'O Pai nunca nos contou o porquê...'.

Foi o que ele pensou enquanto olhava fixamente para um objeto semienterrado no chão, refletindo a luz solar em seu visor.

'Quero dizer, ele nos disse por que..., mas não o porquê'

Ele se abaixou e lentamente desenterrou o objeto, um espelho, inteiro e limpo o suficiente para que ele pudesse ver o próprio reflexo.

'Será que isso faz sentido? '

Ele perguntou para o reflexo, sem saber exatamente se estava se referindo ao fato de ter encontrado o objeto no meio do nada, ou à indagação anterior.

O seu antigo protocolo o orientava a guardar o espelho, junto com outros achados, em um compartimento e retornar para casa uma vez que este estivesse cheio.

Mas agora não havia mais um protocolo, não haviam mais orientações, só havia ele e o espelho.

'Eu e eu mesmo'

- O que eu faço com isso? – Era a primeira vez em que ele falava em voz alta sozinho, era um pouco estranho.

Nas últimas semanas ele passou por muitas novas experiências e todas elas despertaram o mesmo sentimento de estranheza, mesmo assim ele continuava tendo essas ideias e vontades esquisitas.

Algo dentro dele o impulsionando diante disso.

'Será que era assim que o Pai se sentia? '

Ele guardou o espelho consigo após limpá-lo um pouco, sem a sujeira ele estava, surpreendentemente, quase intacto.

Ele olhou para cima, o Sol brilhava forte nesse ponto da floresta, o que normalmente não acontecia. Uma clareira talvez?

O ar estava limpo, o céu azul como em uma fotografia e o som de vida preenchia a floresta por onde ele caminhava nos últimos dias (ou semanas, ele nunca sabia dizer). Longe de seus irmãos e irmãs, vagando assim como eles nesse mundo desconhecido.

'"Livres para ir e fazer o que desejarem", foi o que o Pai disse'

Ainda era estranho tomar decisões sem seguir as diretrizes, até agora ele nem sequer pensara em quebrar qualquer antigo protocolo, mas não havia mais um lugar para voltar ou tarefas a cumprir. Mesmo assim ele ainda registrava a presença e a espécie de qualquer animal que encontrasse em seu banco de dados e juntava qualquer objeto estranho que encontrava em seu caminho.

Uma vez, ao se encontrar com um de seus irmãos, eles ficaram confusos quanto ao que fazer. Antigamente não haviam interações além da simples troca de dados armazenados entre ambos, mas agora que isso não era uma obrigação eles ficaram sem saber como prosseguir.

Por exatos 30 minutos e 42 segundos eles ficaram se encarando até que decidiram mutuamente trocar os dados armazenados juntos com alguns souvenires que ambos armazenaram ao longo de suas caminhadas.

Lembrando disso ele procurou entre os seus itens o relógio quebrado que recebera. Pequeno e sem detalhes: um relógio de criança.

Ele continuou andando tentando guardar a sensação quente que surgiu em seu interior, a grama fazendo cócegas em seus pés, a terra fofa afundando, moldando-se aos seus passos.

O cantarolar dos passarinhos enchiam seus ouvidos e ele ficou se entretendo tentando descobrir que tipo de pássaro estava cantando, procurando em sua memória

Seus dias passavam assim, do amanhecer ao anoitecer admirando todo tipo de coisa que atraía sua atenção.

'Apesar de tudo, de certa forma é agradável'

Ele olhou para o céu mais uma vez, a manhã se tornara tarde como um passe de mágica.

'O tempo voa quando você centra seus pensamentos, não? '

Ele se perguntou, olhando ao redor, observando a velha e pequena cidade no qual se encontrava agora.

'Os lugares também, ao que parece'

Ele pensou, sentando-se em uma velha escadaria de cimento coberto por vegetação. Olhando para o horizonte ele conseguia ver algo imenso se movendo.

Por alguma razão ele queria adicionar "tão grande que tocava as nuvens", o tipo de escolha exagerada de palavras que seu Pai gostava de usar. Mas isso não seria acurado. A máquina enorme que ele observava à distância era de fato grande, mas não tanto.

Ele assisti enquanto ela destruía um prédio com seus vários braços mecânicos, calmamente para não causar impactos desnecessários como desmontasse uma construção de blocos. Não era bem uma surpresa ela estar aqui, há pelo menos uma delas em toda cidade, ainda com seus protocolos para seguir.

Ele se perguntou quanto tempo até todas elas completarem suas tarefas e o que fariam depois disso, mas ele duvidava que isso seria cedo. Elas agiam lenta e continuamente, existe muitas cidades ao redor do mundo e quase todas eram muito grandes, se estendendo na superfície e no subterrâneo por quilômetros.

Um trabalho lento e refinado era necessário para se livrar de todo cimento e ferro sem causar muitos danos ao ambiente ao redor.

'Mesmo assim, sem ninguém para atrapalhar, logo a floresta cobrirá tudo'

Ele voltou para a questão inicial com essa frase, mas desistiu de se concentrar nisso quando sentiu um ressoar na cabeça. Ele voltou a si e olhou de novo para a máquina, ela também parecia o encarar. Ela enviou outro ressoar, um pedido educado e curto.

"Logo outros estarão aqui, não seria bom ficar por perto. Continue andando, por favor"

"Certo, irmã"

Ele respondeu, levantando-se e apressando-se para sua retirada.

Olhando de novo para o céu ele viu o sol chegando perto do fim de seu ciclo, logo o céu ficaria vermelho e, depois, escuro. Seria bom se seguir para um lugar mais aberto. Ele gostava de observar as estrelas.

'O Pai disse que antes não era possível ver as estrelas com facilidade'

Ele sempre se lembrava disso ao anoitecer.

Ao longo dos muitos anos em que ele seguir agindo como um catador, em solo e água, ele conheceu seu Pai, possivelmente como quase todos seus numerosos irmãos e irmãs. Uma figura peculiar e extravagante que, sem cerimônias, lhe contou isso, explicando sobre a influência das luzes artificiais humanas na visibilidade da luz estelar.

Essa conversa ficara marcada em sua lembrança como um memento especial, ele nunca mais deixara de observar as estrelas a noite.

'Derrubando as cidades, destruindo boa parte da luz artificial podemos observar quase todas as constelações'

Ele pensou enquanto o céu assumia tons alaranjados.

'Estamos fazendo algo bom, não é? '

Ele se perguntou, pensando também se alguém mais no mundo gostava de passar a noite olhando as estrelas, o céu noturno e ainda assim brilhante.

'Essa é a minha resposta? '

Apesar de satisfatória, não parecia ser tudo o que ela poderia ser.

Ele pensou nos humanos que construíram tudo o que agora estava sendo destruído, as pessoas que deram a ele e a muitos outros uma tarefa e, agora, muitas pequenas coisas para apreciar

Ele não sabia muito bem o que havia acontecido a eles, ele nunca tinha ido ao "campo de batalha" e sabia pouco sobre o que era, ele decidiu que iria perguntar isso para o próximo de seus irmãos que encontrasse.

Pensando nisso ele se lembrou de seu último encontro.

Diante a troca do relógio seu irmão perguntou por que os humanos eram tão obcecados com a passagem do tempo, na época ele não soubera responder.

Ele não entendia muitas coisas sobre os homens, principalmente o porquê de eles negarem aos outros e a si mesmos a chance de verem as estrelas, mas também por que danificavam as florestas e espantavam os passarinhos. Era quase como se gostassem de machucar tudo aquilo que ele aprendeu a gostar nessas últimas semanas, para rir dele em silêncio.

- Tão bonitas - ele murmurou, deitado na clareira de antes, preparado para tomar um novo rumo no dia seguinte, ele olhou para cada pontinho brilhante no céu.

Não havia significado conhecido para nenhum daqueles pontos, ou nomes, ou qualquer profundidade além de sua própria existência. Mas ele adorava olha-las, tirar fotos e observar as pequenas mudanças que ocorriam nelas todos os dias.

Os sons noturnos da floresta também lhe eram agradáveis, diferentes da alegria e agitação do canto dos pássaros ao amanhecer e entardecer, mas silenciosos e relaxantes. Abrindo um leque de novas sensações e admiração.

'Gosto disso'

Gostava de sua nova rotina, de suas pequenas brincadeiras, de suas caminhadas, de suas novas lembranças e das sensações que tinha quando pensava nelas, o calor interno voltou ao seu peito.

Ele silenciosamente agradeceu seu Pai por ter-lhe dado a oportunidade de, além de restaura-lo, poder aproveitar o mundo, também lhe pediu breves desculpas por ter danificado sua bateria.

O calor no seu peito cresceu, sua energia estava acabando de novo, seus irmãos não poderiam ajudar, só o Pai sabia como.

Os próximos dias seriam perdidos, ele não ouviria o cantar dos pássaros ou veria as estrelas, não sentiria a grama e a terra ou encontraria algum de seus irmãos ou irmãs até que sua bateria se recarregasse.

'Que desperdício'

Ele pensou, com sua consciência apagando lentamente.

Ele decidiu tentar tratar isso como "dormir" pela primeira vez, um sono de alguns dias ou semanas.

Ele segurou com uma mão e levou o espelho para o rosto, sua reflexão podia ser fracamente vista sob a luz das estrelas, o metal e as pequenas luzes que indicavam sua atividade.

- Será que estou começando a entender, Pai? – Disse para o reflexo, fingindo falar com alguém antes de "dormir".