Sexta-feira, 23 horas. Estou deitada lendo meu livro. Minha vida está saudável. Faz um ano e seis meses que não me corto. Checo meu celular por mensagens, e vejo que minha melhor amiga, a pessoa mais adorável que conheço e uma luz na minha vida, enviou uma mensagem.

Conversamos um pouco. Aconteceu algo emocionante na vida dela. Ela não é muito boa com coisas de relacionamento. Rio das coisas que ela me conta, até um pequeno detalhe: - e eu escrevo tudo isso torcendo para que esse texto não seja um presságio, e que eu não o leia algum dia pensando "Foi aqui que tudo começou" - ela me conta que se cortou.

É difícil explicar meus sentimentos. Por um lado achei/torci para que fosse brincadeira, tudo enquanto meu outro lado desesperava. Eu me cortei por quatro anos, e tive problemas com self-harm por 10 anos. Quando eu finalmente saio disso, minha melhor amiga parece estar seguindo o mesmo caminho. E o pior: Eu não sei o que dizer. Eu não sei o que fazer para pará-la.

Digito tudo que minha psicóloga já me disse, dou exemplos de como eu tenho cicatrizes de cortes que não fazem o menor sentido - por que eu tenho uma cicatriz de uma garota que eu senti ciúmes em 2017? por que eu tenho uma cicatriz de quando achei que fosse reprovar em 2014? -, que há outras maneiras de se lidar com os sentimentos, que auto-mutilação é algo sério.

E então eu me imagino, expressão de desdenho, querendo revirar os olhos, sempre que me diziam as mesmas coisas. "Algo sério, pffft. É o meu corpo, eu me corto se eu quiser.", "É a melhor maneira de lidar com as coisas". De repente, fico sem palavras. Eu estou tentando ajudar, tentando dizer coisas que podem tirá-la dessa, ainda mais sendo tanto no início, mas ao mesmo tempo eu sei exatamente como é estar ali. Como é a sensação de não aguentar e rasgar a própria pele. E percebo que, talvez, eu não consiga ajudá-la.

Ela, que pegou no meu braço, sem cerimônias, um dia, e perguntou "Por que você se cortou?" e ficou me encarando enquanto eu ficava absurdamente sem-graça e sem saber o que dizer. Ela, que comemorou meu um ano sem me cortar. Ela, que foi minha primeira amiga de verdade, a primeira que fiz fora da internet e que nunca fez nada pra me machucar. Ela, que se preocupa comigo de verdade, que xingou meus namorados podres, que amaldiçoou as garotas que quebraram meu coração... Se cortando?

Não faz sentido. Não faz o menor sentido. Parece que eu estou vivendo em uma realidade paralela. E ela não está me levando a sério, eu sei que ela não está. Eu digo "É algo sério" e ela diz "É, é, anotado". É horrível ver alguém trilhar o mesmo caminho que você e não poder fazer nada. Tentar, mas saber que provavelmente vai ser em vão. É surreal.

Eu estava preocupada há algumas semanas. A ansiedade dela vinha piorando. Agora moramos há quatro mil quilômetros de distância, então tudo que sei é pelo que ela me conta, e ainda assim eu conseguia perceber: Vergonha de passar na frente das pessoas, vergonha, vergonha, vergonha. Estresse intenso com a faculdade, estresse com pessoas. Conversamos sobre isso, sobre ansiedade. Ela se colocou na lista para atendimento psicológico gratuito.

E agora isso.

É estranho como as pessoas não percebem que estão cavando o próprio buraco para se jogar lá dentro. Era como eu me sentia o tempo todo. Merda, eu até tenho uma poesia sobre isso. E agora eu observo minha melhor amiga fazendo o mesmo. E nem perceber que está fazendo.

Uma parte de mim torce pra que tudo isso seja um exagero, mas se cortar é ir contra a sua auto-preservação, pelo amor de deus. Eu esbarro com fotos de braços cortados e sangue escorrendo no meio das minhas imagens algumas vezes, e sinto calafrios. "Como eu conseguia fazer algo assim? Tem muito mais sangue do que eu pensava, é muito mais fundo do que eu pensava". E agora, eu vejo.

Eu não consigo nem mesmo expressar como eu me sinto. A maior parte de mim quer fingir que nada disso aconteceu e, ao mesmo tempo, estou com medo de ficar muito no pé dela e piorar as coisas. Trazer à tona um lado rebelde, ou qualquer merda assim. Ela gosta de ser rebelde, às vezes.

Isso é horrível. Mesmo tendo passado por todos os estágios possíveis de depressão, eu não sei como ajudar. Passar minha confiança, fazer compreender, parece impossível. Porque a pessoa está num buraco. Eu estava, ela está... Meu deus.

Vou fazer meu melhor, seja lá qual for, e esperar pela merda do atendimento psicológico gratuito lerdo do caralho.

Eu simplesmente não consigo acreditar que isso esteja acontecendo.

Que sejam só essas duas vezes.

Que sejam só essas duas vezes.

Por favor, deus, que sejam só essas duas vezes.