Na ruas soturnamente o idoso puxava sua cadeira de rodas, suas mãos eram o breque e sua única perna uma espécie de câmbio de marchas improvisado. Às vezes ia para frente o impulso, às vezes para trás, mas só quando se cansava das buzinas dos carros.

Naquela noite parecia ter pressa, o vento gelado da noite, que geralmente refrescava suas feridas do tempo, lhe incomodava com aquele assobio curto que subia a cada movimento giratório que movia folhas secas ao redor.

— Peraê!Peraê! - repetia pro nada. - Diacho, logo hoje que não tenho um trago de carote.

O velho resmungava para o nada, ajustou sua touca vermelha na cabeça e puxou um cachimbo de crack improvisado da jaqueta jeans surrada. Encarou o nada novamente, desistindo de pedir dinheiro no semáforo.

— 'Cê sabe que já deu seu tempo, véio.

— Pode paraê, que a lua não virou.

— Hehe. - uma risada sinistra lhe respondeu.

Risadas adolescentes se aproximavam do semáforo, queriam comprar pedras como sempre, um redemoinho de vento encheu de areia os olhos deles.

— Porra Saci, tu tá de banca velho, paraê! - um deles reclamou.

— É Saci, paraê! Toda vez venta assim quando a gente vêm.

Apenas a cadeira jazia ali sem dono.