Título: Anseios do Coração

Autoria: Dream-Devil

Género: Slash/Yaoi, relação entre dois rapazes/homens, caso não goste, não leia.

Número de Capítulos: 5

Aviso 1: A história é contada sobre o ponto de vista das quatro personagens principais: Darsh, Ben, Santiago e Roland.

Aviso 2: Esta história passa-se depois da história Desejos do Coração e algumas das personagens dessa história aparecem, no entanto não é necessário ler a outra história para compreender esta.

Sumário: Slash. Santiago cresceu num orfanato, enquanto Roland foi adotado e tiveram vivências diferentes. Vão reencontrar-se e situações do passado virão ao de cima. Enquanto isso, o casal Ben e Darsh, terão de lidar com problemas familiares e com pessoas que lhes querem mal. Conseguirá a relação dos dois manter-se firme?

Anseios do Coração

Capítulo 1: Uma Figura do Passado

Santiago

- Money Biz, bom dia, fala o Santiago – digo eu, atendendo a chamada.

É um cliente, que pretende falar com um dos contabilistas que trabalham na empresa. Peço para aguardar um pouco, enquanto transfiro a chamada. Oiço o som de mais um e-mail recebido e suspiro, abrindo-o no meu computador. Trabalho na empresa Money Biz há uns meses, como rececionista. É uma empresa de contabilidade, que felizmente está a crescer e a expandir-se. O edifício tem dois andares, com vários gabinetes. O meu posto de trabalho é no rés-do-chão, logo depois das portas de entrada. A entrada tem uma mesinha ao fundo e alguns pequenos sofás, para as pessoas se sentarem.

Depois, há um balcão grande, onde eu trabalho, tendo a central telefónica a meu cargo, bem como um computador e alguns papéis de que posso necessitar. O emprego não é muito entusiasmante, mas também não é complicado e a empresa paga sempre a horas, o que é bom. Sendo que não tenho grandes qualificações, fiquei satisfeito por conseguir este trabalho e dou o meu melhor para o conseguir manter. Preciso do dinheiro para me manter à tona.

Atendo mais algumas chamadas e alguns clientes entram, sendo encaminhados para as pessoas que procuram. Olho para o meu relógio de pulso. Está na hora do meu intervalo. Pego no telefone e ligo para o andar de cima. Pouco depois, um colega meu aparece, para ficar na receção durante uns minutos. Eu subo as escadas, até ao andar superior. O corredor, pintado de cor creme, tem vários pósteres falando sobre números e fiscalidade. Avanço até uma porta, que dá para uma sala dos funcionários. A sala tem um sofá, uma mesa, cadeiras e máquinas para tirar café e comida. Coloco uma moeda na máquina do café e pouco depois estou sentado numa cadeira, a beber o café, aos poucos.

- Olá Santiago – diz uma voz, quando a porta se volta a abrir.

Olho-o e sorrio. É o Ben Hasnot, um dos contabilistas da firma. Ele só trabalha aqui há três meses, mas do que vi, é boa pessoa. Duas semanas depois de vir trabalhar para aqui, emprestou-me dinheiro para o almoço, quando eu me esqueci da carteira em casa. A partir daí, falámos mais um com o outro. Fiquei a saber que ele vive com o namorado e que antes trabalhou num restaurante de fast food. O Ben tem vinte e cinco anos e cabelo castanho. Puxa uma cadeira e senta-se junto de mim. Tem uma sandes, que trouxe de casa. Também tenho de começar a trazer sandes para mim próprio.

- Tiveste problemas com o senhor Redd? – pergunto eu. Passei uma chamada daquele cliente, que é bastante chato. Está a ligar constantemente e pelo que ouvi dizer, é por ser apenas picuinhas.

- Nada de especial – responde o Ben, dando uma mordidela na sua sandes. Mastiga e engole, antes de voltar a falar. – Queixou-se de tudo e de nada, como é costume. Mas nem sequer quero pensar nele. Depois da chamada, recebi uma mensagem do meu namorado e todo o aborrecimento passou.

- Como é que disseste que ele se chamava?

- Darsh – responde o Ben, dando mais uma dentada na sua sandes. – Ele tem origens indianas, daí o nome. Mandou-me uma mensagem romântica. Mas tu não queres saber isso, desculpa.

- Não tem mal. Gosto de ouvir falar de relações que correm bem. Dá-me esperança – digo eu.

Os meus pais morreram quando eu era pequeno, pelo que não me lembro deles como casal. Mal me lembro deles, de todo. Mas penso que se devem ter amado, para terem casado e me terem tido. E gosto de ver os casais apaixonados. Por vezes, penso se um dia serei eu a estar apaixonado assim. E ao que parece, é como o Ben se está a sentir. Ele sente-se encorajado pelo que eu disse e fala mais um pouco.

- Eu e o Darsh fizemos um ano de namoro na semana passada. Parece que o tempo passou muito depressa e que estamos juntos há muito mais tempo. De vez em quando, ele lembra-se de me mandar mensagens românticas. Eu não sou assim tão bom a pensar em coisas românticas para escrever – diz ele.

- Como é que vocês se conheceram e se apaixonaram? – pergunto eu.

- Bem… é complicado de explicar – responde o Ben, parecendo um pouco atrapalhado. – Em resumo, eu estive apaixonado pelo meu melhor amigo durante sete anos. Sete longos anos, em que só o via a ele. Mas eu não era correspondido e não estava a conseguir aceitar isso. O Darsh falou comigo e beijou-me. Eu fiquei confuso. Mais tarde, acabámos os dois sentados num bar. Eu não costumo beber, portanto já estava um pouco zonzo e o Darsh foi um cavalheiro. Acabei por dormir no apartamento dele. Só dormir, mesmo, mas a forma como ele me tratava, cativou-me. Além de que me salvou a vida.

- Salvou-te a vida?

- Eu trabalhava na empresa do meu pai e deu-se um incêndio. Fiquei encurralado lá dentro e o Darsh, mesmo arriscando a sua vida, entrou no edifício em chamas e salvou-me. Se não fosse ele, provavelmente teria morrido.

Acho aquilo mesmo romântico. Não a parte de o Ben quase ter morrido, mas o facto do namorado lhe ter salvo a vida. É natural que gostem mesmo um do outro. Também me sinto algo ciumento quanto a isso. Ter alguém de quem se gosta assim, quando eu não tenho. Ter alguém que arriscaria a sua vida por mim ou alguém por quem eu arriscaria a vida, sem pensar duas vezes.

- Há pouco, falaste de relações que correm bem e como isso te dá esperança – diz o Ben. – Sem querer ser intrometido, vou supor que não namoras?

- Não. Tive uns namoros, aqui e ali, mas nada sério. Não sei se é porque não encontrei a pessoa certa ou talvez seja mesmo um problema meu, que não sei gostar de alguém – digo eu, com sinceridade.

- Quando menos esperares, encontrarás alguém e vais sentir-te bem com isso. Não é problema teu, de certeza. Imagina o amor que se sente pela família, por exemplo, mas é algo diferente. Quando te sentires tão próximo de alguém, pensares na pessoa constantemente, saberás que estás apaixonado.

- O problema é que eu não sei o que é amor pela família – digo eu. O Ben parece confuso, sem compreender. Hesito, em dizer-lhe a verdade ou não, mas acabo por lhe revelar que os meus pais faleceram. Eu tinha apenas oito anos. Ia no carro com eles, despistaram-se e eu fui o único sobrevivente. – Portanto, perdi os meus pais.

- Mas de certo que terás outros familiares.

- Havia uma avó, já muito velha. Não podia tomar conta de mim e já morreu. Por isso, acabei por ter de ir para um orfanato – revelo eu. O Ben fica com uma expressão mais séria. Eu termino de beber o meu café. – Portanto, não sei o que é gostar de um familiar.

- Nem sequer de uma família adotiva?

- Estive em dois lares de acolhimento, a determinado momento, mas foi temporário. Passei o resto da minha vida no orfanato, até ter dezoito anos e decidirem que eu tinha de ir embora. Nunca fui adotado. Os casais queriam bebés ou crianças mais pequenas. Queriam rapazes loirinhos ou raparigas bonitas, não um rapaz latino, portanto, fui ficando. Tudo o que conheci foram os outros miúdos e as pessoas que trabalhavam no orfanato – digo eu.

- Oh, Santiago, lamento – diz ele.

- Não lamentes e não tenhas pena de mim, por favor – peço eu. – Um dia, poderá ser que tenha sorte e encontre alguém que goste de mim, como tu encontraste. Em último caso, terei de aceitar que vou ficar sozinho e que não mereço o amor de alguém, pronto.

- Não, nem pensar – diz o Ben e abana negativamente a cabeça. – Eu estava apaixonado pelo meu melhor amigo, não era correspondido e sentia que se ele não gostasse de mim, ninguém gostaria. Ao perceber que o iria perder mesmo, sendo que na verdade nunca o tivera, achei injusto. Achei que ninguém gostaria de mim, mas o Darsh não concordou. E agora estamos a namorar. Haverá alguém para ti, tenho a certeza. Se calhar, só não encontraste ainda a pessoa. Se conheceres alguém novo, quem sabe?

- Eu não sou muito de sair, portanto a não ser que seja aqui no trabalho, não vejo como é que vá conhecer alguém novo.

- Isso faz-me lembrar algo. Olha, amanhã o hospital onde o meu namorado trabalha vai dar uma pequena festa de beneficência. Vai ter música, tem um preço simbólico, para ajudar uma associação, mas vão estar lá muitas pessoas. Eu também lá estarei, claro. Tu podias vir comigo e assim eras capaz de conhecer alguém. Não quer dizer que aconteça, não o posso garantir e eu próprio não sou o tipo de pessoa que ia a festas a pensar encontrar alguém, mas talvez te faça bem sair. O que achas?

- Não sei. Se for à festa, provavelmente não vou encontrar lá ninguém conhecido.

- Ora, conheces-me a mim.

- Parece-me que vais estar ocupado com o teu namorado e depois fico eu sozinho, a um canto.

- Acho que é ao contrário. Vai lá estar imensa gente que o Darsh conhece, o que quer dizer que eu vou passar muito tempo sozinho ou ver ter andar sempre atrás dele e ouvir todas as conversas chatas que ele e os outros tiverem. Até me estarás a fazer um favor, se fores – diz o Ben. Cala-se e depois suspira. – Olha, sendo sincero, apesar de eu estar a gostar do trabalho aqui, não tenho realmente amigos por estes lados. Sou o novato e não posso dizer que me tratam mal, mas parece haver alguma distância entre mim e os outros funcionários. Tu… pareces uma pessoa simples e com quem é fácil falar. Fazia-me jeito ter por aqui um amigo assim.

- Bem, não posso dizer que tenha muitos amigos e tu também pareces ser uma pessoa simples e boa – digo eu. – Está bem, eu aceito ir à tal festa, mas mais para te acompanhar do que realmente por poder conhecer alguém por quem me vá apaixonar.

O Ben sorri-me e fica combinado. Dá-me os detalhes, do preço, de qual o horário em que a festa começa e onde se irá realizar. Eu não costumo ir a festas. Não costumo ser muito animado, na verdade. Talvez tenha a ver com as circunstâncias da minha vida. Provavelmente, é mesmo isso. E a ideia de eu e o Ben nos tornarmos amigos, parece-me bem. Não gosto de pessoas convencidas e algumas das que trabalham aqui, são assim. Como têm mais estudos que eu, acham que são mais importantes. O Ben não é assim, trata-me de forma normal, como se fosse igual a ele e não alguém com um cargo mais baixo. Espero que pelo menos me consiga divertir minimamente na festa.

Roland

- O soro irá ajudá-la – digo eu.

Acabei de colocar a soro uma paciente. Ela queixa-se de náuseas e o médico que a atendeu indicou que ela devia ficar a soro durante algum tempo. Tem talvez quarenta anos e está agora sentada numa cadeira, com o saco de soro pendurado perto dela e o soro a ir pela veia, para a ajudar. Suspiro. Não é fácil ser-se enfermeiro no Mercy Hospital, nem é fácil manter uma mente positiva, com tantas porcarias que por aqui aparecem. As pessoas não vêm ao hospital para mostrar que estão bem de saúde, a não ser se for uma consulta de seguimento. Caso contrário, temos pessoas maldispostas, tanto no sentido de personalidade, como fisicamente. Temos dores, temos mortes, temos sangue, medo, preocupação.

Não quero pensar nisso. Faço o meu melhor para os ajudar, dentro do possível. Ocupo-me com os doentes seguintes. É preciso dar a medicação a uma doente que está acamada. Ela já não consegue ouvir muito bem, pelo que tenho de falar alto com ela. Coloco-lhe os comprimidos na mão e vou buscar-lhe um copo de água. Ela toma-os e agradece-me. Internado ao lado dela, numa cama, está uma jovem, que tem tido febres altas. É bonita, mas o facto de estar há dois dias no hospital fez com que ela dê respostas tortas a tudo. Quer ir embora, o mais depressa possível.

- Afinal quando é que eu saio daqui? – pergunta ela, quando eu estou para ir embora. Não era suposto ter contato com ela, a minha ronda não a inclui, mas visto que sou a pessoa que está ali, a jovem fala comigo.

- Só o médico lhe conseguirá dar alta – informo eu. – Se ainda não estiver bem, não pode ir embora.

A jovem fica aborrecida e cruza os braços. Aproveito para me escapulir, antes que comece a dizer algo que eu não vou querer ouvir. Ora, se ainda está com febre alta, não pode ir embora para casa, sob o risco de ficar ainda pior. Mas os doentes nem sempre percebem isso. Chega a minha hora de intervalo e vou até à sala reservada aos funcionários do hospital. Sinto os músculos cansados. Sento-me junto a uma janela. O sol brilha lá fora e dentro de umas horas o meu turno terá chegado ao fim. Hoje, tenho um encontro.

Conheci a rapariga num bar, há dois dias atrás e achei-a bonita. O problema é que já não me recordo se ela se chama Lenna ou Linna, mas é uma coisa ou outra. De qualquer forma, acabei por lhe dar a volta e convidá-la para jantar comigo. Tenho o meu charme pessoal, que se deve à minha personalidade, bem como à minha aparência. Sou alto, tenho cabelo loiro e olhos claros. Sou atraente, eu sei-o e os outros também. Aqui no hospital, algumas pessoas gostam de olhar para mim, outras têm inveja. A porta da sala abre-se e o Darsh entra.

Ele tem trinta e um anos, cabelo escuro e pele cor de caramelo. Também é bonito, não tanto quanto eu, claro. Está a fazer o internato para médico. A minha ideia original era tornar-me médico também, no entanto acabei por ir a demasiadas festas, beber demais e distrair-me demais, o que fez com que as minhas notas caíssem e o meu caminho acabasse por ir para a enfermagem. Mas gosto do que faço, de qualquer das formas. O Darsh tira um café de uma máquina e depois acaba por se vir sentar ao meu lado. Parece cansado.

- Apanhaste algum paciente difícil? – pergunto eu.

- Estou a acompanhar a doutora Nunez e temos apanhado de tudo, do pior, mesmo – responde ele. – Felizmente, amanhã estou de folga e vamos ter o jantar, para ver se me distraio um pouco. Também vais ao jantar?

- Claro que sim. Ainda não sei se vou sozinho ou acompanhado, mas vou de qualquer das formas. Já tu, vais com o teu namorado, não é? – pergunto eu. Ele acena afirmativamente com a cabeça. Conheci o Darsh, quando ele veio para aqui fazer o internato, já faz mais de um ano. Naquela altura, ele era livre e corria o boato de que ele andava a saltar de relação em relação, tal como eu. E entretanto, ouvi dizer que arranjara um namorado e parece que estão juntos há algum tempo. – Há quanto tempo é que estás a namorar?

- Há um ano.

- Hum… e ainda não te cansaste dele? – pergunto eu. – Não quero ofender, atenção. Só que eu, ao final de três meses, no máximo, já estou mais do que cansado das minhas relações, portanto não me vejo a ter um namoro de um ano.

- Se queres saber, antes de me apaixonar pelo Ben, também pensava o mesmo. Nunca fui de querer ter uma relação longa ou pelo menos, era o que eu pensava. Quando eu e o Ben nos conhecemos, ele gostava de outra pessoa, há muito tempo. Pareceu-me estranho e depois pensei para mim mesmo que queria que alguém gostasse de mim daquela forma. E a verdade é que começámos a gostar um do outro e não, não me cansei dele, nem pensar – diz o Darsh, falando de forma rápida e confiante. – Ele preencheu um vazio na minha vida, que eu nem sequer sabia que tinha.

- Pronto, isso é tudo muito bonito, mas não é para mim. Hoje à noite tenho um encontro, um jantar, que penso que levará a outras coisas. E nem sequer tenho a certeza de qual o nome dela. Se calhar só a verei uma vez e para mim, chega-me. Mas talvez tu não compreendas o que estou a dizer.

- Pelo contrário, compreendo muito bem. Antes de conhecer o Ben, tive vários relacionamentos. Homens, mulheres, coisas de uma noite ou de umas semanas ou poucos meses. E depois, passava ao próximo. Achava que estava bem e não quer dizer que não estivesse, mas não tenho pena nenhuma de as coisas terem mudado. Porque não se resume só a sexo, é muito mais do que isso, se bem que eu e o Ben estamos bem nesse departamento. Mas tem a ver com companheirismo, amizade e confiança.

- Não me diz nada – digo eu, abanando a cabeça negativamente. – Talvez um dia seja diferente, mas por agora, não, estou muito bem assim.

O Darsh encolhe os ombros. Temos perspetivas bastante diferentes do campo amoroso. Oiço o som de uma ambulância a chegar, o que quer dizer que vem mais trabalho a caminho. Sei que posso ser egoísta em certas coisas, mas preocupo-me realmente com as pessoas de quem é suposto tratar. Levanto-me, despedindo-me do Darsh e saio da sala dos funcionários.

Darsh

Estou em frente ao espelho da casa de banho do apartamento e olho-me. Tenho o cabelo bem penteado, vesti uma camisa branca e calças azuis. Estou bonito, confesso. Já são quase oito da noite e hoje é o dia da festa. Tenho de ir apresentável, claro, porque vão lá estar pessoas que conheço e outras que até não conheço, mas quero causar boa impressão. Ao sair da casa de banho, vou até ao quarto. O Ben vestiu uma camisa azul escura e calças de fato, também azuis escuras. Está sentado em cima da cama, a mexer no telemóvel. Aproximo-me, sento-me ao lado dele e dou-lhe um beijo numa bochecha.

- Estou pronto para ir – digo eu. – Hoje, vou finalmente apresentar-te a pessoas com quem trabalho.

- Não sei se eles ficarão tão interessados em conhecer-me, como tu achas que ficarão – diz o Ben. – Mas posso estar enganado. De qualquer forma, já espero que tu acabes envolvido em várias conversas, por isso mesmo convidei o Santiago, para pelo menos eu poder fugir, se as coisas se tornarem demasiado aborrecidas.

- Talvez tenhas razão e acabe por ser um pouco aborrecido para ti, mas espero que também consigas divertir-te.

- Se estiver contigo, estarei bem. Normalmente, é só o que necessito para estar mesmo bem – diz o Ben e sorri. – Os outros é que podem ser um pouco chatos. Mas de qualquer forma, mesmo tendo de te deixar envolver pelas conversas todas, quando a festa acabar, és só meu outra vez.

Ele beija-me e é tudo o que basta para que as coisas estejam perfeitas. O Roland não sabe o que isto é, amar assim alguém. Eu e o Ben vivemos num pequeno apartamento, mas que é suficiente para nós os dois. Saímos do apartamento e entramos no meu carro. Peço ao Ben para falar um pouco do tal Santiago, visto que não sei nada sobre ele, mas ao parece, o Ben também não sabe muito.

- Então, o Santiago quer encontrar alguém – digo eu, enquanto conduzo. Paro num semáforo, que passou a vermelho. Duas pessoas atravessam uma passadeira. – E o Roland não sabe o que é amar alguém. Tu já conheceste o Roland, é aquele enfermeiro loiro, por quem metade do hospital suspira?

- Já conheci, sim. Achei-o demasiado convencido. É bonito, sim, mas excesso de confiança acaba por fazer uma pessoa tornar-se algo rude. Não gosto de como ele age, pelas coisas que já me contaste. E quanto a metade do hospital suspirar por ele, não me importa muito, desde que essa parte não te inclua a ti.

- Não inclui – digo eu. É verdade. Ele é bonito, mas aos meus olhos, ninguém consegue ser mais atraente do que o Ben. - Mas estava eu a dizer, o Santiago está à procura de alguém, o Roland não sabe o que é amar, se juntarmos os dois…

- Vai dar desastre. Nem sequer penses nisso – diz o Ben, de forma rápida e séria. – Tu não és o cupido, Darsh. O Santiago quer alguém que possa amar e o ame de volta. Coitado, perdeu os pais, foi criado num orfanato, ninguém o quis adotar e tu achas que a pessoa certa para gostar dele é o Roland? Ele anda sempre a dormir com uma e com outra. Primeiro, nem sequer sabes se ele gosta de homens, segundo, é exatamente o tipo de pessoa que só iria magoar o Santiago. Portanto, não penses em fazer nada para os juntar, ouviste?

- Pronto, está bem – digo eu, suspirando.

Talvez o Ben tenha razão. Quero argumentar que eu também era como o Roland, talvez não tão ao extremo, mas mudei e que ele pode mudar, mas é melhor não dizer nada, para não aborrecer o Ben. Eu tenho a mania de me meter na vida dos outros. Não é por mal, só quero ajudar. E verdade seja dita, consegui ajudar o meu melhor amigo, o Elijah, que também trabalha comigo, a ficar com o seu atual namorado, o Jacob. Visto o Elijah estar a trabalhar hoje, não pode ir ao jantar e o Jacob decidiu não ir também. Mas foi graças a mim que eles ficaram juntos. Talvez pudesse repetir o feito com outro casal.

O local onde se vai realizar o jantar, é numa casa, que pertence ao hospital. Já existem muitos carros na rua, quando lá chegamos, mas ainda assim consigo arranjar um espaço para o meu carro, à borda da estrada. Saímos e caminhamos até ao portão da casa, que está aberto. Há pessoas por ali, a falarem. Conheço uma delas e cumprimento-a. Pouco depois, estamos a entrar no vestíbulo, onde há duas jovens. Uma está a tratar de ficar com os casacos das pessoas e a outra é a quem temos de pagar a entrada.

- O Santiago ainda não deve ter chegado – diz o Ben, olhando à volta. – Talvez seja melhor esperarmos por ele aqui.

Ficamos por ali e é então que chega o doutor Lawrence. Ele acompanhou-me durante um tempo, tal como acompanhou o meu amigo Elijah. É um médico atencioso, realmente preocupado com os doentes e que consegue criar empatia. Vem acompanhado por uma mulher, que suponho ser a esposa, vestindo um vestido roxo. Ele cumprimenta-me a mim e ao Ben. Depois, apresenta a mulher, que é realmente a sua esposa. Eu aproveito para apresentar o Ben, como meu namorado. A esposa do doutor Lawrence olha-nos de cima a baixo.

- Já ouvi falar de si. Ouvi falar bem, claro – diz o doutor Lawrence, olhando para o Ben. Dá-me uma palmadinha no ombro. – Aqui o Darsh era um quebra corações no hospital. As enfermeiras suspiravam por ele, na receção todos lhe sorriam. Ouvi dizer que ainda teve alguns encontros com outros funcionários do hospital, mas isso foi antes de assentar. Agora, é uma pessoa respeitável, não é verdade, Darsh? O amor tem destas coisas. Podem acreditar ou não, mas quando eu era jovem, também tinha várias pretendentes. E então, apareceu uma que me roubou o coração. E ainda hoje o tem.

- Estás a dizer coisas embaraçosas, querido – diz a esposa, mais ri-se ligeiramente. – Apesar de não deixar de ser verdade. Ele andava atrás de todo o tipo de rabo de saias, mas disse-lhe logo que se queria sair comigo, era só comigo e com mais ninguém. E estamos juntos já lá vão quase vinte e cinco anos.

- Amar alguém por tanto tempo deve ser maravilhoso – diz o Ben.

Ele esteve apaixonado pelo Jacob durante sete anos, até eu aparecer na sua vida. Será que daqui a vinte e cinco anos, ainda estaremos juntos? É o que espero. Não é como se eu tivesse planeado apaixonar-me ou tivesse idealizado uma relação de longa duração, mas estou satisfeito por as coisas estarem a correr bem. Os meus pais também estão juntos há muitos ano exemplo deles que tento seguir, para fazer a minha relação durar.

- Nunca conheci um casal gay – diz a esposa do doutor Lawrence. – Não que eu tenha nenhum problema com isso. Vocês são os dois tão bonitos. Fazem um casal interessante. Eu acho que o meu sobrinho Donald é gay. Nunca o disse, é apenas uma intuição, mas se um dia ele se assumir, espero que seja feliz.

Ficamos à conversa mais um pouco, até o doutor Lawrence e a esposa entrarem. Eles foram simpáticos, o que é bom. Olho para o Ben. Acho que está um pouco nervoso por estar aqui. Provavelmente, não por estar aqui, mas por eu o estar a apresentar como meu namorado. O pai dele rejeitou-o, quando o Ben se assumiu, portanto deve ser difícil dizer a outras pessoas que é gay. Puxo-o para mim e ele sorri-me ligeiramente. É então que chega um homem de estatura média e cabelo escuro, com pele bronzeada ou assim parece. Veste calças escuras e uma camisa clara, que parece um pouco velha.

- Olá, Santiago – diz o Ben, avançando para lhe apertar a mão. – Santiago, este é o meu namorado, o Darsh. Darsh, este é o meu colega, Santiago.

Eu aperto-lhe a mão com firmeza, avaliando-o. É magro e não posso dizer que seja feio, mas também não é atraente como eu. Sinto-me mais descansado ao vê-lo, riscando-o da lista de possíveis ameaças ao meu relacionamento. Eu tenho confiança no Ben, mas não quer dizer que alguém não se possa interessar por ele e mo tente roubar. E claro que a aparência não é tudo, mas ainda assim, acho que o Santiago não será uma ameaça para mim. Avançamos e pagamos o valor de entrada.

No interior da casa, há pessoas em várias divisões, falando e comendo de travessas que vão passando, trazidas por empregados. Haverá um discurso mais tarde, na sala principal da casa. Encontro pessoas conhecidas, com quem falo e a quem apresento o Ben. São cordiais, apesar de achar que algumas delas nos estão a julgar. Na verdade, não quero saber se o fazem. O Santiago acompanha-nos, mas não o apresento a ele. Não sei se gostaria que o fizesse, mas também não sei grande coisa sobre ele, para o apresentar para além do nome.

Retiro um aperitivo de uma bandeja, quando um empregado passa por nós. Estou a comê-lo, quando vejo uma pessoa, o que faz o meu estômago dar uma volta. É o doutor Brown. Porque está ele nesta festa? Já nem sequer tem nada a ver com o hospital. Acontece que graças a mim e outros, o doutor Brown, que pertencia à administração do hospital, foi afastado. Usava materiais do hospital na sua clínica privada, pelo que eu gravei uma conversa entre mim e ele, em que ele admitia o facto. Isso, juntamente com outras coisas, gerou uma reportagem para a televisão e ele foi afastado. Obviamente que não ficou nada satisfeito. Ele vê-me e ao invés de me ignorar, como seria esperado, decide aproximar-se.

- Darsh Lakshar – diz ele. O seu tom de voz é frio e os seus olhos escuros parecem querer comer-me. Ou dardejam como se quisessem empalar-me. O Ben e o Santiago olham-no e consigo perceber pela expressão corporal do meu namorado, que ele reconhece o doutor Brown, da reportagem. No final de contas, apesar de ele ter sido investigado, não perdeu a sua licença. – Que desprazer ver-te aqui.

- Igualmente – digo eu. O Santiago leva uma mão à boca e penso que será para esconder um sorriso.

- Por tua culpa, a minha carreira ficou muito mais complicada e ainda tenho de ver a tua cara estúpida aqui também? – pergunta o doutor Brown. Fala alto, é óbvio que está a tentar chamar atenções sobre nós. Deve pensar que me vai fazer ficar embaraçado ou algo assim. As pessoas começam a olhar-nos. O doutor Brown passa os olhos pelo Ben. – E ainda por cima, trazes o teu namorado. Dois anormais, é o que vocês são, completamente contranatura. Deviam ter vergonha.

- Oiça, você não tem moral para estar a insultar ninguém – digo eu e desta vez acho que são os meus olhos que estão a dardejar. Se pudesse, apertava-lhe o pescoço. – Você, que se aproveitava dos dinheiros públicos, investidos em maquinaria e outras coisas de um hospital público, para as levar para a sua clínica privada. Foi exposto e ainda pensa que tem moral para dizer alguma coisa?

- Ouve, meu anormal – diz o doutor Brown, aproximando-se mais de mim. Não me sinto intimidado. Agora, está mesmo toda a gente a olhar para nós, até há pessoas a espreitar, de outras divisões. – Um dia, vais pagar por teres gravado aquela conversa sem a minha autorização. Os meus advogados disseram-me para não avançar com uma ação criminal, mas há outras formas. E agora, sai da minha vista, tu e o outro anormal. És nojento, envolvendo-te com um homem!

- E que tal se calasse a boca, seu cínico de merda? – pergunta uma voz. Viro-me e vejo o Roland, a abrir caminho pelo meio das outras pessoas. – Vem para aqui insultar os outros e fazer ameaças veladas. Volte para o buraco de onde saiu!

- Você é um médico de meia-tigela! – exclama uma voz e virando-me, vejo que é a esposa do doutor Lawrence. O marido tem uma mão no braço dela, mas ela parece exaltada. – E homofóbico!

O doutor Brown parece furioso, principalmente quando outras vozes se levantam contra ele, vozes de pessoas com quem ele trabalhou no hospital. O enfermeiro Matt diz-lhe para ele ir embora, uma médica baixa diz-lhe que ele é uma desgraça. Eu olho-o, furioso. Não quero perder a cabeça e fazer algo do qual me posso vir a arrepender. Então, num movimento súbito, o doutor Brown agarra-me pelo colarinho da camisa. E depois, vejo o Ben tirar uma bandeja vazia das mãos de um emprego, que está parado, a ver a cena. Então, o Ben acerta com a bandeja na cabeça do doutor Brown. Ele grita de dor e larga a minha camisa, dando um passo atrás.

- Não volte a tocar no meu namorado – diz o Ben. Consigo sentir uma fúria fria vinda dele, como nunca vi. Encara o médico. – Se pensa que pode vir aqui intimidar-nos e insultar-nos, está enganado. Estávamos no nosso canto, sem fazer mal a ninguém e você provocou-nos. O anormal aqui é você, não nós. Você é um otário, convencido, preconceituoso, completamente alheado da realidade e em quem não se pode confiar. Devia ter ido parar uns tempos à prisão, por apropriação indevida de material que não era seu e por ter colocado em risco vidas, pois os equipamentos faziam falta no hospital público. Se volta a tocar no meu namorado ou a ameaçá-lo, garanto-lhe que sou eu que lhe trato da saúde.

O doutor Brown olha-o, com uma mistura de perplexidade e fúria. E então, oiço a esposa do doutor Brown bater palmas. E depois o enfermeiro Matt faz o mesmo e o Roland também. E mais pessoas. O doutor Brown fica escarlate. A vergonha agora é dele, pelo que ele abandona a divisão e provavelmente vai mesmo embora. Nunca devia ter posto aqui os pés, depois do escândalo que provocou. Olho para o Ben, pois também eu estou surpreendido. Isto é uma demonstração do seu amor por mim, a necessidade de me proteger. Não que eu precisasse realmente da sua proteção, sei tomar conta de mim. Mas é bom saber que ele me defendeu assim. Quando os ânimos se acalmam um pouco, puxo-o para um canto e beijo-o.

Roland

Quando o jornalista que fez a reportagem sobre o doutor Brown andava a investigar, contatou-me para eu prestar o meu testemunho. Não o fiz. A verdade é que apesar de saber o que o doutor Brown andava a fazer no hospital, apropriando-se de equipamentos e outros materiais, para levar para a sua clínica, eu tinha receio de represálias, se falasse. Afinal, ele fazia parte da direção. Portanto, mantive-me calado. Olhando para trás, tenho pena de o ter feito, por isso mesmo, hoje, quando o vi atacar verbalmente o Darsh e o Ben, decidi dizer alguma coisa.

Não seria uma festa a sério se não houvesse um pouco de drama. Vejo que há um homem de cabelo preto a olhar-me fixamente. Não preto muita atenção. Eu costumo chamar a atenção, devido à minha aparência física. Homens, mulheres, novos e velhos, reparam em mim. Às vezes é uma maldição ser tão belo. Saio da divisão, indo até outra, onde estão bebidas. Sirvo-me de uma e bebo-a devagar. O meu encontro na noite de ontem não correu muito bem. O jantar estava bom, fomos a um restaurante de que eu gosto e fui eu que paguei. Mas a rapariga era muito mais apática do que eu percebera e nem aceitou vir a minha casa. Não penso que a voltarei a ver.

Acabo a minha bebida e olho à minha volta. Lá está o homem de cabelo preto novamente, a olhar-me. Deve ter vindo atrás de mim. Decidi fazer um teste. Saio da divisão e subo as escadas até ao primeiro andar. Entro na primeira divisão que aparece. É uma sala de arrumos, com uma janela para o exterior. Olho por ela. Há muitas pessoas ainda lá fora, portanto espero que a festa de hoje consiga arrecadar muito dinheiro. Algumas pessoas, com mais posses, irão fazer doações extras, para além do bilhete de entrada. E depois, oiço passos. Viro-me. Lá está o homem de cabelo preto, à porta. Entra e eu suspiro.

- Eu sei que sou muito atraente, mas não estou mesmo interessado em envolver-me contigo – digo eu, com um encolher de ombros. – Portanto, podes deixar de me seguir, por favor?

- Ainda bem que vieste para aqui, para podermos falar a sós, sem pessoas e barulho à nossa volta – diz o homem. – Roland, estás um pouco diferente, mas reconheci-te de imediato. Suponho que possas ter alguma coisa a ver com o hospital.

- Eu sou enfermeiro – digo eu. Ergo uma sobrancelha. Quem é este homem, que sabe o meu nome, mas não sabe que eu trabalho no hospital? É estranho. – Quem é você?

- Tu já me conheces, apesar de poderes já não te lembrar de mim. Chamo-me Santiago Munoz.

Eu olho-o. Santiago? Só conheci um Santiago em toda a minha vida. Dou um passo em frente, olhando-o com mais atenção. Noto algumas parecenças na cara, mas ele mudou muito mais do que eu. Está mais alto, claro, mas ainda é magro, como era. Vêm-me à memória imagens do passado. Eu, a entrar no orfanato, a chorar. Eu, isolado dos outros. E então, o Santiago, ao meu lado. Já não estava sozinho. Eu e o Santiago, a brincarmos juntos. E depois, os meus pais, isto é, os meus pais adotivos, a aparecerem, para me adotar.

- Santiago, eu não te reconheceria, se não me tivesses dito quem eras – digo eu. Estendo-lhe uma mão, mas ele não estende a sua para a apertar. Lentamente, deixo cair a minha mão. – Como estás?

- Estou bem. Não tão bem como tu, claro – diz ele. Noto alguma acidez na sua voz. – Quando éramos crianças, fizeste-me uma promessa e quebraste-a.

- Uma promessa? – pergunto eu, confuso. – Não estou a perceber.

- Prometeste que nunca te separarias de mim – diz ele. O Santiago tem a mesma idade que eu, vinte e sete anos. Estivemos juntos no orfanato por algum tempo, até eu ser adotado aos dez anos. – Disseste que mesmo que fôssemos adotados, não perderíamos o contato. Mas depois, tu foste adotado e em pouco tempo esqueceste-te de mim.

- Eu… é verdade, recordo-me agora do que te disse, sim – digo eu. Acho que estávamos no dormitório e era uma noite de chuva e trovoada. O Santiago estava assustado. Eu tinha acabo por entrar na cama dele e tínhamos falado baixinho. E eu tinha-lhe prometido que nunca me separaria dele. Era o meu melhor amigo e eu não tinha família, na altura. – Mas foi há muito tempo, Santiago. E se bem te lembras, mesmo depois de ter sido adotado, ainda te fui ver duas vezes ao orfanato.

- Sim, duas vezes e nunca mais, a partir daí! Esqueceste-te de mim, fizeste exatamente o oposto daquilo que tinhas prometido. Enviei-te cartas, às quais nunca respondeste. Tentei ligar-te, mas nunca estavas. Esperei que me viesses visitar, mas nunca mais o fizeste. Deixaste-me sozinho. Claro que para ti agora isso não significa nada, tu foste adotado, tiveste uma família, fizeste com certeza novos amigos e esqueceste-te de mim. Mas eu fiquei para trás, como um pedaço de roupa velha, que se deitou fora.

- Ei, eu não te fui visitar mais, porque tu foste adotado e eu não tinha forma de chegar a ti. A minha mãe tentou saber informações, mas os dados da adoção eram selados, não podiam dar a indicação de quem te adotara – digo eu, indignado pela forma como ele está a falar comigo. – E deves estar enganado, porque eu nunca recebi carta nenhuma tua, nem me lembro de os meus pais dizerem que tinhas ligado.

- Eu é que estou enganado? Eu nunca fui adotado, Roland! – exclama o Santiago. Tem os punhos fechados e o corpo parece tremer-lhe ligeiramente. – Fiquei no orfanato, porque ninguém me quis. Isto é, fiquei lá até ter dezoito anos e ser expulso dali, porque não podiam acolher-me mais tempo. Fiquei à minha mercê, tive de encontrar onde ficar e um emprego. Já tu, se és enfermeiro, tiveste direito a estudar, tiveste coisas boas que eu não tive. Tu quebraste a tua promessa. Pode parecer estúpido, porque éramos crianças, mas eu não a esqueci. É fácil fazê-lo, quando somos nós a pessoa que ficou pior em todas as situações.

- Não pode ser – digo eu, encarando-o. – Os meus pais disseram-me que tu tinhas sido adotado. Depois de me adotarem a mim, fomos visitar-te. Eu queria que eles te adotassem a ti também. Assim, podíamos ficar juntos. Mas depois de algum tempo, disseram-me que tu tinhas sido adotado. Claro que fiquei feliz por ti, ias ter uma família, mas era mau que perdêssemos o contato. E com o passar do tempo, deixei de pensar nisso.

- Se os teus pais disseram que eu fui adotado, então mentiram. Ou és tu que estás a mentir agora, para parecer que és bonzinho.

- Já não somos crianças, Santiago. Consigo perceber que estás magoado, mas eu estou a dizer a verdade, quer acredites ou não. Podia estar a mentir, mas para quê? Passaram muitos anos, eu tinha esquecido a promessa e já nem te reconheceria na rua. Deixámos de ter importância na vida um do outro.

- Eu deixei de ter importância na tua vida, o que não quer dizer que o inverso seja verdade.

O Santiago acaba por se virar e sai da divisão. Estou confuso. Não esperava encontrá-lo aqui, ele era apenas uma memória vaga, do meu passado. Um passado que, seja verdade, eu queria esquecer. Queria esquecer de como fora abandonado pelos meus pais e acabara num orfanato. Era muito melhor pensar nos meus pais adotivos e nos momentos bons que passámos juntos. Foi com eles que fui feliz. Eles, que sempre me apoiaram em tudo.

Fico pensativo. O Santiago diz que nunca foi adotado. Porque mentiria ele? Mas se ele não está a mentir, então mentiram-me a mim. Lembro-me claramente de a minha mãe me dizer que ele fora adotado, por isso já não o podíamos visitar, porque ele não estava no orfanato. E eu pedira para ela o conseguir encontrar. Mais tarde, dissera-me que não era possível. E com o tudo, as coisas foram passando. Nunca recebi cartas dele, nem fui informado de telefonemas nenhuns. Talvez tivesse a morada errada e o número de telefone errado? Ou talvez nunca tivesse escrito nada, nem feito telefonemas nenhuns, estando apenas a mentir-me. Estou confuso. Podia deixar passar a situação. Provavelmente nunca mais verei o Santiago. Mas agora, quero saber a verdade, porque vou ter de esclarecer isto.

Ben

Alguém conhecido do Darsh aparece e ele finalmente larga-me, para ir falar com a pessoa. Beijámo-nos, algumas vezes, o que normalmente é algo que gosto, mas não quando há outras pessoas por perto. Acho que se fosse um casal heterossexual, não teriam receio nenhum de se beijarem, fosse onde fosse, mas não é o nosso caso. Gosto de manter a nossa privacidade. Claro que não parece, devido ao que aconteceu ainda há pouco, com o doutor Brown. Não sei o que me deu.

Eu normalmente sou bastante calmo e pacato, mas ao ver o doutor Brown a agarrar na camisa do Darsh, explodi. Ele não tem o direito de dizer o que disse e se fosse eu a ele, ter-me-ia afastado de tudo o que tivesse a ver com o hospital, depois da porcaria que lá fez. De qualquer forma, o Darsh parece ter ficado muito satisfeito com a minha explosão. Depois de se despedir da pessoa com quem estava a falar, aproxima-se novamente de mim e sussurra-me ao ouvido.

- Já te disse hoje que te amo? – pergunta ele.

- Ainda não tinhas dito, não – respondo eu. Ele sorri-me. Para ele, parece tão fácil falar de sentimentos, enquanto a mim me deixa algo embaraçado. – E também te amo, mas por favor, não te ponhas a beijar-me aqui outra vez. Espera até estarmos sozinhos.

Ele acena afirmativamente com a cabeça. Olho à minha volta. Não sei onde se meteu o Santiago. Sei que estava perto de mim, quando o doutor Brown apareceu, mas depois parece ter-se eclipsado. Talvez esteja a explorar a casa. O meu telemóvel toca e ao tirá-lo do bolso, vejo que é a minha irmã Olivia a ligar. Suspiro e indico ao Darsh que já volto. Encontro uma divisão com poucas pessoas e atendo a chamada.

- Olá Olivia. Está tudo bem? – pergunto eu. A minha irmã tem a mania de ligar quando tem algum problema, como se eu conseguisse resolver tudo o que se passa na sua vida.

- Ben, não, não está tudo bem.

- Espero que não tenhas arranjado um namorado e já se tenham separado – digo eu. Ela não tem sorte no amor. Teve um namorado, durante uns anos, mas acabaram várias vezes. De cada vez, ela ligava-me a queixar-se, depois chorava, eu concordava com ela, dizia-lhe para seguir com a sua vida e depois voltavam a juntar-se outra vez. Mas há cerca de um ano que acabaram tudo e que eu saiba, a Olivia ficou solteira a partir daí.

- Não, não tenho namorado nenhum. Estou a ligar-te por causa do pai – diz a minha irmã. – Ele não tem andado a sentir-se bem, mas recusa-se a ir ao médico. Não sei o que fazer mais. Tanto eu, como o Henry tentámos de todas as formas. Mas talvez tu consigas.

- Olivia, tu sabes muito bem que o pai não fala comigo. Desde que me assumi a ele e ele não aceitou, cortou relações comigo, portanto obviamente que não me ouvirá a mim – digo eu.

- Mas se um de vocês cedesse, talvez conseguissem entender-se.

- Como assim, se um de nós cedesse? – pergunto eu, ficando de imediato irritado. – O pai não aceita como eu sou. Ele é que tem de ceder, não posso ser eu a mudar o que sou. Não é por culpa minha que eu não tenho uma relação com o pai. Por mim, se ele aceitasse as coisas como são, podíamos dar-nos bem, como nos demos no passado.

- Ben…

- Olivia, se o pai te dissesse que tinhas de fazer o que ele dissesse, mesmo que não fosse o que querias, não te dando outra escolha, aceitarias? – pergunto eu. Do outro lado da linha, a minha irmã permanece calada. – Bem me parecia. Portanto, lamento que o pai se esteja a sentir mal, mas se ele não quer falar comigo, não há nada que eu possa fazer. Se tentasse falar com ele, só iria piorar as coisas.

A minha irmã acaba por desistir e a chamada chega ao fim. Claro que me preocupo com o meu pai. Apesar de não nos darmos agora, continua a ser o meu pai, que me criou, o melhor que pôde. A minha mãe faleceu há muitos anos e por isso teve de ser o meu pai a fazer ambos os papéis. Trabalhei com ele muito tempo, na sua empresa de móveis, a Woodland Warehouse, mas depois de me assumir, ele cortou relações comigo. Ele queria que eu fosse normal, como ele diz, que tivesse uma namorada e não um namorado. Mas é algo que não posso, nem quero mudar.

- Ben – diz uma voz. Viro-me e vejo o Santiago ali perto. – Desculpa, não me estou a sentir muito bem. Acho que me vou embora.

- Mas ainda agora chegámos – digo eu. Olho-o com atenção. Parece um pouco pálido. Um empregado passa por nós, com comida, mas nenhum de nós tira nada da bandeja. – O que se passa?

- Encontrei uma pessoa do meu passado. Não quero falar realmente no assunto – responde o Santiago, passando uma mão pelo cabelo. – Mas estou com uma dor de cabeça e fiquei sem vontade nenhuma de estar aqui na festa.

- Santiago – diz outra vez. Daquela vez é o Roland, que se aproxima. Camisa vermelha e calças brancas. Fica bastante atraente assim, é verdade, mas continuo a não gostar da personalidade dele. – As coisas que disseste, há muito para falarmos.

- Acho que não há mais nada para falarmos – diz o Santiago, de forma firme. – Já mal te lembravas de mim, portanto é melhor que assim seja. Agora já sou adulto, já não preciso de ti. Ben, desculpa, vou-me embora. Vemo-nos no trabalho, segunda-feira.

O Santiago afasta-se e sai da divisão. Não percebi nada. Aparentemente, o Santiago e o Roland conhecem-se, mas não sei de onde ou como. Pela forma como o Santiago falou, foi uma pessoa que ele não gostou de rever. Olho para o Roland. Poderá ser que eles tiveram alguma relação, no passado? E o Roland acabou tudo? Parece-me algo provável.

- De onde é que conheces o Santiago? – pergunta o Roland.

- Não ouviste o que ele disse? Somos colegas de trabalho – respondo eu, de forma ríspida. Depois, penso que talvez tenha sido ríspido de mais, mas há algo no Roland que me irrita. A sua personalidade e a forma como trata os outros.

- Há algum mal-entendido entre mim e ele e eu tenho de o resolver.

- Envolveste-te com o Santiago, no passado e acabaste tudo com ele, não foi? Ou então nunca mais lhe ligaste, evitaste-o, qualquer coisa do género, de certo.

- Não foi nada assim – diz o Roland. – Parece que tens alguma coisa contra mim, Ben. Que eu saiba, nunca te fiz mal nenhum.

- A mim pessoalmente, não, mas não gosto da forma como tu pareces achar que és irresistível, que todos cairiam aos teus pés e que és melhor que qualquer um – digo eu. Vejo pela expressão na cara do Roland, que ele foi apanhado de surpresa. – Não gosto de pessoas que são demasiado confiantes em si mesmas. Um pingo de humildade nunca fez mal a ninguém e pelo que o Darsh me conta, tu és do tipo de ter relações e andares sempre a saltar entre umas e outras.

- E então? Achas que o Darsh era algum santo, antes de se envolver contigo? Ele também teve várias relações.

- A diferença, pelo que o Darsh me diz, é que enquanto ele tinha relações temporárias e as terminava, tu já te gabaste de te envolveres com pessoas e depois simplesmente desapareceres das suas vidas. Não atendes chamadas, finges que aquele não é o teu número e pelo que o Darsh me contou, uma vez fingiste ser o teu próprio irmão gémeo. Ou o que estou a dizer está errado? – pergunto eu. O Roland não responde, mordendo ligeiramente o lábio. – Portanto, não compares a tua situação com a situação do Darsh, entendido? E é por isto que não gosto de ti.

- Bem, hoje as tuas garras saíram mesmo de fora – diz o Roland, respirando fundo. – Que seja, não me importa se gostas de mim ou não, mas tenho de esclarecer as coisas com o Santiago.

- Ouve, ele é uma boa pessoa, simples e portanto, seja lá o que for que tu fizeste, mantém-te afastado dele – aviso eu, apontando um dedo ao Roland. – Não quero que o magoes, de nenhuma forma.

- Eu não sou nenhum vilão, Ben – diz o Roland, zangado. – Posso não agir da melhor forma em relacionamentos, mas não ando por aí a magoar as pessoas sem mais nem menos. E de qualquer forma, não importa o que tu queres ou não queres. Eu vou esclarecer tudo.

O Roland vira-se e desaparece para outra divisão. Continuo a não gostar dele e da sua forma de ser. Acabo por voltar para junto do Darsh. Passamos mais algumas horas na festa, é feito um discurso, em relação à importância de ajudar associações de caridade e outras possíveis ações para angariação de fundos. Não volto a ver o Roland, não sei para onde foi, nem me interessa. Ao sair com o Darsh, de volta ao carro, dou-lhe a mão. Felizmente, eu tive a sorte de encontrar uma pessoa decente a quem posso chamar meu namorado.

E chega ao fim este capítulo. O Santiago acusou o Roland de ter quebrado a sua promessa, no entanto o Roland parece confuso quanto a isso. No próximo capítulo, o Roland irá tentar esclarecer o que aconteceu no passado, enquanto o Ben terá de lidar com problemas familiares.