Título: A Floresta da Morte

Autoria: Dream-Devil

Género: Horror, Thriller

Aviso: A história passa-se de forma rápida e tem várias mortes, ao estilo dos filmes slasher.

Sumário: Forest Green é também conhecida pela Floresta da Morte, depois de no passado ter acontecido lá um massacre. Mas passaram anos e a floresta voltou a ser frequentada. Eric e os amigos vão passar férias lá, mais os homicídios recomeçam e nem todos vão sobreviver. Quem será a próxima vítima? Oneshot.

A Floresta da Morte

A água do lago estava parada e escura, enquanto se ouvia o barulho dos grilos a cantar, a alguma distância. A lua brilhava no céu, cheia e intensa, enquanto perto do lago, numa ponte de madeira escura e antiga, um casal jovem estava de mãos dadas, olhando para o lago extenso e para a floresta circundante. O rapaz não teria mais de vinte e cinco anos e o seu cabelo era escuro, enquanto a rapariga tinha longo cabelo castanho, que lhe chegava quase à cintura. Ajeitando a mala no ombro, com a mão que tinha livre, ela olhou à sua volta.

- Este lugar dá-me arrepios, Neil – disse a rapariga, olhando para o rosto do namorado, que lhe sorria ligeiramente. – Sei que a tua intenção é que eu achasse o local romântico e tudo o mais, mas estamos aqui sozinhos, no meio do nada…

- Não tenhas medo, Anne. Não há por aqui animais selvagens, nem ninguém que nos queira fazer mal. Esta ponte, em tempos, foi designada como a ponte dos namorados, pelo que li. Achei que irias gostar.

- Talvez, se não estivéssemos aqui à noite – disse Anne, largando a mão do namorado. Deu um passo em frente, debruçando-se um pouco sobre a borda da ponte e olhando para a água, imóvel. A lua era refletida num ponto no centro do lago. – Não te ocorreu virmos aqui de dia?

- Achei que seria melhor à noite – respondeu Neil, passando uma mão pelo cabelo e começando a reconsiderar a sua decisão. – Mas se quiseres, podemos ir já embora.

- Tu não sabes a história deste local, pois não? – perguntou Anne.

- Já ouvi falar disso, sim. Há uns cinco anos, houve aqui vários homicídios. Um homem maluco atacou um grupo de pessoas que estavam por aqui a dar uma festa ou algo do género. Foram todos mortos e o assassino não chegou a ser apanhado. Acabaram por chamar à floresta, Floresta da Morte, apesar do seu nome verdadeiro ser Forest Green.

- E achaste que a melhor ideia era trazer-me aqui?

- Estás com receio de que esse assassino ainda por aqui ande e nos mate? – perguntou Neil, divertido, recebendo um olhar de censura da namorada. – Está descansada, se ele aparecer, eu protejo-te.

- Com o quê? Vais dar-lhe um murro e receber uma facada ou um tiro? Estou convencida que um de nós morre esta noite.

- Nenhum de nós morrerá. Lamento se não gostaste da ideia. Se calhar devia realmente ter pensado melhor e talvez ainda não estejas com cabeça para nada romântico. Tu sabes, por causa da morte do teu pai, que ainda é recente.

Neil acabou por se calar e puxou a namorada para um abraço, querendo confortá-la e indicar-lhe que estava tudo bem. As pessoas não andavam por aí a matar as outras, pelo menos não a qualquer altura. Anne acabou por se afastar, olhando à volta. Só se via o lago e árvores escuras. Havia barulhos noturnos normais para uma floresta, mas também não queria dizer que alguém não pudesse estar escondido, à espreita. Neil abanou a cabeça. Era melhor irem embora. Virou costas, indicando isso mesmo à namorada. Deu dois passos e depois Anne tocou-lhe no ombro. Ele virou-se, vendo-a empunhar uma faca. Num gesto rápido, ela cortou-lhe a garganta.

Neil agarrou-se à garganta com as duas mãos, tentando parar o fluxo de sangue que lhe escorria do pescoço, ensopando-lhe as roupas. Com os olhos muito abertos, olhou para a namorada, sem perceber o que se estava a passar. Anne tirou um lenço da mala e limpou a faca, voltando depois a colocá-la no interior da mala. De seguida, agarrou Neil e empurrou-o com força. Ele foi atirado pela borda da ponte, caindo à água. Durante alguns segundos, houve ondulação, quebrando a superfície da água, mas eventualmente a água voltou a ficar calma, vindo depois ao de cima o corpo de Neil, boiando, de cabeça para baixo, enquanto a água à sua volta se tingia de vermelho.

- O assassino de há cinco anos não vai voltar. Morreu há um mês, querido – disse Anne, respirando fundo. – Já a filha dele, está aqui para proteger este local. Foi má ideia teres-me trazido aqui, Neil. Oh, gostei de fazer o papel de namorada assustada e nem planeava matar-te já, mas andava com a faca na mala e era o momento certo para isso. Adeus Neil, em breve outras pessoas se juntarão a ti na morte.

A Floresta da Morte

Eric Stonetar avançou, abrindo a janela da casa e deixando entrar a luz do dia. Respirou fundo. O ar era puro ali, muito diferente do ar da cidade onde vivia. A sua família tinha aquela pequena casa, feita de madeira, no meio da floresta, mas raramente a usava. Por isso mesmo, a casa estava algo degradada, com humidade na madeira e bastante pó. Mas naquele ano, Eric decidira ir passar as férias àquela casa, para ser diferente. Diziam que a natureza fazia bem e ele, que nunca fora muito amante da natureza, queria colocar isso à prova. Ouviu um barulho e virou-se, vendo Valerie sair da cozinha, trazendo numa das mãos uma sandes de queijo e fiambre.

Eric decidira convidar os amigos para irem passar as férias com ele, caso contrário não teria piada nenhuma. Eric era alto, com cabelo loiro acastanhado e olhos escuros, enquanto Valerie tinha cabelo preto, pelos ombros e usava sempre saias muito curtas. Sorriu-lhe, ao passar por ele e sair depois da casa. Kane e Danielle deviam estar lá fora também, a fazer alguma coisa em conjunto. Talvez algo bastante privado e de que Eric não necessitava de saber naquele momento. Olhando pela janela, Eric viu árvores e mais árvores. Forest Green era uma floresta bonita, mas ele e os amigos já estavam ali há dois dias e Eric começava a cansar-se.

Os telemóveis não tinham rede ali e sentia falta do movimento da cidade. Tinha ido pescar com os amigos, o que achara bastante aborrecido, tinham ido nadar, feito caminhadas e até acampando em tendas no exterior da casa, junto de uma fogueira. Parecera interessante a Eric, até certo ponto, mas preferia ir ao cinema ou à praia. No entanto, ainda tinham mais cinco dias para estarem ali e ele não queria ser o primeiro a queixar-se. Os amigos pareciam estar a divertir-se e podia ser que viesse realmente a mudar de opinião. Saiu para o exterior da casa. Valerie encostara-se a uma árvore, não muito longe, terminando de comer a sua sandes.

- O que estás a pensar fazer hoje? – perguntou ela, quando Eric se aproximou. – Queres ir fazer outra caminhada?

- Já me doem as pernas de tanto andar. Preferia que fizéssemos algo que não envolvesse grande esforço físico – respondeu ele. Valerie encolheu os ombros e acabou de comer a sua sandes. – Acho que há uma canoa na arrecadação. Deve dar para pelo menos dois de nós nos divertirmos no lago.

- Pois, mas as canoas não se movem sozinhas, a não ser que haja corrente, o que não é o caso aqui, portanto teríamos de usar uns remos e tu disseste que não querias fazer esforços físicos – indicou Valerie. – Veremos. Quando o Kane e a Danielle aparecerem, eles logo darão a sua opinião. Mas por onde andarão eles? Se queriam ter tempo sozinhos, fechavam-se no quarto e nós não os incomodávamos. Desaparecerem não sei para onde não é a melhor ideia. Não depois das histórias que se ouvem…

- Os assassinatos ocorreram há cinco anos, Valerie e lá por ter aparecido um corpo a boiar no lago há duas semanas, não quer dizer que ande por aí alguém a matar indiscriminadamente.

No momento seguinte, ouviu-se o que parecia ser um assobio e uma seta cravou-se na árvore em que Valerie estava encostada, a apenas alguns centímetros do seu peito. Valerie afastou-se da árvore, surpreendida e aproximou-se de Eric. Olharam ambos para o local de onde viera a seta e viram Anne a sair do meio das árvores, empunhando um arco. Trazia vestidas roupas escuras. Preparou uma nova seta. Eric e Valerie viraram-se, começando a correr para a casa. Anne disparou novamente e a seta acertou em cheio na parte de trás da cabeça de Valerie, atravessando-a e saindo pelo olho esquerdo. Quando Valerie caiu ao chão, já estava morta. Eric gritou, correndo mais depressa. Entrou dentro de casa e fechou a porta. Uma seta cravou-se no exterior da porta logo de seguida.

A Floresta da Morte

Numa clareira, a alguma distância da casa, Kane Rivers e Danielle Beacon tinham-se sentado no tronco de uma velha árvore que fora abatida. Ouviam o cantar dos pássaros e os pequenos barulhos da floresta. Kane, baixo, mas entroncado, tinha cabelo castanho revolto, enquanto Danielle tinha cabelo ruivo e usava óculos de aros vermelhos. Danielle pensou que Eric e Valerie deviam estar a estranhar a ausência deles. Estariam provavelmente a pensar que eles estariam a ter sexo nalgum lado, o que não era verdade. Estavam ali sentados, juntos, a apreciar o momento.

- Gostavas mais de viver no campo ou na cidade, como vivemos agora? – perguntou Danielle.

- Não sei. Gosto do campo, dos animais, da vida simples, mas acho que iria estranhar se deixasse a cidade. Os meus avós paternos tinham uma quinta e claro que gostei de lá passar alguns verões com eles, mas fui criado na cidade. É diferente. E tu?

- Eu talvez venha a viver no campo, daqui a uns anos. Numa aldeia pacata, de preferência. Afinal, estão sempre a faltar médicos nas pequenas povoações e visto que serei médica, posso ajudar e ter uma vida calma, num local onde toda a gente me conheça e eu conheça toda a gente pelo nome.

Kane acenou com a cabeça. Levantou-se do tronco. Estava na hora de voltarem para casa e verem o que os outros queriam fazer. Estava preparado para Valerie fazer piadas sobre o que ele e Danielle tinham andado a fazer juntos. Não tinham feito nada. Não que Kane não quisesse, mas Danielle não se envolvia com alguém sem mais nem menos e considerava-o um amigo, portanto era difícil ultrapassar essa barreira e esperar algo mais. A jovem acabou por se levantar também e começaram a caminhar, para voltarem para casa.

Daquela vez, seguiram por outro caminho, embrenhando-se nas árvores. Danielle acabou por parar, olhando para um pássaro azul pousado no ramo de uma árvore. Achou-o lindo. E depois, ouviu um som metálico e um grito. Virou-se rapidamente, vendo Kane com a perna esquerda presa no que parecia ser uma armadilha para ursos.

- Kane! – exclamou Danielle, aproximando-se do amigo. A armadilha estava firmemente fechada à volta da perna, que sangrava. Kane arquejava de dor. Danielle baixou-se, para tentar perceber como desativar a armadilha e tirá-la da perna do amigo.

– Tem calma, vou tirar-te isto e vais ficar bem.

- Dói imenso – disse Kane, encostando-se a uma árvore próxima. Tinha a testa coberta de suor e o rosto estava pálido. – Quem colocaria uma armadilha destas aqui? Não há por aqui ursos.

Danielle não soube responder, estando de volta da armadilha. O sangue de Kane ensopou-lhe as mãos, enquanto tentava tirar a armadilha. Devia haver uma maneira para ela se abrir. Kane olhou para cima e então, viu no topo da árvore várias facas, penduradas por cima dele. Danielle soltou uma exclamação, conseguindo que a armadilha se abrisse. Kane moveu a perna. Só então viu um fio que estava ligado à armadilha. O fio partiu-se. As facas caíram do topo da árvore e uma delas enterrou-se no pescoço de Kane. Cambaleando, ele caiu para o lado, sem vida, enquanto Danielle recuava e gritava.

A Floresta da Morte

Eric trancara a porta de casa e fechara rapidamente as janelas. Escondera-se no canto de uma divisão. Pensou no que podia fazer. O carro estava lá fora, junto daquela mulher louca com o arco. O telemóvel não tinha rede ali, para poder pedir ajuda e o telefone fixo que havia na casa, há muito que não funcionava. Valerie estava morta e não sabia onde estavam Kane e Danielle. Olhou à sua volta. Precisava de alguma arma para se defender, mas naquela divisão não havia nada que o pudesse ajudar. Saiu de lá e entrou na cozinha. Encontrou lá uma frigideira velha e ferrugenta, mas que devia servir. Então, ouviu o barulho de um vidro a partir-se e depois mais outro. A louca devia estar a partir os vidros das janelas.

- Vou apanhar-te – disse a voz de Anne, vinda do exterior. – Podes esconder-te, mas mais cedo ou mais tarde, vou chegar até ti.

Eric deixou-se ficar muito quieto. Então, ouviu o barulho de mais uma janela a quebrar. Eram velhas e frágeis, pelo que Anne as estava a partir com facilidade. Eric recuou e depois viu Anne a entrar pela janela da casa. Largara o arco e trazia agora uma grande faca, numa das mãos. Eric engoliu em seco. A frigideira de nada serviria contra aquilo. Anne estreitou o olhar e depois avançou sobre ele. Reagindo, Eric atirou-lhe a frigideira, que lhe acertou na cabeça, atordoando-a por uns segundos, enquanto ele destrancava a porta e saía da casa a correr. Olhou na direção do carro e viu que tinha dois dos pneus em baixo. A maluca devia tê-las cortado, para impedir que Eric fugisse no carro. Começou a correr, embrenhando-se na floresta. Foi ouvindo barulhos e soube que ela o devia estar a perseguir.

Eric não queria morrer. Ainda era demasiado jovem e não fizera tudo o que queria fazer. Queria casar-se, queria formar-se, queria vestir-se de mulher no carnaval, queria poder voltar a abraçar os pais e queria poder assistir ao final da sua série favorita, que estava na última temporada. Se morresse, nada disso seria possível. Sentiu uma dor na barriga, por estar a correr e a ficar cansado. Escondeu-se atrás de uma árvore e tentou respirar o mais lentamente que conseguiu. Ouviu o barulho de ramos e folhas a serem pisados. Sentia o suor a prender alguns cabelos à testa. Então, viu Anne, não muito longe, olhando à sua volta, ainda de faca na mão, procurando-o. Começou a correr novamente.

A Floresta da Morte

Doug Palmer tivera a ideia de ir acampar. Gostava da natureza e de pescar, portanto Forest Green parecera-lhe uma boa ideia. Queria aproveitar o tempo com a esposa, Maureen. Seriam uns dias para o casal estar junto, em paz e sossego. Já tinham ambos passado dos cinquenta anos, os filhos estavam criados e agora tinham de aproveitar o tempo juntos. Maureen gostava de acampar e ficara entusiasmada com a ideia do marido. O que Doug não contava era que a sogra se colasse a eles e quisesse vir também. Tentara livrar-se dela, mas Olka Garner não desistira e por isso, agora Doug estava junto do seu jipe, tirando duas tendas de lá, uma para ele e a esposa e outra para a sogra.

Lançou um olhar a Olka, uma mulher baixa, com cabelo cinzento e lábios grossos, que pareciam tornar-lhe a cara maior. Maureen, com o seu cabelo castanho preso num rabo-de-cavalo, tirou do jipe outros utensílios que tinham trazido. Doug indicou à sogra que ela podia ajudá-lo a montar as tendas, mas Olka lançou-lhe um olhar aborrecido e afastou-se. Doug já desejara muitas vezes que ela tivesse um ataque cardíaco e fosse desta para melhor, mas não parecia que Olka fosse morrer tão cedo.

E então, surgindo do meio das árvores, apareceu um rapaz a correr. Doug franziu o sobrolho e logo depois apareceu uma rapariga a correr também, munida de uma faca. O rapaz, correndo na direção deles, gritava por socorro. Doug percebeu que a rapariga lhe queria fazer mal. Bom, pensou ele, talvez ela mudasse de ideias e se queria matar alguém, então tinha Olka ali ao pé. Maureen deu um passo atrás, ao ver a rapariga com a faca. Anne parou de correr, enquanto Eric chegava junto de Doug.

- Vocês vão todos morrer – disse ela.

Depois correu para Maureen, que era quem estava mais perto. Maureen gritou e caiu ao chão quando Anne se lançou para cima dela. Anne ergueu a faca e esfaqueou Maureen no peito por cinco vezes. O sangue salpicou-lhe a cara e as roupas. Depois, confirmando que Maureen estava morta, saiu de cima dela e virou-se. Doug estava lívido e Olka levara uma mão ao peito. Anne sorriu maliciosamente. Eles eram as próximas vítimas.

Eric recuou para junto do jipe, enquanto Anne avançava mais uma vez. Olka estava petrificada com o que acontecera e parecia não conseguir mexer-se. Doug, por seu lado, vendo o corpo da esposa, sentiu um impulso dentro de si. Tinha de fazer alguma coisa. Avançou também. Anne aproximou-se dele e moveu a faca, mas ele conseguiu esquivar-se. Uma segunda tentativa fez com que Anne conseguisse fazer-lhe um corte no braço, mas de seguida Doug conseguiu agarrar-lhe a mão e apertou com força, para ela libertar a faca. Anne cerrou os dentes, com a mão a doer-lhe e deu um passo atrás. A faca caiu ao chão.

- Olhe o que fez! – exclamou Doug. – Matou a minha mulher!

- Não foi a primeira pessoa que matei e não será a última.

Anne tentou baixar-se, mas Doug colocou um pé em cima da faca, para a impedir de a apanhar novamente. Anne não se mostrou muito preocupada. Levou uma das mãos ao bolso do casaco que vestia e tirou de lá uma adaga. Num movimento rápido, espetou-a na barriga de Doug. Eric começou a correr, acabando por desaparecer entre as árvores novamente. Doug levou uma mão à barriga. O sangue escorria abundantemente e ele sentia-se a perder forças. Anne olhou-o, de forma fria e depois agarrou, na adaga, retirando-a da ferida num movimento brusco. Doug guinchou e caiu ao chão.

- Forest Green não é para vocês, escumalha – disse Anne, limpando o sangue da adaga ao seu próprio casaco. Deu um pontapé a Doug, para o fazer virar-se de lado e conseguir recuperar a sua faca.

- Você… é doida – disse Doug.

- Acha que sim? Pouco me importa o que pensa, porque vai morrer muito em breve.

Anne olhou à sua volta. Não havia sinais de Eric. Suspirou, teria de o encontrar novamente. Foi então que ouviu barulho e olhou para o jipe. Olka, depois de um período de imobilidade, movera-se o mais rápido que conseguira, até ao jipe do genro. Ele tinha deixado as chaves na ignição e ela colocara o jipe em funcionamento. O problema é que Olka nunca tinha conduzido na sua vida. Já vira os outros conduzir, no entanto, pelo que focou o seu olhar na rapariga que lhe matara a filha. De seguida, colocou o pé no acelerador e o jipe começou a mover-se muito depressa.

Anne correu para o lado e só a falta de habilidade de Olka fez com que ela falhasse o alvo. Por outro lado, Doug foi apanhado pelo jipe e o seu corpo foi atirado por cima do jipe, estilhaçando o vidro dianteiro. Olka gritou, de medo. Anne ficou a ver o jipe mover-se e depois ir embater violentamente contra uma árvore. Lentamente, começou a aproximar-se. Abriu a porta do condutor e viu Olka, caída sobre o volante, com sangue a escorrer-lhe da cabeça.

- Velha maluca, acabou por se matar a si própria – disse Anne, abanando a cabeça. – E atropelou o outro homem também. Não importa, eles estão mortos, agora falta eu encontrar e acabar com o outro rapaz.

A Floresta da Morte

Danielle ficara desorientada e perplexa com a morte súbita de Kane. Demorara muito mais tempo a voltar à casa de Eric do que seria esperado. Não conseguia tirar da sua cabeça a morte do seu amigo. Quem teria colocado uma armadilha no solo e outra com facas, por cima? Só podia ser alguém malvado. Danielle não tivera forma de pedir ajuda, não realmente, pois por mais que gritasse, ninguém tinha aparecido. Cambaleante, fizera o caminho de volta.

Esperara encontrar Eric e Valerie, para lhes contar o que acontecera, para que a confortassem e lhe dissessem o que fazer. Mas ao chegar à casa, vira o corpo de Valerie, estendido no chão. Aproximara-se e começara a chorar. Primeiro fora Kane e agora Valerie também. Danielle pensou chamar por Eric, mas ficou amedrontada. A porta da casa estava aberta e depois do que pareceu uma eternidade de hesitação, Danielle avançou. Não ouvia nenhum barulho vindo da casa, o que podia ser bom ou mau.

Entrou, rezando para que Eric não estivesse morto também. Mas ao procurá-lo pela casa, não o encontrou, nem vivo, nem morto. Danielle tentou pensar, organizar as ideias. Eric não podia ter matado Valerie. Ou será que podia? Ele sempre se mostrara amigo de todos. Fora ele que os convidara para irem ali, mesmo sabendo que chamavam aquele lugar a Floresta da Morte. Danielle ficou confusa, sem saber o que pensar. Ao voltar ao exterior, olhou para o carro de Eric, com os pneus furados. Ele não os furaria. Ou furaria, se Valerie estivesse a tentar a fugir no carro?

De uma forma ou de outra, ela tinha de sair dali. Não conhecia bem o local, mas havia uma estrada de terra que dava até à casa, portanto tinha de a seguir, até conseguir chegar a algum outro lugar ou a alguém que a pudesse ajudar. Avançou para a estrada, que serpenteava entre as árvores e depois de caminhar um pouco, ouviu um barulho. Os sentidos de Danielle estavam em alerta máximo, pelo que se virou. Foi então que viu um homem surgir das árvores. Calculou que tivesse mais de cinquenta anos, tinha barba, com pelos pretos e brancos e as suas roupas eram escuras, parecendo muito usadas.

- Olá rapariguinha – disse o homem, aproximando-se mais.

- Não se aproxime – disse Danielle, dando um passo atrás. – Mantenha-se longe de mim.

- Não devias andar por aqui sozinha. Alguma coisa má pode acontecer-te.

O homem mostrou um sorriso, onde faltavam vários dentes e os que tinha eram amarelos. Danielle virou-se e começou a correr. O homem começou a correr atrás dela, apesar de ser mais lento, pois era também mais velho. Dwayne, era o seu nome. Há já algumas semanas que estava a viver na floresta, depois de ter perdido o emprego e a sua casa. E aquela rapariga parecia muito bonita, para a deixar ir embora sem se divertir com ela. Acelerou o passo, pois não iria deixá-la escapar.

A Floresta da Morte

Anne voltara a embrenhar-se na floresta. Perdera Eric de vista e isso era aborrecido, mas ela considerava que era boa a encontrar pistas na floresta. Crescera ali, em Forest Green e adorava aquele local, tal como o pai o adorara também, mas agora ele já não estava ali para ver nada. Em vez disso, aquela gente estava a invadir a floresta, a acamparem em qualquer lugar, a criarem lixo, a fornicarem entre as árvores, como se a floresta pudesse ser usada assim, para qualquer coisa. Anne não iria deixar que isso continuasse.

Arrumara a adaga no bolso do casaco novamente e tinha a faca na mão, que já usara para cortar um ramo que se atravessara no seu caminho. Tinha pena de não ter magoado Eric, fazendo-o sangrar, pois assim seria muito mais simples encontrá-lo, com os pingos de sangue a denunciar o caminho que ele teria tomado. Anne andou, pelo que lhe pareceu minutos, estando à escuta, mas não ouviu movimentos que pudessem indicar que ele estava por perto. Ouviu então o barulho, de vozes e seguiu o som, parando no limiar da floresta.

O lago ficava próximo e o barulho vinha de lá. Anne viu que havia no lago um rapaz, que devia ter oito ou nove anos, lançando água a uma rapariga, talvez com quinze anos. Sentados na relva, junto ao lago, de costas para ela, estavam um homem e uma mulher. Uma família, perguntou-se Anne. Parecia provável. E ali estavam os mais novos, a mexer na água, como se aquilo fosse tudo deles. Raiva fluiu por Anne e ela avançou, de faca na mão.

Paul Peker e a esposa, Ellie, viam os filhos a divertirem-se na água. Finalmente, pareciam os dois contentes por ali estar. Paul sempre adorara acampar, mas convencer os dois filhos a acompanhá-lo a ele e à esposa, não fora fácil. Ali não havia sinal de telemóvel, pelo menos na maior parte da floresta, pelo que Gwen, a filha, teria de passar sem ligar aos amigos, mandar-lhes mensagens ou aceder à internet, o que era um drama para ela.

Viera carrancuda todo o caminho, mal falara com o resto da família e não ajudara a monta as tendas. Era um comportamento típico da idade, pelo menos para a idade da filha, pois quando Paul tinha a idade dela, esse comportamento não era aceitável. Mas também não tinham telemóveis como havia agora. Brian, o filho, não gostava de coisas a ver com natureza, tinha medo dos insetos, não queria dormir numa tenda e fora mais um drama para o convencer. Mas no final de contas, tinham conseguido ir os quatro acampar.

Parecia que pelo menos o lago fizera os dois filhos ficarem satisfeitos. Brian gostava de nadar e Gwen ficara satisfeita por poder vestir o seu biquíni. Agora, os dois estavam a brincar na água, rindo e salpicando-se um ao outro. Tudo parecia idílico para a família, se não contassem com a jovem que se aproximava, com uma faca na mão. Os dois jovens estavam entretidos na água, pelo que não viram quando Anne se aproximou e enterrou a faca nas costas de Paul. Ele gritou, surpreendendo a esposa, que ficou perplexa. Anne retirou a faca das costas e apunhalou-o mais duas vezes. O terceiro golpe foi fatal e Paul caiu para a frente, sem vida.

- Fujam meninos! – gritou Ellie, aos filhos.

Ao ver o que acontecera ao marido, a sua preocupação eram os dois filhos e não ela própria. Anne atacou-a e Ellie recuou, mas ainda assim ficou ferida no braço. Tentou parar a faca com a mão, quando Anne a atacou novamente, mas só conseguiu cortar-se mais. Brian ficou parado na água, terrificado pelo que via, mas a irmã agarrou-lhe o braço e puxou-o, começando a correr para junto da margem, pois tinham pé e era mais rápido do que tentarem nadar em águas pouco profundas.

- Porque está a fazer isto? – perguntou Ellie, com o sangue escorrendo-lhe da mão e do braço. De seguida, Anne cravou-lhe a faca no coração e a mulher abriu muito os olhos.

- Porque vocês não deviam estar aqui – respondeu Anne, mas a mulher já estava morta. Anne puxou a faca do ferimento. As suas roupas encontravam-se agora cobertas de sangue, mas isso não a incomodava. O corpo de Ellie caiu ao chão e Anne olhou para os dois filhos, que vinham a sair da água, tentando fugir. – Ainda não acabei.

A Floresta da Morte

Danielle corria o mais rapidamente que podia, mas estava cansada e tinha uma dor no lado da barriga. Dwayne ficara um pouco mais para trás, era mais lento que ela, mas continuava a persegui-la. Danielle gritou mais uma vez para ele a deixar em paz, mas o homem estava determinado. Ela acabou por correr para o meio das árvores, em vez de seguir pela estrada, com esperança de que as árvores dessem mais facilidade para que se conseguisse esconder ou que o homem a perdesse de vista.

No entanto, ao passar entre duas árvores, não reparou numa raiz, tropeçou e caiu ao chão, batendo com a cabeça. Ficou atordoada por uns segundos e depois tentou levantar-se o mais rapidamente possível. No entanto, Dwayne tinha conseguido chegar junto dela e agarrou-a por um braço. Ela gritou e tentou esmurrá-lo com o braço livre. O homem deu-lhe uma bofetada e Danielle sentiu a cara arder. Depois, foi atirada ao chão, com o homem colocando-se em cima dela. O seu peso impedia-a de se levantar.

- Oh, coisinha bonita, vamos divertir-nos os dois – disse Dwayne, mostrando os seus dentes amarelos.

- Deixe-me em paz! – gritou Danielle. Dwayne ainda lhe agarrava um dos braços e apesar de ter batido com o outro na cara do homem, não produziu efeito algum.

- É melhor estares quieta, se não quiseres morrer – disse Dwayne. Com a mão livre, tirou um canivete do bolso e mostrou-o a Danielle, que parou de se debater. – Assim está muito melhor. Não sei o que andaste a fazer para teres as mãos ensanguentadas, mas não importa. Divertimo-nos e depois cada um vai à sua vida.

- Você matou a minha amiga!

- Não faço ideia do que estás a falar, rapariga. Nunca matei ninguém. Se a tua amiga fosse bonita, ainda podia fazer com ela o que vou fazer contigo, mas não a mataria.

Dwayne não queria mais conversa. Achou que a rapariga estava apenas a tentar distraí-lo, mas não o conseguiria. Baixou-se sobre ela e beijou-lhe o pescoço. Todo o corpo de Danielle arquejou. Bateu-lhe com uma mão na cabeça, mas mais uma vez não fez efeito nenhum. Quando lhe tentou puxar o cabelo, ele mostrou-lhe o canivete novamente. Ela não queria que aquilo estivesse a acontecer. Não queria começar a chorar e ir-se abaixo. Tinha de haver alguma forma de se escapar. Virou ligeiramente a cabeça, enquanto o homem lhe beijava o pescoço novamente.

Então, viu um pau. Lentamente, esticou a mão para ele. Não era muito grande, mas era melhor do que nada. Os seus dedos fecharam-se à volta do pau e pouco depois Dwayne endireitou-se. Era altura de lhe arrancar a roupa e fazer com ela o que quisesse. Com um grito, Danielle ergueu o pau e espetou-lho no olho esquerdo. Sangue jorrou para a roupa dela e Dwayne gritou de dor. Danielle empurrou-o e conseguiu finalmente que ele saísse de cima dela.

- Sua vadia! – gritou Dwayne.

O sangue escorria-lhe do olho, onde ainda estava espetado o pau. Ele agarrou no pau e arrancou-o, gritando de seguida. Danielle levantou-se rapidamente. Não havia tempo para hesitações. Começou a correr mais uma vez. Dwayne foi a correr atrás dela, cambaleante, com uma mão no olho. Deixara cair o canivete. Danielle correu e ao olhar em frente, algo lhe captou a atenção. Ergueu o olhar. Nos ramos de uma árvore, estava outra armadilha. Parou junto dela. Dwayne veio a correr. Havia uma corda e Danielle puxou-a. Duas bolas com espinhos soltaram-se dos ramos e caíram sob Dwayne, uma na cabeça, outra no ombro. Ele tombou por terra e não voltou a mexer-se.

Danielle começou a chorar. Valerie estava morta, Kane estava morto e quase fora violada por um homem, que agora também estava morto, por ação dela. Era demasiado para o seu sistema nervoso. Sentiu o estômago às voltas e acabou por vomitar. Tentou acalmar-se. Estava a salvo, pelo menos para já. Começou a afastar-se e foi então que ouviu um barulho, de algo a pisar ramos e folhas. Parou, alerta. Foi então que viu Eric e pouco depois ele viu-a também. Começou a correr para ela.

- Não te aproximes mais! – gritou Danielle, apontando-lhe um dedo.

- Danielle, estás bem?

- Foste tu que mataste a Valerie e montaste armadilhas? Responde-me, Eric!

A Floresta da Morte

Anne avançou rapidamente. Apesar de serem jovens, não iria deixar aqueles dois escaparem com vida. Eles estavam atordoados e molhados, seriam presas fáceis. Lembrou-se de Neil, que no final também ficara molhado, a boiar no lago. Ela e Neil tinham namorado por alguns meses. Não que Anne estivesse realmente apaixonada por ele, mas era uma companhia. O pai de Anne estava doente e pelo menos Neil fornecia distração para essa situação. E depois, o pai de Anne morrera. Neil não a soubera apoiar e não parecera realmente aborrecido por o pai dela ter morrido.

Era verdade que Anne tivera de cancelar alguns encontros para tomar conta do pai, mas ainda assim Neil podia ter sido melhor ator. E levá-la à floresta, à noite? Fora realmente estúpido. Pagara com a vida. A sua primeira vítima. Quando o corpo aparecera a boiar e fora identificado, ela fora questionada pela polícia e mostrara-se triste e chorosa. Não tinham desconfiado dela. Pobre jovem, que perdera o pai e também o namorado. Mas por dentro, Anne estava pronta para avançar e acabar com todas as pessoas que se atrevessem a colocar os pés em Forest Green.

Gwen empurrou o irmão, para o tentar fazer avançar mais depressa. Ela própria pisara uma rocha afiada ao sair da água e ficara com uma ferida no pé. Anne movia-se mais rapidamente que os dois e Gwen percebeu que não iria conseguir escapar com o irmão. Amaldiçoou o pai por os ter trazido ali. Não podiam ter ido de férias para um hotel? Mas não, tinham ido acampar e agora estavam a ser assassinados.

- Corre e não olhes para trás! – exclamou Gwen.

- Mas Gwen…

- Corre! Não a deixes apanhar-te!

Apesar de hesitar um pouco, Brian vira-se e começa a correr o mais rápido que as suas pequenas pernas lhe permitiram. Abanando a cabeça, Anne olhou-o, a fugir. A irmã parou, encarando-a. Então, ela estava pronta para se sacrificar, para que o irmão sobreviva? Anne abanou a cabeça negativamente. Apesar de ser um sentimento nobre, para Anne aquilo nada significava. Remexendo no seu casaco, tirou de lá a pistola do pai. Era antiga e só tinha três balas, mas teria de servir. Apontou e disparou, mas falhou. A bala passou perto de Brian, mas não lhe acertou. Um segundo tiro, no entanto, foi certeiro. Baleado na cabeça, Brian caiu ao chão, perdendo a vida.

- Não! – gritou Gwen.

- Parece-me que restas apenas tu – disse Anne, guardando a pistola. Preferia matar as vítimas cara a cara, mas o rapaz iria afastar-se demasiado, caso Anne tentasse matar a irmã primeiro, pelo que o assunto ficara resolvido.

- Porque fez isto? Que mal lhe fizemos nós? – perguntou Gwen, com raiva na voz. Tremia de medo e frio.

- Vieram para a minha floresta, quando não deviam. Tinham de pagar!

- Eu nem sequer queria vir para aqui, foram os meus pais que me quiseram trazer, a mim e ao meu irmão!

- De uma forma ou de outra, vieram e agora vou acabar contigo também.

Gwen tentou fugir, mas Anne chegou perto dela rapidamente. Com a faca, fez-lhe uma ferida na perna e depois arrastou-a para junto do lago novamente. Gwen era magra e menos forte do que Anne. Debateu-se, mas não se conseguiu libertar. Anne cortou-lhe parte do braço e Gwen gritou. Logo depois, já junto do lago, Anne empurrou a cabeça da jovem para baixo de água. Largou a faca, empurrando com as duas mãos. Gwen tentou vir à superfície, mas a pressão era demasiada. Alguns segundos mais tarde, deixou de se mover.

- Querias estar na água, portanto morreste pela água – disse Anne, soltando-a.

A cabeça de Gwen continuava dentro de água, enquanto o seu corpo ensanguentado estava na beira do lago. Anne levantou-se. Molhara-se um pouco, mas não havia problema. Pensou em Eric. Ele ainda devia andar por ali, algures. Decidiu que tinha de mudar de estratégia. Chegara o momento de deixar de andar a vaguear a pé. Forest Green era grande, portanto tinha de se movimentar mais depressa. E iria encontrá-lo, acabando com ele, como acabara com todos os outros.

A Floresta da Morte

- Eu nunca faria mal à Valerie! – exclamou Eric. Estava perplexo com aquela pergunta da parte de Danielle, num tom frio e desconfiado. Olhou para ela, para as suas roupas, com salpicos de sangue e as mãos também pareciam ter sangue, mas seco. O que raio se tinha passado com ela? – Nem coloquei armadilhas nenhumas.

- Eu vi a Valerie, morta!

- Sim, uma mulher doida lançou setas e matou-a. Também tentou matar-me a mim, mas consegui fugir. Matou outras pessoas e eu pensei em voltar à casa, esperando que ela não pensasse voltar lá – explicou Eric. – Sei que é difícil de acreditar, mas eu não fiz mal a ninguém. Onde está o Kane?

- O Kane está morto. Há armadilhas na floresta e ele foi apanhado numa – respondeu Danielle. Viu os olhos de Eric abrirem-se muito e depois a sua expressão ensombrar-se. A dor dele era visível e ela finalmente deixou de suspeitar dele. Aquela era uma dor genuína, Eric não estava a fingir, não pusera armadilhas para matar Kane e ele sempre gostara de Valerie também.

- O Kane… raios, deve ter sido obra daquela mulher também. O que te aconteceu a ti? – perguntou Eric.

- Eu não fui apanhada na armadilha, regressei à casa, vi a Valerie e vim embora. Um homem veio atrás de mim… está morto agora – respondeu Danielle, engolindo em seco. Apontou e Eric virou-se. A alguma distância, via-se o corpo de Dwayne, caído. – Isto é um pesadelo. Era suposto virmos para aqui para relaxarmos e nos divertirmos e agora os nossos amigos estão mortos!

Eric aproximou-se lentamente e abraçou-a. Danielle chorou no seu ombro por alguns segundos, o que era atípico para ela. Danielle era sempre forte, a inteligente do grupo, que dava conselhos a todos. Ela acabou por se recompor. Chorar não ia resolver nada. Tinham de sair dali, tinham de sobreviver. Pediu mais detalhes a Eric sobre a mulher e ele contou-lhe o que sabia.

- Então ela matou um casal que tinha um jipe? – perguntou Danielle.

- Vi o jipe, mas fugi. Havia também uma senhora de idade, que deve estar morta como os outros. Tanto quanto sei, ela pode ter cortado os pneus do jipe, tal como fez com o meu carro.

- Talvez sim, talvez não. Se tivermos um veículo, será muito mais fácil fugirmos daqui. É o que acho que devemos fazer. Claro que podemos ir pela estrada e arriscarmo-nos a encontrá-la ou continuar sempre pela floresta e arriscarmo-nos na mesma…

Não era uma decisão fácil e não sabiam que rumo poderia a mulher ter tomado. Danielle estava satisfeita por já não estar sozinha, mas Eric não estava menos alarmado. Não seria por estarem juntos que teriam mais possibilidades de sobreviverem, como já se comprovara, com a família que Eric vira ser morta. Antes de irem embora, Danielle respirou fundo e foi até onde Dwayne a atacara. Recuperou o canivete dele. Podia dar jeito. Depois, ela e Eric começaram a caminhar.

A Floresta da Morte

Anne voltara ao seu carro, que tinha deixado estacionado e oculto entre as árvores. Ela conhecia bem a floresta. Enquanto conduzia, para cobrir mais terreno, querendo encontrar Eric e também outras potenciais vítimas, Anne deixou os seus pensamentos vaguearem para o pai. Arnold Spitz trabalhara muitos anos como guarda florestal, em Forest Green. Adorava a floresta e incutira isso na filha. No entanto, começara a ficar algo paranoico quando encontrava locais que tinham algum lixo, fogueiras que tinham sido feitas em locais onde não se devia ou pessoas a serem pouco cuidadosas.

Há cinco anos atrás, um grande grupo de pessoas viera para a floresta, à noite. Arnold tinha ido dar uma volta e deparara-se com o grupo junto do lago, com música, drogas e atividades sexuais pelo meio. Ficara furioso e perdera a cabeça. Fora para casa, buscar as suas armas e ao voltar à floresta, matara todos a tiro. Conseguira, ainda assim, escapar-se à polícia. As armas usadas não estavam registadas e não sobrara ninguém para o denunciar. Uma mulher conseguira gravar num pequeno vídeo, uma figura escura a atirar sobre as pessoas, antes de ela própria morrer, mas Arnold usara um capuz e não tinha sido reconhecido.

Durante semanas, falara-se no assunto. Percebia-se pelo corpo da pessoa, que fora um homem. A floresta começa a ser tratada pela Floresta da Morte. Arnold ficara afetado e mais paranoico que antes. A filha acabara por descobrir que fora ele o assassino, mas mantivera-se calada. No tempo que passara, o pai, bastante convincente, convencera Anne que o que fizera fora justificado e que aquelas pessoas mereciam. Qualquer pessoa que não respeitasse Forest Green, teria de morrer. Anne, que também gostava do local, começara a vê-lo como sendo dela e do pai. Passaram anos e então, ele ficara muito doente. Tinham sido meses em que Anne o ajudara, até que o pai falecera. E como último pedido, ele dissera-lhe para proteger a floresta e punir as pessoas que não a respeitassem. Anne prometera.

- Se matar pessoas suficientes, deixarão de vir para aqui – pensara Anne, já depois de ter matado o namorado. – Sim, vou montar armadilhas, vou matar pessoas e irá falar-se disto na comunicação social. Terão medo de vir para a floresta. Assim, poderei espalhar as cinzas do meu pai aqui e ele não será perturbado.

E naquele dia, Anne começara a sua missão. Tinha mapas e pelas suas investigações, a casa que Eric estava a usar estava ocupada, pelo que fora lá primeiro. Mas ainda havia muito trabalho a fazer. Virou o carro, passando por vários locais, na estrada de terra. Viu então um homem, a caminhar na berma da estrada. Gust vinha com uma mochila enorme às costas. Decidira ir acampar sozinho, mas ainda não encontrara o local perfeito. Nunca o chegou a encontrar, pois Anne virou o carro em direção a ele e atropelou-o. O corpo de Gust foi atirado pelo ar, por cima do carro e caiu ao chão. Pouco minutos depois, estava morto.

O carro de Anne ficara com danos, mas era alto e o vidro dianteiro não se partira. Valera a pena, para acabar com mais uma vida. Continuou a conduzir, cobrindo mais terreno. Queria acabar com Eric, pois ele vira a sua cara, mas em último caso, se não o encontrasse, apenas teria de mudar a sua aparência. Ele não sabia quem ela era e Anne estaria segura. Mas seria muito melhor se ela conseguisse acabar com a vida dele também.

A Floresta da Morte

Eric saiu do meio das árvores, com Danielle atrás dele. Tinham voltado ao local por onde Eric já passara antes. Ele tentou não olhar para os corpos de Maureen e Doug, que estavam caídos no chão, rodeados de poças de sangue. Danielle levou uma mão ao peito e continuou a seguir Eric. Avistaram o jipe, no entanto estava contra uma árvore. Eric suspirou. Seria possível que não tinham sorte nenhuma?

- O que fazemos agora? – perguntou Danielle.

- Vamos aproximar-nos. Talvez ainda seja possível que o jipe se mova.

Avançaram os dois, olhando à sua volta. Não parecia a Eric que a mulher assassina ainda estivesse por ali. Cometera os crimes e fora embora, talvez à procura dele. Chegando junto do jipe, viram que a porta do condutor estava aberta, mas não havia ali ninguém, apesar de haver algum sangue. Eric entrou para o interior do jipe. A chave ainda estava na ignição. Rodou-a e o jipe fez barulho durante algum tempo, mas não arrancou.

- O motor deve ter ficado danificado com o embate – disse Danielle, apesar de não perceber nada de carros.

- Então temos mesmo de nos afastar a pé. Temos de sair daqui rapidamente e rezar para não encontrarmos mais ninguém maluco pelo caminho.

Se conseguisse sair dali com vida, Eric já decidira que nunca mais poria os pés em Forest Green ou qualquer outro lugar onde se acampasse. Danielle, que segurava ainda o canivete, olhou à sua volta. Sentia que aquele lugar era perigoso. Ficara satisfeita por ir passar ali alguns dias, mas estivera errada. Claro que ninguém poderia adivinhar que as coisas se passariam assim. Eric tentou perceber para onde deviam seguir a estrada de terra, para um lado ou para o outro. Então, ouviram o barulho de um carro, perto. Danielle pensou que poderia ser alguém que os ajudasse.

O carro surgiu, vindo mais depressa do que devia. Danielle viu uma mulher ao volante, mas para ela, que nunca vira Anne, não queria dizer nada. Já Eric, reconheceu-a de imediato e deu um passo atrás. Anne parou o carro bruscamente, ao vê-los e depois abriu a porta, saindo para o exterior. Remexeu no bolso, ergueu a pistola e disparou na direção de Eric. Ele saltou para o lado e bala não o atingiu. Anne voltou a premir o gatilho, mas ficara sem balas. Atirou a pistola para o chão e debruçou-se para dentro do carro, voltando a pegar na sua faca.

- É a mulher que matou a Valerie! – exclamou Eric, colocando-se de pé.

Danielle fitou-a e Anne começou a correr para eles. Podiam tentar fugir, mas Anne acabaria por os apanhar. Eric agarrou numa pedra que havia no chão e atirou-a. Acertou num lado da cabeça de Anne, desorientando-a. Depois, foi ele a correr para ela. Aproximou-se e desferiu-lhe um murro na barriga. Depois torceu-lhe o braço, fazendo-a largar a faca. Anne deu-lhe uma bofetada e Eric deu-lhe um murro na cabeça com toda a força.

- Matou a minha amiga e outras pessoas! – gritou Eric. – Vai pagar pelo que fez!

Anne tentou baixar-se para agarrar na faca, mas Eric empurrou-a e depois voltou a dar-lhe um murro na barriga. Anne não estava habituada a ser agredida. Matara várias pessoas, mas praticamente sempre se sentira invencível. Agora, era diferente. Deixou-se cair ao chão e Eric pareceu hesitar. Foi só o que Anne precisou, para lhe puxar uma perna e o fazer cair também. Depois, cravou-lhe um cotovelo na barriga e ergueu-se. Apanhou a faca e cravou-a no crânio de Eric.

- Não! – gritou Danielle, incrédula.

Parecia que Eric estava a ganhar, que estava a conseguir dominar a mulher, mas agora ele estava morto. Anne virou-se para olhar para Danielle e sorriu maliciosamente. Ela ergueu o canivete, pronta a defender-se, no entanto Anne tinha uma faca maior. A mulher, no entanto, não fez menção de a retirar do crânio de Eric. Tirou do bolso a adaga, que já usara antes. Aquilo até podia ser divertido. Avançou vários passos e tentou atacar Danielle, que recuou.

- Vá, rapariga, se queres sobreviver, tens de fazer alguma coisa que não seja recuar.

Danielle sabia que ela estava a troçar dela, mas não havia muito mais que pudesse fazer. Agarrou o canivete com força e golpeou, mas Anne desviou-se. Fez um corte no braço de Danielle, que gritou de dor. Depois, foi a vez de Anne gritar quando Danielle lhe espetou o canivete num ombro. Anne recuou, com o canivete espetado no ombro e uma expressão furiosa.

- Vou matar-te lentamente, sua vadia!

- Morra você! – gritou uma voz.

Vinha detrás de Anne e ela não teve tempo para se virar. Foi trespassada pelas costas, com a faca que usara para matar Eric. Depois, foi empurrada para o chão e caiu de barriga para baixo. Virou a cabeça. Danielle estava parada, com uma mão no seu braço. E ali, de pé, apesar de algo vacilante e de ter uma ferida na cabeça, estava Olka. A mulher idosa abanou a cabeça e Anne abriu muito os olhos. Pensara que ela tinha morrido, ao embater com o jipe na árvore.

- Você matou a minha filha e o meu genro – disse Olka. – Sua assassina cruel! Merece a morte também.

Olka estivera escondida nas árvores. Vira os dois jovens aparecerem, mas estivera desconfiada e não aparecera. E então, vira Anne voltar a aparecer. A mulher que lhe tirara a filha. O genro era o menos, nunca gostara muito de Doug. Ao ver que ela matara Eric e estava de costas, saíra do arvoredo e retirara a faca do crânio do rapaz, o que fora nojento. Agarrando o cabo da faca, ainda enterrada nas costas de Anne, Olka empurrou para baixo, fazendo a outra gritar.

- Pare! Pare!

- Ai quer que pare? Você parou de fazer mal aos outros? Morra, filha do diabo!

E pouco depois, Anne fez-lhe a vontade. Deixava para trás violência e uma missão que não conseguira cumprir. Danielle ficou parada, olhando do corpo de Anne, para Olka, que se sentara no chão, chorando. Demorou algum tempo até Danielle rasgar um pouco da sua camisola e o colocar à volta do seu ferimento, para estancar o sangue. Demorou ainda mais a conseguir que Olka se levantasse e a fazê-la entrar no carro no qual Anne aparecera. E tinham seguido a estrada de terra batida. Alguns minutos mais tarde, encontraram a saída da floresta.

A Floresta da Morte

As autoridades invadiram Forest Green, depois de Danielle e Olka terem pedido ajuda à primeira pessoa que encontraram, numa aldeia próxima e a pessoa ter ligado à polícia. Não houve grande dificuldade para a polícia ir ao local, mesmo quando avisada por telefone de que tinham lá sido cometidos vários homicídios. Afinal, fora algo que já acontecera no passado. E o cenário que tinham encontrado não fora nada apelativo. Mortos em vários locais e armadilhas na floresta.

Danielle e Olka tinham sido ouvidas, dando as suas versões do que ocorrera. Não fora difícil confirmar que fora Anne a autora dos crimes, pois as suas impressões digitais estavam espalhadas por vários locais, nas armadilhas ou no arco que usara para matar Valerie. Anne era conhecida na aldeia mais próxima, onde vivera com o pai e quando tinham invadido a casa e procurado, tinham encontrado vários tipos de armas, recortes de jornais e o diário de Anne.

Olka teria de ser presente a tribunal, mas seria alegado que ela matara Anne para se defender a si própria e a Danielle. Por seu lado, Danielle decidira manter a boca fechada em relação ao homem que a atacara e que acabara morto na armadilha. O mundo não precisava de saber aquilo. Que pensassem que fora apenas obra de Anne. Durante um tempo, o acesso a Forest Green fora vedado, o que só atraíra ainda mais a atenção das pessoas. Era provável que nunca voltasse a livrar-se realmente do nome Floresta da Morte.

- Não sei se conseguirei avançar com o meu sonho de me tornar médica – disse Danielle. Tinham-se passado algumas semanas e ela estava de pé, junto da campa de Eric, onde pousara algumas flores. – Um médico deve salvar vidas, qualquer vida e não sei se conseguirei fazê-lo. Se aparecer alguém mau que necessite de ajuda, algum pedófilo, algum criminoso, algum assassino, como poderei fazer o que estiver ao meu alcance para salvar alguém assim?

Danielle calou-se. Claro que não obteria respostas de Eric. Ele estava morto, tal como Valerie e Kane. Apesar de ter sobrevivido, Danielle nunca esqueceria aquele dia e achava que haveria repercussões por toda a sua vida. Alguns minutos mais tarde, abandonou o cemitério. Teria de seguir com a sua vida em frente, para o melhor e para o pior. Cruzou-se com outras pessoas, enquanto caminhava pelas ruas. Anteriormente, caminhara com segurança, certa de que ninguém lhe iria fazer mal. Agora, todos podiam ser inimigos velados e Danielle trazia uma pequena pistola na sua mala. Não voltaria a ser uma vítima indefesa.

Fim

E termina assim a história, com Danielle e Olka como as únicas sobreviventes. Até uma próxima história!