Na hora mais escura, sob a lua mais brilhante, começam a se mover. Todas em uníssono, num encontro marcado há muito mais do que qualquer um pode se lembrar. Lentamente levantam, suas formas tremeluzentes e delicadas, grandiosas e assustadoras. Assim, no mundo a que não pertencem, elas seguem ao seu encontro.

Talvez você pudesse tentar segui-las.

Talvez, em sua insônia, você ouvisse o chamado na escuridão.

Não há conselhos para esse momento. Permita que sua mente decida o que ela mais deseja agora. Afinal, você vai chamar atenção. Assim como todos o fazem. Não pensem que elas deixam de notar umas as outras. É só o que elas fazem.

Um curto passo para fora da cama, uma girada suave na maçaneta.

Um clique.

"Vamos", diz a voz mais verdadeira da sua mente, "O que há para se perder?". Você não saberia ao certo a resposta. Quando se está envolvido no ondular da escuridão, na hora mais escura da noite, nada é preciso. Você ainda pode desistir.

Um passo para fora, o misterioso aroma da noite.

Não parece haver mais ninguém no mundo.

E, ainda assim, você as vê com o canto do olho. Todas correndo, voando, deslizando. Sempre na mesma direção. É claro que você vai segui-las. Por que não o faria? A vida é curta demais para desistir tão facilmente.

A Dança das Fadas prende as pessoas para sempre.

O Canto das Sereias afoga os viajantes incautos.

É claro que você sente medo. É natural que você o sinta. Mas a voz em sua mente está lhe dizendo o que fazer. Lá no fundo, dentro do medo. É bom que ele o paralise. A cada um desses instantes, você limpa sua mente. E então você sente melhor.

Está sentindo o aroma da noite, o suave frescor do escuro mais profundo?

Está sentindo as sombras se condensando a cada passo?

Naquela rua vazia, onde a lâmpada não funciona tão bem. Naquele mundo onde só você está vivo, você ouve o barulho do trem. "Trem para onde?" você se pergunta, mas sua voz interior não vai lhe dar a resposta. Porque o silêncio é a resposta.

Você talvez até possa embarcar no trem.

Mas irá?

Com os olhos semiabertos, como se uma nuvem pairasse no interior de seu crânio. Seus pêlos se eriçam gentilmente conforme um estranho calor percorre sua espinha. Suas mãos e pés estão gelados, mas você os sente quentes.

Talvez ajam garras nas pontas dos seus dedos.

Talvez aja uma cauda no fim da sua espinha.

Se tivesse um espelho agora, você veria sua verdadeira forma. Não essa forma de carne e ossos, pesada e incômoda que você precisa vestir. No momento, você se despiu dela. "Não se preocupe", sua voz interior lhe tranqüiliza, "Pegaremos ela de volta ao amanhecer".

Em toda honestidade, você não queria mais pegar ela de volta.

Nenhum ser gosta de se prender nessa coisa.

Agora despido, leve como uma pluma, você acaba sendo empurrado pelas sombras. Talvez até ouça alguma palavra solta. Mas não há com o que se preocupar, como você bem sabe. Sombras não são hostis.

Acho que você já consegue me ver.

Aqui, essa estranha luz ao seu lado.

Ah, sim, já consegue até ouvir. Está ouvindo delicadas e limpas risadas de ouro, as suaves e graves palavras gentis, ou talvez até aquela ríspida voz lá ao fundo? Estamos todos no mesmo trem. Todos a caminho.

Alguns seres têm presas assustadoras.

Alguns outros têm feições angelicais.

Posso lhe apresentar a todos, se assim desejar. Mas, se preferir, vou apenas lhe descrevê-los. Talvez assim seja melhor. Afinal, você acabou de chegar. Conhecer tantos seres de uma vez não vai lhe dar tempo de aproveitar a festa.

Ah, agora que menciono, obrigado por vir.

É sempre bom encontrar amigos como eu.

Você ouve o trem parar? Hora de descer os degraus dourados. Seguimos em frente, rumo ao centro de toda a escuridão. Lá, nesse maravilhoso momento, estamos todos nos reunindo. E você finalmente é um de nós.

Sabe o que há no centro de todo o escuro?

Uma luz.

Vamos, vamos, não há tempo a perder! Com seu corpo leve, por que não voar? Pule mais alto do que poderia pular e alce vôo sob este lindo luar! Hoje é o dia mais especial para todos nós, e finalmente você também vai celebrar!

A música embriaga os seus sentidos, e tudo se une num só.

As cores escuras e sombrias não tem o ar de melancolia que você conhecia.

Finalmente, aqui estamos. É um magnífico salão. Pessoalmente, gosto muito das vidraças coloridas. Elas até parecem emanar luz própria. Todos esses brilhos metálicos são belos também. Ah, o que acha do candelabro de cristal?

Falando em cristais, ali estão seres cujos corpos são de diamante.

Adoro suas roupas de pedras preciosas.

Olhe em volta, não fique com vergonha! Aquele grande lobisomem não vai caçar hoje. Vê como seus pêlos azulados macios não estão eriçados? Suas grandes patas estão limpinhas hoje, e sua bocarra só se abrirá para belíssimos uivos.

É claro que eles não gostam dos vampiros.

Mas combinamos que ninguém iria brigar hoje.

Oh, vejo que se interessou por alguém. Succubus e Incubus sempre andam juntos, não sei se você já reparou. Talvez sejam os únicos que conseguem ter corpos de carne tão leves. Mas, não me leve a mal, se você for até eles, não vai aproveitar o restante da festa.

O Bicho-Papão carrega seu saco vazio.

Crianças malvadas estão com sorte hoje.

Precisa tomar cuidado com o ferrão dos Escorpiões-Cães também. Ficaria tempo demais desacordado. Mas não se preocupe demais, eles são amigáveis. Ah, está ouvindo esses latidos? Parece que a matilha de Cães Negros encontrou o Cervo Fantasma de novo.

Homens-Pássaro e Homens-Mariposa parecem ter algo em comum.

Ora, não ria. Você também não está muito "humano" agora.

Se vier até esse balcão, poderá ver a piscina maior. Parece que o Polvo Gigante está ocupando o espaço da Hidra de novo. As Serpentes do Mar parecem confortáveis. Está vendo, entre os tentáculos gigantescos? Parecem bem acomodadas.

Cavalos Aquáticos dançam seu balé submerso.

Selkies cantam músicas suaves sob seus brancos mantos.

A Cobra em Chamas não está queimando nada hoje, para nossa sorte. Devia ter visto o que ela fez no último encontro. Talvez seja o Keresh. A companhia de um agradável cervo gigante faz milagres no humor.

Falando em companhia, os morcegos estão sobre nossas cabeças.

Gostaria de conhecer os vampiros?

Mudando de forma, é claro que nos cumprimentam com tanta pompa. Vê as presas naquele sorriso delicado? Só num dia como hoje eles se impediriam de sugar o sangue dos outros. Mesmo assim, melhor tomar cuidado.

Hoje os Pássaros da Morte estão calados.

Como os mortos haveriam de morrer?

Ao entrar novamente, cuidado com o Bicórnio e o Chichevache. Um mais gordo e o outro mais magro, mas ambos bem alimentados. Não, eles não vão comer você. Já lhe disse, hoje todos nós viemos aqui só para nos divertir.

Gatos, Raposas e Tanuki correm silenciosamente sob nossas pernas.

Hienas com um rosto de homem repousam no canto mais próximo.

Sim, eu sei, está muito barulho agora. E, é claro, sozinho no meio disso, você já está começando a se incomodar. Mas não ouse se arrepender. Não há nada pior do que isso. Prometo que vou fazer tudo ficar mais divertido num instante.

Galopes e sons de correntes trazem alguns Cavaleiros Negros.

Quase todos eles têm cabeças.

Aqui estão. Os Coelhos-Esquilo com chifres de antílope, montados no Behemoth. Não é adorável ver um monte de coelhinhos sobre um hipopótamo? Com eles, anuncia-se o início. Nessa festa, os Seres Mágicos são poucos, então não espere danças eternas.

Os Fantasmas se acomodam em seus lugares.

A música vai começar.

O som que faz seu corpo todo levitar. Tremendo numa dança onde você não é nada mais do que fumaça. Sente a virada nada delicada, de dentro para fora, que acaba de dar? Foi tão fácil quando um estalar de dedos.

Se você pudesse descrever essa sensação, como o faria?

A sensação de ver a escuridão dançar.

Pés levíssimos para a criatura mais pesada. O mundo a sua volta está mais borrado do que antes, e ainda assim parece mais real do que nunca. Numa bizarra mistura, você sente o gosto da música e o som do suor, ouvindo a dança enquanto observa a cor das notas.

As cores não são tão escuras agora.

As suas cores são vibrantes.

O cheiro do vermelho, o som do laranja, o frio do verde, o calor do violeta, o sabor do preto, enquanto tudo o que se vê é branco. Sente essa mudança na velocidade, tomando todo o seu ser? Espere aí, qual é o seu ser?

Tudo e todos se unem nessas notas tão especiais.

Os monstros mais assustadores nas músicas mais espectrais.

E o que é você, no meio de tudo isso? Certamente não um mero espectador. Juntamente comigo e com todos, você nos acompanha nesse momento. O único momento da sua vida. E talvez a vida não seja tão clara quanto você imaginava.

Obrigado por dividir conosco a sua escuridão nesse seu momento.

Tenho certeza que não será o último.

Quando seus olhos se abrem na suave luz do dia, um dia que amanhece cinzento, o que você sente? Encontrar a si mesmo em casa, no calor de sua cama, vestido em seus pijamas... Será que você está mesmo vivo?

Você só vai descobrir quando viver.

Mas nós sempre saberemos.

Afinal, você também estava lá.

Aguardamos sua presença na próxima vez.

Na Dança Macabra.