21 de agosto

Percebi que não tinha um arquivo descrevendo como foi minha fuga de casa. Em lugar nenhum. Foi uma descoberta repentina, quando eu estava tentando descobrir quando comecei a escutar o álbum Threads, do Now, Now, que era meu álbum favorito em 2014, na época da minha pior depressão.

Procurei por uma data, e ao vê-la, me questionei mentalmente se aquilo era antes ou depois da minha fuga de casa... E não consegui lembrar. Não conseguia lembrar quando eu fugi de casa. É uma memória tão intensa. Sempre foi a memória. O momento decisivo. A explosão, a mudança, a separação entre uma vida e outra. E eu não consigo lembrar que dia que aconteceu. Que mês que aconteceu.

Então, desesperada, comecei a procurar por textos. Porque eu sempre escrevo tudo. Sempre. Minha memória é ruim, além de tudo, então eu costumo me guiar por textos. "Ah, em 2013 eu estava desse jeito...", eu penso, lendo um texto que escrevi em 2013. É assim que minha memória funciona, lendo coisas... Mas não há textos. Não consegui achar nada sobre a fuga. Nada, nada, nada. Apenas menções dela, já em um futuro relativamente distante.

Eu sinto que eu estou louca. Eu sinto que eu escrevi. Mas talvez só tenha ficado tão vívido na minha mente que eu esqueci completamente. Ou talvez alguma coisa dentro de mim me fez esquecer de escrever, para que eu pudesse escrever. Eu não sei. Mas não faz sentido. Eu tenho que ter escrito. Eu tenho que ter escrito.

Eu consigo sentir, na ponta da língua, que eu escrevi em algum lugar, mas não consigo achar. Eu já não sei mais se escrevi de verdade na época, ou se só mencionei tantas vezes em tantos textos e para tantas pessoas que eu achei que tivesse escrito. Não há notas no meu iPod na época, não há nada nas minhas redes sociais, não há textos aqui. Será que eu tentei tanto assim apagar esse pedaço da minha história? Parece impossível, mas aparentemente foi o que aconteceu.

Fascinante. Absolutamente fascinante. Quebra minha mente. Realmente quebra minha mente pensar que uma parte de mim se escondeu tão perfeitamente para não me machucar. Logo eu, que me conheço tão bem. Eu. Eu que sou eu. Escondendo coisas de mim. Simplesmente insano.

Mas eu não quero esquecer. Eu quero lembrar com clareza. Quero poder pegar algo depois e ler, em detalhes, tudo que aconteceu. Agora as coisas já não têm mais os detalhes que tinham antigamente, mas ainda assim.

Dia 26 de setembro de 2014 eu escrevi que no dia 21 de agosto aconteceram algumas coisas que foderam toda a minha vida. Eu não especifico o quê, mas também falo que terminei de ler Insurgente... E eu levei Insurgente na minha fuga. Então tudo me leva a crer que minha fuga foi no final de agosto. Eu tinha certeza que tinha sido no final de agosto ou de setembro, mas não conseguia lembrar quando.

Estou esperando um amigo checar conversas antigas pra ver a data correta, mas ele está me enrolando. Na época que fugi de casa, criei um perfil falso no Facebook pra poder conversar com os amigos sem que minha família (ou a polícia) tivesse acesso às minhas conversas. Pensando agora, eu era bem esperta. Bom, eu já tinha 17 anos. Parece que foi há muito tempo – e foi -, mas eu não era tão jovem assim.

Meu amigo me confirmou, e eu estava certa. 21 de agosto foi o dia horrível, e 22 de agosto foi o dia que eu fugi de casa. Demorou tanto que até estou com preguiça de escrever as coisas agora, e pensando em deixar pra depois.

Mas aqui estamos.

Eu estava falando muito com o garoto pelo qual eu era apaixonada na época. Ele era uma má influência, eu acho. Por falar em cortes. Em machucados. Quando eu já estava quebrada. Ter alguém tão próximo que fazia todas essas coisas me deixou mais corajosa para fazê-las também... O que não foi bom pra mim.

Mas eu quebraria de qualquer jeito.

Eu já não estava bem nessa época. Eu não queria voltar para casa, para a briga dos meus pais, para o inferno que era estar com eles dois. Meu pai dirigia como um louco quando me levava para a escola, batendo o carro de propósito e indo o mais rápido possível a todo momento. Não é um exagero. Há alguns meses atrás tive que andar de carro com ele e, mesmo ele estando melhor, eu ainda fico aterrorizada. As outras pessoas da família nem sequer tem coragem de andar com ele.

Mas em 2014, quando ele era pior, eu tinha que andar com ele todo dia. Agora ele tem um carro próprio, e não o bate, mas na época ele não se importava. Lembro de ele arrastar o carro de propósito em um outro carro vermelho para que a pessoa saísse do caminho. Ele fazia coisas desse tipo sem hesitar, como se estivéssemos em um videogame. Uma vez ele acelerou para bater de propósito com um carro que saiu de uma esquina quando a prioridade era do meu pai. O retrovisor do cara caiu no chão, e o nosso também. Minha melhor amiga estava no carro. Era algo absolutamente normal para o meu pai fazer essas coisas.

Com essa vida todos os dias, era meio óbvio que a minha ansiedade só pioraria. As brigas em casa, então, me matavam. Lembro de meu pai jogar feijão quente na minha mãe. Lembro de eles jogarem cadeiras e outras coisas pela escada, quase acertando minha cabeça. Vivíamos numa loucura.

Depois que a máquina de lavar quebrou, ninguém se importou mais em lavar as roupas. As deixávamos nos sofás da sala, apodrecendo. Eram infinitas. Eu lavava meu uniforme escolar todos os dias na mão, e o resto das minhas roupas era jogada por aí. Quando o meu sapateiro (onde eu atirava todas as roupas sujas no meu quarto) lotou, eu comecei a jogá-las no chão. Houve certo ponto em que não conseguíamos ver mais o chão ali. Eram apenas alguns pequenos espaços em que eu pisava desajeitadamente até chegar na cama. Eu pulava da cama para a cadeira do computador sem encostar no chão, também. Tinha medo de baratas. Uma vez deixei um copo de suco de manga no chão por algumas horas durante o dia e, quando olhei, tinham duas baratas nele.

Enfim. Estávamos todos doentes. Na escola a vida não era muito melhor. As coisas em casa só me desmotivavam, é claro. Lembro de ter ido para minha cidade natal, onde moro hoje, para passar as férias, e implorado para meus avós não me mandarem de volta para onde meus pais estavam. Não sei se foi nessa época, nas férias de meio ano, ou seis meses antes. Mas lembro de eu chorar desesperadamente na cama dizendo que não queria ir e minha tia ter que me acalmar. Foi um dos meus primeiros pedidos de socorro.

Na escola, eu tinha passado recentemente por um pequeno inferno também. Eu me apaixonara por uma garota. A história é longa, e não lembro se já a contei aqui. Talvez mais uma história que não está registrada. Engraçado. Uma "amiga" minha se aproximou dela do nada, mesmo sabendo que eu era apaixonada por ela. Foi exatamente depois de eu dizer que a amava que ela se aproximou, na verdade. O paralelo com uma amiga de infância quase me faz sorrir de desgosto. Mas enfim. Quando eu a questionei sobre isso, a amiga de 2014, ela disse que não queria estragar nossa amizade e que se afastaria da menina. E então disse para a menina que elas não poderiam se beijar porque eu não deixava.

É claro que a menina ficou com raiva de mim. Não nos falávamos muito – eu tinha pedido para um amigo tentar fazer ela falar comigo numa festa e ele, bobo, disse que eu queria beijá-la, apenas para ela vir me dar um fora mais tarde, dizendo que estava envolvida com a ex e que por isso não podíamos nos beijar. Ela permaneceu por perto por um tempo depois disso, vindo para meu lado diversas vezes, o que me fez pensar que talvez ela quisesse que eu tomasse a iniciativa e a beijasse. Minhas amigas achavam o mesmo. Mas não consegui fazer nada, e esperei pela próxima vez.

Que não houve, é claro. Nos falamos algumas vezes, mas eu era tão tímida. Tudo que conseguia fazer era escrever histórias com ela. Devem estar todas em algum lugar desse HD. Poesia também. Ela foi a única garota por quem já me apaixonei. E ela me odiou. Depois do que minha "amiga" disse para ela, ela me mandou mensagens me perguntando "quem eu era para mandar na vida dela" e que "ela já tinha me dado um fora". Machucou. Mas não tinha a ver com ela, tinha a ver com como eu me sentiria com a minha amiga beijando a menina que eu gostava, e lhe disse isso. Mas é claro que ela nunca mais falou comigo, mesmo tendo dito que entendia. E éramos da mesma sala.

Desde essa vez as coisas ficaram esquisitas. Sentávamos perto ainda, por causa do mapa de sala. Entrar na sala de aula com aquele ambiente era cada vez mais excruciante. Meu melhor amigo da época, que se tornará extremamente importante nesse texto, também tinha saído da escola, o que me deixava apenas com uma amiga que era popular demais para que eu pudesse ficar com ela o suficiente. Eu me sentia sozinha em casa e na escola. Sem falar do bullying. No primeiro ano do médio fiz as amizades erradas e, ao perceber que elas me afundariam – eu estava sendo feita de capacho -, me afastei, despertando a fúria de uma garota que mais tarde eu descobriria ser extremamente vingativa e maldosa, e que falaria mal de mim e espalharia boatos sobre eu gostar de mulheres e demais coisas por todo o ensino médio.

Meus pais. A escola. A menina. O bullying. O carro. A pressão do terceiro ano. Eu estava sufocada de todos os lados. Minha mãe tinha, no ano anterior, deixado de pagar minha psicóloga – eu tive que pedir para minha tia pagar a dívida que minha mãe tinha criado - e eu tive que deixá-la. Fiquei lá por seis meses. Entrei no meio de 2013, quando comecei a pensar que eu enlouqueceria, e saí no final do mesmo ano. Não é de surpreender que eu tenha surtado em 2014 também. Tudo isso acontecendo e sem um acompanhamento psicológico. Me surpreende eu não ter me matado. Tenho que admirar minha força.

Comecei a faltar às aulas, é claro. Era muito mais divertido ficar no computador o dia todo, esquecendo do mundo do lado de fora. Eu jogava, ouvia música, assistia à meus animes e filmes e o que quer mais que eu quisesse. Não tinha hora pra dormir, não tinha hora pra acordar. Quando as aulas voltaram em julho, eu mal ia a elas. Uma carta do futuro que enviei para mim mesma através do futureme descreve bem meus sentimentos da época:

"[...] Hoje é o último dia de férias (minhas férias, já que faltei a semana passada inteira) e eu estou com medo de voltar pra escola. Com medo daquelas meninas odiosas que falam mal de mim sem motivo algum, com medo das amigas que na verdade não são amigas e que não ligam pra você (pelo menos você também não liga pra elas). Com medo de voltar para aquele cenário desastroso e que eu odeio em que tenho que apresentar trabalhos na frente da sala, fingir ser social e tentar tirar boas notas mesmo que a escola me desmotive completamente.

É assustador. Eu não quero ir. Não mesmo. Eu deixei de me importar em passar de ano, em conseguir alguma coisa da vida, em trabalhar e em ser alguém. Não sei se vou passar de ano esse ano. Não sei o que vai acontecer. Estou desmotivada. Você sabe, e provavelmente vai rir de mim ou chorar comigo enquanto estiver lendo isso.

Você é insegura, Maah. Pelo menos atualmente você é. Você tem vergonha da sua aparência, de falar na frente dos outros, de expressar a sua opinião."

Eu estava assustada com essa volta às aulas. Não consigo lembrar à quantas vezes eu ia, mas era o suficiente para meus dois amigos mais próximos se preocuparem comigo. Lembro de dizer que não me importava com nada e eles ficarem preocupados, mas não entenderem pelo que eu estava passando. Éramos todos tão jovens. Quando penso assim... Éramos muito, muito jovens. Para todos esses sentimentos e confusão. Parece algo de eras atrás.

Enfim. Foco. Meus pais já não estavam ligando muito para nada também, então acho que eles não se importavam tanto com as minhas faltas. Talvez falassem algo, mas eu dava de ombros, e ficava por isso mesmo. Lembro de eu não levar a sério o professor de Física, que me pediu para parar de ler no meio da aula e me fez uma pergunta. Eu parei, respondi à pergunta dele com um "não sei", revirei os olhos e retornei à leitura. É engraçado como, se eu pensar bem, eu fui o perfeito clichê da aluna nerd que subitamente não liga mais para nada.

Depressão é algo tão real. Quase tangível.

Um dia, lembro de ter dito pros meus amigos que eu ia desistir de me formar naquele ano, e que provavelmente era meu último dia. Meu amigo, o bobo, disse "quê isso, menina". Uma menina que ouviu também pareceu confusa. Só lembro que ela tinha cabelo extremamente liso e uma voz irritante. Na minha memória, ela lembra uma porta.

Na internet, meu amigo me motivava a sair daquela situação. Pensando em como tudo era horrível, talvez ele não fosse tão má influência assim. Mas ele tinha depressão também, então nós dois só nos afundávamos. Na época, acho que eu ainda não tinha certeza se eu tinha depressão. Eu não me cortava ainda. Os cortes começaram depois da fuga. E a minha primeira tentativa, infantil e inútil, foi exatamente no dia 22.

O dia 21 de agosto de 2014 foi meu último dia frequentando a escola normalmente. Deve ser estranho você ser uma pessoa que não seja eu e ler isso. O que será que você estava fazendo no dia 21 de agosto de 2014? Enquanto eu passava por tudo isso? É divertido pensar como todos estamos em realidades diferentes, ainda que no mesmo mundo. Linhas conectadas aos nossos dedos. Engraçado.

À noite desse dia, do meu último dia, depois de passar o dia conversando com esse amigo, o amigo que era uma influência ruim, eu resolvi falar com a minha mãe. Eu sabia que eu estava muito mal, que eu precisava de tratamento. Eu tinha chegado ao meu limite. Lembro de descer e sentar com ela no sofá. Talvez tenha deitado com ela. Mas lembro que estávamos no sofá preto da sala. E eu lhe disse que estava mal e que continuaria a escola no ano que vem, que era para eu procurar ajuda.

Minha mãe ficou perdida, é claro. Ela sempre foi o tipo de mulher que finge que as coisas estão perfeitas, mesmo quando não estão. Quando ela e meu pai foram na minha última sessão com a psicóloga – um acidente e uma coincidência, ainda que a psicóloga tenha pedido por aquilo. Meio estranho como aconteceu, com eles me dando carona e eu lembrar assim que chegamos do pedido da minha psicóloga. Subconsciente, talvez – ela fingiu que não havia nada de errado comigo e que não entendia do que minha terapeuta estava falando. Meu pai chorou e disse que tinha que ser melhor comigo, e que tinha me machucado muito na infância.

Tudo isso seis meses antes.

Minha mãe, de volta no sofá preto, disse para eu acreditar em deus. Confiar em deus que ele me faria ficar melhor, ou qualquer coisa assim. Então eu disse "Então mãe, na verdade eu não acredito em deus". Eu nunca tinha dito a ela. É estranho pensar nisso hoje, quando toda a minha família sabe que sou ateia, quando não é um segredo para ninguém. Mas na época, era algo grande. Eu estudava em um colégio católico. Minha família materna é extremamente religiosa. Eu não sabia o quanto minha mãe se importaria porque ela não era tão conectada com toda a coisa da religião. Descobriria em breve, entretanto.

Ela me disse para falar para meu pai, e eu fui. Subi até o quarto dos dois, deitei na cama e falei para ele. Ele perguntou "Sério, filha?", e eu disse que sim, que estava muito, muito mal. Ele pareceu chateado, mas disse algo como "Então tá, né", ou qualquer coisa do tipo.

Voltei para meu quarto extasiada. Lembro de abrir o chat com meu amigo e dizer que tinha conseguido. Às vezes esqueço dessa parte, então é bom escrevê-la. O quão feliz eu estava por conseguir falar com eles. Porque eu estava com tanto medo. Demorou muito para eu conseguir admitir para mim mesma que eu realmente não conseguia mais continuar daquele jeito. Transmitir para eles isso era assustador. Largar o colégio era assustador. Por mais que eu não quisesse mais ir, tomar esse passo e falar para eles desse passo era assustador. Eu lhes tinha mostrado um lado vulnerável. Eu estava vulnerável. Eu estava quebrando.

Minha vulnerabilidade se estendia ao meu corpo. Eu costumava andar seminua pela casa. Estranho pensar nisso também, agora que preciso estar vestida a todos os momentos no meu lar novo. Mas na época era normal. Eu estava só de calcinha nesse dia. Vulnerável.

Acho que eu ainda estava contando sobre como consegui falar para eles para meu amigo quando, num susto, a mão de meu pai agarrou meu notebook agressivamente, desconectando-o de tudo. Ele disse alguma coisa sobre como a culpa era do computador por eu estar daquele jeito. Eu virei para ele dizendo "não" ou "para", não sei. Mas a mão dele já estava me batendo.

Ter meu notebook, meu único lugar de paz, minha segurança, tirado de mim... Não. Meu pai levava o notebook e gritava coisas sobre eu "ter deixado minha mãe chorando na cama" enquanto a outra mão dele me batia. Nem sei como ele me bateu. Só sei que ele estava me batendo e sendo agressivo comigo. Só lembro de eu gritar para ele devolver meu computador e ele seguir pelo corredor.

Quando chegamos ao quarto dele, depois de eu segui-lo o caminho todo enquanto ele me empurrava e me batia, lembro de vê-lo. Ele virou para mim, de frente, e parecia um monstro. Ele estava vermelho, com uma expressão de ódio, e parecia tão bravo que na minha memória tem vapor saindo de sua pele. Os olhos dele, tom de mel, pareciam brilhar verdes. É uma cena assustadora. Eu nunca o tinha visto daquele jeito. Ou nunca tinha visto ele direcionar tanta raiva na minha direção.

Eu sempre soube que meu pai era um babaca. Mas ele não era um babaca comigo. Ou era, mas ele não era agressivo comigo. É. Ele era babaca, mas não era agressivo, nunca. Eu achei que ele nunca fosse me bater.

Vendo-o daquele jeito, eu gritei "Por que você tá me batendo?". O olhar mais confuso passou pelo rosto dele, como o de uma criança. Ele não sabia a resposta. Ele disse qualquer coisa sobre eu calar a boca ou algo assim. No caminho eu tinha revidado e batido nele de volta também, e ele tinha dito coisas sobre "como eu tinha coragem de revidar e bater no meu próprio pai".

Fui empurrada de volta para o quarto. Eu estava dolorida, sem meu notebook e confusa, frustrada e com raiva. Minha mãe apareceu na porta para dizer que meu pai estava certo. Certo em me bater?, eu pensei, e então comecei a gritar. Socava e chutava o armário e gritava, gritava, gritava "não, não, NÃO!". Eu berrava como uma louca, ignorando minha mãe, encarando-a de vez em quando, desafiando-a. Eu queria que algo mudasse. Eu não conseguia viver naquela realidade.

Meu pai apareceu, me mandando calar a boca. As palavras dele ainda me assombram. Não é exagero. Sempre que fico ansiosa antes de encontrá-lo, lembro deste momento. Não sei se ele apontou o dedo na minha cara ou se me jogou no chão ou se fez os dois ou se não fez nada disso e sequer me tocou nessa hora. Mas lembro das palavras:

"Se você continuar gritando, eu vou quebrar os seus braços e as suas pernas e te deixar toda mijada se doendo no chão."

Vindo de um cara que bateu na minha mãe por anos, que batia o carro de propósito e que tinha acabado de me bater, era plausível, não? E o jeito que ele falou... Ele era a autoridade ali. Eu não tinha dúvidas de que ele faria o que quer que precisasse para eu ficar quieta. Eu não duvidava que ele me batesse de novo, que ele quebrasse algo para me ensinar uma lição. Eu não duvidava de nada.

Até hoje, quando estou ansiosa antes de encontrá-lo, tenho medo do meu pai me matar.

Minha mãe me olhou por alguns segundos, eu acho, e então foi embora. Eu fiquei no chão, ou encostada no armário, não sei, me lamentando. Eles me deixaram sozinha. Deitei na cama chorando copiosamente e, quando consegui parar, analisei o dano que eu tinha sofrido. Os roxos ainda não tinham começado a se formar, eu acho, mas minha barriga tinha um corte enorme, já arroxeado, que eu não sabia como meu pai tinha conseguido fazer. Meu corpo inteiro estava dolorido, e meu emocional destruído.

Com o celular, contei para meu amigo o que tinha acontecido. Ele disse que eu precisava ir embora. Acho que ele já tinha dito aquilo algumas vezes antes, mas dessa vez eu concordei. Talvez isso tenha sido um pouco depois, eu não sei. Fiquei deitada desse jeito, com dor e chorando, por um bom tempo, até querer ir ao banheiro.

Quando abri a porta do quarto, meu pai escutou o barulho e saiu para ver o que eu estava fazendo. Ele estava em uma ponta do corredor e eu na outra, mas assim que eu o vi, me encolhi e comecei a tremer, nervosa. Trauma.

Ele, como sempre, já estava no modo doce de novo. Era a mesma coisa quando ele batia na minha mãe também. Primeiro, chutava a coluna dela e socava seu rosto. Depois pedia desculpas, chorava e fazia coisas para agradá-la. Estava fazendo a mesma coisa. Ele disse "Poxa filha, precisa de tudo isso?" e então veio me abraçar. Eu nem consegui reagir. Só tremia.

Ele chamou minha mãe, eu acho. Não sei. Eu tinha colocado uma roupa porque estava com medo de sair na frente dele seminua de novo. Os dois vieram deitar comigo. Não consigo processar nada muito bem dessa hora. Minhas memórias não funcionam. Só sei que eles pediram para ver meus machucados, provavelmente, e ficaram surpresos quando viram o corte. Minha mãe saiu para pegar uma pomada que não tinha nada a ver com cura de machucados – meu pai apontou isso, e os dois riram. Minha mãe ser estúpida era meio que uma piada em casa – e quando voltou, a passou na minha ferida.

Os dois então disseram que no dia seguinte iriam à minha escola para conversar com a diretora e ver o que ela podia fazer sobre a minha situação. Eu lembro de só conseguir pensar "Ah, se vocês tivessem feito isso antes". Eu fingi sorrisos e fingi perdoá-los. Por medo. Mas na minha cabeça tudo que eu conseguia pensar era "Eu vou fugir, eu vou fugir, eu vou fugir".

E, no dia seguinte, eu fugi de fato.