É interessante que, em todos os anos que eu tive essa conta, eu nunca falei propriamente dos meus ciúmes. Talvez na época do término de 2016, talvez. Não lembro. Não estou com vontade de checar. Mas não há um texto exclusivamente para esse sentimento que me consome e destrói tão amargamente, e ele é necessário. É necessário porque eu não aguento mais, porque meu namorado não aguenta mais, porque meu ex-namorado não aguentava mais, porque faz mal, machuca, irrita, cansa.

Eu não sei direito como os meus ciúmes começaram. Ou talvez saiba? Sim, talvez sim. Mas o click do interruptor de não-ciumenta para ciumenta foi rápido demais, o suficiente para fazer com que eu pense que já era algo que estava guardado bem no fundo de mim, junto com memórias horríveis de uma infância que pode ser chamada de, no mínimo, conturbada.

O click foi meu namoro de 2014. Eu escrevo textos neste site há tanto tempo que, se você olhar, você encontra o post do término. Surreal. Enfim. Eu tive meu primeiro namorado em 2011 e, apesar de sentir ciúmes dele, meus ciúmes não eram tóxicos. Não lembro de nada que indicasse que fossem, e, pelo contrário, eu terminei com esse namorado por conta dos ciúmes dele.

Ah, pensando melhor, eu lembro que sentia muitos ciúmes dele com uma amiga minha. Mas ela meio que "dava em cima" dele de propósito pra me deixar com raiva. Escrever sobre isso me faz lembrar de muitas coisas. De uma vez que eu sentei na beira da piscina com muito ódio de ciúmes. Fiquei horas ouvindo música, sentada na beira da piscina, tentando me acalmar. Foram uns anos sem conseguir ouvir Ready to Start, a música que eu ouvi em loop, do mesmo jeito.

Bom, talvez esses já fossem indícios de algo não saudável com relação aos ciúmes, mas uma coisa era certa: Mesmo surtando de raiva por, sei lá, meu namorado ter ficado conversando com essa amiga minha enquanto eu estava estudando etc, eu conseguia conviver com as ex do meu namorado. Não era no nível que é hoje. Eu ficava com ciúmes, mas sofria quieta. Nunca ia criticar uma saída com uma ex-namorada ou qualquer coisa assim. Espero que eu ainda esteja fazendo sentido, porque antes desse parágrafo dei uma pausa de quase duas horas na escrita. Enfim.

Mas acho que tudo começou com o ex-namorado de 2014. O que me traiu. Meu melhor amigo por mais de um ano, para então nos tornarmos namorados. Confiava extremamente nele por causa disso. Não tinha medo de nada. Sei lá. Lembro de algumas ocasiões de sentir ciúme antes de começarmos a namorar, mas nunca agi nesse ciúme, e, para falar a verdade, eles foram os meus primeiros indícios de que eu tinha me apaixonado pelo meu melhor amigo.

Enfim... L (eu lembro de chamá-lo assim aqui) confessou ter me traído numa call no Skype. Eu gostava de fazer um jogo de perguntas, eu perguntava uma coisa e depois ele, achava divertido. Eu fiz isso por muitos anos com muito crushs e afins. Perguntar se preferia que o chão da casa do futuro fosse de madeira ou coberto por carpete, coisas inúteis assim. Sei lá. Enfim. Aí eu perguntei "Tem algum segredo que você queira me contar?" meio brincalhona. E aí ele simplesmente disse que sim, e que ele tinha beijado uma amiga.

Lembro que nunca senti tanto frio na vida. Meus dentes batiam de nervoso. Acho que tive uma crise de ansiedade antes de saber o que era uma crise de ansiedade de fato. Ele comentou que quando brigava com a ex se sentia do mesmo jeito. Enfim. L explicou que tinha sido quando estávamos flertando, pouco antes de começarmos a namorar de fato. Que ele tinha ficado com medo de me falar. Que tinha sido numa festa de Natal. Que tinha sido só um beijo. Ele pediu desculpas. E eu, gentil e confiante, aceitei.

Acho que se os eventos seguintes não tivessem acontecido, talvez eu não fosse tão noiada como sou hoje. Ou talvez fosse. Para falar a verdade, talvez o click tenha sido exatamente essa revelação do L. Porque dali pra frente toda a confiança que eu tinha nele, de que ele não me trairia, de que nada aconteceria, se esvaiu. Alguém me disse que era a obrigação dele recuperar a minha confiança, talvez até ele mesmo, então ele me permitia, e acho que eu me permitia, ser um pouco mais invasiva com perguntas. Nem sei se fiz perguntas. Mas sei que, no fim, fiz.

Eu não sei bem como foi que eu percebi que tinha algo errado acontecendo. Acho que por ele andar sumindo demais. Não dar satisfações. Inventar qualquer coisa. Eu nunca fui otária, e, para o bem ou para o mal, eu sou estupidamente boa em saber quando alguém está mentindo. Minha intuição se confunde muito com paranoia hoje em dia, mas ela sempre foi muito boa para muitas coisas. Tipo descobrir que meu namorado estava quase transando com uma garota no carro do pai dele. E não só isso: Era a mesma garota da festa. A mesma garota. Eles não tinham parado de se beijar no Natal, eles estavam ficando. Se relacionando. Enquanto ele namorava comigo. Por um mês inteiro.

Sobre como eu descobri: Pura intuição somada à jogar verde na hora certa. Mind games, você poderia dizer. Foi ele quem me contou tudo, assumindo que eu já sabia, quando eu não sabia de nada. Todos os detalhes. Como tinha começado, como tinha continuado, tudo. E me quebrou. Eu não sei se você, leitor, já foi traído. Ou como você encara isso. Eu nunca encarei bem (Isso diz respeito aos traumas da infância, nos quais devo chegar em breve) e fiquei completamente sem saber o que fazer. Eu amava L. Ele era meu melhor amigo e meu namorado. Amava mais ele como amigo do que como namorado, visto que nosso relacionamento tinha começado há pouco tempo. Mas amava.

Então... Foi como ser traída por um amigo - o seu melhor - e o seu namorado, ao mesmo tempo. O que mais me machucou, na época, foi ele nunca ter sido franco comigo. Conversado. Eu sempre achei que tivéssemos a liberdade pra isso. Éramos amigos antes de sermos namorados. Para mim era óbvio. Se não desse certo era só terminarmos. Mas ele destruiu tudo ao trair minha confiança, ao mentir pra mim tantas vezes seguidas, ao, enfim, sair pra dar amassos e dizer pra mim que ia trabalhar. Me senti uma idiota e, pior, me senti perdida. Eu amava ele, mas não podia ficar com ele. Porque ele tinha me traído. Eu não tinha como perdoar ele uma segunda vez. Eu já sabia que era algo recorrente.

Eu ainda quase acreditei, até que vi que ele tinha marcado de sair com a garota no dia seguinte da nossa briga, bem cedo, para "conversarem". Aí eu resolvi deixar pra lá. Não superei rápido. Stalkeei e stalkeei por um bom tempo, até um amigo vir e me dizer que não era saudável. Vi ele mudar o status de relacionamento para namorando (com a tal menina). Foi doído, mas foi-se. E passou, como tudo passa, muito felizmente. Mas a paranoia ficou.

Eu não sei se eu me culpei por não ter sido mais "vigilante". Por não ter ficado assistindo a vida de L de perto e perceber os indícios de que ele iria me trair ou sei lá. Talvez seja por isso que eu tenha ficado tão possessiva e imbecil depois disso. Talvez. Mas o L tinha um histórico de já ter traído ex-namoradas e, como melhor amiga dele, eu sabia. Talvez eu só estivesse namorando um cafajeste, mesmo (Hoje tenho quase certeza, visto que, além de tudo, ele sempre procura namorar meninas por volta de oito anos mais novas).

Acho que essa situação possa ter sido o click. E somando ao meu passado - que, em suma, inclui meu pai trair minha mãe todos os dias, me apresentar pras amantes, me fazer mentir pra minha mãe e ainda ficar puto e me abandonar quando minha mãe acabou descobrindo (E nem minha culpa foi, exatamente) - fez eu me tornar o monstro ciumento e doentio que eu sou hoje. Minha visão de homens foi denegrida. E não só deles, mas de tudo relacionado a isso, eu acho? É difícil de explicar exatamente.

Hoje em dia, estou num nível horrível. Paranoico. Louco. Insano. Uma voz na minha cabeça me diz que tudo isso é verdade, enquanto outras 20 gritam que eu não sou a louca da história. A paranoia ajuda a estar sempre alerta, a não "me machucar". É uma maneira de me proteger, também. Talvez exista com esse propósito. Mas destrói tudo. Tudo. Meu relacionamento, eu, como pessoa, absolutamente tudo. O estresse mental que eu passo por precisar me preocupar com meu namorado e cada menina que ele vê, cada menina com quem ele sai, tudo que ele fez que envolva mulheres, é surreal.

E o meu primeiro pensamento para tentar melhorar isso não é "preciso parar de sentir ciúmes" é "preciso que essa garota saia de perto dele". Isso fez com que meu relacionamento passado fosse a coisa mais tóxica já existente na face da Terra. Eu cheguei a literalmente proibir meu ex de falar com algumas garotas. Eu entrava nas redes sociais dele e pegava o celular dele sem perguntar, enfim, comportamento abusivo mesmo. Insuportável pra ele e, acreditem, ainda que eu seja a louca da história, insuportável pra mim. Insuportável ter que vigiar alguém 24/7 para não ficar paranoica. Insuportável. Cansativo. Insuportável.

Em algum ponto eu percebi que as brigas por ciúme eram insuportáveis. Que eu era doente. Possessiva e ciumenta demais, e que precisava de um tratamento. Eu também tenho depressão e tive problemas com automutilação, e os ciúmes eram o principal gatilho para cortes. Até hoje ainda são, apesar de eu estar há um bom tempo sem me machucar, felizmente. Hoje estou há mais de dois anos na terapia e, ainda que eu tenha melhorado muito com relação à ciúme (Talvez dizer "muito" seja até demais, mas pelo menos eu não proíbo meu namorado de falar com ninguém - apesar de, muitas vezes, admito, querer fazê-lo, ainda que eu saiba que é ilógico. Tudo porque eu fico querendo me proteger de sentir ciúmes e a dor e desespero que vem com esses ciúmes), ainda não melhorei completamente. Ouso dizer que nem perto disso.

Eu e meu atual namorado temos uma sinergia e convivência extremamente agradável. Brigávamos sério por coisas idiotas, e hoje em dia paramos. Aprendemos aos poucos a lidar um com o outro ao longo do relacionamento (Que, agora, tem pouco mais de um ano e meio) e, claro, as brigas foram diminuindo. Mas as brigas por ciúmes não. Nunca. Nunca. Na verdade, ouso dizer que, de coisas sérias, a maioria das nossas brigas, provavelmente um número maior que 90%, é por conta de ciúmes. Maior que 97%, vai. Meus ciúmes estão demolindo meu relacionamento.

Às vezes eu não sei se consigo mudar. Ou se quero. Querer, eu quero, na verdade. Né? É. É difícil, eu sei, é cansativo, e eu também sei, mas viver com essa insegurança e paranoias é simplesmente insuportável. Eu odeio. E o pior é que não é assim só pra mim, mas pro meu namorado também que, coitado, mal me aguenta. E eu não posso dizer que ele está errado: Eu teria terminado comigo mesma há muito tempo. Mas a questão é como mudar. Eu achei que estivesse mudando. Fui elogiada por estar melhorando. Quando comparo o meu relacionamento com meu ex pro meu relacionamento atual, vejo que houve melhora. E ainda assim, ainda assim... Talvez eu ainda esteja muito próximo do que eu estava antes. Eu não sei.

Eu não tenho certeza se estou tentando, se só digo que estou tentando e não estou tentando, se estou fazendo progresso ou não. Eu tento me controlar, mas meus ciúmes são tão, tão intensos. Parece que sou injetada com alguma coisa, alguma raiva, meus olhos ficam turvos, eu fico imediatamente com vontade de fazer alguma loucura, é horrível. E é péssimo, porque sei que é fruto de uma possessão que não deveria existir. Eu estou brava por "dividir". E nem é dividir de verdade: É deixar meu namorado sair com as amigas dele. Não pra beijar, pra nada disso. Pra se divertir, como ele faz com os amigOs dele. Era pra ser igual, mas, pra mim, não é.

Eu quero quebrar esse ciclo. Às vezes não quero. Às vezes fico cansada de ter que ouvir, de terem que me explicar por que eu estou errada. De ter que admitir estar errada. De ter que forçar o pensamento - e, às vezes, nem sei se adianta mesmo forçar, se há mudança. Quem saberá? Teoricamente eu, mas não sei. - de que o que eu estou pensando é um erro, de ter que guardar meus instintos e paranoias e perceber que é tudo irreal. Tudo isso somado ao medo de, talvez, somente talvez, acreditar com todo meu coração e me foder de novo. Outra vez. Esse medo deve existir. Deve ser parte disso tudo.

Mas eu quero quebrar esse ciclo. Mesmo digitando isso eu penso "Ok, mas menina X é uma filha da puta" (sendo que ela não fez nada pra mim). É rivalidade feminina, é insegurança, é muita coisa no meio. Vai ser difícil. Eu estou com medo. Eu quero tentar, mas eu estou com medo da falta de resultado. De como vai ser. De tudo. Eu preferia só ser uma ameba e não ter que lidar com nada disso, mas não posso. Eu posso fingir que perder meu namorado não é nada demais em alguns momentos (Pra mim mesma, quando penso em terminar com ele para que ele não sofra mais com os meus ciúmes e que eu não sofra mais sentindo ciúmes), mas é, e eu sei. Porque eu amo ele e nós temos algo bom...

E eu não quero que esse... Esse... Essa coisa em mim. Isso. Eu não quero que essa coisa em mim estrague tudo.