No capítulo anterior: Os alunos da Escola Mágica Seven Stars comparecem na escola, para o dia antes das aulas começarem. Madison, que é nova na escola, conhece Justin, Nicholas e Aurea, que além de seus colegas de turma, serão também seus colegas de casa. O grupo instala-se na nova casa, mas à noite, quando vão dar uma volta, um monstro surge. Apesar de se tentarem defender, só a aparição de Aurea os salva, usando a sua habilidade e matando o monstro.

Capítulo 2: Depois da Tempestade, vem a Bonança

Nicholas levantou-se cedo, tomou um duche rápido e escolheu a roupa que ia vestir. Não tinha conseguido dormir grande coisa, depois da confusão da noite anterior. O monstro que surgira estava morto, mas logo depois de Aurea o ter conseguido matar, alguém tinha avisado os responsáveis pela escola. Tinham chegado também os guardas da escola, que eram poderosos feiticeiros e lutadores. Nicholas achara patético que tivessem demorado tanto tempo a aparecer. Afinal, a sua função era proteger os alunos e tinham falhado nisso. Se Aurea não tivesse intervindo, teria havido grande destruição e mortes também.

A escola, as casas e tudo à volta tinham sido revistados e não fora encontrada qualquer ameaça, nem nenhum monstro. O corpo do monstro morto fora levado pelos guardas. Todos os alunos tinham sido convocados para uma reunião urgente na manhã seguinte, no salão. Nicholas saiu do seu quarto e caminhou até às escadas, pronto para descer para o piso de baixo. Antes de descer, Justin passou por ele, acenando-lhe e entrando numa das casas de banho.

Quando Nicholas já tinha descido as escadas, entrou na cozinha e encontrou Madison já a pé, vestida e a preparar o pequeno-almoço, que consistia em várias torradas, sumos, leite e cereais, que estavam em cima da mesa. Madison estava a mexer na frigideira, fritando um pouco de bacon. Quando o viu entrar, sorriu-lhe. Apanhara o seu longo cabelo castanho num rabo de cavalo.

- Bom dia, Nicholas - disse ela, tentando soar animada, apesar do que acontecera na noite anterior. - Levantei-me cedo e decidi fazer o pequeno-almoço para todos.

- Nota-se e ainda bem que o fizeste - disse ele, aproximando-se da mesa que estava no centro da cozinha. Puxou uma cadeira e sentou-se. - Eu sou péssimo a cozinhar. Sai-me tudo mal, portanto já nem sequer tento. Além de que cozinhar é mais para as mulheres.

- Hum, não sejas machista - disse Madison, abanando a cabeça. – Os homens também conseguem aprender a cozinhar, se quiserem. E tu podes aprender, tens é de te dedicar. Ninguém nasce ensinado.

Pouco depois, Cedric entrou pela porta da cozinha e deu os bons dias a Madison e Nicholas, sentando-se depois numa das cadeiras e servindo-se de cereais e leite. Cedric era vegetariano, não comendo nem carne, nem peixe, no entanto comia produtos animais como leite ou manteiga.

- Ainda nem acredito que um monstro atacou as casas e as pessoas ontem - disse Cedric, engolindo uma colherada de cereais. - É muito estranho e um bocado assustador. Por um lado, ainda bem que eu não estava aqui, mas por outro gostava de ter visto o monstro com vida.

- Acredita, eu dispensava a experiência - disse Madison. – Foi muito assustador.

Alguns minutos depois, Justin surgiu e sentou-se com os outros à mesa. Tomaram todos o pequeno-almoço, enquanto Madison foi olhando para o relógio de pulso e as suas sobrancelhas foram-se arqueando.

- A Aurea nunca mais aparece - queixou-se ela. - Já devia ter descido para tomar o pequeno-almoço.

- Ou se for como no jantar de ontem, fica fechada no quarto. Aquela rapariga não é normal - disse Nicholas. - Ela salvou-nos e estou-lhe grato por isso, mas depois tem atitudes estranhas, afasta-se das pessoas…

- Eu vou ver se ela está atrasada - disse Madison.

Madison saiu da cozinha, passou pela sala e subiu até ao primeiro andar. Caminhou até ao quarto de Aurea, que ficava na ponta direita do corredor, nas traseiras da casa. Quando chegou à porta, bateu uma vez, mas ninguém lhe respondeu. Voltou a bater e finalmente a porta abriu-se um pouco, revelando Aurea, que nesse dia trajava uns jeans com uma camisola roxa.

- O que foi? - perguntou ela. - Passa-se alguma coisa?

- Estamos todos a tomar o pequeno-almoço e tu nunca mais aparecias, portanto eu vim ver o que se estava a passar contigo. Vá, anda lá. Daqui a pouco, temos de ir para a escola, para a reunião com o diretor e depois para as aulas.

- Eu como qualquer coisa na escola.

- Não, nem pensar. Eu preparei algumas coisas e quero que as proves e tomes o pequeno-almoço connosco. Somos todos colegas de casa agora. Não te podes isolar assim. Não é bom para ti, nem para ninguém - disse Madison.

- Desculpa se isto pode soar mal, mas quem sabe da minha vida sou eu - disse Aurea.

Madison hesitou. Não gostava de conflitos, nem conhecia assim tão bem Aurea, mas ela salvara-lhe a vida na noite anterior. Parecia que a convivência poderia não ser muito fácil, mas Madison não gostava de desistir facilmente e tivera muito trabalho com o pequeno-almoço. Agarrou Aurea pelo braço.

- Não aceito um não como resposta. Tens de comer, senão depois não te vais concentrar bem nas aulas e a comida da escola é diferente. Vá, vem comigo. Não estou a convidar-te para fazer nada ilegal, é só para comeres o pequeno-almoço.

Madison puxou Aurea, que a princípio resistiu, mas acabou por se deixar levar, suspirando. Parecia que a outra era realmente insistente. Percebera isso no dia anterior e a atitude do dia atual só comprovava a situação.

- Não devias estar a tocar-me. Posso, por alguma razão, descontrolar-me um pouco e não te quero queimar - disse Aurea, mostrando alguma preocupação na voz.

- Não me parece que isso vá acontecer - disse Madison, parando de andar, pelo que Aurea fez o mesmo. - Tenta passar um pouco do calor que consegues produzir contra mim. Pelo que me pareceu, tu elevas a temperatura até criar chamas, como aconteceu com o monstro. Começou por dentro dele e ele depois pegou fogo.

- Não vou usar a minha habilidade em ti – disse Aurea, parecendo chocada com a sugestão.

- Experimenta. Vá lá.

- Vais arrepender-te.

- Não quero que me mates, tonta, só quero que tentes usar um pouco do teu poder. Vá lá.

Madison estava confiante e Aurea parecia algo alarmada agora. Porém, semicerrou um pouco os olhos e concentrou-se, pensando apenas num pouco de calor a surgir em Madison. Mas Madison não se mexeu. Aurea aumentou um pouco o calor, mas continuava a não acontecer nada de visível. Aumentou mais um pouco o poder, mas Madison apenas pestanejou, sorrindo-lhe. Aurea ficou confusa. Madison era imune à sua habilidade? Concentrou-se mais e então Madison suspirou, agora parecendo mais corada.

- Ok, acho que já chega, sim? - perguntou ela, rindo-se ligeiramente.

Aurea acenou afirmativamente e libertou o calor. Madison sentiu-se um pouco melhor e voltou a sorrir.

- Como é que conseguiste aguentar a temperatura da minha habilidade, sem sequer te mostrares afetada? Só agora vi que começaste a sentir o calor.

- Eu consigo criar uma barreira de energia em volta do meu corpo. Podes não a conseguir ver, mas estava a usá-la, portanto, até certo ponto não estava a sentir a influência da tua habilidade - disse Madison. - Aurea, eu percebi que já deves ter tido problemas com a tua habilidade. Talvez tivesses magoado alguém sem quereres, mas comigo podes estar descansada. Acho que, a não ser que o faças de forma intencional, não me podes magoar com a tua habilidade. Agora, vamos tomar o pequeno-almoço?

Aurea estava ainda surpreendida e deixou-se levar novamente por Madison. Era muito raro encontrar alguém com imunidade ou resistência à sua habilidade, mas no seu íntimo Aurea sentiu-se um pouco aliviada. Menos uma pessoa com quem teria de se preocupar em magoar sem querer.

Magia Minha

O salão estava a ficar novamente cheio, tal como no dia anterior. Lianna, Camilla e Margot tinham sido das primeiras a chegar e Lianna estava a contar, para quem a quisesse ouvir, que poderia ter sido muito magoada pelo monstro, mas conseguira escapar ilesa, graças às suas habilidades mágicas. Claro que Lianna nem sequer estivera em perigo, nem se aproximara do monstro ou sequer usara qualquer magia ou habilidade contra ele ou para se proteger, mas distorcera tudo para chamar a atenção. Shawn tinha chegado acompanhado de um rapaz e de uma rapariga e começou de imediato a criticar tudo o que se passara na noite anterior.

- A segurança é uma vergonha. Onde é que já se viu um monstro aparecer e os guardas não fazerem nada? Chegaram atrasados, ao que parece e teve de ser algum aluno a matar o monstro - disse Shawn. - É algo vergonhoso.

- Sim, é verdade, eu… - começou a dizer a rapariga.

- Ei, eu ainda não acabei de falar. Que mania de me interromperem. Eu sempre quero ver o que é que o diretor vai dizer sobre o que aconteceu e que medidas é que vão tomar. Não quero estar numa escola que não tem proteção imediata para os seus alunos.

Pouco depois, Madison, Justin, Nicholas, Aurea e Cedric chegaram, todos juntos. Aurea tinha tomado o pequeno-almoço com os outros e Madison certificara-se de que ela tinha comido bastante. Justin e Nicholas tinham conseguido que Aurea falasse um pouco com eles, o que já tinham considerado uma vitória, visto ela ser tão calada. Cedric afastou-se dos outros para ir ter com a sua amiga Deedra, que ficara sentada numa das filas de trás, pelo que os outros quatro se sentaram em cadeiras uns ao lado dos outros.

- Só espero que o diretor tenha uma estratégia para prevenir eventuais ataques de monstros, no futuro - disse Justin, mexendo as mãos nervosamente. - Nem sempre podemos ter a Aurea a salvar-nos.

- É verdade - concordou Nicholas. - Mas também quando tivermos as nossas pedras mágicas de volta, já teremos alguns meios de nos defender.

Dois minutos depois, o diretor da escola, Mitchell Rockland, surgiu e subiu ao palco. As conversas cessaram e todos olharam para o diretor, com várias expressões na cara. Alguns alunos atrasados entraram no salão e sentaram-se na fila do fundo. O diretor pigarreou um pouco, apesar de não ser necessário chamar mais a atenção e depois começou a falar.

- Agradeço a todos os que aqui estão presentes. Como já todos ou pelo menos a maioria há-de saber, ontem à noite houve um ataque de um monstro nesta escola. Ele atacou alunos e destruiu algumas coisas, que serão reparadas prontamente. Os ferimentos foram ligeiros e ninguém morreu, nem perto disso - disse o diretor.

- Não morremos, mas não faltou muito - sussurrou Nicholas, de braços cruzados.

- Quero assegurar a todos que o perímetro da escola e das casas foi todo revistado e não há sinal nenhum de monstros, nem nada perigoso para qualquer um de vocês. A segurança foi também reforçada, pelo que quero que saibam que podem estar seguros aqui. Peço também que estejam atentos a tudo à vossa volta e se acontecer algo que achem estranho, por favor não hesitem em vir falar comigo.

Shawn levantou-se do lugar onde estava sentado. Os olhos de muitos dos presentes seguiram-no, pois não estavam realmente à espera que alguém fosse falar, apesar de muitos o quererem fazer, no seu íntimo.

- Diretor, a segurança está mesmo assegurada ou o que disse são apenas mentiras para nos enganar? - perguntou ele.

- Como disse, a segurança foi reforçada, portanto vocês podem ficar descansados. Nada de mal vos acontecerá - respondeu o diretor, mantendo a calma, apesar do tom de Shawn ser de desafio.

- Espero bem que não. Pelo que sei, os guardas falharam redondamente na noite passada. Quando surgiram, já o monstro tinha morrido. Que espécie de guardas é que demoram tanto tempo a atuar?

- Ele tem razão! - exclamou Lianna, levantando-se também. - Eu podia ter morrido ontem ou pior, podia ter ficado muito magoada e precisar de uma operação plástica ou várias!

- Ainda por cima tiveram de ser alunos a matar o monstro - continuou Shawn. - Onde é que já se viu? O que é que tem a dizer sobre isto, diretor?

O salão encheu-se de murmúrios, de imediato. Madison abanou a cabeça, enquanto Aurea permanecia calada. Justin e Nicholas trocavam impressões sobre o que lhes teria efetivamente acontecido se Aurea não tivesse intervindo. O diretor Mitchell levantou as mãos e a maioria das vozes cessou. Lianna acabou por se voltar a sentar.

- Eu percebo a vossa revolta e que tenham receio pela vossa integridade física. Lamento que efetivamente os guardas tenham sido ineficazes ontem. A verdade é que estavam em reunião sobre as medidas de segurança a aplicar a partir de hoje e não estavam atentos ao que se estava a passar nos recintos da escola e nas casas, mas podem ter certeza de que isso não voltará a acontecer - disse Mitchell. - Portanto, peço-vos que acreditem em mim.

Os murmúrios regressaram, mas agora com menos intensidade. Shawn bufou e passou pelas outras pessoas, dirigindo-se à porta do salão, para ir embora. Para ele, não interessava o que diretor dissesse, pois não mudava os factos.

- Tenho a dizer-vos que amanhã terão as vossas pedras mágicas convosco novamente, portanto será um meio adicional de se protegerem. E agora, desejo a todos um bom dia e não faltem às aulas.

As pessoas começaram a levantar-se para irem embora. Alguns auxiliares ao fundo do salão foram os primeiros a sair, seguidos dos alunos e alguns professores. O diretor fez sinal a Aurea para se aproximar e depois de hesitar um pouco e olhar à sua volta, para se certificar de que ele lhe estava mesmo a fazer sinal a ela, respirou fundo e aproximou-se dele.

- Preciso que venhas falar comigo no meu gabinete - disse o diretor.

Aurea acenou afirmativamente e seguiu-o. Os dois saíram por uma porta lateral, enquanto Justin os observava. Depois, ele seguiu Madison e Nicholas até fora do salão. Os alunos começaram a dispersar, enquanto os três ficaram à porta do salão.

- Não sei se os guardas agora vão ser realmente eficazes, mas espero mesmo que sim - disse Justin. - Sempre achei esta escola segura e não quero que agora isso mude, para pior.

- Também espero que não apareçam mais monstros - disse Madison. - Metem-me imenso medo. O monstro era grande, forte e podia até ter-nos apanhado com as suas garras e ter-nos levado para algum lado. Não percebo como é que um monstro apareceu por aqui.

- Para a próxima, se houver próxima, já estarei preparado e não serei apanhado tão desprevenido - disse Nicholas. – Talvez consiga mover algo maior com a minha mente. Seria interessante mover uma casa com a mente e depois deixá-la cair sobre um monstro. Mas mudando de assunto, uma coisa que gostei nesta escola é que não há uniformes. Não gosto nada de uniformes.

- Já houve, mas depois acabaram por ser banidos. Cada um usa roupas ao seu estilo, desde que não sejam demasiado provocantes, nem nada assim, claro - disse Justin. – Não queremos que hajam por aí alunos nus ou alunas com minissaias minúsculas que deixem ver tudo.

- Fala por ti – disse Nicholas, soltando uma gargalhada.

Madison olhou à sua volta, notando então a ausência de Aurea. Como a outra rapariga estava quase sempre calada, não reparara que ela não estava com o grupo.

- Onde é que a Aurea se meteu? - perguntou ela.

- Não reparaste que o diretor fez sinal à Aurea? Parece-me que foram falar – respondeu Justin. - Com toda a certeza deve ser pelo que ela fez ontem.

- Pois, ela salvou-nos - disse Madison. - Deve estar a agradecer-lhe por isso.

- Ou então está a repreendê-la - disse Nicholas. - Quer dizer, ela matou o monstro e os guardas nem chegaram a fazer nada. Nesse aspeto, fez com que os guardas fizessem má figura. Bom, agora pensando nisso, isso não seria nada justo. A Aurea salvou-nos e não merece ser repreendida de nenhuma forma. Justin, leva-me ao gabinete do diretor. Eu quero falar com ele. Se ele estiver a repreender a Aurea, vai ouvir-me.

Madison parecia ser da mesma opinião e Justin concordou também. Os três começaram a caminhar, liderados por Justin, rumo ao gabinete do diretor, onde esperavam encontrar o próprio diretor e Aurea. Passaram por alguns corredores e depois encontraram uma porta aberta e por cima havia uma placa onde se podia ler gabinete do diretor. Entraram. Antes do gabinete do próprio diretor havia um gabinete mais pequeno, onde trabalhava Gretchen Willson, a secretária do diretor. Gretchen era baixa, aparentando ter cerca de quarenta e cinco anos e cabelo castanho e volumoso.

- Olá senhora Gretchen, estamos aqui para falar com o diretor - disse Justin, aproximando-se da secretária.

Gretchen estava a escrever num bloco e levantou os olhos para olhar para ele e depois para Madison e Nicholas. Era uma pessoa bastante atenta e dedicada ao seu trabalho. Conhecia praticamente todos os alunos, pelo menos de nome, visto não ter contato direto com a maior parte deles.

- O diretor agora está ocupado. Está a falar com uma aluna. Se quiserem, podem esperar e falar com ele quando ele terminar a conversa que está a ter - disse a secretária.

- Pois, mas é exatamente por ele estar a falar com a aluna, a Aurea, que nós aqui estamos - disse Madison. - Pode por favor anunciar-nos?

- Já disse que têm de esperar - disse Gretchen, ficando irritada. - Vocês jovens têm sempre imensa pressa. Mas o mundo não funciona como vocês querem, portanto esperam ou então vão-se embora.

Nicholas bufou, aborrecido. Nunca gostara de esperar pelas coisas, não gostava de ser contrariado e também que lhe falassem com tanta autoridade, quando tinham feito um pedido razoável. Avançou de imediato para a porta do outro lado do gabinete, abrindo-a. Gretchen levantou-se da cadeira onde estava sentada.

- Mas o que é isso? Volte aqui! - exclamou a secretária, indo atrás de Nicholas.

Por essa altura, já Nicholas tinha entrado no gabinete do diretor. Era um gabinete amplo, com grandes vidros ao fundo, o que fazia com que fosse bem iluminado. Havia uma grande secretária de madeira escura a meio do gabinete. O diretor encontrava-se sentado atrás dela e Aurea estava sentada numa das cadeiras à frente da secretária. Os dois olharam para Nicholas ao vê-lo entrar, sendo logo seguido de Gretchen e depois por Madison e Justin, que tinham ido atrás dos dois.

- Mas o que passa? - perguntou o diretor.

- Queremos falar consigo - respondeu Nicholas, aproximando-se da secretária. - Não podíamos esperar.

- Eu tentei impedi-los, mas o raio do rapaz entrou pelo seu gabinete adentro, diretor. Lamento - disse Gretchen. – Estes jovens não têm respeito nenhum, pensam que podem fazer tudo o que querem, quando querem. Quando eu era mais nova, não era assim.

- Nós tínhamos de lhe falar por causa da Aurea - disse Justin, colocando-se ao lado de Nicholas. Madison fez o mesmo. - Se a estiver a repreender, não há razão para isso.

- Exatamente. Ela é uma heroína. Salvou-nos a vida aos três - disse Madison. - Devia ser elogiada e não repreendida.

- Eu gosto muito pouco de pessoas a repreenderem outras quando não têm razão. Lá por os guardas terem sido ineficazes, não lhe dá o direito de repreender a Aurea. Se a estiver a ameaçar, vai arrepender-se - disse Nicholas, de maneira muito séria.

O diretor arregalou os olhos, surpreendido, enquanto Aurea abanava a cabeça. Depois, o diretor riu-se ligeiramente, olhando para os três. Gretchen colocou as mãos nas ancas, olhando para os três jovens e abanando a cabeça de forma desaprovadora.

- O diretor não me estava a repreender - esclareceu Aurea, revirando os olhos perante a atitude dos outros três. - Quis apenas falar comigo para me agradecer pelo que fiz e dizer-me também que vou receber um prémio monetário por ter protegido pessoas e bens da escola. Só isso.

Nicholas, Justin e Madison entreolharam-se e depois Justin acabou por soltar uma risada leve, enquanto Madison se sentia ligeiramente embaraçada pela figura que fizera. Realmente, tinham chegado a uma conclusão precipitada. Aurea levantou-se e olhou para o diretor.

- Obrigada pelas suas palavras, diretor, mas quanto ao dinheiro, não é necessário. Use-o para as reparações dos estragos. Agora, vou-me embora.

Aurea saiu rapidamente do gabinete, enquanto Gretchen continuava com uma expressão severa no rosto. O diretor fez-lhe sinal de que estava tudo bem e Gretchen saiu do gabinete, com o nariz arrebitado.

- Podem estar descansados que eu nunca iria repreender um aluno por ter salvado outros. Foi um ato de coragem da parte da Aurea Artland - disse o diretor. - E fico contente por ver que ela tem pessoas que se preocupam em vir defendê-la.

- Ela é nossa companheira de casa e de turma também - disse Justin. - E salvou-nos a vida, claro.

- Desculpe isto tudo, diretor. Nós precipitámo-nos - disse Madison.

Nicholas não disse nada. Apesar de terem errado, não iria pedir desculpas assim tão facilmente, até porque achava que também não fizera nada de tão errado, nem que tivesse afetado muita coisa.

- Nós vamos andando, então. As aulas irão começar entretanto e não queremos chegar atrasados - disse Justin. – Pedimos desculpa pelo sucedido e vamos ter mais cuidado para não nos precipitarmos, de futuro.

- Só uma coisa, antes de irem. Gostaria de pedir-vos a vossa cooperação - disse o diretor. - A Aurea é uma pessoa bastante fechada, mas fiquei agradado por ver que vos ajudou e salvou. Se puderem, sejam amigos dela. Ela precisa de se abrir com as pessoas e uns amigos iriam fazer-lhe muito bem.

- Podemos tentar ser amigos dela - disse Nicholas, encolhendo os ombros. - Se ela deixar, o que não parece ser realmente o caso. Mas veremos. Pode ser que no final de contas ela se abra connosco, de futuro.

O diretor acenou afirmativamente e pouco depois, os três saíram do gabinete, caminhando rapidamente para não chegarem atrasados à primeira aula do ano.

Magia Minha

O homem de cabelo azul, Drake, estava novamente na sala escura, em frente à poltrona cinzenta, onde a figura vestida de negro ouvia o seu relato dos acontecimentos, com toda a atenção.

- Não esperava que o monstro falhasse assim - disse Bernard, num tom neutro. Não queria irritar-se, até porque na verdade esperava que o monstro fosse morto, mas pelos guardas. Ainda assim, não esperara que ele morresse antes de causar muito mais danos do que causara. Algumas casas a arder teria sido o mínimo. - Os estudantes são mais fortes do que eu pensava, mas isso não será um problema para os meus planos.

- A segurança foi reforçada, portanto vai ser mais difícil conseguirmos fazer coisas na escola. O que fazemos agora? - perguntou Drake.

- Para já, não vamos lançar um novo monstro ainda. Isso chamaria demasiado a atenção. Para já, devem pensar que foi uma coincidência, em vez de ter sido algo planeado. Vamos deixar que eles relaxem um pouco, para terem a certeza de que foi um acontecimento isolado. Porém, não quer dizer que não possamos fazer outras coisas.

- Que coisas? Que tipo de ideias tens na cabeça?

- Tenho uma ideia, que faz todo o sentido e é simples de executar, Drake. Escuta com atenção, porque preciso de ti para a colocar em prática.

Magia Minha

As aulas tinham começado. Justin conduzira Madison e Nicholas até à sala de aula onde se iria realizar a primeira aula. Tinham avistado Aurea de imediato, sentada numa fila do fundo. Visto que não a tinham conseguido convencer a mudar de lugar, tinham-se os três sentado ao pé dela na fila do fundo também. Lianna tinha-se sentado numa das filas do meio, rodeada de Camilla e Margot. Shawn sentara-se na fila da frente e estava de braços cruzados. A turma era constituída por vinte alunos ao todo.

Estavam na aula de Encantamentos. A sala tinha várias pequenas mesas e cadeiras, um quadro branco numa das pontas e um espaço amplo onde se poderiam praticar feitiços sem nenhum tipo de interferência física de objetos. A professora Bianca Javes, a professora de Encanamentos, era alta, com trinta anos e cabelo loiro. Sorriu à turma. Gostava dos primeiros dias de aulas e de conhecer novos alunos.

- Bem-vindos a mais um ano. Já passaremos às apresentações, visto que há algumas caras que não reconheço - disse a professora. - Eu chamo-me Bianca Javes e neste ano temos muita coisa a aprender sobre Encantamentos. Nem sempre é dado o devido valor a encantamentos, mas a verdade é que podem ser muito úteis no aspeto da vida das pessoas.

- Eu gosto de encantamentos – comentou Madison, baixinho. – No ano passado, aprendi alguns que eram interessantes e que usei algumas vezes.

- Mas comecemos então pelas apresentações, está bem? – perguntou a professora.

Um a um, os alunos foram-se apresentando, mesmo os que já tinham sido alunos da professora Bianca. Shawn achava aquilo muitíssimo aborrecido e Lianna fez uma apresentação muito mais demorada do que seria desejável, elogiando-se a si própria várias vezes.

- Eu chamo-me Madison Lancaster. Venho de outra escola, porque o meu pai teve uma oferta de emprego e então tivemos de mudar de casa. Esta escola fica mais perto da nova casa, portanto vim para aqui. Já tinha ouvido falar bem da escola, portanto estou entusiasmada por estar aqui.

- Gostas de Encantamentos, Madison? - perguntou a professora.

- Sim, gosto bastante. Há feitiços muito úteis e outros que são interessantes. Nunca sabemos se não vamos precisar de alguns, no futuro.

- Bom, este ano vamos aprender novos feitiços e espero que todos gostem e se esforcem ao máximo.

As apresentações continuaram. Aurea foi muito breve e Nicholas também. Depois chegou à vez de um rapaz a quem Madison ainda não prestara muita atenção. Tinha cabelo vermelho pelos ombros e olhos cinzentos. Vestia uma camisola azul escura, com riscas e calças claras.

- O meu nome é Logan Farr e tenho dezoito anos - apresentou-se o rapaz. - Vim para esta escola porque a minha escola antiga ardeu completamente.

- Ardeu? - perguntou uma rapariga negra que se sentara ao lado de Logan.

- Sim. Pegaram-lhe fogo e puf, lá foi a escola à vida - disse Logan, encolhendo os ombros. – Então, tive de mudar de escola. Espero que pelo menos esta não arda, mas quer dizer, já surgiu por aqui um monstro, portanto nunca se sabe. Na minha escola antiga, a única coisa parecida era o senhor Lork, que era feio como um raio.

A maioria dos alunos riu-se com o que Logan dissera. Depois, foi a vez de Alishia Street se apresentar. Alishia era a rapariga negra sentada ao lado de Logan. Tinha tamanho médio e era bem constituída. O seu cabelo era preto, encaracolado e pelos ombros.

- O meu nome é Alishia Street, tenho dezassete anos e acho que não vale a pena dizer muito mais, visto que já ando nesta escola desde o meu primeiro ano, portanto, a não ser que sejam novos, já me conhecem - disse ela.

- Mais valia não conhecermos. Que pindérica - sussurrou Lianna.

Camilla e Margot soltaram risadas abafadas. Depois das apresentações terem terminado, a professora mandou todos os alunos levantarem-se e irem para o espaço amplo. Sorriu-lhes.

- Hoje, visto que é o primeiro dia do vosso quarto ano, vamos usar um encantamento simples, que já devem conhecer desde o primeiro ano. Mas nunca é demais praticar, porque um dia pode ser necessário - disse a professora. - Hoje vamos praticar o encantamento Flutuar.

- Flutuar? Por favor, já tivemos de fazer esse encantamento centenas de vezes - queixou-se Shawn. - Eu já deixei de pertencer ao primeiro ano há muito tempo e não quero estar a perder o meu tempo com feitiços inúteis que já aprendi.

- Shawn, primeiro vê lá como falas, porque eu sou tua professora e, portanto, quem manda aqui sou eu - disse Bianca, ficando subitamente séria. - Se não gostas da aula, tens bom remédio e vais-te embora.

Justin sorriu ligeiramente, contente por Shawn ter sido repreendido. Não gostava nada das suas atitudes que ele parecia estar a ter nos últimos tempos e a professora Bianca tinha-o colocado no seu lugar. Shawn não disse nada e deixou-se ficar no mesmo lugar, pelo que a professora prosseguiu.

- Hoje, como eu disse, vamos usar o encantamento Flutuar, mas não será tão simples como pensam - disse a professora, caminhando até um canto onde havia várias latas grandes de plástico. Pegou numa delas. - Vão dividir-se em pares e têm de conseguir fazer uma destas latas flutuar.

- Não parece muito difícil - disse Camilla.

- Pois, parece muito básico, até – disse Lianna, torcendo o nariz. – Tão básico como um vestido creme foleiro que uma vizinha minha vestiu no Verão passado.

- Ah, o uso deste feitiço não é básico, aí é que tem enganas, Lianna. As duas pessoas têm de se concentrar na lata, para a manter a flutuar. Se algum se desconcentrar, a lata irá cair, pois precisa de duas forças opostas para a fazerem flutuar. Importante também é que consigam colocar a lata a flutuar de maneira reta. Não é assim tão difícil fazer algo flutuar de pernas para o ar, mas assim já é mais complicado - explicou a professora, olhando de seguida para Shawn. - Portanto, nunca tiveram de fazer esta variação do encantamento. Espero que te chegue, Shawn. Fico a ver como te sais. Agora por favor, dividam-se em pares.

Lianna fez sinal a Camilla, indicando que iriam ficar juntas, o que fez Margot ter de procurar outro par. Logan pediu a Alishia para ser o seu par e ela concordou. Nicholas aproximou-se de Aurea.

- Vamos fazer par os dois, ok? - perguntou ele.

Aurea encolheu os ombros, aceitando. Justin e Madison sorriram um ao outro, formando um par também. Por fim, sobravam apenas Shawn e Margot, que acabaram por ter de ficar juntos, apesar de nenhum deles querer de ter de trabalhar com o outro. Depois, as duplas distribuíram-se pelo espaço, ficando uns de frente para os outros. A professora colocou as latas ao meio de cada um dos pares, no chão.

- Muito bem, agora já sabem, usem o encantamento e façam as vossas latas flutuar. Concentrem-se, senão elas acabam por cair e esforcem-se para as conseguirem manter quietas e direitas a flutuar no ar. Podem começar - disse a professora.

De imediato se ouviram gritos dos alunos, gritando "Flutuar". As latas no chão começaram a tremer e elevaram-se no ar. Madison e Justin estavam bastante concentrados no que estavam a fazer e a sua lata elevou-se direita e manteve-se a flutuar sem se mexer. Já Logan e Alishia não tinham grande controlo sobre a sua lata, que estava a flutuar, mas a rodopiar no ar.

- Concentra-te mais, Camilla. A lata está torta - reclamou Lianna. – Parece uma velha raquítica, que não consegue andar direita.

Camilla respirou fundo e concentrou-se mais. A lata de Lianna e Camilla flutuava no ar, mas estava torta para um dos lados. Aurea e Nicholas também estavam a ter alguma dificuldade com a sua lata, que oscilava para cima e para baixo, como se fosse poder cair a qualquer momento.

- Concentra-te - pediu Aurea. - Pensa só na lata.

Nicholas acenou afirmativamente. Apesar do encantamento Flutuar ser simples, sempre tivera alguma dificuldade com ele e agora usá-lo em conjunto com outra pessoa e tentar manter um objeto a flutuar sem se mover, era complicado. Ao lado de Nicholas e Aurea, Shawn e Margot estavam a ter dificuldades pois Margot não conseguia fazer a lata flutuar corretamente do seu lado.

- Está toda torta! Concentra-te, bolas! Também não é assim tão difícil - resmungou Shawn.

- Eu estou a tentar - disse Margot, franzindo as sobrancelhas.

A professora Bianca estava do outro lado da sala, a ajudar um dos pares. Shawn bufou, aborrecido, visto que a lata começara a rodopiar no ar. Não percebia como é que a sua parceira parecia tão inepta num feitiço que para ele era tão simples.

- O que é que estás a fazer? Estás parva? Agora estás a fazer a lata rodopiar. Se não sabes usar um simples encantamento, nem devias estar aqui.

Nicholas continuava a ter dificuldades em concentrar-se, mas Aurea estava a ser paciente. Porém, com Shawn a reclamar ali ao pé, era ainda mais difícil a Nicholas concentrar-se.

- Vá, sua estúpida, consegues pôr a porcaria da lata suspensa e quieta ou não? Senão vou mas é fazer queixa à professora e dizer que não prestas para este exercício e estás a prejudicar-me.

Shawn estava a ser abertamente rude e Nicholas cerrou os punhos, zangado. Não conhecia bem Margot, mas compreendia a dificuldade do exercício e não tolerava que Shawn fosse assim tão mau. Aurea lançou também um olhar aborrecido a Shawn, mas não disse nada.

- Ele agora vai ver - pensou Nicholas. – Pensa que pode falar assim com as pessoas e nada lhe acontece. Pois, até podia ser, se eu não estivesse aqui, mas estou.

Nicholas desviou um pouco o olhar e concentrou-se num livro que estava em cima de uma das mesas ali perto. Usando a sua habilidade de mover objetos com a mente, moveu o livro pelo ar e o livro embateu em cheio na cabeça de Shawn. Shawn soltou um gemido, desconcentrou-se e a sua lata foi atirada pelo ar, embatendo noutras latas que estavam a flutuar e lançando-as ao ar. A lata de Aurea e Nicholas caiu ao chão, enquanto uma outra foi lançada contra um dos braços de Lianna.

- Mas o que é isto? Ai, podiam ter-me matado! - gritou Lianna, furiosa.

- Ok, parem, parem. Deixem as latas cair - ordenou a professora, levantando os braços. As latas que ainda se encontravam no ar foram deixadas cair por alguns pares. Depois, a professora chamou-os a todos para formarem um círculo à volta dela. - O que é que se passou aqui? - perguntou a professora, olhando para Shawn. - Shawn, a tua lata saltou e foi embater noutras. O que é que se passou? Desconcentraste-te?

- A culpa não é minha. No mínimo seria da Margot, que é uma péssima parceira. Mas o que aconteceu foi que um livro veio contra a minha cabeça e foi por isso que perdi o controlo da lata - explicou Shawn. - Alguém me mandou aquele livro à cabeça.

- Quem fez isso? - perguntou a professora, passando o olhar por todos. - Quero que alguém se acuse. Eu sou uma pessoa justa, mas não gosto de mentiras, nem de pessoas que não admitem o que fazem.

Aurea percebera que Nicholas fizera algo, mas não disse nada. Por seu lado, Madison estava a pensar como é que o livro poderia ter batido na cabeça de Shawn. Justin associou logo que Nicholas poderia ter utilizado a sua habilidade, mas não tinha a certeza e mesmo que tivesse, não iria dizer a verdade para ajudar Shawn. Nicholas hesitou, mas acabou por falar.

- Professora, fui eu o responsável - admitiu ele.

- Porque é que atiraste o livro à cabeça do teu colega? E como? Usaste um encantamento para flutuar o livro até à cabeça dele? - perguntou a professora.

- Não usei nenhum encantamento. A minha habilidade é mover objetos com a mente e foi isso que fiz em relação ao livro. Fi-lo porque este tal Shawn estava a ser um idiota do pior para a parceira dele e também não estava a deixar os outros concentrarem-se no exercício.

- Isso é verdade, Shawn? - perguntou a professora. – Não gosto que se tratem mal uns aos outros e tu tens a mania de ser rude, portanto, volto a perguntar, o que o Nicholas diz, é verdade?

- É completamente mentira. Eu sou uma pessoa que nunca fala mal dos outros - respondeu Shawn.

- Oh, por favor, poupa-nos às tuas mentiras - disse Justin, revirando os olhos.

- Ele estava a ser mau para mim, sim - admitiu Margot. - Estava a insultar-me e tudo. A professora não ouviu porque estava longe de nós.

Shawn cerrou os punhos, lançando um olhar furioso a Margot, que se encolheu ligeiramente. Lianna manteve-se calada, mas não parecia satisfeita.

- Então é o seguinte. Nicholas, se algo semelhante acontecer novamente, chamas-me em vez de atirares coisas à cabeça dos teus colegas. Shawn, quero que peças desculpa à tua colega e livra-te de fazeres o mesmo novamente. Detesto faltas de respeito.

- Não vou pedir desculpas coisa nenhuma! Ela foi péssima no exercício e se ouviu insultos, foi porque os mereceu.

- Ai sim? Pois bem, vais ter trabalhos extra para a semana toda, como castigo por dizeres o que disseste à tua colega e por te mostrares arrogante. E nem te atrevas a reclamar, senão vamos já falar com o diretor e asseguro-te que ele vai ser muito mais rígido que eu neste sentido.

Shawn ficou furioso, mas nada disse. A aula passou-se rapidamente, com a professora Bianca a tornar-se o par de Shawn no exercício e Camilla e Margot trocando de lugares para serem o par de Lianna. Quando a aula terminou, os alunos começaram a sair. A professora saiu também. Shawn aproximou-se de Nicholas.

- Tu ainda vais pagar pelo que me fizeste - avisou Shawn. - Ninguém brinca comigo e se fica a rir.

- Uh, que medo - disse Nicholas, de modo sarcástico. - Já estou a tremer. Pensas que nunca conheci pessoas como tu? Convencidos até à medula e têm de rebaixar os outros para se sentirem bem? Não me impressionas, nem me intimidas.

- Tu vais pedir-me desculpas. Agora.

- Não vou, não. Porque é que eu haveria de pedir desculpas, se foste tu que agiste mal e me fizeste reagir? Cresce e aparece.

Shawn abriu um pouco os olhos, olhando diretamente nos olhos de Nicholas. Nicholas sentiu-se um pouco estranho, como se estivesse a ficar algo ensonado. Não conseguia pensar muito bem. Tinha de pedir desculpa. Sim, na sua mente era isso que tinha de fazer. No entanto, Aurea surgiu rapidamente e colocou-se à frente de Nicholas, que pareceu despertar então do seu entorpecimento.

- Vai-te embora, senão eu conto à professora que estás a usar a tua habilidade num aluno. Parece-me que o castigo é capaz de duplicar - avisou Aurea.

- Está bem, sua esquisita, desta vez ganhaste, mas tu também não perdes pela demora.

Shawn virou costas e saiu da sala de aula. Justin e Madison aproximaram-se, enquanto Nicholas abanava a cabeça.

- O que aconteceu? Eu senti-me estranho - disse ele.

- Tem cuidado com o Shawn - advertiu Aurea. - Ele tem a habilidade de manipulação mental. Se te olhar nos olhos, pode fazer-te dizer e fazer coisas que não queres, controlando-te. Era isso que ele estava a fazer, mas eu quebrei o contato visual que antes de ficares completamente à mercê da sua habilidade.

- Ele estava a tentar manipular-me? Claro, para que eu lhe pedisse desculpa - disse Nicholas, cerrando os punhos. - Aquele estúpido de um raio.

- Ele é assim, sempre foi… quer dizer, nem sempre… mas não importa. Quer tudo à sua maneira. Aliás, ele e a Lianna, aquela super vaidosa, mas com ela lida-se melhor - disse Justin. - Nicholas, tenta não te aproximares muito do Shawn, senão ele pode mesmo manipular-te e depois… enfim, fazes algo que não queres fazer. Acredita, falo por experiência própria.

- O que é que ele te fez fazer? - perguntou Madison.

- Hum, isso agora não interessa. Vá, temos de ir para a próxima aula.

Justin saiu rapidamente da sala de aula, antes que alguém lhe pudesse fazer mais perguntas, a que ele não queria responder. Madison encolheu os ombros e seguiu-o. Nicholas olhou para Aurea.

- Obrigado por me teres salvado do Shawn. Parece que não fazes outra coisa. Salvaste-me do monstro e agora do nosso colega estúpido.

- Não foi nada - disse Aurea. – Eu já ouvi falar da habilidade do Shawn, portanto percebi o que ele estava a fazer. Claro que ele não tem coragem de usar a sua habilidade nos professores, mas os alunos são outra conversa. Agora vamos, senão chegamos atrasados à próxima aula.

Nicholas acenou afirmativamente e os dois saíram da sala de aula ao mesmo tempo.

Magia Minha

Às oito e meia da noite, Madison estava a terminar de pôr a mesa para o jantar. Tinham decidido comer na mesa da sala, visto que era mais espaçosa. Aurea ainda não tinha descido do seu quarto. Cedric estava já a comer um pouco da salada.

- Será que a Aurea quer vir jantar connosco ou vai ficar outra vez fechada no quarto? - perguntou Madison.

Justin saiu da cozinha e encolheu os ombros, enquanto Nicholas se levantou do sofá, onde estivera a ver um programa até àquele momento.

- Ela vem comer connosco, nem que tenha de a arrastar. Vou chamá-la e já volto.

Nicholas começou a subir as escadas até ao primeiro andar e Madison e Justin decidiram ir com ele. Achavam que se fossem mais, Aurea teria menos probabilidade de recusar vir jantar com eles. Caminharam até à porta do quarto de Aurea e bateram. Pouco depois, ela abriu a porta.

- Viemos chamar-te para jantar - disse Nicholas. – Temos um festim lá em baixo. Quer dizer, é só comida normal, mas faz de conta. De uma forma ou de outra, queremos que jantes connosco.

- Não tenho muita fome - disse Aurea.

- Não venhas com essa conversa. Ouve uma coisa, tu agora vives connosco, portanto convém que pelo menos faças algumas refeições connosco também. Digo-te já que eu posso ser muito cansativo e não vou desistir enquanto não vieres connosco - disse Nicholas. - Se recusares, eu fico aqui à porta. Posso até começar a cantar e tudo e olha que eu canto muito mal. Seria tortura, portanto é melhor vires connosco pacificamente.

- Eu e o Justin preparámos o jantar e acho que ficou muito bom - disse Madison.

- Gostaríamos que comesses connosco, senão eu subscrevo as palavras do Nicholas e digo-te que fico aqui plantado à porta - avisou Justin. – Mas não vou cantar.

Aurea olhou para os três, sem saber o que dizer. Queria ficar no quarto, isolada, como era costume, mas eles estavam a insistir com ela. Não que não os achasse boa companhia, pareciam ser boas pessoas, mas por isso mesmo, não queria poder magoá-los, sem querer. No entanto, se não cedesse, eles ficariam à porta do seu quarto, pelo que Aurea acabou por encolher os ombros.

- Está bem, eu janto com vocês, se fazem assim tanta questão - disse ela.

Os outros três pareceram agradados. Nicholas começou a caminhar até às escadas, com Justin a seu lado, ambos começando a falar mal de Shawn. Madison e Aurea caminhavam atrás, mais devagar.

- O diretor acha que tu precisas de amigos - disse Madison. Aurea olhou-a, parecendo surpreendida com o que ela dissera. - Sim, ele disse-nos isso e eu e os outros queremos ser teus amigos. Mas tens de nos deixar.

- Eu quero deixar… quero ter amigos, não é que não queira… mas…

- Eu sei que tens algo no teu passado que te faz afastar as pessoas e quando mo quiseres contar, estarei aqui para te ouvir - disse Madison. - Mas não te preocupes tanto agora. Nós queremos estar todos juntos, a comer e conversar. Só isso. Que mal pode isso fazer?

Aurea acenou afirmativamente com a cabeça. Apesar de por um lado se sentir com medo, pois não queria de maneira alguma magoar nenhum deles, sentia-se satisfeita porque havia agora pessoas que queriam mesmo passar tempo com ela. Queriam ser seus amigos e as coisas tinham realmente começado com um monstro malvado que surgira e que, no final de contas, acabara por os aproximar a todos. Por vezes, só depois de algo mau, acontecia algo bom. E foi assim que começou a desenvolver-se a amizade entre Aurea e os outros.

Continua…

No próximo capítulo, Nicholas e Shawn tentam ganhar a atenção de uma rapariga, para saírem com ela e Lianna decide vingar-se, mas as coisas não correm exatamente como ela planeara.