para sempre que eu persevero! – o rebelde declarou. – Se lhe faltar coragem, perspectiva... apoie-se em mim, mas não abra mão da luta. Serei uma rocha mais firme que qualquer uma das luas, e em mim poderá recuperar seu equilíbrio, caminhar sem medo. Para tê-lo comigo, combaterei por nós dois.

E, afastando de leve a cabeça para poder contemplar o companheiro nos olhos, Matteo finalizou:

– Para toda e qualquer coisa... Saiba que estarei aqui por você.

Os lábios se roçaram, de início relutantes... o primeiro estalo úmido demonstrando o apoio mútuo, além do reconhecimento do que podiam fazer um pelo outro. Em seguida, entregaram-se ao encontro pleno e intenso, as línguas selando o acordo de, não importando as dificuldades, procurarem batalhar pelo sentimento que compartilhavam.

Naquela cabine-dormitório, ainda que por instantes, a grandeza de dimensões desconhecidas e ameaçadoras do universo não lhes importou.

Ali, unidos, imporiam a ele resistência.


Os restos semiderretidos de mais um Acólito foram convertidos em cinzas pelo potente lança-chamas do Diácono. Assim que tudo se tornou pó, o clérigo superior rapidamente acionou a função de sucção da arma para, ao invés de atirar fogo, aspirar as partículas ao seu interior, ocupando um tanque semitransparente alternativo aos de combustível e já quase cheio.

Nas proximidades, outros Diáconos realizavam o mesmo trabalho, queimando e sugando os poucos indícios de Acólitos ainda espalhados pelo hangar. A tarefa não constituía simples ato de limpeza, pois nenhum grão daquelas cinzas seria descartado: destinadas às reservas do Dia de São Miguel, acabariam aspergidas sobre os membros do braço militar do clero na lembrança dos companheiros caídos e como benção para que continuassem defendendo a Igreja.

Ao Bispo Drusus, no entanto, a quantidade de poeira humana dali recolhida era muito maior que a esperada – aludindo mais a uma maldição do que a possíveis bênçãos.

– Quem, ou o que, seria capaz de tamanho sacrilégio? – o homenzinho atarracado de cabelos brancos, a mitra a todo momento insistindo em entortar sobre sua cabeça, questionou horrorizado.

– O demônio em forma feminina, acompanhado de rebeldes hereges! – B. R. Bass retorquiu aproximando-se pela lateral do Bispo, assustando-o tanto por sua aparência quanto pelo tom de voz decrépito. – Toda esta base estava envolvida num esquema para enganar a diocese e extorquir recursos como se ainda fosse operada por um leal aliado. Mas não se preocupe, Reverendíssimo. Nós os pegaremos antes do fim da volta da lua!

Drusus concordou ao balançar nervoso o queixo, sua tentativa de esconder o incômodo pela presença do membro da Guarda Suíça só deixando-o mais evidente. Não encontrou direção para onde correr quando Laz e Ag também se aproximaram. Se esta exibia diversos hematomas no nariz, o homem de cabelo em tonsura gravava a laser uma cruz sobre uma região exposta da barriga, murmurando preces no que a Drusus aparentou ser algum tipo de penitência.

– Os apóstatas fugiram em três naves! – o Bispo procurou recobrar a compostura numa demonstração de autoridade. – Alguma ideia de seu destino?

– Felizmente, nosso contato na rebelião também frequentava esta base, e plantou rastreadores em todos os veículos – Ag explicou. – O local para onde seguiram seria presumível sem grandes dificuldades, mas como existe a possibilidade de confirmação...

Ag e Laz abriram espaço entre si, liberando caminho a um soldado de fartos músculos, cabelos um tanto grisalhos e pose convencida demais para um leigo. Parando diante do Bispo, ele lhe estendeu um computador de mão, cuja tela exibia um mapa das quatro luas em órbita ao redor de Iessu. Em meio a duas delas, um ponto piscava em vermelho.

– Girolamo Nardovino a seu dispor, Reverendíssimo – conforme mantinha o aparelho erguido ao clérigo, o combatente inclinou a cabeça cheio de respeito.

Drusus observou o monitor por um instante, voltando-se a seguir aos integrantes da Guarda e indagando:

– Então estão indo para Marcos?

– À Biblioteca, provavelmente – Ag detalhou. – Procuram o Evangelho. Uma versão intacta dos pergaminhos.

O Bispo coçou uma têmpora. Aqueles malditos inimigos vinham tendo clara proteção infernal pela maneira como se esquivavam do amplo aparato de defesa a serviço do Papa, mas sabia que a vontade divina sempre prevalecia.

Menos atormentado pela presença da Guarda e sentindo-se até poderoso por tê-la às suas ordens, Drusus finalizou, fitando de soslaio um Diácono aspirar as cinzas do último clérigo desintegrado:

– Se é o Evangelho que eles procuram... Ide, e pregai a Palavra!