Deitada antes de dormir, penso em laços. Laços que se formaram, laços que se perderam, laços que me amarraram, que se desfizeram. Penso que para formar os laços que formei hoje, me livrei de vários. Que a cada passo me entranho numa linha nova, na linha de alguém, e esta linha passa a afetar minha vida, emocionalmente e de infinitas maneiras mais, para o que der e vier, hoje e sempre, sabe-se deus até onde.

Penso nisso depois de descobrir que uma amiga, ex-vizinha, companheira de madrugadas, chatonilda que me ligava sem parar - e eu ignorava, porque ela era extremamente grudenta -, que era levemente grosseira e ofendia minhas roupas, mas sempre tratava de me deixar comer, aproveitar a internet e viver na sua casa - talvez meio que uma irmã pra mim, por um bom tempo -, está grávida.

Nova como eu, um ano mais velha apenas. Aparentemente não encarando como uma tragédia. Talvez encarando mas não revelando. Não dá pra saber. Nossos laços se foram há muito tempo. Passamos um ou dois anos grudadas, eu dormindo na casa dela por todo o final de semana, comendo lá, brincando com sua irmã, conversando com sua mãe, subindo e descendo a escada da casa. Faz tempo que não faço uma amizade assim, de chegar e abrir a geladeira da casa sem perguntar e sem pensar muito sobre isso. Acho que é algo que acontece principalmente com vizinhos.

Éramos assim. Eu que escolhi me afastar, depois de algumas coisas ruins que ela fez, e não exatamente me arrependo, mas quando vejo a distância entre nós, fico com um pouco de saudades. Sei que é nostalgia apenas. Nossos laços iam se quebrar algum dia, de maneira ou outra. Nossas ideias seguiram caminhos diferentes, nossos gostos, tudo, enfim. Eu lembro dela na minha vida, aí subitamente não lembro mais, porque nos afastamos num acordo mútuo. E uns anos atrás nos adicionamos e nos seguimos em redes sociais, talvez tenha sido até o ano passado. Mas somos pouco mais que estranhas hoje em dia.

É sempre assim com todo mundo. Todo mundo que sai das nossas vidas, quero dizer. Agora minhas companheiras de madrugada são outras duas, que eu chamo de irmãs, e que acabaram formando uma amizade muito mais forte comigo do que eu poderia imaginar. Tenho a sensação de que nada pode nos separar. Mas essa é uma crença até ingênua, apesar de verídica. Porque laços quebram naturalmente. Algumas pessoas você só têm contato pelo meio em que vive. Como a pessoa que senta ao seu lado em determinada aula, ou aquela menina que precisava de ajuda no trabalho. Não sei como é para você. Mas aí você se afasta, às vezes encontra uma rede social e fica "Uau! Aquela pessoa..."

É um tanto quanto surreal. Quando era mais nova eu acreditava que ao morrer, nós pudéssemos assistir um vídeo da nossa vida ou da vida de outros. Lembro que dizia para um ex meu "Assista essa parte do vídeo, você vai entender", porque acreditava muito nisso. Nessa época também falava com deus, ainda acreditava em alguma coisa. Hoje não acredito mais, mas imagino se em algum momento não terminamos numa fase, algo relacionado a nossa memória, que nos faça viver tudo desde o começo de novo.

Quando penso nisso, ou fico feliz ou me assusto. Feliz pelos momentos. Por reviver coisas boas, relembrar pessoas. Mas só de pensar em viver toda a minha infância de novo - e, sendo baseado em memórias, não podendo alterar nada -, me deixa maluca. Viver todo aquele inferno, toda aquela dor mais uma vez me mataria. Não sei se as memórias felizes seriam o suficiente para salvar. Prefiro criar minhas memórias felizes agora, e lidar com as tristes agora, do jeito que eu sei lidar com as coisas hoje em dia. A maior crueldade que você pode fazer é transformar a vida de uma criança num inferno. Ela é nova demais para saber se defender disso.

Mas eu penso, enfim, nesses laços todos. Três dos garotos que já gostei tiveram/estão esperando filhos. Um outro se suicidou. Não sei como estão muitos garotos e garotas que beijei ao longo da adolescência, nem por onde estão. Nunca beijei alguém só por beijar, sempre tive uma conexão com todos, ainda que fosse relativamente rasa, então imagino por onde a maioria está. Se estão felizes, com quem estão, o que estão estudando ou fazendo. Todos fazem parte da minha história, afinal. Não é vergonha lembrar-se. Nunca foi.

Dormirei pensando nesses laços, mas espero não sonhar com nenhum, nem sentir falta por muito tempo. Meu presente é algo que eu escolhi, que eu amo, e que eu valorizo todos os dias. Por isso, ainda que a nostalgia bata, eu posso fechar os olhos e sorrir.

Que os seres humanos e seu poder de resiliência permaneçam intactos nas cutas vidas que têm.