O problema de se estar (meio que) apaixonada pelo seu melhor amigo é que você sabe exatamente todas as coisas que ele gosta, e tem plena consciência de que nenhuma dessas coisas está em você.

Penso nisso todas as vezes em que o escuto falar sobre a única garota pela qual ele foi apaixonado na vida. Então ele prossegue, falando de suas transas com outras mulheres e com as transas com aquela mulher em questão. Eu absorvo tudo, naturalmente, pois sou sua melhor amiga. Em primeira instância, nada daquilo me afeta, porque a conversa é divertida e o desabafo dele é mais importante do que qualquer outra coisa.

Não sinto ciúmes das garotas que já foram, apesar de saber que na época que ele estava com elas eu sentia. Ouço, absorvendo as coisas que ele menciona que gosta: ser arranhado, ser mordiscado nas costas, mulheres dominantes, comer garotas de quatro.

Faço notas mentais disso tudo, sem perceber, e comparo os gostos dele com o que eu sou: Minhas unhas não são longas o suficiente para arranhar ninguém. Posso mordiscar as costas dele, mas não acho que isso seja um diferencial. Fico com vergonha demais perto dele para sequer pensar em ser dominante. Aprecio ser comida de quatro, mas não acho que isso importe.

É estranho querer tanto ser o que ele quer e não poder ser. Porque eu sou eu. Ele não me vê como nada além de uma garotinha, ex-namorada de seu melhor amigo, sua melhor amiga agora por eventos aleatórios que a vida traz. É frustrante, mas é a realidade.

Enquanto escuto-o contar alegremente sobre como ele conquistou a garota da loja em que trabalhava e em como chamou ela pra sair – sinceramente uma história adorável, mas não estou prestando muita atenção -, penso na vez em que estivemos juntos.

Sim, aconteceu. Uma vez. Um momento desconexo, uma ação que não fez muito sentido. Foi logo depois de eu terminar com meu ex. Já éramos muito amigos nessa época então, dois meses após o término, quando eu estava procurando uma casa para ficar durante uma viagem, ele muito gentilmente concedeu a sua por alguns dias.

Eu sempre o achei bonito. Como não achar? Os cabelos compridos eram exatamente o meu tipo, e o jeito com que ele me tratava – sendo levemente rude às vezes, para então me tratar com absoluto carinho e fazer cafunés em minha cabeça – sempre foi de tirar o fôlego.

Às vezes, quando estava com meu ex, ponderava como seria namorá-lo. Me sentia culpada e procurava textos na internet que me dissessem que era natural sentir uma coisinha aqui e outra ali por alguém tão próximo, mas que não era nada demais. Escrevia textos aqui e ali também. Gemia o nome dele me masturbando às vezes, sozinha. Ele era meu crush adolescente e absolutamente secreto.

Digo adolescente no sentido de infantil, mesmo, porque não tenho outra maneira de descrevê-lo. Ele me fazia ser boba, afinar minha voz, aceitar suas implicâncias como se elas me alimentassem. Ele me deixava deitar em seu colo e acariciava meu cabelo às vezes, quando eu pedia porque estava triste por causa de meu ex. E eu crushava nele como se tivesse quinze anos de novo.

Mas enfim chegou a fatídica noite. Ele sempre foi um péssimo mentiroso, ainda que apenas eu achasse isso, e, quando ele tentou esconder que meu ex estava com uma namorada nova, eu percebi quase que de imediato que algo estava acontecendo, e o questionei.

Saber que meu ex estava com alguém tinha sido esquisito e doído um pouquinho, ainda que eu não gostasse mais dele e tivesse sido eu a terminar. Saber que a garota com que ele estava agora era ninguém menos que uma garota que fazia parte das minhas histórias de festa porque, além de ser parecida comigo e parecer estar sempre ao redor da minha vida, estava constantemente pegando meus ex, me deixou ainda mais afetada, e, como era de praxe nessas situações, terminei no sofá de meu melhor amigo, deitada em seu colo.

Conversamos sobre sexo por algum motivo. Não lembro de já termos falado do assunto antes disso – depois desse dia se tornaria algo que aconteceria aqui e ali -, mas ele me contou sobre suas experiências até então. Ele estava, inclusive, transando com uma garota agora, amiga nossa. Ouvi suas histórias com atenção, tentando rir apesar da estranha tristeza que sentia por meu ex e por toda a situação com a garota que quase parecia ser minha stalker.

Então, na hora de dormir, sendo estupidamente verdadeiro, ele comentou:

- Pena que (garota que ele estava comendo) não está aqui. Queria dormir de conchinha.

Eu estava deitada confortavelmente na cama dele enquanto ele estava deitado no sofá, e meu cérebro funcionou rapidamente. Tento acreditar que eu não tinha intenções ruins quando falei o que falei, mas não tenho certeza do que eu queria em meu âmago. Então talvez houvessem segundas intenções quando eu disse:

- Dorme comigo.

Foi natural e eu não estava pensando em nada demais, mas ele franziu a testa para mim. Ou acho que franziu. Eu tinha ficado com um pouco de vergonha, então não estava olhando.

- Vai ser estranho. – Disse.

Eu me senti em um videogame, em que a resposta certa te leva para uma direção e a resposta errada te leva para outra. Mas não existiam respostas certas ou erradas, só o que eu queria fazer. E no momento, depois de toda a tristeza, eu adoraria dormir de conchinha com ele. Então, falei:

- Não vai não, vem cá.

E ele veio. Combinamos que eu seria a conchinha maior para que as coisas não ficassem esquisitas, e eu concordei e o abracei quando ele deitou.

Dormir com alguém é agradável, ou pelo menos é o que a maioria das pessoas acha. Eu me arrependi da decisão quase que imediatamente, quando o cabelo dele ficou me impedindo de respirar. Comecei a ficar com calor também e me afastei para o outro lado da cama, tentando pegar ar. Mas a cama era de solteiro, e tudo que consegui foi ficar em uma posição incrivelmente desconfortável.

Senti que estava começando a ficar meio excitada também, e me senti uma idiota. Excitada e sem conseguir dormir, era simplesmente fantástico. Ao menos eu não estava pensando em nada além daquilo, nada de meu ex ou da stalker ou da garota que meu melhor amigo estava comendo ou a única mulher que meu melhor amigo amou.

Deixei minha mão cair no meio da cama, entre nós, enquanto tentava me ajeitar. Ou talvez estivesse esperando alguma coisa. Não sei. Mas alguns segundos ou minutos se passaram e, antes que eu percebesse, meu melhor amigo segurou a minha mão. Fiquei surpresa e confusa. Pela respiração dele, eu tinha certeza que ele estava dormindo. Ele segurar a minha mão ali não fazia o menor sentido, a não ser que fosse uma atitude inconsciente.

Pelo menos é o que penso agora. No momento acho eu só consegui pensar Ele está segurando a minha mão. Meu coração deve ter acelerado, não sei. Foi o que me deu coragem para agir. Saí do meu canto e tornei a abraçá-lo, esperando alguma reação. Não veio nenhuma. Ele estava mesmo dormindo.

Fiquei frustrada, acho. Querendo mais, sem poder; excitada e querendo que aquilo desse em alguma coisa. Então, como uma criança, comecei a me esfregar nas costas dele, me aninhando contra ele. Não sei qual era meu propósito. Quando falamos sobre isso, voltando a esta cena - é um assunto que eu prefiro evitar, mas já conversamos sobre -, ele diz que ficou na dúvida se eu estava acordada ou dormindo.

Não sei se ele quis tentar retribuir caso meus movimentos fossem conscientes – acredito que sim -, mas o que ele fez foi virar de barriga para cima. Eu me afastei de leve para que ele pudesse se ajeitar, então me aninhei de novo nele, dessa vez em seu peito. Nossos pés se encostavam. Acho que acariciei os dele de leve, e então ele acariciou o meu. Talvez tenha sido o contrário. Tudo que sei é que, independente de quem tenha feito primeiro, a situação me fez pensar "ele também quer, eu acho".

Abracei-o com mais força e fiquei fazendo carinho em seu braço, eu acho. Talvez ele tenha retribuído. Todos esses momentos são meio confusos na minha memória. Tudo que lembro é do que eu sentia: Eternos questionamentos de "ele está retribuindo?" e alegrias de "Meu deus, ele está retribuindo". Foi uma conversa muda de toques até ele se virar para mim.

Continuamos em silêncio, mas dessa vez nossos rostos se encostavam. Eu conseguia sentir o nariz dele encostado em minha testa, e sua respiração próxima. Acariciei sua coluna, fazendo movimentos circulares nela, e escutei-o gemer de leve em meu ouvido. Nunca, em minha vida, esperara escutá-lo gemer. Surpresa e querendo mais, continuei com os movimentos, e apreciei em silêncio enquanto o corpo dele respondia a meus toques.

Não sei quanto tempo ficamos nessa troca sem som de carinhos. Só sei que, em algum ponto, ele ergueu a mão e pegou em meu queixo. Lembro que pensei "ele está mesmo retribuindo" e, no segundo seguinte, ele estava me beijando.

Pensei naqueles lábios por tanto tempo. Lembro de uma vez que eu e meu ex-namorado dormimos na casa dele. Meu crush adolescente estava a mil naquela vez – era uma coisa que ia e vinha de vez em quando. Meu melhor amigo tinha ficado acordado direto e agora estava meio dormindo, meio acordado, no sofá. Ele estava deitado de barriga para cima, e seus lábios estavam levemente entreabertos.

Eu senti uma vontade tão grande de beijá-lo que quase o fiz, ali, de uma vez, tacando o foda-se pra tudo. Mas claro que não fiz, pois ele era um crush adolescente e meu ex era o meu amor. Relapsos como aquele eram naturais. Espero. Mas eu senti aquilo fortemente. Consigo lembrar da intensidade do momento como se ele estivesse acontecendo agora. Eu sempre tive curiosidade com aqueles lábios. Não preciso sequer fechar os olhos para imaginá-los.

Soa patético, mas é a verdade. Droga. Enfim. Ele me beijou. Ele pegou meu queixo e me beijou. A memória está gravada com intensidade em minha mente. Me delicio nela de vez em quando. Me delicio nela lembrando agora. Queria poder sentir todos aqueles sentimentos de novo. A dúvida e a recompensa e ele me beijando.

Meu melhor amigo me beijou. Acho que foi um beijo intenso. Acho que respondi com imediata intensidade. Não sei direito. Queria saber. A memória é meio nublada. Eram quatro, três, cinco, duas da manhã. Eu estava com sono, completamente grogue. Então não lembro direito. Lembro que no dia seguinte pensei que, por ter sido de madrugada, dava até para fingir que nada tinha acontecido.

Mas de madrugada, respondi intensamente. Lembro da alegria que senti quando percebi que ele estava excitado. Pensei "meu deus, eu o estou deixando excitado". Ele, que nunca tinha olhado para mim, estava excitado por causa de mim. Estava me beijando.

Então ele veio para cima de mim e, de alguma forma, parte da magia acabou. Quando vi seu rosto, meus movimentos ficaram mecânicos. Fosse porque era ele; fosse por causa do meu ex; fosse por causa de toda a situação... Eu não sei. Mas vê-lo naquela situação pareceu errado, como a violação de um código de conduta, fosse por ele ser meu amigo, fosse por ele ser amigo do meu ex, fosse por qualquer coisa.

Ele perguntou:

- Tá tudo bem? Você tá chorando?

Esses dias ele comentou comigo que perguntou essas coisas porque eu tinha ficado subitamente estranha, e que ele ficou com medo de estar abusando de mim ou coisa assim. Tão tolo. Como se eu não tivesse pedido e desejado tudo aquilo. Mas foi estranho, depois que o vi. Ficou mecânico. Não sei.

- Chorando? – Eu ri. – Eu não tô chorando, tá tudo bem.

Era verdade. Eu estava feliz de aquilo estar acontecendo. Só parecia ridiculamente errado. Quando penso em ver o rosto dele sobre mim, ainda parece estranho. Deitada, de olhos fechados e na escuridão do quarto, apenas o sentindo, não tinha parecido nada demais. Vendo-o, seu cabelo comprido e sua boca, reconhecendo que era ele, morri um pouco por dentro. Também não entendo ao certo por quê.

Ele tornou a me beijar, ou tirou minha roupa. Acho que tentei tirar a camisa dele também. Sim, ele tirou a camisa. Não lembro direito, mas lembro de pensar "Meu deus, como eu queria sentir ele assim". O corpo dele quentinho sobre o meu, eu acho. Os braços dele, que eu gostava tanto também, ao alcance do meu toque. Eu queria aproveitá-lo por inteiro, mas ainda assim tudo parecia estranho.

Eu o beijava com intensidade, entretanto. Quando ele afastava a cabeça, eu ia junto, não o deixando fugir dos beijos. Queria lembrar melhor deles. Sinto falta deles. Me arrependo de ter escrito que sinto falta deles.

Ele foi um pouco mais agressivo do que eu esperaria. Ainda vestido da cintura para baixo, ele forçava seu corpo sob o meu, e, quando percebeu que estava em uma posição esquisita para fazer direito, simplesmente me pegou pelos ombros e me jogou mais para o centro da cama. Aquilo me surpreendeu e me excitou. Acho que o agarrei pelo quadril com as pernas, mas não tenho certeza também.

Não transamos.

Acho que ele chupou meus seios, mas não sei. Só lembro dos beijos, das minhas dúvidas de "onde eu coloco a minha mão" e de todo o meu nervosismo. Sexo casual definitivamente não é algo para mim. Não saber que a pessoa gosta de mim me deixa com uma sensação esquisita, como se eu não pudesse me libertar. Como se eu fosse ser humilhada e fossem zombar de mim.

Com um tom meio de falsa inocência, perguntei se ele tinha camisinha, mas ele pediu desculpas e disse que não conseguia transar. Já imaginava que fosse o caso – ele tinha me dito que não conseguia transar com garotas na primeira vez.

Me arrependo até hoje de ter perguntado, pois sinto que foi uma humilhação e que fui meio patética. Acho que ele não deve ter pensado nada daquilo, mas é. Fora de meu controle.

Em algum ponto, depois de nos beijarmos muito, ele perguntou:

- O que você quer?

Eu já sabia que não íamos transar. Eu definitivamente não sabia o que queria. Mas sabia que responder "eu não sei" seria estúpido e não levaria em lugar algum. Então falei algo que eu gostava:

- Oral.

Pensando agora, acho que ele estava com a mesma sensação esquisita que eu estava. A mesma sensação mecânica. Meio perdido sobre o que fazer.

Às vezes penso que devíamos ter feito tudo aquilo enquanto embriagados. Quem sabe um dia, se a oportunidade existir. Um longo suspiro aqui. Não acredito que ainda penso nessas possibilidades.

Enfim. O oral foi meio que um desastre. Não sei se ele estava fazendo coisas erradas, mas eu não estava aproveitando. A sensação de desconforto era permanente, o que não me ajudava a relaxar. Sua língua parecia estar no lugar errado e, por mais que ele estivesse me segurando em uma posição ridiculamente incrível – e eu estivesse gemendo -, seus dois dedos estavam me deixando desconfortável e eu não tive coragem de pedir para ele se limitar a um só.

Depois de algum tempo em que eu gemi muito – e não foram gemidos falsos, realmente estava bom, apesar de meio estranho e não tão bom, a posição era muito boa – ele perguntou "Foi?", o que era um código claro para "Já gozou?".

Sem graça, desconfortável e achando que aquilo não iria levar a lugar algum – traumas do passado com ex-namorados me chamando de frígida – respondi "Foi".

Ele voltou para meu lado então. Eu perguntei se ele não queria que eu fizesse nada para ele, e a resposta foi negativa:

- Não precisa.

Esses dias ele me disse que, nesse momento, ele estava se sentindo extremamente mal por toda coisa com meu ex. Como eu falei, ambos estávamos desconfortáveis, até onde eu sei. Queria perguntar tudo sobre esta noite para ele, mas não posso pedir para ele escrever um relato como o que eu estou escrevendo agora. Gostaria que pudesse.

Ficamos aninhados depois de tudo. A pegação intensa pareceu ter contemplado um tempo infinitamente melhor do que toda a provocação e dúvida de "ele está retribuindo ou não?". Deitados, chamei-o de garanhão e disse que agora ele estava comendo todas as amigas dele. Tentei soar divertida e descolada ou qualquer coisa assim. Não estava triste ou sentindo nada de errado exatamente, mas quis voltar imediatamente pro modo de "amigos conversando" por algum motivo.

Ele perguntou algo que me deixa meio triste:

- Não vai ter problema de ciúmes com a (amiga que ele estava comendo), vai? Tá tudo bem?

Eu percebi pelo tom dele que ele estava preocupado. Com meus sentimentos ou com a situação ou com o quê eu não tenho certeza, mas estava. Então respondi que não, porque era a mais absoluta verdade, mas guardei o tom dele e a pergunta no coração com uma leve amargura por algum motivo.

Depois, acho que ele perguntou se eu tinha gozado de verdade, e eu hesitei, mas admiti que não. Ele disse que podia continuar, mas eu falei que não precisava também. Todo o processo dele encontrar minha calcinha e camisola já tinham sido meio embaraçantes o suficiente, além de um lembrete da estranheza que era a minha situação com ele.

Por fim, ele perguntou se eu queria que ele dormisse ali comigo ou se eu queria que ele fosse para o sofá e que eu dormisse sozinha. Como eu sabia que não dormiria se ele ficasse ali, disse isso. Acho que ele interpretou errado, como se eu fosse querer transar mais ou algo assim, porque acho que riu, mas então foi para seu sofá (depois de me dar um beijo na testa) e dormiu.

Era para ter terminado aí. No dia seguinte fingimos que absolutamente nada tinha acontecido. Encontramos com uns amigos em um restaurante à noite, e foi meio esquisito pra mim – porque ele era meu amigo mais próximo lá, mas eu estava com medo de ficar grudada demais nele e ele achar que eu estava apaixonada por ele ou coisa assim.

Não estou apaixonada por ele, vide. Meio que apaixonada porque sinto ciúmes e tenho todos esses sentimentos, mas não namoraria com ele, eu acho. Muitas coisas parecem deslocadas e inúteis em todos esses sentimentos que sinto. Mas não acho que seja estar apaixonada de verdade. Enfim.

No dia seguinte a isso, acho que não nos vimos por algum motivo. Horários conturbados. Eu ia dormir na casa de outro amigo durante os próximos dias, então não nos veríamos. Não nos vemos. E, no dia seguinte de termos nos separado, acabei beijando um garoto com quem eu estava enrolada há um tempo.

Quis beijar o garoto, claro. Gostava dos beijos dele também. Estava quase considerando entrar em um relacionamento com ele um dia, talvez, mas ele tinha sido um babaca. Então só o beijei dessa outra vez, e tivemos um dia legal. Quando meu melhor amigo perguntou como eu estava, simplesmente respondi o nome do garoto, e mais tarde expliquei. Ele detestava esse garoto por ele ter me magoado e ser um babaca. Ainda detesta (todos os meus amigos detestam).

Enfim, apesar de querer beijar o garoto, acho que de alguma maneira a coisa toda também me serviu como argumento de "Ok, eu estou com tesão incontrolável" (o que era verdade) "e por isso fiquei com meu melhor amigo" (o que era uma meia verdade). Mas para meu melhor amigo, provavelmente foi o que ele pensou. O que ele pensa, já que ele não sabe do meu crush. Ou provavelmente sabe, já que aparentemente todo mundo percebe há quilômetros de distância, mas não diz nada.

O ponto é, a coisa toda serviu de desculpa. O assunto daquela madrugada poderia morrer ali, e poderíamos fingir que nada tinha acontecido. Lembro que eu pensava comigo mesma que eu "podia fingir que tinha sido um sonho".

De fato, pareceu como um sonho quando ele estava me masturbando e eu gemi o nome dele. Foi um momento divertido: Eu já tinha gemido o nome dele algumas vezes sozinha, e sempre me sentia culpada. Já tinha tido vontade de gemer o nome dele em situações que não podia... Então, quando gemi o nome dele, tive uma sensação de "Oh meu deus, eu fiz merda". Mas aí, no mesmo milésimo de segundo, percebi que estava tudo bem gemer o nome dele. Foi divertido.

Então, quando voltei para a casa dele, estava ele, a nossa amiga (que ele estava comendo) e outros amigos. Eu fiquei meio que me perguntando como agir. Ela era quem ele estava comendo recorrentemente (eles tinham transado depois de ele ter ficado comigo, por sinal) e eu era a transa esquisita de uma madrugada esdrúxula.

Bebi, é claro. E peguei no sono rápido. Lembro que foi um rolê péssimo no geral, porque eu queria ficar à sós com ele e não podia. Ou queria poder ficar normal com meus amigos, mas também não podia. Peguei no sono na cama de um amigo, e depois fui acordada para ir para a cama de meu melhor amigo. Acho que ele não dormiu com a nossa amiga naquela noite, e isso me deixou levemente satisfeita e segura.

No dia seguinte, almoçamos todos juntos. Eu fiz um esforço para insistir que ela almoçasse com a gente e coisas assim, mas no fundo estava mesmo levemente enciumada e querendo que ela fosse embora. Mas ela era minha amiga também e eu queria passar tempo com ela, então me forcei a não ser uma ciumenta chata. Acho que meu melhor amigo comentou algo dos peitos dela em algum momento, pra mim, à sós. Ugh.

Almoçamos. Eu toquei e tirei foto da tatuagem dele. Lembro desse momento porque, quando volto nele, pensando no que meu melhor amigo me contou pouco depois – que ele tinha contado para nossa amiga que eu e ele tínhamos transado -, imagino ela me vendo tocar na tatuagem dele e ser boba pensando "Que garota patética". Tudo coisa da minha cabeça, muito provavelmente, mas algo que sou incapaz de afastar.

A deixamos em casa. Era meu último dia na cidade com ele. Fomos ao shopping, e foi a coisa mais esquisita. Quando ele passou listerine e me ofereceu também, pensei "Oh, talvez nós nos beijemos". O ar todo da situação parecia indicar isso.

Então saímos de casa, presenciamos um homofóbico ser rechaçado no ônibus e tivemos o "encontro" mais estranha de nossas vidas. Eu não tinha o que fazer no shopping, e eu e ele estávamos claramente agindo de maneira esquisita. Ele fazia algumas implicâncias, fingindo que ia me deixar para trás. Às vezes essas implicâncias dele me cansam, e era uma dessas vezes. Acho que ele estava exagerando para tentar fazer com que as coisas voltassem ao normal, mas não estava dando certo.

Quando vimos livros, eu finalmente fiquei no meu cantinho e me senti mais confortável. Então brinquei e lhe dei um livro de sexo, pensando nas garotas que ele já tinha transado com. Era sobre orais e coisas do tipo. Então, ele perguntou "Isso é uma indireta?" e eu fui lembrada de que nada do que tínhamos passado tinha sido um sonho. A chance de manter tudo aquilo como um sonho da madrugada se esvaíra porque ele tinha quebrado a mágica do silêncio.

Ri e disse que não, claro que não, e tivemos o resto de nosso estranho "encontro" (que era só uma saída, mas eu não consigo pensar numa palavra melhor para usar). Voltamos para casa comigo pensando "Puta que pariu esses foram momentos esquisitos e desconfortáveis" e ficamos lá, esperando pelo horário do meu voo.

Conforme a hora chegava, menos eu queria ir embora. Porque eu queria mais uma chance de beijá-lo e de ficar com ele de alguma maneira que não fosse só como amiga. Fosse tesão ou fosse por ser ele (e grande parte poderia ser, sim, tesão, pois eu definitivamente não estava com a mente muito boa e com os hormônios tranquilos na época), o caso era que eu estava desesperada. Então, um dos amigos dele chegou e ficou conversando conosco, me fazendo querer mata-lo.

Sem ligar para a presença dele, falei para meu melhor amigo que iria tirar uma casquinha dele e deitei com ele, o abraçando. Eu meio que estava querendo expulsar o amigo dali, mas ele não saiu. Ele só saiu quando eu já estava nos últimos dez minutos ou coisa do tipo – e eu ainda enrolei bastante para pedir meu Uber para ir embora.

Eu era covarde demais para falar qualquer coisa para meu melhor amigo. Mas pensei na minha psicóloga e no meu motto de "se arrepender por ter feito, e não por não ter feito" e então, em um surto repentino de coragem do qual meio que me orgulho/meio que me arrependo, perguntei:

- Me dá um beijo?

Ao que ele prontamente respondeu:

- Sim, ué.

E eu me aproximei dele de uma vez, sentindo gratidão pura. Mas então, quando ele percebeu que eu estava indo em direção à sua boca, sua reação foi de surpresa:

- Espera. Você quis dizer na boca?

Morri de vergonha. Comecei a gaguejar e dizer que "ah, não, tudo bem se você quiser, desculpa, ahn, desculpa", mas em resposta ele riu e disse algo como "Vem cá" ou "Idiota" ou "Besta" e me puxou pela nuca e me beijou.

Não preciso dizer que fiquei alegre como uma criança. Não sei se era mais uma de suas implicâncias (acredito que sim) ou se ele estava genuinamente confuso com meu beijo (com certeza foi uma implicância. Desgraçado).

Então, quando eu achei que fosse morrer de alegria e comecei a pensar que talvez eu pudesse ter alguma esperança de alguma coisa algum dia porque eu sou estúpida, sonhadora e tenho um crush adolescente em meu melhor amigo, ele disse:

- Mas você não pode ficar fazendo isso, tá?

Fiquei confusa.

- O quê?

Ele respondeu com facilidade:

- Ficar me pedindo beijo. Eu conheço você. Não dá pra você ficar me pedindo beijo sempre que você estiver triste ou coisa assim.

A sensação de confusão, humilhação e rejeição que eu enfrentei no curso de alguns segundos – e que tentei rir para disfarçar dizendo "O quê? Como assim?" – foi terrível. Mas por fim meio que concordei com ele, dizendo que não pediria mais beijos – falando orgulhosamente e meio divertidamente, apesar de estar com meu orgulho/ego/tudo ferido – e que ele estava certo e me conhecia bem mesmo.

E meu melhor amigo estava certo. Se ele não tivesse dito aquilo, é claro que eu pediria mais beijos. Mas não só por estar triste, eu acho.

Bem. Fui embora e ele me levou até os elevadores. Acho que não o abracei, ou o abracei de um jeito falso. Talvez eu tenha visto um olhar preocupado/confuso no rosto dele, mas não tenho como ter certeza. Fui embora me amaldiçoando por ter pedido um beijo e ter me humilhado daquele jeito.

No caminho para casa, boba como sou, enviei várias mensagens para ele dizendo que eu não estava apaixonada por ele e que não era pra ele ficar com nenhuma sensação esquisita ou sei lá. Ele respondeu com figurinhas indiferentes que claramente diziam que eu era uma idiota completa, e eu assumi que estava tudo bem.

Não nos falamos muito por um tempo, o que é meio normal para nós, na verdade, e voltamos a nos falar há uns dias atrás. Tem sido divertido, fora os sentimentos conflitantes que aparecem aqui e ali. Sonhar com ele já aconteceu demais, o que me irrita – sempre sonhos em que eu sou trocada ou rejeitada.

No momento ele e minha melhor amiga, em quem ele meio que já teve um crush, estão se falando com mais frequência. Mais cedo eles assistiram filmes juntos. Eu tento controlar o ciúme. Fico feliz que os dois estão se divertindo juntos, ou ao menos é o que tento me convencer de. Duas noites atrás ou algo assim tivemos uma longa conversa sobre sexo de novo, onde falamos da vez que nos envolvemos. Foi a primeira vez desde o dia do beijo e das minhas mensagens acaloradas. Foi natural, mas me deu alguma esperança de alguma coisa.

Não sei mais ficar sozinha com ele direito. Queria que os sentimentos passassem, porque já fui mais do que rejeitada, eu acho. E não acho que queria que nós dois namorássemos. Mas definitivamente queria beijá-lo de novo, e beijá-lo quando não fosse mais mecânico. Não me considero apaixonada. Não sei direito o que fazer desses sentimentos, ou como nomeá-los. Nem quero que alguém os nomeie por mim. São só sentimentos.

Mas são 6:42 da manhã, e passei duas horas escrevendo sobre ele depois de vê-lo se divertir com minha melhor amiga e tentar, desesperadamente, não sentir ciúmes.

Um último suspiro antes de terminar esse texto e ir dormir de uma vez.

Eu sou uma grande idiota.