Tudo que eu já fiz; todas as escolhas, conscientes ou inconscientes, todas as mínimas decisões e caminhos, todos os erros e acertos, tudo que eu fui e continuo sendo me trouxe para o meu agora.

É assustador pensar nisso. Fascinante, também, mas principalmente assustador. Teoricamente as coisas estão indo bem: Monografia quase terminada (Supõe-se), Namoro firme (Apesar das minhas inseguranças), Quase formada no japonês (Isso é verdade). E ainda assim o medo de, a qualquer momento, algo fazer tudo desabar.

Eu conheci meu namorado por acaso. Uma sequência de acasos, para ser mais precisa. É assim com tudo, eu sei, mas acho interessante pensar com clareza em tudo que me levou a falar com ele. Primeiro, eu voltei a falar com uma amiga de muitos anos. Isso levou coragem. Eu estava com vergonha. Então ele me viu, de alguma forma, e resolveu se aproximar. Eu quase não permiti, até perceber que odiávamos certo político em comum, e aceitei seu contato.

Nada aconteceu. Para mim, ele era um garoto esquisito, tentando se aproximar, sei lá. Ele me chamou pra jogar um dos meus jogos favoritos da vida, mas eu não estava com vontade. Eu nem ligava pra ele. Até que um dia, por alguma chateação e sem nada a perder, eu pensei 'Bem, por que não?", e resolvi chamá-lo. E aos poucos viramos amigos. Muitas coisas em comum, muitos áudios trocados, algumas mal-entendidos, diversas risadas.

Eu lembro quando percebi que estava apaixonada por ele. Foi súbito. Eu me masturbava e, de alguma forma, subitamente comecei a pensar nele. Gozei falando o nome dele. Terminei e me senti uma idiota. Patética. Talvez não assim, mas entrei em pânico. Eu não podia me apaixonar por ele. Não era assim que eu queria que as coisas acontecessem. Eu não queria ficar com ninguém.

Coincidentemente, no mesmo dia nos falamos. Entre conversas sussurradas na madrugada, ele disse que queria me beijar. E eu disse que eu também. E ele disse que queria transar comigo. E eu disse que eu também. Foi surreal. É surreal. Foi como duas mãos se encontrando. Não sei explicar. Algo como uma pintura, ou uma opening de anime com storyboard feito pelo Kunihiko Ikuhara. As mãos. Os dedos. Nós. Nos entrelaçando...

É surreal. Uma série de coisas levaram a isso. Uma série de coisas nos levaram até hoje, mais de um ano depois. Semanas atrás, cometi um erro. Um erro enorme. Algo que quase estragou tudo. Um momento de impulsividade que quase destruiu um ano de relacionamento. Ficou tudo bem. Teoricamente, está tudo bem. Eu ainda estou assustada, mas está tudo bem.

Mas podia não estar. Eu sei que não faz sentido pensar nisso. Pensar nos fios que não foram costurados, em linhas que não se interligaram. Eu sei. Mas ao mesmo tempo, é difícil não pensar. Não pensar que, talvez, se eu tivesse feito algo um pouco diferente, tudo estaria mudado. Talvez não estivéssemos mais juntos. Talvez, agora, eu estivesse chorando. Talvez não. É uma porção de talvez. Possibilidades. Rotas não pegas.

É por isso que quero rasgar minha carne - pele - e me lembrar como as pequenas coisas mudam tudo. Efeito dominó. É assustador e fascinante. No momento, talvez por causa da ansidade, estou com muito medo. Medo de tudo. Medo de morrer amanhã, medo de morrer essa madrugada, medo de não vê-lo mais. Medo de ele morrer. Medo de alguém tentar fazer algo ruim com a gente. Muitos medos. Talvez tudo termine bem. Deve terminar. Mas eu continuo assustada, porque eu não quero perdê-lo. É quase como aquela sensação infantil que temos de não querer que nossa mãe morra, juntamente com o intenso medo de caso isso aconteça.

Tanta coisa aconteceu para chegar até aqui. Isso me assusta. Me assusta. O futuro. O presente. As infinitas possibilidades de história. Eu sei que vai ficar tudo bem, mas eu me assusto. Me assusto fácil. Fico temerosa. Queria estar nos braços dele agora, mas só poderei vê-lo amanhã. Quero chegar até lá. Quero que cada passo me guie até o momento com ele. É algo que eu quero muito.

Eu sei que nosso tempo é linear e que nossas memórias são vagas. Que talvez, em alguns anos, ele seja somente poeira na minha história. Que eu e ele tomemos decisões que façam com que nos afastemos. Mas nesse momento, nessa madrugada, nesse quarto, com esse barulho de ventilador, ele é tão meu e eu sou tão dele. Somos tão incríveis e felizes. Tudo é tão bom. O medo de quebrar assusta, não tanto, mas assusta. A possibilidade de não sentir mais o toque dele, o cheiro dele - Isso assusta muito. Mas não há o que fazer senão viver o dia de amanhã. O dia de hoje. Continuar vivendo. Vendo o que minhas escolhas fazem. Vendo o que as escolhas dele fazem. Vendo como as coisas acontecem.

Mas por enquanto tenho medo de morrer esta noite.