O problema com consultas com a psicóloga em que eu "lembro de coisas" é porque parece que eu abro uma porta de lembranças que não sei fechar depois que a consulta acaba.

Agora, que anos já se passaram desde os meus traumas, parece que aquela garotinha que sofria com um monte de coisas é alguém de uma outra vida. Eu era tão madura pra minha idade. Eu sabia de tanta coisa que eu não devia/precisava saber.

Todas essas coisas são esquecidas com o fluir do tempo, com o passar de cada dia. Eu não penso na minha infância. Eu não penso nela. Eu afasto tudo. Eu esqueço de tudo. Por que eu ficaria lembrando dessas coisas quando eu estou tão bem?

Mas então, às vezes, falando com a psicóloga de algo trivial de hoje em dia – um sentimento esquisito com relação a algo, uma insegurança que sei que é tola, mas que não sabe da minha cabeça – eu entro em um turbilhão. Começo a falar disso e daquilo, e quando vejo estou de volta aos traumas. Percebemos muitas coisas sobre mim em consultas assim. Eu percebo muitas coisas sobre mim em consultas assim.

Terminei a consulta de hoje colocando para fora coisas que eu sei que sinto, mas que nunca verbalizo. Faz mais de três anos que frequento essa mesma psicóloga, e só hoje isso aconteceu. Enquanto falava, minha voz falhou, e sem perceber eu comecei a ter que lutar contra lágrimas. Isso é raro, mas acontece às vezes. Mas o que veio depois – isso aconteceu enquanto eu contava certas lembranças – foi um desabafo infantil, que geralmente eu não coloco para fora:

"A vida é tão injusta!" Eu falava, choramingando. "Eu estou cansada de vencer coisas! Eu estou cansada de superar traumas! Eu tenho vontade de balançar a minha mãe e gritar 'Foi você que fez isso comigo! Por que você não me sustenta para o resto da vida então?'". Não cheguei a falar o "Por que ninguém me salvou?", que é o que me frustra tanto. Por que eu estava ao redor de pessoas horríveis e ninguém me salvou?

Muitas coisas se tornam claras nesses momentos. A dor dentro de mim, que continua. O rancor, que eu vivo dizendo não ter, que claramente está aqui. O cansaço de tanto tempo. Eu nunca quero que pensem que sou uma "coitadinha", mas ao mesmo tempo, às vezes, parece que ninguém percebe a quantidade de coisas horrorosas que passei. Eu sei que todo mundo passa por coisas difíceis, mas às vezes eu sinto que, se estivesse numa competição – e não é uma competição – eu estaria lá pelos primeiros lugares. Talvez todos nos sintamos assim.

Não gosto de falar esse tipo de coisa, pois sei que é egoísta. Sei que é infantil. Mas eu não consigo não pensá-las e até hoje, quando conto alguma coisa que para mim é quase que trivial do meu passado – às vezes conto como piada, às vezes mal percebo que é algo horrível – e alguém reage com surpresa, descobrindo as coisas que aconteceram, eu sinto uma sensação peculiar. É algo como um "Ah, isso, isso sim. Eu sofri, sim. Que bom que você percebe. Que bom que você reconhece".

Talvez seja porque eu sofri "sozinha" por tanto tempo. Porque eu tentei gritar por socorro e ninguém ouviu, ou fingiu que não ouviu, ou simplesmente achou que eram bobagens de uma criança. Quando deixamos de ser crianças, afinal? Hoje falei sobre isso. Perguntei "Com 13 anos ainda somos crianças?" e responderam que sim. Era uma prova de língua que eu estava fazendo, enfim. O ponto é que, às vezes, eu esqueço que eu ainda era "criança" quando as coisas aconteciam. Eu me sentia quase que uma adulta, tendo que criar meus pais. Tendo responsabilidades que uma criança não devia ter. Trabalhando, quando uma criança não deveria trabalhar.

E eu chorei, na consulta, me perguntando se eu nunca terei um emprego por conta de todos esses traumas. Que eu tenho medo de nunca ter um emprego. Que eu me sinto inútil. Que eu me sinto incapaz. Que eu sinto que nada que eu conquistei até hoje significa alguma coisa. Eu queria que minha psicóloga passasse a mão na minha cabeça e dissesse que está tudo bem se eu nunca for nada e nunca fizer nada porque eu sofri tanto. Eu sei que não é certo, mas às vezes eu só queria ter essa retribuição.

Eu sei que ter pena de mim mesma não me leva a nada. Inclusive é algo que eu costumo abominar e me afastar. Pena de mim mesma, já pensou? Ninguém tem pena de mim. Ninguém nunca teve. Eu nunca deixei, em primeiro lugar. Mas ninguém estava prestando muita atenção para sentir pena, e os que prestavam atenção, que eram poucos, não sentiam pena... Não era pena. Era exatamente esse sentimento de querer fazer algo por mim que eu procuro. Infelizmente estavam de mãos atadas. Penso apenas numa pessoa quando escrevo isso. E eu a amo por isso.

Enfim. O que minha psicóloga disse foi que eu consigo. Brincou comigo, mas eu sabia que não era brincadeira e sim uma bronca. Porque ter pena de mim mesma e me colocar pra baixo e não querer fazer nada e me lamentar – sem nem mesmo tentar, porque tenho tantos traumas – não vai me levar para lugar nenhum. A pessoa de quem falei ali atrás entende, e respeita, e sabe do meu potencial. O potencial que eu não acredito que eu tenha, ela enxerga. Ela me dá tempo.

Eu quero deixar essa pessoa orgulhosa. Então, mesmo frustrada escrevendo isso, e com lágrimas nos olhos e querendo desistir, e pensando que nunca vou conseguir nada, mais uma vez, mais uma porra de uma vez, eu digo que vou tentar. Tentar vencer o trauma, primeiro, porque eu já sei que não estou pronta para o primeiro passo. Mas tentar. Falar disso. Pensar nisso.

"Você já venceu tanta coisa", minha psicóloga disse.

E por mais que eu tente negar e que eu tire completamente o meu valor, a verdade é que sim, eu venci. E as lembranças traumáticas – a fechadura de uma porta, um carro numa noite de ano novo, outro carro numa noite de ano novo, um, dois corpos no chão, cabelos cortados, olhos de demônio, o pingar de uma pia, uma casa de estranhos – que estão todas aqui são coisas imutáveis. Eu as encaro, e sei que a menina daquela época... Sei que a menina daquela época não tem mais a mesma cabeça. Que ela consegue, agora, reagir.

Tenho vontade de salvá-la. A eu sorridente em fotos da infância, que sorria e brincava e fazia piadas idiotas vivendo uma vida completamente surreal dentro de casa.

Mas sei que não posso. Sei que ela sou eu mesma.

Então o que posso fazer é tentar me salvar.