Capítulo Décimo Oitavo

"Sob o radar"

Lutar contra os sintomas da pressão baixa revelou-se combate mais árduo do que eu poderia supor. Minha cabeça dava cinco giros completos a cada mero deslocar para os lados, o suor escorrendo sobre minha pele fria em cascatas enquanto eu mal conseguia unir forças para mover qualquer parte do corpo. Sentado sobre o chão de terra batida da cabana enquanto mantinha os olhos atentos ao exterior pela fresta da parede de madeira – rogando que eles conservassem nitidez suficiente para espreitar nossos inimigos e denunciar sua aproximação, algo dificultado pela escuridão que se impunha –, concluí que aquele recurso poderia até ser útil para evitar a detecção pelos vampiros, mas nos privava de qualquer defesa caso a situação evoluísse a um combate.

– Está aguentando firme, Bruce? – a voz de David através da penumbra da casa indicou que aquela perspectiva também lhe trazia preocupação.

– Contanto que eu não precise me levantar daqui durante, digamos... toda a próxima hora! – retorqui, desejando que o humor irônico gerasse um pouco mais de energia a ambos.

A ansiedade, no entanto, impossibilitava muita segurança. O sol já se pusera no mínimo quarenta minutos antes, e o vilarejo aguardava silencioso a chegada de seus algozes. Várias luzes haviam se acendido no interior das residências e alguns dos moradores saído delas, assumindo poses apreensivas diante das portas ou caminhando impacientes ao redor, os braços abraçando os próprios troncos revelando que o frio do medo superava a alta temperatura persistindo mesmo após o fim da tarde.

Cruzando as portas da igreja de fachada triangular, o reverendo Tolmbaye reapareceu com a fiel Bíblia numa das mãos – de início um borrão em minha visão embaçada, para então assumir tons mais definidos conforme se aproximou de um grupo de fiéis aglomerado perto de nossa cabana.

– Espero que esse cara não crie problemas... – murmurei, ciente de que o plano repousava sobre uma linha muito tênue, estendida através de expectativas arriscadas, para que corresse de modo favorável.

Alternei o olhar às casas mais distantes, do lado oposto do vilarejo. Numa delas, Sarah aguardava o momento certo para agir. Ela também estava sob influência do medicamento, o que me proporcionava constantes temores envolvendo os vampiros avançarem em sua direção antes da hora...

Vi que não teria mais tempo para imaginar possíveis cenários quando um cortejo de motores e o brilho de faróis anunciaram que o real já se iniciava. Erguendo poeira da estrada, um jipe avançou em meio ao povoado, seguido de dois caminhões cujas carretas revestidas de pano indicavam serem usados para transporte. Os veículos desaceleraram até pararem a cerca de vinte metros de nossa posição, os motoristas deixando-os ligados por mais alguns instantes tanto para frisar sua chegada quanto intimidar os habitantes. O ronco das máquinas serviu para confundir ainda mais meus sentidos, a fraqueza bem próxima de me causar um desmaio.

Mantive as forças, todavia, conforme focava a atenção e o olhar enevoado na direção do jipe liderando o comboio. A figura esguia de cabelos vermelhos que primeiro saltou fora dele era obviamente Maneater, acompanhada de três comandados munidos de AKs. Outros saíram pelas cabines dos caminhões, igualmente armados conforme os contornavam até as traseiras, movendo os fuzis ameaçadoramente e bradando ordens ao mesmo tempo em que diversas silhuetas desciam...

Eu não estava em perfeitas condições de contar, mas o grupo inicial retirado dos caminhões somava ao menos vinte homens, sumariamente empurrados pelos canos das armas russas enquanto convergiam, com os braços erguidos, ao centro do vilarejo. As faces resignadas vinham combinadas a roupas rasgadas, cobertas de terra e com diversos ferimentos pelas áreas expostas de seus corpos. Alguns mancavam, somente para serem apressados com maior agressividade pelos vampiros. Vários caíam nos braços de suas esposas e filhos, aos prantos; outros eram recebidos por grupos de moradores que se alternavam em ampará-los. Chamaram minha atenção dois trabalhadores solitários que, negando a ajuda do grupo liderado pelo reverendo, simplesmente encostaram-se a uma choupana e acenderam cigarros, dando longas tragadas para em seguida soltarem a fumaça ao ar noturno.

Os russos, incluindo Maneater, passaram a compor uma espécie de cordão em torno dos camponeses recém-chegados, evitando agitação ou que se dispersassem muito rápido. Apesar da percepção falha, claramente não havia alguém de óculos escuros entre eles, indicando a ausência de Gleb – após meu surto no clube, eles certamente haviam assumido critérios mais rigorosos quanto a como dividir suas forças. Por outro lado, notei entre eles indivíduos que, apesar de brancos, não pareciam particularmente russos. Poderia ser apenas um devaneio causado pela tontura, mas o contingente de Maneater no país talvez fosse mais extenso do que tínhamos suposto...

Por falar nela, a vampira logo deu passos adiante, destacando-se em relação ao resto do esquadrão. Os rostos dos habitantes a acompanhavam consternados, alguns contendo a raiva; indicando claramente que as atitudes dela exerciam influência crucial sobre quem vivia ou morria, e que isso já fora demonstrado em noites anteriores.

Parando subitamente com as mãos à cintura e dando um giro sobre os coturnos, a imortal farejou o ar – prova de fogo à eficácia de nosso disfarce.

Preferi fechar os olhos e aguardar, ruminando que, se fosse para meu coração bater tão devagar e ainda assim me denunciar, era preferível que parasse de vez e me poupasse de uma morte dolorosa...

Quando dei nova chance à visão após um minuto, a vampira ainda fungava, voltada perigosamente na direção de nosso esconderijo... para então relaxar, atentando-se mais uma vez aos trabalhadores recém-chegados enquanto exclamava, num francês de sotaque férreo:

– As sentinelas que deixamos na estrada desapareceram. O que houve com elas?

O padre fez menção de se aproximar de Maneater e dar sua própria versão, mas teve o caminho cortado a tempo por outro dos moradores, o adolescente Jean-Claude. Um daqueles com quem Sarah tivera tempo de conversar e ele, paciência de ouvir, na correria e frustrantes tentativas de convencimento às quais se resumiram o final de tarde.

– Forasteiros se aproximaram do povoado durante a tarde, e as sentinelas partiram atrás deles! – o jovem relatou. – Não voltaram mais.

A vampira esfregou o rosto, voltando a visão a um dos comandados mais próximos de si: um homem na casa dos quarenta anos, cabelos castanhos ralos e óculos de grau de grandes lentes redondas – traço que tornava-o distinguível de longe – usando camisa de botões e calças de algodão como a maioria dos demais. Ela se comunicou com ele em russo, língua que os habitantes não compreendiam. Mas eu sim:

– Qual foi a instrução que você transmitiu a eles, afinal? – Maneater inquiriu irritada.

– Que defendessem o lugar e atirassem contra quaisquer invasores! – ele se justificou esbaforido e falando rápido, sem remeter à postura que eu esperava de um vampiro, ainda que somente há pouco descobrisse que existiam fora dos filmes. – Não previ que eles poderiam deixar a posição no encalço dos intrusos, até porque a ligação com a líder deles aprisionada aqui era muito forte, mesmo sob indução! Neste momento, ainda sinto a conexão psíquica com as sentinelas, mas mais fraca... Isso confirma estarem a uma distância considerável daqui.

Percebi já me acostumar à moleza causada pelo remédio, ou que ela alarmantemente passava antes do que deveria, quando minha mente conseguiu trabalhar veloz, mesmo tendo de desdobrar parte da atenção em traduzir o que aqueles mortos-vivos falavam...

O "controle mental" exercido por aqueles seres sobre os mortais poderia ser constante, mas o vampiro responsável não conseguia determinar ao certo o local em que suas vítimas estavam, tampouco se permaneciam conscientes ou não. A habilidade deveria funcionar mais como uma sugestão hipnótica ancorada no fato de aquele que a realizara permanecer ativo, revelando brechas que poderíamos utilizar no futuro...

De quebra, Maneater nos entregava de bandeja quem deveríamos eliminar para trazer o grupo de Kathambi ao nosso lado.

– Como o erro foi seu, ficará responsável pelo grupo de vigília esta noite! – a comandante instruiu, fazendo o vampiro de óculos baixar a cabeça. – Se aqueles guerreiros voltarem, é melhor que os induza novamente, e seja bem específico nas instruções!

Eu custava a acreditar, mas até ali tudo corria dentro das melhores perspectivas possíveis. Claro, ter uma metralhadora Browning M2 montada dentro daquele casebre e com ela rachar os crânios de todos aqueles vampiros com munição .50, para além de sua capacidade de cura, seria perfeito... num mundo ideal. E, considerando que não estávamos em um, mesmo com criaturas de lendas existindo, era preciso trabalhar com o que tínhamos e apenas torcer para Maneater e a maior parte do contingente irem embora logo, sem causarem maiores transtornos.

Meu temor quanto ao contrário aparentou se confirmar no momento em que um grito ecoou pelo vilarejo. A desordem da cena fez com que eu levasse alguns segundos para me situar, mas quando consegui, vi três soldados russos segurando pelos braços um quarto combatente – daqueles que pareciam de nacionalidade distinta – conforme o afastavam de uma família sobre a qual se lançara repentinamente. O indivíduo agarrado se contorcia de maneira bestial, urrando enquanto exibia dois pares de caninos pontiagudos na boca escancarada, tornados dourados pelas luzes das lâmpadas próximas; e, se seus companheiros não houvessem se apressado, estariam brilhando em rubro.

Todos os habitantes se afastaram receosos, as crianças da família atacada começando a chorar. Maneater, entretanto, continuou impassível, usando o episódio a seu favor:

– Hoje viemos com novos soldados, loucos para provar seu primeiro sangue! – ela afirmou, caminhando em frente aos camponeses. – Fica como aviso para não haver qualquer imprevisto durante a distribuição das refeições, ou ordenarei que meus homens não contenham uns aos outros. Garanto: eles estão mais famintos que vocês!

Um pequeno destacamento que, durante os eventos externos, já havia adentrado o armazém da vila, retornou carregando caixas e galões. Mesmo diante do terror em relação ao soldado descontrolado, os moradores, fustigados pela necessidade, começaram a se organizar em fila diante dos invasores. Coube a dois russos distribuírem alimento e água, despejando-os dentro de panelas ou vasilhas trazidas pelos aldeões com evidente displicência, fazendo frequentemente o conteúdo cair no chão ou distribuindo quantidades muito menores que aquela revelada necessária pelos corpos quase esqueléticos recebendo-as. Os homens trazidos nos caminhões eram priorizados: precisavam de melhor sustento para continuar trabalhando no dia seguinte, mas ainda assim alguns acabavam mais favorecidos, comprovando o esquema de "mérito" descrito a nós anteriormente.

– Sei que estão fazendo progresso na ferrovia, porém ainda não é o bastante! – Maneater afirmou, os moradores que já haviam recebido as porções voltando para junto de suas casas, alimentando-se à vista dos vampiros. – O caminho para dentro das montanhas deve estar livre em três dias, ou terei de cumprir minhas ameaças. Vocês sabem o que está em jogo!

No interior escuro de nossa cabana, ouvi um longo suspiro.

– Isso precisa acabar... – a voz de David declarou revoltada. – O quanto antes!

Eu me ajeitei no local em que sentava, incerto sobre a náusea que me acometia ser também efeito do medicamento ou causada por testemunhar aquela situação.

– Nós faremos isso, meu amigo, mas até o momento certo, a estratégia é esperar – respondi. – Por mais doloroso que seja...

A distribuição de comida prosseguiu, observada por Mwale e eu num silêncio que nos consumia. Minutos mais tarde, reconheci a garota com a qual havíamos interagido chegando ao povoado, frequentadora da igreja do reverendo Tolmbaye, tendo a vez de receber sua porção. No instante anterior ao que ocorreu, uma sinistra expectativa já me tomava – e meus olhos se arregalaram quando, no momento em que um dos russos estava curvado para lhe despejar alimento, a moça puxou a gola da camisa, revelando o crucifixo pendendo de seu pescoço.

– O poder do Altíssimo os fulminará, demônios imundos! – ela exclamou enfurecida. – Saiam já de nosso vilarejo!

Essa não! – minha cabeça latejou, incerta se meus olhos aguentariam ver o que viria a seguir.

O vampiro cambaleou para trás gemendo, braços cobrindo o rosto como se houvesse sido impactado por uma força invisível. Seu companheiro também recuou surpreso, soltando o tonel com o qual despejava água aos camponeses enquanto, aturdido, tentava apontar o AK-47 à jovem, mas achou-se incapaz de mirar com precisão. Os outros habitantes afastaram-se apavorados – desfazendo a fila e aguardando, estupefatos, as consequências daquele ato. Nem mesmo o padre, que terminava sua refeição mais distante, demonstrou intenção de ajudar a adolescente.

Foram precisos poucos instantes para que Maneater avançasse até ali, erguendo um braço para conter o fogo de seus demais homens. Feito um espectro, de súbito estava bem diante da garota. Com a outra mão, agarrou-lhe a cruz, puxando seu cordão ligeiramente e fazendo com que a menina erguesse o queixo, encarando-a contra a vontade. Na face da vampira, nem um traço de incômodo por fitar ou manusear o objeto sagrado.

– Crucifixo... – Petrenko murmurou, tateando a madeira do artefato. – Um instrumento poderoso para canalizar a fé de quem o utiliza contra criaturas das sombras. Saiba, porém, criança, que já estive nos quatro cantos do mundo. Contra mim já ergueram crescentes, estrelas de Davi, flores-de-lótus... Conforme se prolonga a sobrevida e aceitamos aquilo que nos tornamos, nem a mais inabalável das fés pode nos ferir através desses amuletos!

E, fechando o punho em torno da cruz, Maneater esmigalhou-a, abrindo a mão logo depois para que os pedaços despencassem ao solo. O cordão solto foi arrancado de uma só vez da garganta da jovem, que, com os olhos marejados, caiu sentada pela força do movimento.

– Sua punição será ficar sem comida e água! – a morta-viva decretou, dando-lhe as costas e virando em seguida à dupla de comandados que fora afetada pelo crucifixo. – Vocês dois, de pé! Terminem logo com isto!

Os russos se reergueram desconcertados, continuando a distribuição de recursos no esforço de agirem como se nada houvesse ocorrido.

Ofeguei, procurando assimilar tudo aquilo.

– Então há fraquezas que alguns deles possuem, e outros não... – David me ajudou, colocando os pensamentos em palavras. – Maneater não é só a líder do grupo, como a mais poderosa entre eles.

– De acordo com Slavin, ela vaga como imortal desde o final da Segunda Guerra... – ponderei. – Os outros não são vampiros há tanto tempo, aparentemente.

Foi intrigado que, em seguida, vi a imponência e força de Maneater ganharem uma rachadura – não muito diferente de quando a ataquei na casa noturna, a partir da lembrança que conservava de meu estado ensandecido. Aproximando-se de Jean-Claude, que terminava de comer uma porção de pão, feijão e frutas, agachou-se e lhe questionou algo em voz baixa.

O rapaz fez questão de responder alto, para que ouvíssemos:

– Pareciam soldados da FPN. Deviam estar patrulhando a região.

Então Maneater está com medo de termos descoberto o "segredo das montanhas"... – refleti, ao mesmo tempo em que agradecia a perspicácia do garoto em fornecer uma pista falsa que afastava suspeitas sobre nós.

Os aldeões terminaram de comer e gradativamente retornaram ao interior de suas casas, as lamparinas e velas se apagando poucos instantes depois de cada família cruzar os pórticos. Enquanto isso, os soldados de Maneater se revezavam em patrulhas pelo local, alguns deles levando os víveres que sobraram de volta ao armazém. O processo todo durou mais de uma hora, período no qual eu e David fomos obrigados a tomar nova dose dos comprimidos – a zonzeira, visão embaçada e fraqueza dominando-nos novamente. Se os vampiros se julgavam reis do povoado, a brecha em seus sentidos que nos ocultava seguia funcionando.

Quando os habitantes já tinham todos se recolhido e os esforços dos russos se resumiam a conter certos companheiros que, assim como o sujeito exaltado de antes, estavam impelidos a saltar sobre as artérias do primeiro humano que aparecesse, Maneater voltou para junto do subordinado de óculos redondos, instruindo, com certa impaciência:

– Voltaremos à ferrovia para seguir com o trabalho noturno. Estarei aqui antes do amanhecer para buscar novamente os nativos!

Certo, aquilo deixava claro o espaço de tempo que teríamos para agir.

– Quantos homens ficarão para a guarda do povoado? – o vampiro perguntou cauteloso.

– Sete, contando com você. Sendo que três deles são recém-recrutados... – num sorrisinho, Petrenko apontou com o queixo a um dos mortos-vivos mais agitados.

O comandado ficou visivelmente abalado.

– Comandante, não me leve a mal, mas... – ele titubeou. – Não sei se posso controlá-los...

– Sua falha em ter controle da situação já foi mais que demonstrada hoje, camarada, então considere a presença dos recrutas um adendo à sua medida disciplinar – a vampira cruzou os braços. – Além disso, nada como caninos mais afiados que o normal para manter esses aldeões na linha, certo? A meu ver, isso tornará seu trabalho até mais fácil!

Já se dirigindo de volta ao jipe junto com a mesma escolta de três russos, acrescentou:

– Decepcionar-me agora será evidência de que não é adequado a esta unidade, sargento Yahontov. E talvez igualmente indigno do sangue que lhe dei quando baleado por aqueles guerrilheiros no Panjshir...

Tais quais reforçassem a ameaça da tenente-coronel, os pneus do veículo cantaram enquanto levantavam pó e viravam-no de volta à estrada. Os dois caminhões, já carregados de vampiros, também reacenderam seus faróis e seguiram-no noite adentro – tornando-se vultos que, mesmo afastando-se do povoado, prometiam espreitá-lo justamente por se fundirem à escuridão.

Voltei o olhar à posição de Mwale no interior de nossa cabana.

Chegara a hora de iniciar a segunda etapa.