Sempre tive essa sensação de que depressão é como água. Eu a sinto vindo aos poucos, pelas bordas, circulando completamente até tomar tudo. A imagem mental que tenho quando sinto o desconforto no coração e nos pulmões é sempre essa: De que estou sendo cercada. Temos muito tempo uma com a outra para eu conhecê-la, então sei quando ela está chegando.

Sinceramente já não sei mais o que é ansiedade e o que é depressão, ou se as duas estão interligadas de alguma maneira. Se ambas já se perderam dentro de mim de maneira que não dê para ter uma diferença. Porque eu sei que não estou ansiosa, sei que tem uma tristeza misturada, mas a falta de ar é definitivamente a ansiedade. Ah, acho que vejo a ansiedade como ar. A imagem não é tão forte como a que tenho de depressão na minha cabeça, mas quando respiro fundo e não sinto o oxigênio do jeito que deveria, sei que estou ansiosa.

Como agora, é claro. Por que mais eu estaria escrevendo?

É sempre estranho quando volto para essas situações. Fico feliz relendo Recaída – é sempre um texto para o qual eu volto e com o qual sempre me surpreendo – por ver o quanto melhorei desde que o escrevi, mas ainda consigo me identificar com diversas frases ali. É possível ler e saber que os sentimentos são, de fato, meus.

Não tem um motivo certo para eu estar começando a ficar triste agora. Assisti um episódio de Fruits Basket, que é algo que sempre me machuca e me dá vontade de chorar, independente do episódio ser triste ou não, mas não seria motivo o suficiente para me deixar "deprimida". Eu assisti três episódios ontem a noite, afinal, e não senti nada de ruim como agora.

Meu tio morreu semana passada. Dia 02. Foi como se eu estivesse trabalhando duro para manter uma torre e de repente alguém tirasse uma peça do começo dela, e tudo desabasse. Não que eu esteja absolutamente mal, mas eu nunca estive tão perto de voltar a ficar arrasada. Na quarta tive que tomar meus remédios para crise porque a falta de ar não me deixava dormir. No meio de toda essa tristeza vem algumas tristezas bobas, como por exemplo o fato de Sasunaru não ser canon.

Tenho tentado escrever. Queria escrever Sasunaru. Tem uma fanfic de 2018 que eu comecei e que gosto, e que a minha melhor amiga passou mal ao ler de tão boa. Mas está guardada. Também tem uma NejiHina. Escrevi uma cena de sexo de nove páginas dela que foi capaz de deixar dois amigos meus excitados. Queria postá-la também. Mas não tenho tentado escrever. Há, eu disse tentado. Queria dizer "conseguido", mas acho que eu não venho tentando mesmo.

Achei o corpo do meu tio junto com meu avô e meu outro tio, na casa dele. Ataque cardíaco. No meio de toda essa loucura, nem mesmo pudemos nos abraçar no velório. Minha tia avó e segunda mãe, mulher que amo do fundo do meu coração, estava absolutamente devastada. Nunca a tinha visto chorar até essa ocasião. E eu também chorei, como chorei. Acho que mais por tê-lo encontrado do que por qualquer outra coisa, talvez. Talvez pelos dois. Não convivíamos tanto, mas era ele, meu tio, que sempre estaria ali, sabe? É uma coisa estranha ter alguém tirado de você assim.

Eu nunca tinha visto alguém morto. Sempre evitei velórios e, no ano passado, quando acompanhei meu ex-namorado em um, não tive coragem de olhar para o corpo no caixão. Preferi manter na minha lembrança a imagem de uma mulher gritando de uma janela para pegarmos tênis ou água ou qualquer coisa assim. Minha última lembrança dela é de gentileza.

Dessa vez fui ao velório do meu tio, e foi uma decisão positiva. Ter a última imagem dele como sendo a de quando o encontrei não era algo positivo. Toda... Toda a ansiedade até encontrá-lo. A porta abrindo, a escuridão da sala... A televisão ligada, as janelas fechadas, o ventilador ligado. E uma pessoa que eu amava sem vida no chão.

Enquanto me acalmava do lado de fora, depois de cair no chão de tanto chorar, pensei "pelo menos agora posso escrever como é encontrar um corpo de forma realista". Não sei por que sempre faço isso. Foi assim no acidente de moto também. Fiquei devastada, gritando no chão cheia de sangue, chamando pela minha mãe e dizendo que queria ir para casa... Cantei Wolf e Lucie, too e Prehistoric no corredor do hospital, na maca, para me acalmar, porque achava que ia morrer. Então, depois minha mãe tirou fotos minhas enfaixada e dolorida, e eu comecei a pensar "Há, agora eu posso escrever realisticamente sobre acidentes de moto!".

Talvez seja minha maneira de lidar com as loucuras que acontecem. Ou algo assim.

Ultimamente, se respiro, começo a ficar com falta de ar. Digo. Se penso em respirar, começo a ficar com falta de ar. Isso acontecia comigo quando eu era uma criança. Se eu lembrava que respiração era uma atividade que eu escolhia fazer e começava a prestar atenção nela, eu terminava ficando meio agoniada. Era algo que eu detestava, prestar atenção na minha própria respiração. Agora voltou a ser.

Acho que comentei que é uma droga que falta de ar de ansiedade e de corona vírus sejam sintomas em comum. Na quarta, quando não consegui dormir, comecei a ficar com falta de ar e a achar que eu estava doente. É um medo por mim também, eu acho, mas mais por que eu infectaria pessoas de grupo de risco que moram comigo e que amo muito: meus avós. Estou quarentemada há quase sessenta dias, mas eles saem às vezes. No caso eles que teriam me infectado, mas não importa. De qualquer maneira, se eu tivesse eles teriam, e se eles tiverem, eles provavelmente vão morrer.

Foi estranho meu tio ter morrido de um ataque cardíaco no meio dessa loucura toda. Os filhos dele estavam devastados. Devastados. Usei essa palavra algumas vezes, e ela parece ideal à sensação. Estávamos todos. Aconteceu o de sempre quando eu estou muito desesperada. Minha memória fica meio bagunçada. Consigo lembrar das coisas que aconteceram mais ou menos, mas não com excelência. Apaguei muitas lembranças do acidente de moto – mas eu bati a cabeça com força, então fazia sentido -, mas também tenho muitas memórias confusas de toda a coisa do meu tio, então talvez seja uma autodefesa.

É estranho estar trancada em casa com medo de morrer. Ainda estou atenta à minha respiração. Me lembrando de respirar. O açaí estava doce demais, e larguei ele pela metade para escrever esse texto. Liguei o ventilador agora, para dar uma sensação de que estou conseguindo respirar, mesmo que não esteja. Senti vontade de me cortar na quinta, mas não me cortei. Tem sido uma sensação recorrente, uma vontade recorrente, mas tenho conseguido vencê-la. Fiz dois anos sem me cortar no começo do mês. Nunca tinha conseguido ficar tanto tempo desde que comecei a me cortar em 2014. Nem perto disso.

Sinto falta. Sinto falta porque era fácil de lidar com as coisas me cortando. Porque era a maneira que eu tinha de fazer alguma coisa quando a água ou o ar viessem – engraçado serem meus elementos favoritos -, porque era minha fuga. Quando começo a me desesperar ou quando estou triste demais, minha reação inicial é sempre querer me cortar. Eu sempre me cortava, afinal. O estranho é eu não me cortar mais.

Mas sabemos que é uma solução momentânea, e que não vai melhorar absolutamente nada. Uma mentira na qual acreditamos. Então discuto mentalmente comigo mesma, e não me corto. Um dia de cada vez. Estava revendo Skam e vi essa frase. Então, coincidentemente, minha psicóloga me disse a mesma coisa. E sim. Mas um dia parece tão longo na quarentena. Ou melhor, dias não parecem mais dias. Parece que estamos em um dia interminável, e todo dia é igual ao anterior.

Me guio meramente por animes da semana. Alguns já foram cancelados, mas às quartas e sábados tenho animes que fazem com que eu me sinta melhor: Tower of God, Hamefura e Kaguya-sama. Então sei que dia é quando é sábado e quarta. O resto é meio misturado.

Depois de desativar as redes sociais, tive dias saudáveis. Essa foi a primeira vez que a tristeza bateu de novo desde sexta-feira. Bom, hoje é segunda. Não estamos fazendo um bom trabalho, eu acho. Mas dois dias bons são melhores do que nenhum. E escrever tudo isso está ajudando a tristeza a ir embora. Pelo menos agora eu não tenho mais medo... Digo, vergonha, de ficar triste. Antes eu tinha um pouco. De "o que as pessoas vão pensar, depois que eu melhorei tanto? Vão pensar que sou uma mentirosa, vão pensar que eu sou fraca, vão pensar que vou voltar pra como eu era antes". Mas ninguém está pensando nada. E está tudo bem não ser forte pra sempre. Eu queria ser um modelo, admito. Alguém que as pessoas olhassem e pensassem "Bem, olhe onde ela chegou depois de estar no fundo do poço". Mas a vida não é assim. Não é algo tão simples, e muito menos algo tão agradável. Eu sou fraca. Suscetível à esses sentimentos conturbados. Estar ficando mal durante a quarentena me lembra que sou suscetível. Mas está tudo bem... Porque se eu cheguei até aqui sem morrer, também quer dizer que eu sou forte. Se eu passei por todas as coisas, eu sei que eu sou forte.

É por ser forte que estou escrevendo ao invés de me cortar agora. Esse pensamento me dá vontade de sorrir.

Quem sabe não vou criar coragem para escrever histórias e não textos de desabafo, não é mesmo? Queria conseguir ser igualmente crua nas minhas histórias, mas não sei se consigo como deveria. Um amigo meu, com quem transei, sempre me diz que escrevo bem diálogos e relações entre personagens. Como ele também escreve, fico meio feliz. Espero que seja isso mesmo. Não tenho muita confiança. E esse amigo também fala muita merda. Enfim.

Acho que afastei um pouco a depressão escrevendo tudo isso. Falar das coisas que estão me incomodando sempre me acalma. Mas respirar ainda está um pouco difícil, então acho que é melhor eu tentar me distrair com alguma coisa.

Fico por aqui.