Título: Fim-de-Semana Mortal

Autoria: Dream-Devil

Género: Horror, Thriller

Sumário: Um grupo de estudantes é levado até casa do seu professor, para depois irem, supostamente, passar o fim-de-semana a um resort. No entanto, os estudantes veem-se presos numa armadilha, em que as suas vidas estarão colocadas em perigo e começam a morrer um por um. Oneshot.

Para mais facilmente compreenderem e identificarem as personagens, segue abaixo uma lista das mesmas:

1. Nome: Raymond Prentiss

Idade: 40 anos

Aparência: Alto, cabelo preto, olhos cinzentos

Informação: Professor de Línguas, parece gostar dos seus alunos, mas tem um ladro negro.

2. Nome: Clorica McNorth

Idade: 17 anos

Aparência: Estatura média, cabelo preto, longo, olhos castanhos

Informação: Doce, faz amigos com facilidade e gosta de toda a gente. Namorada de Steven.

3. Nome: Steven Winston

Idade: 18 anos

Aparência: Alto, cabelo castanho, olhos castanhos

Informação: Responsável e corajoso, é visto pelos outros como um líder capaz e que sabe incentivar as pessoas. Namorado de Clorica.

4. Nome: Matthew Dunnil

Idade: 17 anos

Aparência: Baixo, cabelo castanho, olhos verdes, usa óculos

Informação: Inteligente e sensível, é o melhor aluno da turma. Adora ler.

5. Nome: Oscar Bane

Idade: 18 anos

Aparência: Alto, loiro, olhos cinzentos

Informação: Atlético, pertence à equipa de futebol da escola.

6. Nome: Penelope Parks

Idade: 18 anos

Aparência: Estatura média, Cabelo castanho comprido com madeixas loiras, olhos cinzentos

Informação: Vaidosa, adora ser o centro das atenções e tudo o que tenha a ver com moda. Costuma ser crítica de toda a gente.

7. Nome: Abby Alderman

Idade: 17 anos

Aparência: Baixa, cabelo ruivo pelos ombros

Informação: Tímida, prefere que não reparem nela. Gosta de observar os outros.

8. Nome: Lamar Rock

Idade: 17 anos

Aparência: Alto, cabelo preto, olhos castanhos

Informação: Animado, gosta de contar piadas. Não sabe quando deve estar calado.

9. Nome: Betsy Rains

Idade: 18 anos

Aparência: Alta, loira, cabelo pelos ombros

Informação: Bonita e distraída, é considerada pelos outros como um pouco burrinha.

Fim-de-Semana Mortal

A carrinha de nove lugares avançou, pisando a gravilha da estrada até chegarem a um portão. O professor Raymond, que ia volante, carregou num botão de um comando e o portão começou a abrir-se lentamente. Matthew, que ia sentado num dos lugares na traseira da carrinha, junto de Oscar e Abby, olhou à sua volta. O portão que agora se abria era bastante alto, feito de ferro resistente e pintado de preto. Havia um muro, igualmente alto, pintado de branco, de um lado e do outro, mas Matthew não conseguia ver o fim do muro. A carrinha avançou finalmente, acabando por parar perto de uma casa bastante grande, enquanto o portão se fechava. Raymond saiu da carrinha e indicou a todos para fazerem o mesmo.

Raymond era professor, na escola secundária Darkwood e criara um concurso no início do ano escolar, para a sua turma favorita, em que indicara que oito alunos que seguissem as regras e tivessem as melhores notas, iriam ganhar um fim-de-semana num resort de um familiar seu. Isso deixara os alunos bastante entusiasmados e mesmo aqueles que costumavam esforçar-se pouco, tinham mudado a sua atitude, para ganhar aquele prémio. E agora, chegara o dia em que o grupo iria para o resort. Tinham-se encontrado à porta da escola e Raymond fora buscá-los. Entretanto, indicara que antes de irem para o resort, ele teria de passar pela sua casa, para buscar algumas coisas que eram necessárias. E assim, tinham chegado àquela casa.

Penelope olhou à sua volta, vendo o jardim, com muitas ervas e algumas árvores, mas que aparentava ser pouco cuidado. Havia uma fonte, sem água, a meio do jardim. A casa estava pintada de branco e tinha dois pisos. Virando-se, viu o muro que envolvia o terreno. Era um local bastante grande e pareciam haver aglomerados de árvores para lá da casa. Raymond sorriu aos seus alunos e indicou-lhes que podiam entrar, mas que não demoraria muito para partirem novamente em direção ao resort. Avançou para a porta da casa, tirando uma chave do bolso e os alunos seguiram-no.

- Só é pena o dia de hoje estar nublado - disse Clorica, olhando para o céu, onde quase não se via o sol, devido às gordas nuvens cinzentas. - Mas ainda assim, vamos divertir-nos no resort na mesma.

- Claro que vamos - disse Steven, o namorado, puxando Clorica para si e dando-lhe um beijo rápido nos lábios. – Qualquer momento em que esteja contigo, acho sempre divertido.

- Bem-vindos à minha casa - disse o professor, quando entraram. O hall de entrada era grande, com uma escadaria ao fundo, que dava para o piso superior. Várias portas, de um e outro lado do hall, davam para outras divisões. Matthew prestou atenção a tudo, ao tapete persa no chão, ao candelabro de cristal no teto, aos quadros antigos nas paredes. Raymond fez sinal e avançou para a esquerda, abrindo uma porta. - Podem esperar um pouco aqui na sala de estar, por favor.

- Esta casa parece ser muito grande - disse Lamar, no seu tom brincalhão. Entraram na sala, que tinha três sofás grandes, uma televisão ao fundo, em cima de um móvel de madeira escura e uma mesa e cadeiras num dos cantos. Tudo ali parecia ser de qualidade. - E a sala de estar é um espetáculo. Também queria ter uma televisão como aquela.

- Pois, mas deve custar muito dinheiro – disse Abby.

- Sim, lá isso é verdade. Mas não custa sonhar. E vê se te animas um pouco, Abby, em vez de ires para o resort, parece que vais para um funeral.

Raymond indicou-lhes para se sentarem e descansarem. Tinha sido prometido que o fim-de-semana seria para terem uma aventura e também para relaxarem. Lamar sentou-se num dos sofás, recostando-se e afirmando que era bastante confortável. De forma calma e mantendo-se calada, Abby sentou-se ao seu lado. Penelope e a sua melhor amiga, Betsy, sentaram-se noutro sofá. Betsy tirou o telemóvel da mala, mas descobriu que não havia sinal ali. Suspirou e arrumou o aparelho novamente.

- Clorica, dás-me uma ajuda, por favor? - perguntou o professor.

Clorica, que ia sentar-se ao lado do namorado num dos sofás, abanou afirmativamente a cabeça. Estava sempre pronta para ajudar toda a gente. Os colegas sabiam que podiam contar com ela para os ouvir, lhes dar conselhos e os ajudar nos trabalhos de casa. Ela e Raymond saíram da sala, enquanto os outros se sentavam. Steven não parecia muito satisfeito por a namorada ter ido com o professor. Achou que o professor podia ter pedido a outra pessoa que fosse com ele, mas manteve-se calado. Clorica já lhe tinha dito que ele tinha a tendência de ter ciúmes sem razão para isso.

- O nosso fim-de-semana vai ser magnífico - disse Penelope, passando uma mão pelo cabelo. Trazia um vestido cor-de-rosa e brincos da mesma cor. Era conhecida por estar sempre muito bonita e arranjada, apesar de as suas palavras normalmente não serem tão bonitas como a sua cara ou as suas roupas. - O professor Raymond disse que o resort tinha um SPA, portanto vou usá-lo ao máximo. Quero uma bela massagem.

- Eu também - concordou Betsy, parecendo animada com a ideia. - E trouxe o meu biquíni para poder nadar na piscina. Espero que o tempo melhore e apareça o sol, para eu ficar bronzeada.

Lamar sorriu, pensando que ver Betsy em biquíni parecia uma ideia muito boa. Ele trouxera os calções de banho e pouco mais, mas a bagageira da carrinha ficara praticamente cheia só com as coisas que as raparigas tinham trazido. Olhando para Steven, Lamar achou que ele parecia muito rígido, sentado junto de Matthew e Oscar. Não era de estranhar muito, porque Steven parecia sempre menos seguro de si mesmo quando não tinha a namorada por perto. Ainda assim, não havia dúvidas de que ele era muito boa pessoa.

- O que será que o professor precisava de vir aqui buscar? - perguntou Matthew. Estava sempre a fazer perguntas, pois era muito curioso, o que por vezes irritava os outros. Penelope revirou os olhos. - Ele vive aqui, é a sua casa, portanto se nos foi buscar, é porque já teria consigo o que precisava para o fim-de-semana.

- Pode ter-se esquecido de algo - respondeu Oscar. Não era a pessoa mais inteligente do grupo. Só com a ajuda de Matthew ele tinha conseguido melhorar as suas notas para conseguir ir na viagem ao resort. Betsy, que era de longe a menos inteligente de todos, pedira ajuda a Penelope e a Clorica, que a tinham ajudado. Mesmo assim, ficara apenas a um porcento de diferença de outro aluno, mas conseguira ficar classificada para ir ao resort. - Acontece-me muitas vezes. Ele volta em breve.

- Não acham estranho que um professor do ensino secundário viva numa casa assim tão grande? - perguntou Penelope, cruzando os braços. - Quer dizer, isto parece uma casa de pessoas ricas e os professores não ganham uma fortuna. Se ganhassem, então eu também ia para professora.

- Pode ter herdado a casa de alguém - sugeriu Abby. Os outros olharam-na e ela encolheu-se ligeiramente. Não gostava de ter muitos olhos sobre si. Era inteligente, sendo a segunda melhor da turma, mas tinha dificuldade em se expressar quando estava com muitas pessoas. - E não quer dizer que as pessoas mais ricas não possam optar por ser professores.

- Vamos focar-nos no fim-de-semana que vamos ter - sugeriu Lamar, sorrindo. - Isso sim, é o que importa. Vamos divertir-nos! Como ainda não fiz dezoito anos, conto contigo para me comprares umas bebidas alcoólicas, Steven.

- Se o professor não nos impedir de beber - disse Steven. Respirou fundo. - Ele e a Clorica nunca mais aparecem. Se calhar devia ir ver onde estão.

- É melhor esperares. A casa tem dois andares. Não os ias encontrar facilmente - disse Oscar.

Steven acabou por se calar. Fechou os olhos por um segundo. Não sabia exatamente o que o fazer no fim-de-semana, mas a verdade é que desde que estivesse com Clorica, tudo estaria bem. Os dois namoravam há três anos e a cada dia que passava, Steven sentia-se mais feliz com ela. Clorica queria seguir para a universidade, quando terminassem o secundário, nesse ano. Steven pensava ir trabalhar. Queria ganhar dinheiro e ter o seu próprio espaço. E depois, talvez pedisse Clorica em casamento. Esperava que ela aceitasse.

- Não acham um bocadinho estranho que um professor tenha oferecido a oito alunos um fim-de-semana num resort? Quer dizer, não é algo barato - disse Matthew, ajeitando os óculos. - Eu sei que o professor Raymond disse que era o resort de um familiar, mas ainda assim, um fim-de-semana grátis para oito pessoas, mais o professor...

- Se calhar a família dele é muito rica - disse Betsy, com um olhar sonhador. - Podem vir de uma geração de pessoas que tenham enriquecido com o petróleo ou grandes negócios. E nós tivemos a sorte de conseguirmos aproveitar um fim-de-semana muito bom. Quem me dera que todos os professores fossem assim.

Matthew calou-se, vendo Penelope a lançar-lhe um olhar aborrecido, à espera de que ele dissesse mais alguma coisa. No entanto, Matthew sentia-se inquieto. Gostava do professor, que era simpático e conseguia cativar os seus alunos, mas algo não batia certo. Sentia-o, mas não o podia explicar. Então, olhou para um canto da sala e viu uma câmara de filmar. Era pequena e estava presa à parede, quase invisível ao lado de um móvel. Franzindo o sobrolho, Matthew levantou-se, aproximando-se para a examinar.

- Há uma câmara ali - disse ele, apontando para a parede. Betsy levantou-se também, colocando-se ao lado de Matthew. - Porque é que alguém teria uma câmara de vigilância dentro de uma sala? No exterior ou mesmo no hall, pode fazer sentido, mas numa sala?

- Realmente, é estranho - disse Oscar, trocando depois um olhar com Steven.

Ninguém sabia explicar exatamente porque estaria ali a câmara. Steven começava realmente a cansar-se de estar à espera. Queria sair da sala e ir procurar a namorada, mesmo que parecesse que estava com ciúmes. Levantou-se. Mesmo que Clorica ficasse aborrecida, acabaria por lhe passar. Foi então que a televisão se ligou, com um ruído. Steven olhou para lá e abriu muito os olhos, ao ver na televisão a imagem de Raymond e Clorica. Raymond tinha o cotovelo esquerdo à volta do pescoço de Clorica, enquanto que com a mão direita segurava uma pistola e a apontava à cabeça dela. Olhavam os dois em frente. Clorica choramingava e Raymond estava sério.

- Olá, meus queridos alunos - disse ele e todos olharam para a televisão. Lamar ficou com uma expressão surpreendida no rosto e Penelope levou uma mão à boca. - Mais uma vez, bem-vindos à minha casa. Prometi-vos que este fim-de-semana seria para terem uma aventura e relaxarem também. Até vos disse que no resort havia escalada e outras atividades. Lamento, mas menti. Não vão chegar a ir a nenhum resort. Vão ser caçados. É essa a vossa aventura e o relaxamento virá quando estiverem mortos.

- Que brincadeira é esta? - perguntou Steven, furioso, dando um passo em frente.

- Não tem piada nenhuma - concordou Betsy, engolindo em seco.

- Não é nenhuma piada, meus caros. Nunca tive intenção de vos levar a um resort. Não tenho nenhum familiar que seja dono de um resort. Foi uma mentira elaborada, para conseguir trazer oito de vocês até aqui - explicou Raymond, sorrindo ligeiramente. Clorica continuou a choramingar, com medo. - Clorica, faz menos barulho, para que me possam ouvir bem.

- Deixe-a em paz! - exclamou Steven. - Se lhe fizer mal, eu acabo consigo.

- Gostaria de ver isso, Steven. Esta é realmente a minha casa. Tenho câmaras em muitos locais e vocês não vão conseguir sair daqui. Este é um jogo, para mim. Vou acabar com as vossas vidas, um por um.

- Se isto é uma brincadeira, é bom que acabe depressa, porque está a estragar-nos o fim-de-semana - disse Lamar, levantando-se do sofá também. - Queremos ir para o resort.

- Pois, isso mesmo – disse Abby, com a voz algo sumida.

- Já vos disse que foi uma mentira. Não sejas estúpido, Lamar, não tentes negar o que se está a passar - disse Raymond, suspirando. Depois olhou para Clorica, que tremia. - Clorica, és das minhas aulas favoritas. Por isso mesmo, vais ser a primeira a morrer, para não teres de experimentar o medo que os outros vão sentir, enquanto tentam sobreviver, em vão. Aconselho-vos a tentarem fugir, porque se ficarem no mesmo lugar onde estão agora, irei chegar a vocês facilmente.

De seguida, Raymond largou Clorica e deu dois passos atrás. Ela ficou confusa e quando finalmente se tentou mexer, Raymond ergueu a pistola e disparou, acertando-lhe em cheio na cabeça. Na televisão, os restantes alunos viram o corpo de Clorica cair e desaparecer da imagem. Steven gritou de horror. Betsy também gritou, ficando histérica, até que Penelope se aproximou dela e lhe deu um estalo para a calar. Matthew ficou pálido e deu um passo atrás. Abby levou uma mão ao peito. O professor suspirou e voltou a olhar em frente, para a câmara que o estava a filmar e a transmitir para a televisão da sala.

- Conforme prometido, a Clorica foi a primeira a morrer. Agora, restam apenas sete de vocês. Quero divertir-me com isto, a ver-vos tentarem fugir e falharem - disse Raymond, com um sorriso. Os seus olhos pareciam ter um brilho maníaco, que os alunos nunca lhe tinham visto. - Pergunto-me quem será o próximo a morrer? Agora tudo pode acontecer.

- Vou matá-lo por isto! - gritou Steven. Lamar tentou aproximar-se dele, mas Steven afastou-o, gritando à televisão. Sentia o corpo a tremer e não fosse a sua força de vontade, poderia ter perdido os sentidos com o choque. - A Clorica não merecia isto!

- Talvez não. Talvez nenhum de vocês mereça, mas são especiais. Conseguiram ser os oito mais inteligentes da vossa turma. No entanto, a recompensa não é bem o que vocês estavam à espera, é verdade. Agora, que comece a caçada. Ah, deixem-me dizer-vos um pormenor importante. Tirando a porta da frente, mais nenhuma tem uma fechadura funcional, portanto trancarem-se numa das divisões não é solução. Vejo-vos em breve. E eu deverei ser a última coisa que verão nesta vida.

A televisão ficou negra de seguida. Na sala, os sete alunos ficaram parados, chocados com o que acontecera. Steven voltou a gritar. Depois, num passo rápido, saiu da sala de estar, para procurar o professor. Estava determinado em matá-lo, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida. Clorica morrera. A sua Clorica, otimista e sorridente, que o fazia sentir-se feliz. Fora morta, de forma cruel, por alguém em que pensara que podia confiar. Mas o professor Raymond iria pagar bem caro por isso.

- Não há hipótese nenhuma de isto ter sido uma encenação, pois não? - perguntou Abby, ainda sentada no sofá da sala. Parecia muito pequena, encostada às almofadas.

- Isto foi um homicídio! O nosso professor é louco - disse Penelope. - Temos de sair daqui, antes que ele venha atrás de nós.

- Vamos para a carrinha. Talvez ele tenha lá deixado as chaves ou pelo menos o comando para abrirmos o portão e fugirmos - sugeriu Lamar.

Devido ao caminho que tinham percorrido, o grupo sabia que não havia mais nenhuma casa no raio de três quilómetros, mas estavam convencidos que poderiam percorrer essa distância, para conseguirem salvar as suas vidas. Lamar avançou para a porta da sala, com Penelope atrás dele e, depois de alguma hesitação, Betsy seguiu-os. Oscar preparava-se para fazer o mesmo, quando Matthew lhe agarrou o braço e acenou negativamente com a cabeça.

- Isto foi planeado, de forma fria e calculada. O professor Raymond não iria deixar pontas soltas tão óbvias. Os muros são altos, o portão está fechado e as chaves não estão na carrinha - disse ele, enquanto Oscar o ouvia. - A intenção dele é manter-nos aqui, desesperados e matar-nos por estarmos indefesos. O que devemos fazer, é encontrarmos forma de nos defendermos quando ele vier tentar matar-nos.

- Está bem - disse Oscar, com um aceno de cabeça.

- Anda Abby, vamos sair daqui - disse Matthew.

- Não, não consigo - disse Abby, abanando negativamente a cabeça e mexendo as mãos de forma nervosa. - Não quero sair daqui. Tenho medo. Vocês podem ir, mas eu fico aqui. Ele disse que viria aqui, mas deve pensar que todos iríamos fugir desta divisão. Ficarei a salvo.

Matthew abriu a boca para lhe dizer que não seria assim. Havia a câmara que estava a filmar tudo a um canto e, portanto, bastava Raymond ter acesso à imagem da câmara para ver que a divisão não estava vazia. Abby colocou as mãos nos ouvidos quando ele tentou argumentar. Sentindo que não valia a pena e estavam a perder tempo, Matthew avançou para a porta. Ele e Oscar saíram da divisão, deixando Abby para trás, entregue à sua sorte.

Fim-de-Semana Mortal

Steven não sabia onde Raymond estava. A casa tinha dois pisos e parecia muito grande. Ao avançar para o hall de entrada, seguiu rapidamente em frente, abrindo uma porta. Viu que dava para o que parecia ser um escritório. Tinha várias estantes junto à parede, carregadas de livros. Uma secretária estava a um canto, não muito longe de uma porta de sacada. E então, avistou um quadro numa parede, com oito fotografias lá colocadas. Aproximou-se. As fotografias tinham sido obviamente tiradas do livro de ponto da turma. Ver a sua cara numa das fotografias e a cara de Clorica noutra, fez Steven cerrar os punhos.

Raymond planeara aquilo. Trouxera-os a todos ali com uma desculpa, algo que sabia que eles gostariam. Uma ida a um resort. Deviam ter desconfiado. Matthew pensara nisso, claro, porque era o mais inteligente, mas mesmo ele não desconfiara a sério, antes de ser tarde demais e estarem ali todos, naquela casa, no meio de nenhures. Olhando à sua volta, Steven viu um bengaleiro junto da janela de sacada. Pegou nele e de seguida acertou com o bengaleiro no quadro da parede, fazendo-o cair ao chão e partir-se. Depois, largou o bengaleiro no chão. Raymond não estava ali e estava a perder tempo. Tinha de o encontrar. Voltou a sair para o hall. A porta da rua estava agora aberta. Viu Matthew e Oscar a saírem da sala de estar e fecharem a porta atrás deles. Ignorou-os e avançou para a divisão ao lado do escritório, abrindo a porta e entrando nela.

- Coitado do Steven - disse Oscar, com um aceno da cabeça. - Ele está mal.

- É natural que esteja - disse Matthew, fazendo-lhe sinal para avançarem para a porta que ficava ao lado da sala de onde tinham saído. Entraram numa cozinha. Os azulejos da cozinha eram cremes e havia uma bancada longa no meio da cozinha e várias outras junto às paredes. Matthew avançou, começando a abrir gavetas. - Perdeu a Clorica. Ela era boa pessoa. Cumprimentava toda a gente, sempre com um sorriso. Quando estive doente há três semanas, ligou-me para saber se eu estava bem.

- E agora está morta - disse Oscar, levando uma mão à cabeça. Depois, aproximou-se de Matthew, agarrando-lhe as mãos para o fazer parar de abrir gavetas. Matthew olhou-o. - Se fosses tu que tivesses morrido, não sei o que eu faria.

- Oscar... - disse Matthew e depois Oscar agarrou-o pela cintura e beijou-o. Matthew correspondeu, mas rapidamente se afastou. Passou uma mão pela cara de Oscar. - Eu também não sei o que faria se tivesses sido tu, mas agora não é altura para estarmos a perder tempo. Se queremos sobreviver, temos de estar preparados. Procura nas gavetas. Tem de haver pelo menos algumas facas grandes com que nos possamos defender.

Oscar acenou afirmativamente com a cabeça e começou a ajudar Matthew a abrir gavetas. Os dois namoravam em segredo há alguns meses e ninguém sabia ou desconfiava. Nem Matthew, nem Oscar tinham admitido a sua sexualidade às famílias e Oscar tinha receio que, se admitisse a sua própria sexualidade, sofresse represálias na equipa de futebol. Seria posto de parte e ele não queria isso. Ao mesmo tempo, não tinha dúvidas de que gostava de Matthew e que, de futuro, admitiria o que era para poderem estar juntos sem ser em segredo.

Fim-de-Semana Mortal

- Raios! - gritou Penelope, irritada.

Ela, Lamar e Betsy tinham corrido para fora da casa e ido em direção à carrinha, que estava destrancada. Tinham procurado pelas chaves, mas Raymond devia tê-las levado, pois elas não estavam lá. De seguida, tinham procurado pelo comando que Raymond usara para abrir o portão quando tinham entrado com a carrinha, mas ele também não estava lá. Penelope sentia-se frustrada e começava a ficar cada vez mais nervosa. Raymond tinha uma pistola, que já usara para matar Clorica. Penelope não queria ser a próxima vítima.

- O que é que vamos fazer? - perguntou ela, saindo da carrinha. - Não conseguimos abrir o portão ou colocar a carrinha a funcionar. Estamos aqui encurralados!

- Calma. Talvez consigamos saltar o muro ou forçar o portão - disse Lamar.

Começou a correr para o portão, ouvindo os passos das duas colegas atrás dele. Lamar não estava disposto a morrer. Tinha coisas a fazer na sua vida. Queria terminar o secundário e depois ir para a universidade, formando-se em teatro. O seu sonho era conseguir chegar ao mundo da televisão. Ser comediante era um objetivo que tinha ou pelo menos um ator que fizesse alguns de papéis de comédia. Se morresse agora, não conseguiria cumprir o seu sonho. Se bem que talvez já não conseguisse ter a mesma atitude positiva na vida que tivera antes, depois de presenciar a morte de Clorica.

Ao chegarem ao portão, os três tentaram empurrá-lo ou encontrarem alguma brecha, mas sem sucesso. Era sólido, resistente e mesmo a força dos três não o fez mover-se minimamente. Depois, Lamar deu a ideia de que podiam tentar escalar o muro. Ajudou Betsy a tentar subir pelo muro, mas só conseguiam chegar a pouco mais de meio, pelo que tiveram de desistir da ideia. Juntos e parados, olharam uns para os outros. Minutos antes, estavam entusiasmados para irem para um resort e agora a realidade abatia-se sobre eles.

- Ficarmos aqui parados talvez não seja boa ideia - disse Betsy. O sol estava encoberto pelas nuvens e se antes aquele local lhe parecera acolhedor, agora parecia-lhe aterrador. Ouvia-se o piar dos pássaros, algures, mas Betsy imaginou que também podiam andar por ali fantasmas.

- Esperem, tive outra ideia - disse Lamar.

- Que bom. As tuas ideias têm-se provado serem muito boas, até ao momento - disse Penelope, com sarcasmo na voz. - Tão boas que ainda estamos aqui presos e indefesos.

- Vi num filme um homem que conseguia colocar um carro em andamento sem ter as chaves. Foi para roubar o carro, mas isso agora não importa. Há uns fios debaixo de onde fica o volante e se conseguir juntar os fios certos, a carrinha pode dar sinal de vida e se ela começar a andar, podemos pelo menos bater no portão com ela e forçá-lo a abrir-se.

- Essa parece-me ser uma ideia ridícula, mas como não temos outra melhor, vamos a isso.

Voltaram para junto da carrinha, com Penelope olhando à sua volta. O seu maior receio era que o professor aparecesse do nada, armado e disparasse sobre os três. Na verdade, o maior receio que tinha mesmo era que ele a matasse a ela. Conseguiria viver com a ideia da morte dos outros dois, desde que ela sobrevivesse. Lamar entrou na carrinha, começando a tentar mexer debaixo do volante. Indicou às duas raparigas para elas ficarem de olho, enquanto ele tentava fazer como vira nos filmes e colocava a carrinha a trabalhar. Penelope deslocou-se para um lado, para perto de uma árvore grande, onde achava que estaria um pouco resguardada, caso o professor aparecesse. Betsy, por seu lado, fora para o lado oposto, para junto de umas plantas que já tinham visto melhores dias.

Betsy passou as mãos pelos braços, tremendo, não de frio, mas de medo. Tudo o que ela quisera fora ter um fim-de-semana relaxante e animado, mas agora, temia pela sua vida e a vida dos outros. Não compreendia porque é que o professor Raymond, que sempre se mostrara simpático com todos, estava a fazer aquilo com eles. Não lhe tinham feito mal nenhum. Clorica fora a melhor de todos, tão boazinha que chegava a ser enjoativa e no entanto, morrera de forma violenta. Enquanto Betsy estava pensativa, a carrinha explodiu subitamente. Ela gritou, dando um passo atrás. Peças da carrinha saltaram para todo o lado, em chamas. Penelope, que com o susto se escondera atrás da árvore, abriu muito os olhos.

A carrinha estava agora a arder, o metal retorcido e Lamar estava morto, com toda a certeza. Penelope perguntou-se se ele mexera em algo que não devia ou se a carrinha estava armadilhada. Lentamente, saiu detrás da árvore e deu alguns passos para junto da carrinha. Não sabia o que fazer agora. Viu Betsy aproximar-se lentamente também e depois Penelope soltou um grito.

- Betsy, atrás de ti! – gritou ela. A amiga virou-se, vendo o professor Raymond a avançar para ela, com uma faca.

Ele aproveitara a distração da explosão para sair de uma porta lateral da casa e avançava agora, determinado. Betsy gritou de medo e começou a correr. Por essa altura, Matthew e Oscar estavam a avançar para o exterior, tendo ouvido a explosão. Betsy tropeçou e caiu ao chão. O professor aproximou-se mais e ela levantou-se o mais rapidamente que pôde. No entanto, ele agarrou-a por um braço e com o outro, num movimento fluído, cortou-lhe a garganta. Recuou alguns passos, enquanto a jovem se agarrava à garganta, tentando estancar o sangue. Penelope começou a correr, desaparecendo numa esquina da casa, tentando fugir dali, não fosse ela a próxima vítima.

- Betsy! – exclamou a voz de Matthew, à porta da casa. Ele e Oscar avançaram, com facas nas mãos. O professor Raymond, ao vê-los, começou a correr, para dar a volta à casa, pelo lado oposto para onde Penelope fora. Oscar começou a correr atrás dele. Matthew baixou-se sobre Betsy, que se deixara cair ao chão. Com uma última convulsão, ela deixou de se mexer, apesar do sangue ainda jorrar do seu pescoço. – Oh meu Deus… mais uma morte. Oscar!

Mas Oscar já desaparecera de vista, tal como o professor Raymond. Matthew levantou-se lentamente. Agora estava sozinho e apesar de ter uma faca de cozinha na mão, isso não o deixava mais sossegado. Betsy estava morta e a carrinha que tinham usado para chegar àquela casa fora destruída. Matthew respirou fundo, tentando acalmar-se um pouco. Estar sozinho tornava-o vulnerável, mas estava também preocupado com Oscar, que fora atrás do professor Raymond. Sem saber o que mais fazer, regressou ao interior da casa.

Fim-de-Semana Mortal

Depois de ter procurado no piso inferior, Steven encontrara uma porta para as traseiras da casa e saíra para o exterior. Havia árvores ali e também uma piscina, no entanto não tinha água alguma. Além disso, havia dois edifícios pequenos. Steven dirigiu-se para um deles, quando se ouviu a explosão da carrinha, mas não lhe prestou atenção. O edifício estava trancado, pelo que passou ao seguinte, que tinha a porta destrancada. Ao entrar, ficou parado, petrificado com o que via. Era o local para onde o professor tinha levado Clorica e onde a assassinara. O corpo dela estava caído no chão e Steven sentiu o estômago revirar-se.

Não conseguiu evitar vomitar num canto e de seguida começou a chorar. Quem o conhecia, sabia que ele não era do tipo sensível, que chorava facilmente. Quando ele e Clorica viam filmes sentimentais, ela costumava chorar e abraçar-se a ele, mas ele mantinha-se sempre firme. No entanto, a dor que sentia agora era demasiado grande, a maior que alguma vez sentira. Com passos vacilantes, caminhou para junto do corpo de Clorica e baixou-se para ficar ao pé dela. Estendeu uma mão, mas não lhe conseguiu tocar.

- Lamento tanto, meu amor – disse ele, com as lágrimas escorrendo-lhe pela face. – Devia ter conseguido proteger-te, mas eu não sabia que o professor era doido. Mas vou vingar-te, juro.

Steven respirou fundo algumas vezes e depois levantou-se. Havia ainda uma câmara a filmar e uma televisão que mostrava a sala onde eles tinham estado. Steven olhou pelo interior do edifício. Havia prateleiras, mas a maior parte estava vazia. Viu um pedaço de madeira, aproximou-se e pegou-lhe. Depois, destruiu a câmara com várias pancadas. A sua fúria era comparável à sua tristeza. Iria fazer o professor pagar pelo que fizera. Tinha de o fazer ou morrer a tentar. Abandonou o local, ainda com o pedaço de madeira na mão.

Fim-de-Semana Mortal

Oscar correra atrás do professor Raymond, mas ele entrara na casa por uma porta lateral e quando o rapaz lá entrara também, já não o vira. A casa era grande e para lá do hall de entrada, uma das portas dava para um corredor com várias portas. Oscar abrira duas delas, mas o professor não estava por ali. Sentiu-se aborrecido por o ter perdido de vista. Tal como Matthew, tinha uma faca na mão, que encontrara na cozinha da casa. Pensou no que devia fazer a seguir, se devia continuar a procurar o professor ou tentar encontrar o namorado, para se assegurar de que ele estava bem.

Foi então que ouviu um grito, que ecoou pela casa. Era um grito de Abby. Oscar tentou orientar-se, enquanto andava pelo corredor. Eles tinham tentado convencê-la a deixar a sala de estar, mas Abby recusara-se a fazê-lo e ao que parecia, o professor acabara por a apanhar. Oscar chegou ao fundo do corredor e abriu uma porta, que dava para o hall de entrada. Correu para a sala de estar. Esperou ver ali o corpo de Abby ou sangue, mas não viu nem uma situação, nem outra. Olhou à sua volta, mas não havia nada fora do normal. Regressou ao hall de entrada.

- Matthew? Onde estás? – perguntou Oscar, em voz alta. Sabia que não seria a melhor ideia estar a fazer barulho e a chamar a atenção para si, no entanto estava preocupado com o namorado e se o professor Raymond viesse atrás de Oscar, então pelo menos Matthew estaria a salvo. No entanto, não ouviu nada. – Abby? Estás bem?

Mais uma vez, nenhum som se ouviu, o que era enervante. Onde se tinham metido todos? O professor não os podia ter matado a todos de uma vez ou podia? Então, finalmente Oscar ouviu um barulho e virou-se. Deparou-se com Penelope, que tinha o cabelo em desalinho e parecia assustada. Ela dera a volta à casa, até encontrar uma janela aberta, por onde entrara. Ouvira o grito de Abby, não sabia vindo de onde, mas ao ouvir a voz de Oscar, saíra da divisão onde estivera.

- Graça a Deus que tu apareceste! – exclamou ela. Os dois não tinham grande confiança um com o outro, mas ainda assim Penelope estava satisfeita por o ver, pois ele era alto e forte, pelo que ela estava convencida que ele a podia proteger. – A carrinha onde viemos explodiu. O Lamar estava lá dentro e morreu e a Betsy foi assassinada pelo professor também. Não temos forma de sair desta casa. Não sei o que fazer!

- Mantém-te junto a mim e estarás segura – disse Oscar, tentando soar mais seguro do que estava realmente.

- Achas que é mesmo assim? – perguntou a voz do professor. Oscar e Penelope voltaram-se, vendo-o surgir de uma porta. Na mão, trazia a mesma faca com que matara Betsy. – Oscar, o jogador de futebol, rápido e empenhado, mas eu já matei alguns dos teus colegas, portanto se pensas mesmo que me podes parar, estás enganado.

O professor deu um passo em frente e Oscar encarou-o. Penelope recuou, assustada. Não queria morrer ali, ainda tinha muito que fazer na sua vida. O professor avançou mais rapidamente e moveu a faca. Oscar moveu-se para o lado, mas ainda assim a faca fez-lhe um corte no braço. Ele estava hesitante sobre atacar o professor, mas o facto de ele o ter ferido, fez com que a adrenalina no corpo de Oscar viesse ao de seguida e ele atacou. O professor era rápido e desviou-se dos primeiros três golpes, mas depois Oscar acertou-lhe com a faca no ombro esquerdo. O professor rugiu de dor e deu um pontapé a Oscar, que caiu ao chão.

- Subestimei-te - disse o professor, sangrando do ombro. Oscar deixara cair a sua faca e o professor avançou. Oscar pregou-lhe uma rasteira, deitando-o ao chão e levantou-se rapidamente, voltando a pegar na sua faca. – Tens coragem de me matar, Oscar?

- Não preciso de o matar para o deter – respondeu o rapaz.

De seguida, enterrou a faca numa das pernas do professor. Ele gritou a plenos pulmões e Penelope levou as mãos aos ouvidos. Ali estava o professor, caído no chão, sangrando do ombro e com uma faca espetada na perna. Oscar olhava-o, hesitante com o que tinha feito, mas fora para se proteger a si e aos outros. Foi então que ouviram o barulho de passos e depois Steven apareceu. Colocou-se ao lado de Oscar, olhando para o professor.

- Seu filho da mãe! – gritou Steven. Ergueu o pedaço de madeira, para acertar no professor, mas Oscar deteve-o. – Ele tem de pagar pelo que fez!

- Não digo o contrário, mas quero perceber porque é que ele matou os nossos colegas – disse Oscar e olhou para o professor. Penelope voltara a aproximar-se. – Tem de haver um motivo. As pessoas não começam simplesmente a matar outras, sem mais nem menos, a não ser que tenham um problema mental.

- Querem saber porque decidi matar-vos – disse o professor. Estava a ficar pálido, continuava a sangrar bastante e estava cheio de dores, mas não se iria queixar. Olhou para os seus três alunos. – Cada um tem as suas necessidades. A Penelope deve ter a necessidade de se maquilhar para se sentir bem, tu gostas de jogar futebol, Oscar. E o Steven tinha a sua Clorica com que se entreter. Eu tenho o crime. Pensam que foram as primeiras pessoas que matei? Já lhes perdi a conta. Vou para algum lado, mudo a minha identidade e cometo crimes. Depois, volto a desaparecer, com uma nova aparência e um novo nome.

- Você é nojento! – exclamou Penelope, estremecendo. – Matou a Betsy e a Clorica a sangue frio. E porque é que a carrinha explodiu?

- Estava armadilhada. Eu sabia que pelo menos um de vocês iria tentar escapar nela, portanto, quando houvesse deteção de peso na carrinha, por mais de dois minutos seguidos, a carrinha iria explodir. Ativei o mecanismo depois de chegarmos aqui. Foi uma ideia brilhante, não foi? – perguntou o professor, com uma gargalhada fria. – As minhas câmaras captaram o Lamar a entrar na carrinha, portanto ele foi pelos ares. Ou foi destruído pelas chamas, tanto faz.

- Eu jurei que você iria pagar pelo que fez à Clorica. Matou a minha namorada, o amor da minha vida, só porque sim? – perguntou Steven, enraivecido. – E já admitiu que cometeu outros crimes também.

Steven voltou a erguer o pedaço de madeira, mas daquela vez Oscar não o parou. Acertou com o pedaço de madeira na cabeça do professor e depois também no peito dele. Penelope afastou-se um pouco, não querendo ver mais violência. Oscar perguntou-se onde estaria Matthew e porque é que ele ainda não aparecera. Steven ergueu o pedaço de madeira mais uma vez e foi então que se ouviu um tiro. Olhando para o seu peito, Steven viu o local onde a bala entrara e o sangue se começava a acumular. Sentiu-se perder forças. Olhou para o cimo das escadas, que levavam ao primeiro andar e viu Abby, com uma pistola na mão. Já não tinha o ar de timidez que costumava apresentar.

Penelope e Oscar também a viram. A primeira desatou a correr, passando por uma porta. Abby atirara sobre Steven e era só o que Penelope precisava de saber, para perceber que por alguma razão, ela não era de confiança. Oscar deixou-se ficar onde estava, sem saber o que fazer, enquanto Steven tombava no chão, de barriga para baixo. O professor Raymond soltou uma gargalhada, enquanto Abby descia as escadas, com calma.

- O que pensas que estás a fazer, Abby? – perguntou Oscar, baixando-se sobre Steven, que mal respirava. – Tu disparaste sobre o Steven.

- Eu sei muito bem o que fiz, Oscar. O Steven estava a causar danos ao professor e eu não podia deixar que assim fosse – respondeu Abby, chegando ao fundo das escadas. Oscar estava estupefacto e mais ficou quando ela lhe apontou a pistola a ele. Steven fechara os olhos, respirando debilmente. – Professor Raymond, as coisas parecem estar complicadas.

- Facilitei demais, desta vez – disse ele. A sua voz soava rouca, devido à dor. – Não devia ter deixado facas na cozinha, mas vivendo e aprendendo. Abby, preciso que me leves ao hospital. O local onde está o carro está fechado, mas vou dizer-te onde estão as chaves. Claro que, antes disso, convém acabares com o Oscar.

- Olhe lá, professor, eu só tenho dezassete anos. Não tenho carta de condução, nem nunca conduzi e você não parece estar em estado para poder conduzir também – disse Abby, abanando a cabeça negativamente.

- O Oscar deve ter carta de condução. Pronto, vamos mantê-lo vivo, para que seja ele a conduzir-nos até ao hospital – disse o professor, sentando-se no chão. A faca continuava enfiada na sua perna. Olhou-a, pensando se deveria arrancá-la ou não. Provavelmente não era boa ideia, mas não seria fácil andar com ela enfiada naquele local.

- Lamento, professor. Irmos até ao hospital, seria estarmos a expor-nos e devia saber disso.

- Se eu tivesse algum médico pessoal a quem recorrer, obviamente que o faria, mas estou a perder muito sangue, portanto temos de ir para o hospital rapidamente. Terei de inventar uma história para explicar o ombro e a faca na perna, mas pensarei pelo caminho. Não podemos perder tempo.

- Sim, realmente tem razão. Estamos a perder tempo – disse Abby, parecendo aborrecida. Ergueu a arma e disparou, acertando num dos lados da cabeça do professor. Ele não emitiu nenhum som, caindo de lado, sem vida. Depois, Abby virou-se para Oscar. – Foi o professor que me ensinou a usar uma pistola e até sou boa a fazê-lo. Mas não ia perder o meu tempo e ainda para mais arriscar-me a ser apanhada, para o levar para o hospital. Ele que tivesse sido mais inteligente.

- Vocês estavam a trabalhar juntos e tu mataste o professor? – perguntou Oscar, sem perceber nada.

- Confuso, não é? Bem, acho que posso explicar um pouco a situação, mas não aqui. Portanto, vem comigo e nada de gracinhas. Se não te comportares, mato-te, entendido? Agora, vamos.

Fim-de-Semana Mortal

Penelope saíra para o exterior da casa mais uma vez. Cada vez estava mais confusa. Conhecia Abby superficialmente. Sempre a achara muito calada e pouco interessante, portanto não havia razão para falar com ela. De qualquer forma, não era qualquer pessoa que pegava numa pistola e disparava sobre outra pessoa. Ainda para mais, ela disparara sobre Steven, em vez de disparar sobre o professor, que era quem andava a matar os outros. Isso, para Penelope, revelava que Abby não podia ser boa da cabeça e era uma ameaça. Penelope deu a volta à casa e viu os dois edifícios mais pequenos. Abriu a porta de um e entrou. Estacou. Tal como Steven, deparara-se com o corpo de Clorica.

Depois de estremecer da cabeça aos pés, o primeiro impulso de Penelope foi virar costas e ir embora, mas depois reconsiderou. Viu a câmara de filmar destruída, o que queria dizer que ali não estaria a ser filmada. E provavelmente ninguém aparecia ali, pois Clorica estava morta e não esperariam que alguém fosse para aquele local. Penelope olhou à sua volta. Havia dois armários a um canto e ela encaminhou-se para eles. Abriu um deles e viu que havia alguns utensílios de jardim, mas espaço para ela caber dentro do armário, pelo que entrou e fechou a porta. Iria esperar ali, não sabia até quando, mas não se deixaria matar.

Fim-de-Semana Mortal

Oscar, sob a ameaça da pistola, deixara-se amarrar a uma cadeira. Abby indicara-lhe para subir as escadas, até ao primeiro andar e fora atrás dele, dando-lhe indicações. Havia um corredor para a esquerda e outro para a direita. Seguiram pelo corredor da esquerda e entraram na segunda porta que viram. Havia vários monitores, que mostravam locais diferentes da casa. Raymond tivera tudo preparado, caso fosse necessário, apesar de ter sido mais descuidado do que devia e agora ter pagado o preço com a vida. Abby mandara Oscar sentar-se e tratara de o amarrar, antes que ele causasse confusão. Depois, sentara-se ela própria numa cadeira, em frente a ele.

- Bom, por onde é que devo começar? Desde sempre que fui muito tímida e as pessoas me subestimavam. Mesmo eu dando mostras de ser inteligente, nunca conseguia mostrar o que realmente era.

- Oh, vais contar-me uma história de como te sentiste ignorada pelo mundo e portanto decidiste tornar-te uma assassina? – perguntou Oscar, interrompendo-a. – Não arranjes desculpas para o que fizeste. Atiraste sobre o Steven e estavas a colaborar com o professor Raymond, mas mataste-o também.

- O professor Steven foi o primeiro a prestar-me realmente atenção. E com ele, pude abrir-me completamente. Ele contou-me a verdade sobre si e o seu plano, portanto decidi que o iria ajudar. Queria vingar-me, queria arrancar a felicidade a algumas pessoas. A Clorica e o Steven, sempre juntos, populares, o casal perfeito, enquanto eu estava sozinha. A Penelope e a Betsy, também populares, bonitas, snobes, pensando que tudo eram facilidades. O Lamar, com as suas piadas estúpidas, chegou a insultar-me com uma delas e eu não me esqueço do que me fazem. E claro, o Matthew, sempre o melhor aluno. Eu sou inteligente, mas ele tinha de ser sempre mais que eu, era o aluno estrela da turma, enquanto eu ficava sempre em segundo lugar. Queria vingar-me de todos eles. Já tinha até um plano para fazer a Betsy vir connosco, mesmo que aquela burra não tivesse estado entre os oito melhores, mas ela lá conseguiu. Era suposto que viesse também o Andrew, o gozão, mas ele ficou muito abaixo das espectativas e portanto aqui estás tu, o único que eu não tinha nada contra. Tiveste azar.

- Lá por estares zangada por a tua vida não ser como gostarias, não é motivo para andares por aí a matar pessoas!

- Mesmo que eu não tivesse alinhado com o professor Raymond, ele já tinha avançado com o plano, portanto o resultado final seria o mesmo, mas eu seria um alvo. E agora, ele está morto e eu estou viva, portanto quem foi mais inteligente? Eu, obviamente. A Clorica e o Steven estão mortos agora, a Betsy e o Lamar também. Tu estás aqui preso, portanto só me faltam o Matthew e a Penelope. Eles não podem sair daqui, portanto é uma questão de tempo até os encontrar e acabar com eles. Depois, regressarei para ti. Lamento, mas já viste e ouviste demais, portanto também terei de te matar. Podes ficar aqui, olhando para os monitores e com um pouco de sorte, vais ver o fim daqueles dois, captado por alguma câmara.

- Por favor, não faças isso – pediu Oscar. – Não lhes faças mal.

- Já está decidido. Não sei qual deles vou encontrar primeiro. Gritei, da sala de estar, para atrair as atenções, para pensarem que eu estava a ser atacada. E o Matthew apareceu a correr, tendo vindo da rua. Eu apontei-lhe a arma, mas ele viu-me e subiu as escadas a correr, em ziguezague. Eu não queria disparar e falhar, atraindo ainda mais as atenções. Acabei por ir atrás dele, mas perdi-o. Vá, ele é mesmo inteligente, conseguiu esconder-se bem, mas está algures por aqui e nem que eu tenha de revirar tudo, vou encontrá-lo.

- Deixa-o em paz! – exclamou Oscar. – Ele não sabe o que me estás a contar, não te viu disparar sobre o professor Raymond ou sobre o Steven. Finge que és inocente, que apenas estavas confusa, que foi tudo obra do professor Raymond. Mata-me, se tiver de ser, mas deixa o Matthew viver.

- Sabes, obviamente que eu tenho um plano. Vou matar-vos todos e ser a única sobrevivente, a heroína da história. Todos falarão de mim, a rapariga que sobreviveu ao professor malvado e maluco e foi forçada a atirar sobre ele, para salvar a própria vida, enquanto os seus colegas foram assassinados – disse Abby, com um sorriso. – Se eu deixasse o Matthew vivo, ele iria roubar-me o protagonismo e não vou deixar que isso aconteça. E que eu saiba, tu e o Matthew nem são assim tão amigos. Queres que eu te mate e o deixe viver. Então e a Penelope, já não interessa?

- Eu…

- Hum, está aqui a faltar-me alguma informação – disse Abby, pensativa, movendo a pistola de forma distraída. – Será possível que tu e o Matthew sejam mais próximos do que eu pensava? Oh, estou a ver, pela tua cara. Gostas dele, como o paspalho do Steven gostava da Clorica. É algo só da tua parte ou estão juntos?

- Eu e ele namoramos, às escondidas.

- Ora bem, desta vez apanhaste-me de surpresa, Oscar. Mas sabes que mais? É perfeito. Assim já tenho um motivo bom para te matar. Tu e o Matthew, mais um casal feliz, enquanto por mim ninguém se interessa. Oh, vou divertir-me a caçar o Matthew – disse Abby, levantando-se. – Não há nada que possas dizer para me fazer mudar de ideias. Tentaste o teu melhor e falhaste. Agora, fica aí sossegadinho, enquanto eu trato dos meus assuntos.

Abby abandou a sala e Oscar tentou mover os pulsos, para soltar as cordas, no entanto estavam bem apertadas. Ouviu o barulho de uma chave a girar na fechadura. Abby tinha-o trancado naquela sala. Lançou um olhar para os monitores. Não se via Matthew ou Penelope em lado nenhum, mas eles não se conseguiriam esconder para sempre. Oscar começou a mover os pulsos. Sentiu a dor nos braços, devido à fricção, mas não ia desistir. Tinha de se libertar e sair dali.

Fim-de-Semana Mortal

O medo e ansiedade de Penelope estavam a aumentar, com o passar dos minutos. Apesar de estar escondida e a salvo, Penelope não sabia o que estava a acontecer. Não ouvia nada de anormal, nem tiros, nem gritos, nem passos no exterior, nem ninguém entrara naquele edifício. Estariam todos mortos? Penelope não queria pensar que assim fosse, mas também não podia confirmar que assim não era. E ela ali escondida. Estava viva, sim, mas como é que iria conseguir escapar, se se mantivesse escondida? Eventualmente, acabaria por ser encontrada ou por ter de abandonar o esconderijo, quando estivesse mais debilitada.

Depois de muito hesitar, Penelope abandonou o armário. Evitou olhar para o local onde estava o corpo de Clorica e pensou no que devia fazer. O professor Raymond ficara com uma faca espetada na perna, logo, estava ferido, mas o maior perigo era Abby, se ela o estivesse a ajudar ou estivesse maluca, com medo. De forma hesitante, Penelope abriu a porta da sala e saiu para o exterior. O tempo estava ainda mais nublado do que antes. Olhou à sua volta, mas não havia ninguém à vista. Respirando fundo, caminhou para junto da casa. Havia uma porta perto, que daria para ela entrar.

Enquanto pensava no que fazer, ouviu barulho. Vozes elevadas, mas não conseguiu perceber as palavras. E então, de repente ouviu o barulho de vidro a partir-se. Virou os olhos, para onde vinha o som e teve de se conter para não gritar, ao ver o corpo de Matthew cair de uma janela e estatelar-se na relva cá em baixo. Viu então Abby espreitar pela janela partida e sorrir, ao olhá-lo.

- Oh, que pena, sofreste uma queda – disse Abby, rindo-se. – Espera um pouco, que já vou aí ver como estás. Tenho de garantir que não voltas a levantar-te, nunca mais.

Abby desapareceu da janela e Penelope ficou aliviada por ela não a ter visto. Hesitante, Penelope aproximou-se de Matthew. Ao chegar junto dele, viu que ele estava vivo, apesar de ter sangue à sua volta. Não havia dúvidas na mente de Penelope que fora Abby a fazê-lo cair pela janela e ela vinha a caminho, portanto Penelope não podia demorar-se ali. Matthew moveu os olhos e viu-a. O seu olhar parecia algo baço e os óculos tinham-se partido.

- Penelope, a Abby é má. Prendeu o Oscar, no primeiro andar. Salva-o.

- Eu? Eu nem me consigo salvar a mim própria.

- Por favor – pediu Matthew, movendo um braço e agarrando numas das mãos de Penelope. – Por favor, salva-o. Não o deixes morrer.

Penelope não soube o que dizer, mas então os olhos de Matthew pareceram tornar-se vítreos e a pressão na mão dela afrouxou. Mais uma morte, pensou Penelope. Levantou-se rapidamente e correu para a porta da casa. Abriu-a e entrou para um corredor. Depois, abriu a primeira porta que encontrou e entrou na divisão, uma pequena sala de arrumos. Deixou a porta encostada. Passados alguns segundos, ouviu passos. Espreitou e viu Abby a passar e depois ouviu o barulho da porta, quando ela saiu para o exterior.

- Pronto, é agora ou nunca – pensou Penelope, saindo da divisão. – Estou a arriscar-me, mas ficar escondida também não vai ajudar nada. A Clorica está morta, o Steven também, o Lamar, a Betsy e agora o Matthew. Que eu saiba, dos alunos, sem ser a maluca da Abby, só resto eu e o Oscar.

A jovem começou a correr pelo corredor e ao chegar ao hall de entrada, deparou-se com o professor e Steven, ambos caídos no chão. Ao ver o professor morto, Penelope sentiu-se mais aliviada. Pelo menos, era menos uma ameaça com que lidar. Penelope subiu os degraus para o primeiro andar, de dois em dois e depois ficou parada, sem saber para onde se dirigir.

- Oscar? Onde estás? – perguntou ela. Hesitara em fazer barulho, mas Abby ainda devia estar no exterior.

- Penelope? Estou aqui! – exclamou a voz de Oscar. Penelope correu na direção da voz dele. – A Abby prendeu-me numa sala.

- Bolas, a porta está trancada – disse Penelope, tentando abri-la, mas sem sucesso. – Não faço ideia de onde esteja a chave.

- A Abby levou-a com ela, mas ela está armada. Tem cuidado. Viste o Matthew? Ele está bem?

Penelope ia responder que não, que ele não estava bem, mas então ouviu o barulho de passos. Virou-se e viu Abby a aproximar-se, de pistola em punho, tendo vindo a correr. Pressentira algo e regressara ao interior da casa, a tempo de ouvir Penelope chamar pelo colega. Penelope deu um passo atrás, no preciso momento em que Abby disparava, pelo que a bala acabou por falhar o alvo. Abby premiu o gatilho novamente, mas daquela vez nenhuma bala saiu. Furiosa, atirou a pistola ao chão.

- Acabaram as balas, mas não tem problema. Vou acabar contigo na mesma, Penelope.

- Tu? Com as tuas próprias mãos? Essas mãos de rata engelhada? – perguntou Penelope. Subitamente, sentia-se muito mais confiante. Sem a pistola, Abby era apenas uma rapariga baixa e estúpida. – Tu disparaste sobre o Steven e mandaste o Matthew por uma janela, mas estavas armada. Sem a pistola, não és nada.

- Estás a subestimar-me, como todas as pessoas costumam fazer – disse Abby, avançando alguns passos e elevando a voz. – Mas eu sou mais perigosa do que qualquer pessoa pensa. Oscar, consegues ouvir-me? O teu namoradinho já foi desta para melhor. Procurei-o, sem sucesso, mas depois lembrei-me de gritar que te tinha prendido e te iria matar, se o Matthew não aparecesse. E ele revelou-se rapidamente. Sabes o que é mais engraçado? Ele pediu-me para o matar a ele e te poupar a ti. Ai, ai. Bem, encurralei-o junto de uma janela, com a pistola e depois só tive de o empurrar e ele foi desta para pior.

- Não! – gritou Oscar, do outro lado da porta e Penelope conseguiu perceber dor na sua voz. Abby riu-se.

- Tu és malvada! – exclamou Penelope, dando um passo em direção a ela. – Vais pagar pelo que fizeste, sua cabra!

No entanto, Abby não estava disposta a perder. Tirou um canivete do bolso das suas calças e Penelope sentiu-se muito mais exposta. Abby podia não ter a pistola, mas tinha um objeto cortante. Com um grito, Abby correu para a outra jovem. Desferiu um golpe com o canivete, fazendo um ferimento no braço de Penelope. Ela empurrou-a, fazendo Abby cair ao chão. Depois, começou a correr pelo corredor. Abby levantou-se e foi a correr atrás dela. Penelope chegou à intercessão dos corredores e começou a descer as escadas. Abby saltou alguns degraus e depois empurrou a outra.

Com um grito, Penelope rebolou pelas escadas abaixo, quase caindo em cima do corpo do professor Raymond. Dorida, levantou-se, com as costelas a protestarem. Abby já vinha na sua direção, com o canivete na mão. Penelope deu dois passos, mas a perna esquerda protestou, magoada da queda. Abby riu-se e preparou-se para disferir um golpe, mas foi então que Steven se moveu. Esticou o braço, agarrou numa das pernas de Abby e fê-la desequilibrar-se e cair ao chão.

- Tu ainda não estás morto? – perguntou ela, tentando levantar-se.

- Pela Clorica e por todos, não podes vencer – disse Steven. Estava muito branco e tinha perdido muito sangue, mas ainda não morrera. Abby deu-lhe um pontapé e ele gemeu de dor.

- Junta-te à tua namorada, no inferno!

Abby fez um gesto rápido e cortou a garganta de Steven. Depois, olhou à sua volta, para descobrir Penelope. E ela estava de pé, com uma faca na mão, que arrancara da perna do professor Raymond. Com um grito de guerra, Penelope avançou e trespassou a barriga da colega. Abby abriu muito os olhos e apesar de ter levantado o braço, para disferir mais um golpe com o canivete, não conseguiu. Penelope deu-lhe um pontapé e Abby caiu para trás, estatelada no chão. Levou as mãos à faca, perplexa.

- Não, isto não pode estar a acontecer.

- Mas está. Mataste muitas pessoas, mas acabou – disse Penelope, cujas roupas tinham ficado salpicadas de sangue. Olhou para Abby, de forma fria. Aquela estúpida e o professor Raymond tinham-lhe estragado o fim-de-semana. Além de não irem para um resort, ainda tinham matado quase todos os outros e Penelope temera pela sua própria vida. – Agora, vê se morres depressa, que eu tenho de arranjar forma de salvar o Oscar. Visto que foste tu que o trancaste, deves ter a chave. E tenho de arranjar forma de sair desta casa também.

- Não posso morrer assim – disse Abby, por entre soluços. – Não é justo.

- Justo, sua cabra? Não me fales de justiça – disse Penelope e deu-lhe um pontapé, fazendo Abby gritar de dor. Olhou à sua volta, para o professor morto e também para Steven. Inclinou ligeiramente a cabeça na direção dele. – Obrigado, Steven. Espero que agora estejas com a Clorica, em paz.

Fim-de-Semana Mortal

Duas semanas tinham passado desde o incidente na casa do professor Raymond. As notícias falavam de um professor lunático, que planeara a morte de alguns dos seus alunos, ajudado por uma das próprias alunas, que decerto teria sido influenciada pelo professor. A polícia descobrira que Raymond não se chamava realmente assim, era um criminoso conhecido, que já praticara outros crimes e que conseguira sempre fugir, escapando impune, mudando de nome e aparência.

Os testemunhos de Oscar e Penelope tinham sido fundamentais para se perceber o que se tinha passado na casa. Ambos tinham sido ouvidos pela polícia e os meios de comunicação social tinham também querido entrevistá-los. Oscar recusara, não querendo expor-se, mas Penelope aproveitara para falar do que lhe acontecera e quando fora apelidada de heroína, ficara satisfeita com o facto. Os pais de Abby mal conseguiam acreditar que a filha pudesse ter feito algo assim e culpavam o professor Raymond, mesmo que na verdade ela o tivesse matado a ele e tudo o que fizera depois tivesse sido da sua própria autoria.

Regressar à escola tinha sido penoso, mas Penelope ultrapassara a situação mais rapidamente, rodeando-se de pessoas que queriam falar com ela e ganhando de imediato um número de pretendentes que queriam estar junto dela. Por seu lado, Oscar mantinha-se afastado de tudo e todos. A dor da perda de Matthew era ainda bastante intensa e não queria ter de falar com outros sobre o que acontecera.

- Se tivesses um buraco para te esconderes, estarias lá enfiado, não era? – perguntou Penelope. Oscar estivera sentado debaixo de uma árvore, sozinho, mas ela fora à sua procura e daquela vez estava sozinha. Sentou-se ao lado dele. – Não temos tido muito tempo para falar.

- Não há nada sobre o qual falar.

- Na verdade, há muito, mas provavelmente vamos fazê-lo com psicólogos e não um com o outro. Percebo que estejas abalado, com a morte do Matthew. Não vou dizer que não fiquei surpreendida por vocês estarem a namorar em segredo, porque nunca desconfiei, mas eventualmente, terás de avançar com a tua vida – disse Penelope. Oscar contara-lhe a verdade a ela, sobre o namoro secreto, mas a mais ninguém. – Também não está a ser fácil para mim lidar com o que aconteceu.

- Pois, mas não parece.

- Lá porque eu falo com os outros e sorrio, não quer dizer que tenha esquecido tudo. Eu podia ter morrido também e não te esqueças que matei uma pessoa. Achas que isso desaparece da consciência, assim sem mais nem menos? Pois olha que não – disse Penelope, muito séria. – Mas cada um lida com os problemas há sua maneira.

Depois de ferir Abby e esperar que ela estivesse mesmo morta, Penelope procurara nos bolsos dela e encontrara a chave para a sala onde Oscar estivera fechado. Ao destrancar a porta, dera com Oscar, choroso e com os braços magoados, por se ter tentado libertar das cordas. Desamarrara-o e juntos tinham encontrado umas chaves, para o segundo edifício que existia no exterior da casa. Ao saírem para o exterior, Oscar vira o corpo do namorado e fora-se abaixo. Penelope, por seu lado, revistara o edifício, onde descobrira um carro pequeno e o comando do portão. Depois de muito insistir, conseguira que Oscar entrasse no carro, para os conduzir até à cidade mais próxima, pois ele tinha carta de condução e Penelope não.

- Achas que algum dia vamos conseguir ultrapassar isto? – perguntou Oscar, quando Penelope se levantou para ir embora.

- Espero que sim. Não quero ter de andar a carregar esta bagagem por toda a minha vida – respondeu ela. – Tu e eu somos sobreviventes, Oscar e se conseguimos sobreviver a dois assassinos, também vamos conseguir seguir em frente.

Penelope afastou-se, com passos determinados. Pouco depois, já alguém se aproximara dela, para lhe falar. Oscar fechou os olhos por alguns segundos, imaginando que voltava atrás no tempo e que estava tudo bem, mas não era verdade. Não percebia como havia no mundo pessoas más, como o professor e Abby, mas estava determinado em não voltar a ser uma vítima. Aquele acontecimento podia tê-lo abalado, mas não o quebrara.

Fim

E chega assim ao fim a história, com o Oscar e a Penelope como únicos sobreviventes. Até uma próxima história!