Capítulo Décimo Quarto

"Feridas da batalha"

Continuando a seguir pela borda dos prédios abandonados vizinhos ao clube, David levou poucos instantes para notar que eu ficara para trás.

Com uma mão colada à parede e a outra apoiando a escopeta sobre a perna, ele voltou a cabeça com um semblante impaciente, ao mesmo tempo carregado do máximo de empatia que a cautela lhe permitia sentir.

– Então você já se lembrou? – presumiu, transparecendo refletir o que faria caso fosse ele a entrar num surto assassino e irrefreável em meu lugar.

A resposta a Hawkins foi o silêncio; minha consciência – a qual eu jamais agradecera tanto ter recobrado – incapaz de formular palavras que descrevessem o assombro e horror diante do que eu acabara de fazer.

– Relaxe, haverá tempo para discutirmos isso depois... – David procurou aliviar minha angústia, já prosseguindo ao longo da parede. – A preocupação atual é evitarmos a FPN. Será muito melhor explicar o que deu em você lá dentro a mim e Sarah do que a um dos interrogadores deles!

Enquanto eu questionava se qualquer interrogador conseguiria me torturar depois do frenesi de violência que proporcionara – a perspectiva de ver o jogo virar me satisfazendo na mesma proporção que o gosto por aquilo me apavorava – chegamos a uma esquina do prédio, voltados para a mesma estrada em frente à fachada da casa noturna, estando cerca de vinte metros à sua lateral.

Diversos jipes e até um caminhão da FPN acabavam de estacionar no local, suas forças mobilizadas tão rápido decerto por já estarem de prontidão devido à confusão no Soleil Levant, ali atraídas por um provável pedido de ajuda do barman. Soldados de boinas, fardas camufladas e AK-47s deixavam os veículos, dividindo-se entre adentrar bruscamente o clube ou estabelecerem um perímetro nos arredores.

Acompanhando a ação atrás de David, pude vê-los despertar o segurança que eu desacordara, passando a indagá-lo aos gritos tão logo abriu os olhos; ou cruzarem a pista rumo ao vampiro ainda jazendo junto ao muro com uma estaca no coração, todo um instante de expectativa me consumindo conforme torcia para que os combatentes não removessem a madeira de seu peito... O que felizmente não fizeram, embora se abaixassem para examiná-lo com maior atenção.

Deixando o amparo da parede, Hawkins avançou até um dos jipes parados, guardado por um soldado solitário à direção. Seus companheiros estarem voltados em direções contrárias e a pouca luz projetada sobre aquele ponto em particular rapidamente me levaram ao entendimento do que o zâmbio pretendia – tranquilizando-me também a segui-lo.

Poucos passos depois e uma coronhada da espingarda à cabeça, o inimigo não representava mais perigo, sendo cuidadosamente removido do banco por David. Tão rápido quanto silencioso, contornei o jipe para me alojar no assento do passageiro, a tempo de ver Hawkins obter as chaves de um dos bolsos da farda do sujeito.

Após o momento crítico da partida – no qual os soldados distribuídos pelo exterior, ouvindo os primeiros relatos consternados dos colegas que haviam entrado no bar, ficaram distraídos o bastante para não se incomodarem conosco – já nos afastávamos pela estrada no sentido contrário a Asiäkulä, David só ligando os faróis depois de o Le Ronronnement du Jaguar ter ficado o suficiente para trás.

– Eles já devem ter achado o companheiro deles caído... – observei, voltando-me ansioso ao clube e seu neon cada vez mais distante.

– Com certeza, mas não virão atrás de nós antes de limparem aquela bagunça! – Hawkins replicou calmo. – Um massacre como esse vir a público colocaria o governo Massi em péssimos lençóis. Uma rachadura no controle dele sobre a Nagônia. A morte de estrangeiros favoreceria o discurso da oposição... Daria munição até mesmo às ambições de intervenção de seu país, Bruce. A ironia é serem cadáveres russos.

O jipe percorreu meio quilômetro, sacolejando aqui e ali em alguns buracos sob o céu noturno que, livre da poluição luminosa urbana, estava forrado de estrelas constituindo centenas de testemunhas de nossa fuga, até David perguntar:

– Você ainda está com o rádio?

Chequei minha cintura. Apesar da intensidade da luta no bar e minhas vestes encharcadas de sangue, o aparelho continuava intacto.

– Sim! – respondi surpreso.

– Contate Sarah e transmita as próximas instruções – sério e pragmático, Hawkins aparentava perscrutar a pista em busca de ameaças. – Lembra-se da possibilidade de pior cenário? Pois bem... este é o pior cenário.

Assenti, pressionando o botão no comunicador; mesmo não me sentindo pronto para falar com Sarah após ter me descoberto um monstro capaz de partir pessoas em pedaços sem esforço.

– Bruce? – a voz dela veio apreensiva através da transmissão, levemente distorcida pela estática.

Levei segundos para afastar os espectros soltos em meu íntimo e replicar:

– Sou eu. Ouça... As coisas não saíram como o planejado. Fomos expostos aos russos. Encontramos Maneater no clube, mas ela escapou. Eu e Dave estamos bem, dirigindo-nos ao ponto de encontro fora da cidade para evitar a FPN. Pela estrada noroeste. Você lembra onde é?

– Sim, sim, tenho as coordenadas – o timbre de Sarah tornou-se mais urgente. – Estou indo para lá!

– Consegue deixar Asiäkulä sem problemas?

– O toque de recolher já está valendo, mas com as roupas que Hawkins arranjou e a vantagem da escuridão, conseguirei ao menos abrir alguma vantagem. Você sabe que ficarei bem.

Meu lado racional tendia a acreditar. Ela, afinal, estava no prédio da embaixada dos Estados Unidos no Líbano quando boa parte dele fora destruído por um carro-bomba em 1983 – sendo inclusive sua atuação durante e após o atentado, ajudando a descobrir que os mandantes não pertenciam ao grupo "Organização da Jihad Islâmica" que o reivindicara oficialmente, responsável por seu atual posto na CIA com tão pouca idade. Segundo Sarah, os superiores no Departamento de Estado a haviam afastado da investigação antes que algo realmente concreto surgisse sobre os reais perpetradores, a nova carreira surgindo como uma espécie de compensação. De todo modo, ela seguia viva e ativa...

Mesmo com meu lado emocional insistindo que ela corria constante perigo e que eu precisava protegê-la... O exato sentimento por trás de minha transformação naquela coisa minutos mais cedo.

– Está mesmo tudo em ordem com vocês? – Sarah demonstrou que a preocupação era mútua, talvez por meu repentino silêncio fazendo tais reflexões.

– Sim... Porém precisaremos conversar sobre várias coisas ao nos reunirmos – minha visão se perdeu nas sombras da noite por um instante. – A situação se complicou mais do que prevíamos.

– E não é essa a tendência desde que chegamos aqui? – ela rebateu sarcástica. – Levarei um tempo até o ponto de encontro por estar a pé, mas me esperem. Chegarei no máximo perto do amanhecer.

– Entendido. Cuide-se, Sarah. Desligo.

O rádio voltou ao compartimento em meu cinto, os pensamentos nublados pela incerteza procurando alguma dissipação no ar leve da noite. A postura de David, no entanto, fazia-o parecer uma estátua rochosa com as mãos ao volante; a tensão latente que nele permanecia desde meu surto no clube impedindo-o de sublimar seus receios como eu.

– Sei que deve estar cheio de perguntas... – comentei.

– Nem tanto – ele balançou negativamente a cabeça, sem virá-la para mim. – Obtive algumas certezas novas, na verdade. Como por exemplo nunca mais te provocar. Nem que seja de brincadeira!

Apoiei um braço na porta do jipe, bufando ao constatar como seria difícil fazer Hawkins recuperar a segurança quanto a um aspecto de mim que nem eu mesmo ainda compreendia.

– Não sei explicar direito o que ocorreu lá... Eu só senti raiva quando a vampira ameaçou Sarah e Gleb começou a me bater. Deixei que o ódio e o impulso de reagir tomassem meu corpo... Ele pareceu mais e mais forte a cada golpe que recebia!

– Então aquele cara era mesmo o major que supostamente havia morrido pelas mãos de Maneater? – David entortou o rosto em desaprovação. – Pelo que ele mostrou, foi ressuscitado como vampiro assim como os demais... Todos diferentes de você. Seja lá o que for, tornou-se outra coisa, Goldfield. Algo além. E muito mais forte que um bando inteiro junto daqueles malditos. Entende o que isso significa?

– Que represento uma ameaça a qualquer pessoa que esteja comigo... – murmurei pesaroso. – Quando as lembranças do ataque vieram... trouxeram com elas a noção de que eu também tentei partir para cima de você, mesmo sendo meu aliado. Pode achar isso uma vantagem estratégica, Dave, porém não quero sequer cogitar ter um surto desses de novo. Você pode não sobreviver... Nem Sarah.

– Realmente não é algo que eu gostaria de ver. Principalmente seus olhos.

Breve quietude, marcada por mais um solavanco do veículo, antecedeu minha curiosa reação:

– Meus olhos?

– Obviamente você não pôde se encarar enquanto estava daquela maneira, mas a mim e aos outros que o cercavam... – a pausa de Hawkins denotou ainda estar chocado com o que vira. – Ficaram nítidos seus olhos extremamente irritados, os nervos marcados em vermelho, pulsando como se fossem engolir as pupilas. Certa vez estive num destacamento que foi emboscado com um agente químico, o composto atacando primeiro os olhos antes do resto do corpo. O efeito em você foi igual... os globos injetados de sangue até a cor branca praticamente sumir!

Fizemos uma curva antes que ele completasse:

– Mas isso pode, sim, ser usado para liquidar os vampiros que restam. Caso aprenda a controlar.

– É perigoso demais...

– Será mesmo? Quero dizer, é um poder incomensurável que possui agora, o que fez no bar deixou isso bem claro. Porém não prestou atenção na fala de Maneater, no susto quando ela deu conta? A "substância" está em você... Sua condição foi concebida justamente para ser convertida em arma, Bruce. E para mim é evidente que isso era o que Slavin escondia e esses vampiros estavam atrás o tempo todo!

Os faróis do jipe iluminaram uma caminhonete abandonada à beira da estrada, lataria toda consumida pela ferrugem, enquanto minhas suspeitas eram também oxidadas o bastante para finalmente fazerem sentido, merecendo ser partilhadas em voz alta:

– Esse elixir, fórmula ou merda que for... Slavin injetou em mim na manhã seguinte ao ataque no acampamento. Pode ter havido doses anteriores, não sei dizer. Mas minha regeneração instantânea, a força que adquiri... É a explicação mais coerente. E o filho da puta ainda me disse ser medicamento para que eu me curasse!

– Apesar de ter omitido todos os efeitos colaterais, ele não mentiu! – Hawkins riu.

No momento em que ele virava novamente à estrada e adentrávamos um desvio de terra que se estendia contornando uma colina, adicionou:

– Entenda que o grande objetivo de Maneater na Nagônia passou a correr dentro de seu corpo. Mesmo se você não for até os vampiros, eles virão até você. Então acredito que esse seja um conflito que não poderá evitar...

Um pouco à frente, uma construção de concreto em formato de caixa, mais parecendo uma garagem, surgiu em meio ao descampado. David passou a desacelerar conforme dela nos aproximávamos: um dos depósitos onde estocava as "mercadorias" úteis às suas operações no país. Serviria como esconderijo até o sol raiar.

– Por isso a importância de estabelecermos nosso terreno e próprio esquema quando chegar a hora de os enfrentarmos! – o espião zâmbio concluiu, freando o jipe ao chegar perto o bastante do local.

Deixando a embreagem no ponto morto, Hawkins saiu de seu banco com o ruído do motor ligado soando feito um animal selvagem em caçada noturna, apressando-se até a porta de correr que ocupava toda uma parede da casamata e, após destrancar seu cadeado, puxá-la para liberar o interior à entrada do jipe.

Com as lâmpadas no teto do abrigo acesas, David apagou os faróis e acelerou pela porta, desligando o transporte assim que o inseriu entre as várias prateleiras e caixas amontoadas no reduzido espaço disponível.

– Não repare a desordem... – meu guia falou, já de pé novamente para fechar a porta de correr atrás de nós.

Examinei o ambiente. As coisas ali não estavam necessariamente desarrumadas, mas geravam incômodo por seu grande número. Pacotes e pacotes de cigarros dividiam as estantes com garrafas de bebida, em engradados ou caixas, enquanto freezers enfileirados junto a uma parede mantinham parte destas geladas. As inúmeras latas de alimento em conserva também chamavam atenção, seus rótulos revelando conterem de simples molho de tomate a bacalhau da Noruega. Num canto, uma pia, vaso sanitário e beliche de ferro, sem qualquer divisória entre si ou em relação ao resto do galpão, eram os únicos indicadores da estadia de mais alguém além dos produtos contrabandeados.

Tão logo tornou a fechar o cadeado da entrada por dentro, Hawkins não diminuiu o passo: passando mais uma vez pelo jipe, adiantou-se aos fundos do depósito, aturdido como se precisasse efetuar mais alguma ação para garantir nossa segurança.

– Está tudo OK? – questionei desconfiado.

Quando ele ressurgiu de trás de uma prateleira, esperei que me trouxesse alguma arma, quem sabe um colete à prova de balas...

Tinha, ao invés disso, uma garrafa de cerveja aberta numa mão, o vapor gélido escapando pelo gargalo, abridor de tampas preso em meio aos dedos do mesmo punho e uma segunda garrafa também aberta segurada no outro, a qual estendeu a mim:

– Tome, todos nós precisamos acalmar os nervos!

Apanhei a bebida e, num brinde batendo minha garrafa com a dele, deixei que o álcool diluísse parte das más lembranças daquela noite... Torcendo para não ter o efeito adverso de causar outro frenesi de violência.


Despertei da cama inferior do beliche com as batidas contra a porta metálica do galpão. Pelas janelas situadas no alto das paredes de concreto, o céu assumindo coloração azul clara anunciava o fim da madrugada. Ajeitei as roupas limpas que o anfitrião me oferecera e, sentado sobre o colchão, aguardei.

David, que permanecera acordado de guarda, avançou até a entrada munido de uma pistola, verificando através de uma fresta oculta num ponto estratégico da porta quem estava do lado de fora.

Sua atitude seguinte foi abri-la, confirmando minha expectativa. Sarah adentrou o esconderijo envolvida por uma moldura laranja proporcionada pelos primeiros raios de sol. Revê-la causou-me um misto de alívio e aflição – esta predominando bem mais que a primeira quando ela acelerou até mim, disposta a envolver-me num abraço.

Meus braços se ergueram em resistência, detendo-a a um metro de meu corpo. Seu rosto sorridente, desejoso de encontrar o meu num beijo, foi revestido por uma cortina de incompreensão e estranheza.

– Bruce? – ela indagou vaga, intimidada tal qual de súbito diante de um estranho; e de certa forma realmente estava.

Encarei-a por um demorado instante, seus olhos então esperançosos marejados pelo golpe da rejeição. Se meus sentimentos bradavam que eu a tomasse em meus braços, desse vazão à paixão que nos unia, meus receios mais profundos me impediam... criando terríveis visões de minhas mãos desmembrando Sarah assim como fizeram com os russos, totalmente insensível ao seu sangue sobre mim ou gritos de desespero.

O equilíbrio por fim prevaleceu, e consegui abraçá-la... ainda que hesitante. Um abraço de parceiros de trabalho, no máximo amigos. Não amantes.

– O que houve? – Sarah insistiu depois que me afastei, nossos lábios se tocando brevemente.

– Há muito que precisa saber... – dei a réplica vazia ao mesmo tempo em que evitava olhá-la.

– Como o quê?

– Gleb está vivo. Tornou-se uma das criaturas.

Ela abriu a boca em espanto, a revelação sobre nosso antigo colega conseguindo desviar o foco de mim, ainda que apenas naquele primeiro momento.

Antes que Sarah pudesse pedir mais detalhes a respeito e eu mesmo conseguisse dar prosseguimento à conversa, fomos distraídos por David carregando armas e equipamento até o jipe – estando com um lança-foguetes apoiado num ombro quando nos voltamos a ele.

– Aonde vamos? – inquiri intrigado.

Ele depositou a bazuca na traseira do veículo e respondeu:

– Descansem algumas horas, se precisarem. Às dez estaremos seguindo para o norte, até o povoado que Maneater obrigou a trabalhar na ferrovia das montanhas. Chegaremos lá no meio da tarde.

Já prevendo protestos de Sarah e principalmente da minha parte, Hawkins complementou:

– Estaremos seguros durante o dia, e ainda há a vantagem de Maneater não saber que conseguimos essa pista sobre seus planos. Temos até o entardecer para descobrir o que os vampiros querem exatamente por lá, além de convencer os moradores a passarem ao nosso lado. Com sorte, os desgraçados que aparecerem quando estiver escuro para fiscalizar o trabalho dos camponeses terão uma surpresa já esta noite!