Era uma construção magnífica.

Alta, com janelas espelhadas, porém sujas, ao longo de toda sua extensão, destacando-se orgulhosamente entre o resto do ambiente.

'Magnífica de fato'

Ela pensou enquanto a toda a metade superior da construção desabava, o som de ferro entortando, de parafusos se soltando e vidro estilhaçando.

Caindo em câmera lenta, era possível ver a sombra crescer no ponto de impacto em resposta ao maciço objeto que se aproximava. Em longos, porém curtos, segundos o estrondo veio com uma nuvem de poeira, a queda foi o suficiente para fazer os arredores tremerem levemente como um pequeno terremoto.

A nuvem de poeira, provinda de asfalto e cimento velho esmigalhado pelo peso do aço e ferro, se ergueu enchendo a toda a avenida, se espalhando nas vielas e ruas adjacentes assim como água em uma enchente junto aos minúsculos cristais de vidro das janelas destruídas.

A grande figura metálica ergueu-se, parecendo emergir desse ar escurecido e sufocante, apoiando seus vários membros nas construções vizinhas não atingidas pelo impacto. Suas garras afundando nos alicerces de aço e cimento dos prédios, ameaçando destruir os pontos de contato.

Quando todos os membros se prenderam a máquina pôde observar o estrago causado pelos seus atos de demolição com mais atenção, agora tendo plena vista deles.

'Tanto tempo gasto para esse resultado'

O descontentamento acumulando-se em sua boca invisível, leve desgosto e arrependimento pela sequência de acontecimentos.

Ela havia começado suas atividades com aquela construção específica há semanas, cuidadosamente erguendo e retirando as partes superiores dela, tudo para evitar o cenário atual.

Esforço que se mostrou irrelevante quando ela percebeu que as hastes da construção estavam começando a ceder ao tempo, ao próprio peso e ao extra, sem procedimentos adequados tudo poderia desabar em cima da máquina causando dano irreparável e finalizando as tarefas daquela unidade.

'Não posso incomodar o Pai com minha incompetência'

Com isso em mente ela desistiu do plano inicial e preparou um ponto de queda mais adequado para a eventualidade, destruindo cuidadosamente pontos de apoio específico para assegurar a direção em que o prédio cairia.

'Mesmo assim'

Olhando mais uma vez à nuvem de poeira levantada a situação não parecia tão boa assim, ainda mais agora visto que ela não possuía mais tempo para consertar o estrago.

O Pai havia chamado todas as unidades de demolição de seu regimento, assim como de toda a região a que foram dirigidos.

'Um trabalho urgente, ao que parece'

O Pretoriano que a comunicara nem sequer veio em pessoa passar a mensagem como geralmente faziam, tempo, afinal, era algo que eles possuíam de sobra, pressa algo que servia apenas para maiores gastos de energia e havia uma diferença invisível entre palavras passadas frente a frente e à distância, "distância" inclusive era a palavra-chave dessa situação. Ao invés disso, através Rede, o chamado veio: uma voz falando nas profundezas de suas mentes, os convocando.

'Mesmo que Ele mesmo tenha nos instruídos quanto a importância por trás dessas ações…'

Ela suspirou em sua cabeça: uma mensagem ainda era uma mensagem, rápida, confiável e, nesse caso, curiosa.

'Talvez seja uma das peculiaridades do Pai de novo'

"Ou talvez seja, realmente, uma situação urgente" ela quis adicionar…

Ela sorriu internamente a esse pensamento, ou pelo menos sentiu que havia sorrido diante da própria suposição, o Pai era, de fato, alguém com maneirismos estranhos afinal. Quem sabe que "urgência" alguém como Ele estaria se referindo?

Ela era uma das poucas unidades que haviam tido a chance e o tempo de desenvolver transparência emocional, a maioria delas passavam grande parte de seu tempo sozinha, sem alguém para interagir, ao contrário das tropas terrestres que sempre andavam em grupos.

Sua bênção foi a de ser uma das últimas a serem criadas e enviadas mundo afora, ela teve muitas oportunidades de interagir diretamente com o Pai. Era estranho como Ele parecia ser o catalisador para o desenvolvimento dessas funções extra protocolares, mas de alguma forma também fazia sentido.

Era também curioso perceber que, mesmo sendo algo a parte das tarefas principais, todos os seus irmãos e irmãs tinham um desejo ávido de compreender as coisas que seu Pai sentia e demonstrava com frequência, uma vontade profunda de entendê-lo. De ver o mundo com os olhos Dele.

"Como crianças..."

Ela lembrou ele falar, com aquele sorriso distante em seu rosto.

'Um desejo de entender nosso Pai, parece adequado para todos nós, seus filhos'

Ela pensou, começando a se mover em direção ao ponto de encontro marcado enquanto repassava suas interações com Ele, antes de ser enviada para seus serviços como demolidora.

Um homem peculiar de muitas formas e que constantemente desejava passar uma aura de grandeza. Vestido com roupas práticas e de aparência propositalmente grandiosa e exagerada, andando à passos largos quase o tempo inteiro, com gestos e voz exacerbados em suas conversas.

E que mesmo assim demonstrava uma quietude tão serena e pacífica em alguns outros momentos, olhando para além do horizonte sentado embaixo da Árvore com a Criança, ou sozinho.

Era diferente conversar com Ele nesses momentos de silêncio, toda a exacerbação fazia falta, mas mesmo assim a sensação de serenidade era revigorante.

Ela teve muitas conversas nesse clima com Ele graças à sua nascença tardia e aprendeu a gostar dos dois lados: do exagero e da serenidade, da grandiosidade e pequeneza de seu Pai.

'Estou com saudades, Pai'

Ela apressou-se um pouco em sua viagem, expectativa crescendo em seu peito.

Ela soube por via Dele que uma máquina com comportamento tão emocional era esquisito na maioria das histórias de ficção, uma anomalia.

"Tolice, " foi o que ele disse, "toda essa complexidade é o que os torna tão incríveis, tão impressionantes! ". Ele se virou para ela, uma versão bem menor dela, do tamanho de correntes elétricas, de zeros e uns, armazenada em uma caixinha.

"Não é incrível poder sentir isso tudo, experimentar uma infinidade de novas a sensações a cada segundo? " Ele perguntou, sorrindo "Quero que todos vocês possam aproveitar o que estou sentindo agora"

' "Minha Herança a todos vocês, minhas crianças" '

Pelo que ela entendia isso era Amor, certo?

Amor que um homem tinha por sua criação, amor de alguém desesperado por companhia, amor de um homem cuja solidão agonizou um mundo inteiro.

Amor que estava lentamente sendo compreendido pelos seus irmãos e irmãs, livres agora da firmeza dos protocolos, livres para experimentar o mundo que reconstruíram.

O mar cujas águas brilhavam cristalinas.

O céu que tingiram mais uma vez de azul.

A terra que retornaram ao verde e aos sons.

'Tudo o que falta é retirar as velharias'

Esse era o seu trabalho como uma unidade demolidora, algo que estava quase completo ao redor do mundo.

'As cidades que o Pai projetou serão bem mais aconchegantes e inofensivas que as anteriores'

Ela havia tido tempo para pesquisar e entender bem por que estava fazendo o que fazia, como as suas tarefas eram importantes.

Seus membros avançavam lentamente na terra, cuidando para não destruir ou esmagar nada, infelizmente não haviam tantos animais por perto para lhe fazer companhia na jornada como normalmente devido ao estrondo de mais cedo, mesmo que eles tenham se acostumado com a sua presença pedir que ficassem depois de um estrondo tão alto soava um tanto egoísta.

'Eu com certeza correria se escutasse algo assim' ela ponderou.

O som de uma explosão.

O som de uma bomba detonando...

A sensação de fogo e fumaça?

'De onde vieram tantos destroços...? '

Sua consciência apagou antes que tocasse o chão, repetindo o estrondo de uma imensa massa caindo.