No capítulo anterior: Os alunos possuídos, bem como Drake, atacam alunos, guardas e propriedade da escola. Shawn e Madison usam uma passagem secreta na enfermaria, ajudando os alunos doentes a saírem de lá. Aurea, Deedra e Nicholas conseguem sair para o exterior, depois de uma luta com alunos possuídos. Justin e Lianna encontram Camilla e Margot, que também estão a ser perseguidas. Os vários grupos vão-se juntando e enfrentam Drake. Apesar de Bernard lhe indicar para recuar, Drake não o faz. O poder combinado das restantes pessoas consegue vencê-lo, matando-o.

Capítulo 7: De Promessas está o Inferno Cheio

Tinham passado duas semanas desde o ataque na escola mágica Seven Stars. O ataque vitimara vários dos guardas, mas também cinco alunos, além de ter feito vários feridos. Fora uma altura muito complicada, para todos. Desde logo, muitos pais tinham tirado os filhos da escola, com receio de que algo voltasse a acontecer. Primeiro, fora um ataque de um monstro, depois um objeto amaldiçoado e por fim, um ataque direto na escola e alunos possuídos. Era demais, para a maior parte dos pais e até vários alunos.

Em consequência, o número de alunos na escola ficara reduzido a quase metade. A mãe de Madison viera buscá-la e não lhe dera oportunidade sequer de ficar, apesar de Madison estar reticente em abandonar a escola. Lianna abandonara a escola rapidamente, querendo fugir a tudo o que acontecera e não pensar mais no assunto, apesar de saber que não seria assim tão fácil. Cedric e Deedra também tinham ido embora, para as suas casas.

A destruição na escola demoraria algum tempo a ser recuperada, mesmo com a magia existente, que acelerava a reparação. Algumas casas dos alunos tinham ficado afetadas, o que fizera com que os alunos que viviam nela e ainda continuavam na escola, tivessem de ser mudados. Shawn tivera de abandonar a sua casa e fora colocado na casa número sete, com Justin, Nicholas e Aurea, o que não fora bem recebido por ninguém, nem pelo próprio Shawn, que reclamara, mas de nada servira.

O diretor fizera um discurso, em que jornalistas tinham estado presentes. Não conseguia responder ao porquê de o homem com cabelo azul ter atacado a escola. Não sabia os seus motivos, mas tal como ele admitira, tudo o que acontecera fora por sua culpa, logo, segundo o diretor, a escola estava a salvo e não havia perigo para ninguém, nem professores, nem alunos. No entanto, não foram muitos os que ficaram convencidos. Mesmo depois de duas semanas, ainda havia muitos alunos a sentirem-se inquietos.

- Sinto a falta da Madison – disse Justin, sentando-se à mesa da cozinha, com o pequeno-almoço à sua frente. Aurea e Nicholas estavam já sentados também, tendo já começado a comer. – Ela cozinhava melhor do que eu e… enfim, sinto falta de falar com ela.

- Eu também – disse Aurea e Nicholas concordou, com um aceno de cabeça.

- O Cedric também faz falta, mas é diferente – disse Nicholas. Madison estava mais presente e era da mesma turma deles, portanto tinham criado com ela uma amizade e familiaridade díspar em comparação com Cedric. – Mas ambos eram melhores do que o estúpido do Shawn.

- Ontem deixou uma toalha no chão da casa de banho e quando lhe chamei a atenção, ignorou-me – disse Aurea, com uma expressão severa, dando uma mordidela numa torrada. – Nós gostamos tanto de viver com ele, como ele connosco, mas ele podia ser mais civilizado.

- Isso é bem verdade – disse Justin, suspirando.

O grupo ficou a comer em silêncio, durante uns segundos. Shawn não costumava juntar-se a eles durante as refeições, o que era bom, pois não queriam a companhia dele, nem queriam ter de fazer refeições para ele. Depois de comerem, Aurea foi até ao seu quarto e Nicholas foi até à sala pequena, que tinham transformado num escritório e onde deixara alguns livros. Justin arrumou rapidamente a cozinha e tinha acabado de terminar, quando Shawn entrou. Não lhe deu os bons dias e Justin também não disse nada.

Ao chegar à porta, para sair da cozinha, Justin olhou para Shawn, que estava de costas para ele, tirando uma embalagem de leite do frigorífico, para ir comer cereais. Em tempos, os dois tinham sido os melhores amigos. Tinham entrado na escola no mesmo ano e ficado na mesma turma. Justin sempre fora falador, enquanto Shawn não era assim. Era isolado, tal como Aurea e não falava muito. Depois de terem ficado juntos num trabalho, em que a escolha de grupos fora de um professor, Justin decidira tentar fazê-lo falar.

E conseguira que Shawn se abrisse, ligeiramente. Nos intervalos, Justin tentava puxá-lo para não estar só, a um canto. Falavam, iam comer alguma coisa e com o tempo a amizade surgira. Algo que Justin percebera de imediato é que Shawn era uma pessoa revoltada. Demorara algum tempo até perceber porquê, quando finalmente Shawn se abrira com ele. Compreendera-o melhor a partir daí. E tinham-se tornado os melhores amigos, até ao segundo ano escolar, em que tudo mudara.

- Estás a olhar para o quê? – perguntou Shawn, ao virar-se e deparar-se com Justin a olhá-lo.

- Para nada, Shawn – disse Justin, virando-se.

- Dantes eras muito mais divertido e simpático.

- Digo o mesmo – disse Justin, voltando-se novamente para encarar Shawn. – Mas de nós os dois, foste tu que mudaste mais. E infelizmente, não mudaste para melhor. Cada vez é mais difícil lidar contigo e és abertamente mau para as pessoas.

- Não vejo porque tenho de ser bom com as pessoas, se ninguém é bom para comigo. Até tu me abandonaste.

- Sabes muito bem o que fizeste e os motivos para eu ter deixado de me dar contigo.

Justin abandonou a cozinha e subiu rapidamente até ao seu quarto. Já estava no seu quarto ano de escola e durante o ano escolar anterior, conseguira evitar Shawn, na maior parte do tempo. O facto de terem ficado na mesma turma agora, deixara Justin aborrecido com a situação. Ainda mais agora, que viviam na mesma casa e tinha de o ver todos os dias. Shawn, com o seu mau humor. Shawn, com falta de educação. Shawn, a causar problemas de propósito.

- Tenho de ter calma – pensou Justin, respirando fundo. – Talvez as coisas mudem e o deixem sair aqui da casa. Não gosto do Shawn. Não gosto. Cada vez que penso nele, fico aborrecido. E penso que as coisas poderiam ter sido diferentes.

Magia Minha

- Hoje vamos ter um teste, com os encantamentos que treinámos desde o início do ano escolar – disse a professora Bianca, olhando para os alunos à sua frente.

As salas de aula estavam mais vazias, devido à falta de alunos. Lentamente, a confiança na escola ia aumentando, mas demasiado devagar. Era preocupante, tanto para o diretor Mitchell, como para os professores e funcionários. A escola tivera sempre boa reputação e de um momento para o outro, tudo tinha mudado, para pior. A professora passou os olhos por Nicholas e Shawn, que não pareciam muito satisfeitos em irem ter um teste. O mesmo se passava com Camilla, que tinha os braços cruzados. Margot sorria ligeiramente, pois gostava de testes, onde só tinha de aplicar os seus conhecimentos. Não gostava tanto de trabalhos de grupo.

- Como é que vai ser o teste, professora? – perguntou Logan, passando uma mão pelo seu cabelo. – Vamos fazer todos ao mesmo tempo ou um de cada vez?

- Irão fazer o teste um de cada vez. Para que não se sintam demasiado nervosos, só um aluno estará dentro da sala comigo, enquanto os restantes irão aguardar lá fora – disse a professora. – E não podem ir-se embora, mesmo que já tenha sido a vossa vez. Vamos começar e não vai ser por ordem alfabética. Margot, serás a primeira.

Margot acenou afirmativamente com a cabeça. Tendo pessoas à sua volta, ficava mais nervosa, tal como acontecera quando tivera de ser o par de Shawn. Os restantes alunos saíram da sala de aula, deixando a professora e Margot lá dentro. Camilla foi para um canto, mexer no seu telemóvel. Desde que Lianna fora embora, Camilla estava mais mandona para com Margot e apesar de sentir alguma falta de Lianna, também gostava de poder ser como queria, sem ter a outra a tentar que Camilla usasse algo mais feio, para não a ofuscar.

- Olá Madison – disse Nicholas. Pegara no seu telemóvel e tinha ido para um lado do corredor, com Justin e Aurea. Juntaram-se os três, colocando o telemóvel em voz alta e tinham decidido ligar a Madison.

- Olá Nicholas – disse a voz de Madison, do outro lado da linha. Justin e Aurea também disseram olá, para que ela soubesse que eles estavam ali. – Então, não deviam estar nas aulas?

- A professora Bianca vai fazer um teste, um a um, portanto, como não começou por nós, decidimos ligar-te – respondeu Nicholas.

- Fizeram bem. Estou aqui por casa, aborrecida. A minha mãe quer que eu estude, mas já estou farta, quando não tenho colegas, nem professores. Ela anda à procura de uma outra escola, visto que eu rejeitei a que ela viu primeiro, depois da Escola Mágica Seven Stars. Não tinha nada a ver e eu não gostei.

- Sentimos a tua falta – disse Justin.

- Também sinto a vossa falta. Quando a minha mãe me foi buscar, eu tinha medo, pelo que acontecera. Não tinha a certeza se quereria voltar à escola ou não, mas a verdade é que quero. Só que os meus pais não estão de acordo. Acham que é demasiado perigoso.

- O homem que estava por trás do que aconteceu, está morto – disse Aurea. – Não vai voltar a fazer nada contra a escola ou mais ninguém. Parece-me que agora tudo está seguro.

- Sim, pela lógica é isso mesmo, mas convencer os meus pais não é assim tão fácil – disse Madison, suspirando. – Mas vou continuar a tentar. Queria estar aí para fazer o teste.

- A sério? Querias estar aqui para fazer o teste e não para estares connosco, por sermos pessoas magníficas? – perguntou Nicholas e todos se riram.

Pouco depois, Margot saiu da sala de aulas, parecendo satisfeita, visto que o teste lhe tinha corrido bem. Nicholas foi o próximo a ser chamado, pelo que a chamada com Madison teve de chegar ao fim. Shawn, que ficara encostado a uma parede, de braços cruzados, ficou a vê-lo entrar na sala de aulas e depois olhou para Aurea e Justin, que começaram a falar um com o outro, parecendo animados. Revirou os olhos e afastou o olhar.

O teste da professora Bianca consistia em quatro encantamentos. O primeiro, era o encantamento Flutuar, que todos os alunos conheciam há já muito tempo. Cada aluno teria de fazer flutuar três objetos ao mesmo tempo, o que não era fácil, se o aluno não estivesse concentrado. O segundo encantamento era Iluminar, criando cinco esferas de luz. Depois havia o encantamento Pesquisar, que servia para procurar informação em livros. A professora escondera três informações num livro e os alunos tinham de as encontrar. Por fim, havia o encantamento Localizar, para procurar objetos e por vezes pessoas. A professora Bianca escondera três objetos na sala e os alunos tinham de os encontrar.

Na opinião da professora, o teste era simples, se os alunos tivessem estado com atenção e praticado os encantamentos. Margot saíra-se muito bem em quase tudo, apesar de ter tido alguma dificuldade em fazer flutuar os três objetos ao mesmo tempo. Nicholas enganara-se no encantamento Pesquisar, mas conseguira fazer os outros corretamente. Aurea tivera dificuldade com a sua quinta esfera de luz e Shawn fizera quase tudo perfeitamente, mas encontrara um objeto errado ao usar o seu último encantamento. Depois de todos terem feito o teste, a professora indicou-lhes para voltarem ao interior da sala de aula e os alunos sentaram-se nas suas secretárias.

- No geral, estou satisfeita com a vossa demonstração de encantamentos – disse a professora. – No final do teste, falei com cada um sobre o que tinham feito bem e mal, portanto não me vou alargar nesse aspeto. Na próxima aula, irei indicar a cada um a nota que tiveram.

- Na minha antiga escola, quando alguém tinha uma nota negativa num teste, era fechado nas masmorras – disse Logan. – Aqui também é assim?

- O quê? – perguntou Camilla, perplexa. – Os alunos eram fechados nas masmorras? Mas que raio de escola era essa?

- Realmente, desta vez concordo com a Camilla – disse Alishia, confusa.

- Não admira que alguém tenha querido deitar fogo à escola – murmurou Nicholas, falando para Justin, que sorriu ligeiramente.

- Nenhum aluno com uma nota negativa irá parar às masmorras – assegurou a professora Bianca. - Na verdade, nenhum de vós teve uma nota negativa, mas mesmo que fosse o caso, as masmorras não servem para prender os alunos. Pelo menos, não nesta escola.

Magia Minha

A sala escura de Bernard já não estava tão escura como era costume, principalmente porque uma das paredes da sala quase ruíra, deixando entrar luz. Desde a morte de Drake, as coisas tinham-se tornado bastante más para Bernard. Ele achara que apesar de Drake ser alguém em quem podia confiar, não dependia realmente dele, mas com a sua falta, percebera muitas coisas. Era Drake que mantinha quase tudo em ordem, especialmente os monstros. Sem ele por perto, os monstros tinham-se revoltado. Um dos monstros matara o outro e depois tentara comer Bernard, que tivera de o matar. No meio da luta, a casa onde vivia sofrera vários danos, inclusive a sua sala.

Bernard estava só, completamente só. Sentia-se furioso e desanimado ao mesmo tempo. Queria vingar-se, era isso que o movia, mas cada vez as coisas ficavam mais complicadas. Não conseguiria montar um ataque na escola, como acontecera no passado. Se não fosse Drake, nem isso teria acontecido. Movendo-se pela sala, Bernard parou junto da parede que parecia prestes a desmoronar-se. A luz do exterior incidiu sobre ele, no seu cabelo castanho escuro, penteado para trás e nas roupas pretas. A camisola estava rasgada numa das mangas, fruto do ataque do monstro.

- Não poderei ficar aqui muito mais tempo – pensou Bernard, olhando à sua volta. A sua poltrona continuava no mesmo lugar, sem qualquer dano. – Já não há condições. Está na altura de ir embora e ir atrás dele. O meu ex-amigo. Em tempos, foi o meu melhor amigo, mas agora quero vê-lo morto. Só assim ficarei bem.

Bernard sentou-se na sua poltrona, por uma última vez e recordou o passado. Aliás, o passado estava sempre presente na sua vida, deixando-o furioso. Bernard achara que tinha tido uma vida boa, até há cinco anos atrás. Tivera uma infância feliz e na escola, achara que fora inteligente, apesar de nem sempre os outros terem concordado com ele. Mais tarde, tivera alguns empregos e fora quando ensinara numa pequena escola que conhecera Mitchell Rockland. Os dois tinham-se tornado amigos rapidamente. Quando, alguns anos mais tarde, a aldeia onde os pais de Bernard viviam fora atacada por monstros e os seus pais tinham sido mortos, ele ficara devastado. Mitchell ajudara-o a recuperar e Bernard escolhera um novo rumo para a sua vida.

Quisera tornar-se um caçador de monstros. Decidira ir até ao continente onde os monstros viviam e acabar com o maior número possível deles. Convidara Mitchell a juntar-se a ele e depois de alguma hesitação, ele aceitara. Junto com outras pessoas, tiveram treinado para entrarem no continente e participarem de uma missão. Bernard não queria participar apenas de uma, mas Mitchell achara que depois de matar alguns monstros, o amigo quereria voltar a uma vida normal.

- Mas correu tudo mal – pensou Bernard, fechando os olhos. – Éramos dez pessoas e era suposto matarmos alguns monstros, que não seriam obviamente os mais fortes. Para mim, era suposto serem o princípio de uma longa caça. Mas fomos apanhados numa armadilha que os próprios monstros criaram.

O grupo acabara dividido e a lutar contra vários monstros. Um a um, tinham começado a ser vencidos e mortos. Bernard estava a conseguir lutar, ainda assim. No entanto, a raiz de uma árvore fizera-o cair e ele fora rodeado por monstros. E então, vira Mitchell, não muito longe, olhando-o. Gritara por ele, pela sua ajuda, mas o amigo virara costas e fugira, sem tentar atacar nenhum monstro. Bernard lançara feitiços e esmurrara os monstros, até que um o atacara e ele perdera os sentidos.

- Pensei que era o meu fim, que iria morrer – pensou Bernard. – Mas ao acordar, estava no covil dos monstros. Queriam-me para refeição, mais tarde. Fingi que ainda estava inconsciente, para conseguir lançar um feitiço de fogo, pois os meus pés e mãos estavam presos. Consegui libertar-me e fugi. Fui perseguido pelos monstros, mas eventualmente, depois de me esconder num buraco, perderam-me o rasto. Mas estava só e perdido.

Andara durante muito tempo e quase já sem forças, fora quando conhecera Drake. Bernard respirou fundo e levantou-se da sua poltrona. Conhecer Drake fora o que o salvara, o que fazia ser possível ele estar ali agora. Mas Drake estava morto e a vingança de Bernard não estava concluída. Em passo lento, abandonou a sala, para nunca mais voltar.

Magia Minha

A aula de história chegara ao fim e os alunos da turma quatro A saíram da sala de aula. Para muitos, aquela era a aula mais aborrecida de todas, mas Margot gostava de aprender e tirar bastantes notas. Visto ser a última aula do dia, os alunos começaram a descer as escadas, depois caminhando por corredores, até se aproximarem do hall de entrada. Foi aí que ouviram uma voz feminina e bastante alterada, falando alto. Justin e Nicholas trocaram um olhar. Ao chegaram ao hall de entrada, os alunos pararam, para tentarem perceber o que se estava a passar.

Outros alunos estavam parados no hall, ouvindo o que se passava. O diretor Mitchell estava mais ao menos ao centro do hall e junto dele estava uma mulher. Tinha estatura média e cabelo escuro, pelos ombros. Estava totalmente vestida de preto, com uma mala preto ao ombro e falava bastante alto, para o diretor. Não queria saber quem estava a ouvir. A ideia da mulher, que se chamava Helen Karstairs, era demonstrar a raiva que estava a sentir, mesmo que aos olhos dos outros pudesse parecer demasiado.

- O meu filho estava apenas no segundo ano. Tinha quinze anos! – exclamou Helen, apontando um dedo ao diretor. – E agora ele está morto. O Lawrence está morto, quando era suposto estar bem, estar a aprender nesta escola. Houve aquele ataque do monstro e você prometeu que tinham sido tomadas medidas adicionais, prometeu que tudo ficaria bem. Eu fiquei preocupada, mas acreditei que fora algo imprevisível e que não voltaria a acontecer. E depois, uma rapariga foi amaldiçoada. Mais uma vez, você, como diretor, prometeu que não havia mais objetos amaldiçoados na escola e que teriam atenção extra, de futuro. Mas isso não ajudou em nada. A escola foi atacada outra vez e o meu filho morreu!

- Eu lamento imenso… - disse o diretor.

- Não lamenta tanto quanto eu – disse Helen, cortando-lhe a palavra. – Um único homem apareceu nesta escola, conseguiu furar qualquer feitiço ou medida de segurança que você tinha e matou vários dos guardas. Guardas supostamente treinados para proteger a escola e os alunos. De que serviram? Para nada.

- Os guardas foram tão úteis nas crises deste ano, como um feitiço de gelo para apagar um incêndio – disse Shawn, de braços cruzados.

- Realmente, se fosse por eles, estaríamos todos mortos agora – concordou Camilla, ao lado dele. – Não me lembro de nenhum guarda vir ajudar quando aqueles alunos controlados andavam a correr atrás de mim.

- Infelizmente, a escola falhou nesse aspeto – disse Alishia, com um aceno de cabeça.

- O meu filho foi encontrado morto e nem sei quem é o responsável. Pode ter sido aquele homem, pode ter sido um dos alunos controlados. Mas de uma forma ou de outra, não muda a realidade – disse Helen. Calou-se por uns segundos, enquanto lágrimas lhe surgiam nos olhos. Aurea conseguia ver-lhe o desespero no rosto. – O Lawrence não merecia o que lhe aconteceu.

- Claro que não merecia. Se houvesse forma de voltar atrás, eu faria ainda mais para o proteger a ele e a todos – disse o diretor.

- Mas não fez! Pelo que sei, haviam imensos alunos controlados. Como é possível? Claramente aquele homem andava a rondar a escola ou mesmo na escola. Andava disfarçado? Usara um feitiço de invisibilidade? Usara um feitiço para mudar a sua aparência? Não sei. O que sei é que a escola devia tê-lo detetado e não o fez – disse Helen. – O que é que impede que outro maluco qualquer venha aqui e faça mal aos alunos?

- Prometo-lhe que nós tomámos medidas…

- Ai sim? Que medidas? Pelo que sei, continua a ter poucos guardas, porque não conseguiu substituir alguns deles. E que mais fez? Feitiços básicos de proteção? – perguntou Helen e o diretor calou-se. O seu silêncio dizia muito.

- O diretor está a levar uma sova nesta discussão – murmurou Nicholas.

- Não é uma discussão. É um desabafo – disse Justin. – Aquela mãe está a sofrer, com a perda do filho, o que é natural. Eu gosto desta escola, ando aqui há quatro anos, mas o que ela diz é válido. A escola tem de ter medidas para nos proteger e falhou este ano, mais do que uma vez.

- Quero que saiba que o responsabilizo pessoalmente pelo que aconteceu – continuou Helen. Passou os olhos pelos alunos, ali reunidos. – Diretor, já comecei uma petição para o remover do cargo e substitui-lo por alguém que realmente saiba o que está a fazer. E se conseguir a nível legal que pague pela morte do meu filho, também o farei. Não fui a única a perder filhos. Alunos, jovens, que tinham toda a vida pela frente. Já para não falar na quantidade de feridos que existiram.

- Se quiser, vamos falar para o meu gabinete – disse o diretor, tentando acalmá-la.

- Não quero falar mais consigo. Já disse o que tinha a dizer e acho que fui bem clara. Você tem o sangue do meu filho nas mãos e dos outros alunos que morreram. Os guardas eram adultos, mas o meu filho não era. Vou lutar, pelo Lawrence e pelos outros que ainda aqui estão, à mercê da sua incompetência. Não será a última vez que nos veremos.

Dito aquilo, Helen virou costas e afastou-se, saindo para o exterior. O diretor engoliu em seco e olhou à sua volta, para os alunos. Sabia que devia dizer-lhes algo, mas não sabia o quê, pelo que baixou os olhos e passou por eles, caminhando rapidamente em direção ao seu gabinete. Atrás dele, conseguiu ouvir os murmúrios dos alunos, cada um com a sua opinião sobre o que acontecera.

Magia Minha

Lianna estava no seu quarto e sentia-se tremendamente aborrecida. Vivia numa grande mansão, rodeada de tudo o que fosse do bom e do melhor. A sua cama era espaçosa, com uma colcha branca, bordada a dourado. Os tapetes no chão eram felpudos e muito caros. Os quadros na parede eram bonitos e havia até um retrato de Lianna, numa das paredes. A família tinha empregados para fazerem a maior parte das tarefas e apesar de gostar disso, Lianna sentia-se descontente.

Sair da Escola Mágica Seven Stars fora a opção mais acertada, pensara ela de imediato. A sua vida correra risco e não queria ter de passar por algo assim novamente. Correra imenso, tivera de usar a sua habilidade e atacar outros estudantes. Fora bastante complicado e assim que regressara a casa, tivera de ter algumas massagens, para poder relaxar. Isso e fora às compras. Lianna adorava comprar coisas. E durante uns dias, estivera satisfeita.

Os pais tinham-lhe arranjado professores particulares, enquanto não decidiam para que escola Lianna deveria ir a seguir. Estavam a pensar que talvez Lianna devesse ir para a Escola Mágica de Magicville, mas ainda não tinham decidido. E Lianna, apesar de entusiasmada a princípio, começara a sentir falta da escola. Não de estudar, mas do restante. Sentia a falta de Camilla e Margot, sentia a falta de viver longe dos pais alguns meses, sentia a falta de ter outras pessoas da sua idade por perto.

- Então, o que é que se passa por aí? – perguntou Lianna, sentando-se em cima da cama e ligando para o telemóvel de Camilla. – Algumas novidades interessantes?

- Tivemos a mãe de um dos alunos mortos a aparecer na escola e a desancar o diretor – respondeu Camilla, do outro lado da linha, parecendo animada. Colocou o telemóvel em voz alta. – Foi interessante de ver.

- Mas ela tinha razão no que disse – disse Margot. – Perdeu o filho e a verdade é que até podiam ter morrido muito mais alunos.

- Nos outros anos, o diretor até parecia saber o que estava a fazer, mas este ano parece que as coisas saíram completamente do controlo – disse Lianna, passando uma mão pelo seu cabelo. – Então, como é que está a reconstrução das casas dos alunos?

- Está a avançar bem. Felizmente, a nossa casa não ficou danificada, mas tivemos de receber duas alunas lá. São ambas muito chatas e sem noção nenhuma de moda – queixou-se Camilla.- Mas não tivemos grande escolha, que é como quem diz, escolha nenhuma. Nem sequer tentámos fazer-lhes partidas para as conseguirmos mandar embora.

- Tu querias, mas eu é que disse para não o fazeres, porque várias das casas dos alunos ficaram danificadas e elas tinham de ficar nalgum lado – disse Margot. – Au! Essa cotovelada doeu.

- Então mantém a boca fechada, Margot, para não levares outra – disse Camilla. Lianna sorriu, imaginando as duas. – Enfim, a escola está uma seca, na maior parte do tempo. Ah, mas sabes que mais? Na próxima semana, vão ser eleitos os membros do clube das festividades e obviamente que eu serei escolhida como presidente do clube.

- Eu é que fui sempre a presidente – disse Lianna, franzindo o sobrolho.

- Sim, mas já não andas na escola, portanto eu, como vice-presidente do ano passado, obviamente que vou ser escolhida para presidente – disse Camilla, fazendo aquilo soar muito mais importante do que era na realidade. – Enfim, de certo que na tua próxima escola, seja lá ela qual for, também vais ser presidente de alguma coisa.

Lianna não estava particularmente satisfeita com aquilo. Claro que, visto que não estava na escola, alguém teria de assumir o cargo de presidente do clube de festividades, mas ainda assim, tendo sido a presidente nos últimos dois anos, era algo que custava a Lianna, visto que este ano seria diferente. O clube organizava algumas das festas da escola, ao longo do ano e na opinião de Lianna, sob a sua liderança, as festas eram sempre um sucesso. Mas agora que seria Camilla a ficar com o cargo, tinha algumas dúvidas.

- Boa sorte, Camilla – disse Lianna, tentando soar o mais sincera possível, mesmo não sendo verdade. – Bem, tenho de desligar. Tenho de ir à cabeleireira. Cuidem de vocês, meninas.

Lianna desligou a chamada. Não tinha nenhuma marcação na cabeleireira, mas também não lhe apetecia falar mais. Normalmente, Lianna sabia o que queria, mas atualmente não era assim. Para que escola queria ir? Não sabia. Queria voltar à Escola Mágica Seven Stars? Também não sabia. E ainda havia algo que queria ter perguntado às amigas, mas não o fizera, porque chamaria a atenção. Queria ter perguntado por Justin, que por alguma razão não lhe saía da cabeça.

Magia Minha

- Shawn! – gritou Nicholas, furioso, saindo do seu quarto, com uma camisola na mão. Avançou até à porta do quarto do outro rapaz e abriu-a de rompante. Shawn estava sentado em cima da cama, mexendo no seu telemóvel e olhou-o, ao vê-lo entrar. Nicholas apontou para a camisola, que tinha um rasgão na parte da frente. – Tu estragaste a minha camisola!

- Não faço ideia do que estás a falar – disse Shawn, encolhendo os ombros.

- Sabes muito bem que foste tu! Estava em cima da minha cama, assim e não fui eu que a deixei lá, nem fui eu que a estraguei.

- Que eu saiba, não vivemos só os dois aqui, portanto se achas que alguém te fez algo à camisola, não quer dizer que seja eu.

- Nem te atrevas a mandar as culpas para cima da Aurea ou do Justin! – exclamou Nicholas, ainda mais irritado do que antes. – Eu sei que eles não fariam algo assim, porque não são doninhas traiçoeiras, como tu!

- Vê lá como falas – disse Shawn, deixando o telemóvel de lado e levantando-se da cama. Olhou Nicholas fixamente. – Não te admito que…

- Não tens de admitir, nem deixar de admitir! E para de olhar assim fixamente para mim, porque não me vais pôr sob o teu controlo, entendido? – perguntou Nicholas, mas desviou rapidamente os olhos por uns segundos. Depois, encarou o outro rapaz novamente. – Estou farto de ti e das confusões que trazes. Vivíamos muito bem aqui, antes de te enfiarem aqui em casa, contra a nossa vontade.

Shawn cruzou os braços, olhando para o outro rapaz. Claro que fora ele a estragar-lhe a camisola e deixara-a à vista, para que Nicholas a encontrasse rapidamente. Não se esquecia de quando ele usara a sua habilidade para lhe atirar um livro à cabeça ou como fora seu rival, quando tinham tentado sair com Daisy. Portanto, gostava de o arreliar. Uns dias antes, tinha-lhe enfeitiçado a tigela do pequeno-almoço, que cuspira os cereais para cima de Nicholas e também enfeitiçara o champô do banho, para deixar Nicholas com comichão na cabeça.

- Lamento que te sintas mal com a minha presença, mas vais ter de te acostumar a ela – disse Shawn, encolhendo os ombros mais uma vez. – É a vida.

- Porque é que tu és assim? – perguntou Nicholas. – Porque é que gostas de chatear os outros?

- Nicholas, não quero saber o que achas de mim. Desaparece do meu quarto.

- Vou sair daqui, sim, mas gostaria realmente de saber porque é que tu és assim. Quem é que te fez assim? Sempre gostaste de ser mau ou foi alguma coisa que te tornou assim? Porque tu afastas as pessoas e é por isso que não tens amigos e andas quase sempre sozinho.

- Eu tenho amigos.

- Ai sim? Diz-me o nome de alguns, por favor.

- Eu… não tenho de te dizer nada! Desaparece daqui!

Nicholas lançou-lhe um olhar de pena e saiu do quarto, fechando a porta. Olhou para a sua camisola. Talvez a conseguisse consertar com magia, mas não tinha a certeza se seria possível. Desceu as escadas até ao andar inferior. Aurea estava sentada na sala de estar, a ler um manual de uma das aulas. Levantou os olhos ao ver Nicholas.

- O que é se passou? – perguntou ela. – Ouvi a tua voz a falar alto com o Shawn, mas não percebi o que se passava.

- O Shawn estragou a minha camisola – disse Nicholas, mostrando-a a Aurea. Nesse momento, Justin saiu da cozinha e juntou-se a eles. – Claro que quando o confrontei, o Shawn negou, mas sei muito bem que foi ele que a estragou. Até insinuou que podia ter sido um de vocês.

- É um estúpido – disse Aurea, de forma direta, pousando o manual e olhando para a camisola. – Talvez eu consiga lançar-lhe um feitiço para remendar a camisola. Não que eu seja muito boa nisso, mas posso tentar.

- Obrigado. Se não fossem vocês os dois, acho que já tinha dado em maluco aqui – disse Nicholas.

Apetecera-lhe bater em Shawn, mas tendo já sido expulso da sua antiga escola, não queria arriscar-se a que o mesmo voltasse a acontecer. Não que fizesse grande diferença para os pais de Nicholas. Já o achavam o filho menos dotado, o mais problemático, pelo que ele ser expulso novamente não faria grande mossa na opinião deles. Aurea colocou a camisola em cima da mesa da sala, para lhe lançar um feitiço e Justin aproveitou para se esgueirar escadas acima. Foi até ao quarto de Shawn e abriu a porta, entrando e fechando-a atrás de si.

- Hoje é o dia de entrarem no meu quarto sem bater? – perguntou Shawn, que voltara a sentar-se em cima da sua cama. – O que é tu queres? Vieste acusar-me por causa da camisola do teu amigo?

- Não vale a pena acusar-te, porque tu vais negar – respondeu Justin. – Só gostaria que mudasses a tua atitude, porque gostes ou não, vais ter de viver connosco. Seria muito mais fácil se cooperasses.

- Mais fácil para vocês, mas menos divertido para mim – disse Shawn.

- Achas divertido chatear os outros? Achas divertido estares sozinho, sem ninguém com quem falar? – perguntou Justin. – Tu não eras assim quando nos conhecemos.

- Muita coisa mudou desde essa altura. Já não sou a mesma pessoa.

- O problema é que és pior do que eras antes.

- A culpa disso é tua.

- Minha? Claro que irias tentar atirar as culpas para cima de mim, mas sabes muito bem que o culpado por eu me ter afastado de ti, foste tu próprio. Foram as tuas ações que criaram um abismo entre nós e não era possível continuarmos a darmo-nos um com o outro.

- Isso é a tua opinião, não a minha. Eu nunca me quis afastar de ti, mas tu quiseste isso mesmo – disse Shawn, cerrando os punhos. – Eu teria feito qualquer coisa por ti, mas tu…

- Chega! O teu comportamento não foi bom na altura e não é bom agora. Não te desculpes comigo, porque sabes que não tens razão. Tiveste uma vida difícil, eu sei, mas isso não faz com que possas fazer tudo o que queres. Há muitas pessoas que cresceram com dificuldades, a níveis diferentes, mas não são rudes para os outros, não acham que são melhores que os outros, portanto não tens desculpa.

- Eu não sou os outros. Sou eu e sou como sou. Tu compreendias-me ou pelo menos era o que dizias. Mas isso foi antes de me deixares, de me abandonares, de acabares tudo entre nós. As promessas de não me deixares sozinho não significaram nada para ti.

Justin sentia um nó na garganta, só de estar ali sozinho com Shawn e já esperara que ele falasse naquilo. No segundo ano de escola, os dois eram inseparáveis. O verão parecera passar muito devagar, principalmente para Shawn, que esperara ansioso poder voltar para a escola, não para aprender, mas para estar com Justin. Tinham voltado e continuado a amizade, mas já nessa altura Shawn percebera que o que sentia por Justin era bastante mais do que uma amizade. Pensara nele todo o verão.

Shawn nunca pensara que poderia gostar de um rapaz. Desde que se lembrava, sempre se fixara nas raparigas. Já achara muitas bonitas e tivera dois namoricos. Depois de se debater consigo mesmo, nos meses de verão, chegara à conclusão de que realmente estava apaixonado por Justin, mas sentira receio de lhe dizer. E então, durante o segundo ano de escola, descobrira que Justin sentia o mesmo por ele. Aquilo fizera com que Shawn se sentisse mais feliz do que alguma vez se lembrava de ter sentido. O namoro era secreto, não tinham contado a ninguém. Mas em apenas uns meses, tudo acabara. Perdera um namorado e perdera um amigo.

- Não vou continuar com esta conversa, que não leva a nada – disse Justin. – Não assumes responsabilidade pelo que fizeste ou pelo que fazes, portanto, nunca podes mudar para melhor. Tenho pena.

Justin caminhou para a porta e saiu do quarto. Shawn ficou a olhar para a porta por alguns segundos, esperando, mas na verdade sabia que Justin não iria voltar a entrar. Shawn fechou os olhos. Não importava o que Justin dizia. Não importava o que ninguém dizia ou fazia. Shawn estava sozinho. Sempre fora assim que se sentira, sozinho. Agora não era diferente.

Magia Minha

Nicholas trocara de camisola, satisfeito por Aurea lha ter conseguido consertar. Demorara mais do que apenas um único feitiço, mas ela conseguira. E Nicholas queria mostrar a Shawn como ele não conseguira realmente arruinar a sua camisola. Mas Shawn não descera do quarto para vir jantar e nenhum dos outros fora sequer chamá-lo. O jantar fora bastante agradável, sem ele sequer por perto. Justin fizera massa com carne picada e estava bastante boa.

- Acham que o diretor irá perder o cargo? – perguntou Nicholas, enquanto limpavam a cozinha.

- Não sei, mas também não sei se ele fosse substituído, se alguém conseguiria fazer um trabalho melhor – respondeu Aurea. – Sim, existiram falhas, é verdade, mas não é como se a escola tivesse dinheiro para contratar um batalhão de guardas e na verdade, normalmente eles não são precisos. Só haviam mais guardas aqui por causa do ataque do monstro e de a Daisy ter sido amaldiçoada, caso contrário, teríamos o quê, quatro guardas para proteger a escola? Ninguém conseguiria prever isto.

- Eu talvez conseguisse – disse Justin. – Mas não tive nenhuma visão que pudesse prevenir o que iria acontecer. Teria dado bastante jeito, para podermos ter avisado alguém.

- Mas no final de contas, conseguimos vencer aquele homem – disse Nicholas. – Todos juntos, conseguimos. Claro que o facto de a maior parte dos guardas ter morrido e alguns alunos também, é grave. É suposto estarmos aqui em segurança e não que coisas assim aconteçam.

- Pelo menos a nossa escola não ardeu totalmente, como a escola do Logan.

- O Logan é cá uma peça, com as suas histórias – disse Aurea, sorrindo ligeiramente e secando um prato com um pano. – Por vezes, penso se é realmente tudo verdade ou é algo da cabeça dele.

- Enquanto ele for simpático e engraçado, pouco importa, na minha opinião – disse Nicholas.

Terminada a limpeza da cozinha, os três foram até à sala e sentaram-se. Ligaram a televisão, vendo um programa sobre apanhados, em que pessoas incautas eram apanhadas com algum truque. Riram-se os três, uma e outra vez, com as situações que estavam a acontecer.

- Aurea?

- Sim? – perguntou ela, olhando para Nicholas.

- O Shawn isola-se no seu quarto, o que é bom para todos, mas fico satisfeito de tu teres deixado de o fazer – disse ele e Justin acenou afirmativamente com a cabeça. – E tu, o que achas?

- Acho que… foi graças à Madison que isso aconteceu. Claro que a vocês também, mas ela puxou muito por mim, para não me isolar. Hoje, estou contente por o ter feito, porque… me sinto bem por estar aqui com vocês. Por ter amigos.

Aurea sentia-se realmente satisfeita por isso, apesar de também estar sempre alerta. Não queria descuidar-se e magoar alguém sem querer. Tinha mesmo de tentar estar calma, na presença de Shawn, para não se irritar e o poder queimar. Era muito mais fácil enfrentar o dia a dia com amigos à sua volta. Passara o tempo em que estivera naquela escola quase sempre isolada. Os outros alunos com quem vivera, mantivera-os sempre à distância e eles nunca tinham lutado para se aproximar. Foi nesse momento que o telemóvel de Aurea tocou e ela tirou-o do bolso. Viu que era Madison a ligar e atendeu a chamada, colocando em alta voz.

- Madison, está tudo bem? – perguntou Aurea. Já passava das nove da noite e visto que já tinham falado com Madison nesse dia, para ela estar a ligar, devia ser algo importante. – Eu estou aqui, com o Nicholas e o Justin. Passa-se alguma coisa?

- Queria dar-vos as novidades, antes que soubessem por outra pessoa – disse a voz de Madison, do outro lado da linha. – Mas infelizmente não são novidades boas. Gostava de vos dizer que nos iriamos ver em breve, mas os meus pais decidiram que me vão mandar para outra escola. Eu reclamei, disse que não ia, mas de nada serviu. Amanhã vão levar-me lá e já não vou regressar aí.

- Oh não – disse Justin. – Eu pensei que daqui um tempo acabarias por voltar.

- Eu pensei o mesmo – disse Nicholas. – Tens a certeza de que não há volta a dar?

- Sim, tenho. Eles foram muito claros. Por isso, queria dizer-vos que não volto. Lamento. Gostaria de vos ver novamente, mas vou para uma escola longe daí, portanto é improvável – disse Madison. – Mas de qualquer forma, vocês têm-se uns aos outros e eu não farei realmente falta.

- Claro que farás! – exclamou Justin. – Todos sentimos a tua falta aqui.

- Sim. O Justin cozinha bem, mas tu cozinhavas melhor – disse Nicholas e os outros lançaram-lhe olhares. – Quer dizer, não é só por isso, claro. És boa ouvinte e boa conselheira e dá para ter uma conversa agradável contigo, ao contrário de com o estúpido do Shawn.

- Graças a ti, tenho amigos – disse Aurea, por fim. Sentiu picadas de lágrimas nos olhos, mas afastou isso do pensamento. Não queria chorar. – Mesmo que estejas longe, não me vou esquecer de ti.

- Fico satisfeita por ouvir isso – disse Madison. Foi então que o grupo ouviu uma batida na porta. Justin franziu o sobrolho, mas levantou-se e foi abrir a porta. Do outro lado, estava Madison, sorrindo, com o telemóvel numa mão e uma mala na outra. – Desculpem, estava a pregar-vos uma partida. Voltei.

Durante alguns segundos, o grupo ficou a olhá-la, sem reação. Olharam para ela, que desligou a chamada e para a sua mala, para tentarem perceber se realmente regressara. Depois, Aurea e Nicholas tinham-se levantado do sofá e a rapariga quase correra até à porta, abraçando Madison de seguida. Era um gesto inesperado, vindo de Aurea, mas Madison abraçou-a de volta, sorrindo. E depois, Justin juntou-se ao abraço.

- Ei, então vocês estão a fazer um abraço de grupo sem mim? – perguntou Nicholas e juntou-se ao abraço também.

No topo das escadas, Shawn, que ouvira a batida na porta, estava a olhar para o grupo. Abraçados, felizes, rindo-se. Quebraram o abraço e deixaram Madison entrar, enquanto ela falava rapidamente. Shawn cerrou os punhos. Eles estavam juntos, tinham-se uns aos outros e ele estava sozinho. Como sempre. Virou costas e desapareceu pelo corredor, antes que o vissem.

- Os teus pais deixaram-te mesmo regressar? – perguntou Justin.

- Não foi fácil, nada fácil mesmo – respondeu Madison, olhando para os outros. – Depois de falarmos, de manhã, fiquei ainda mais pensativa. Apesar do que aconteceu, não queria mudar de escola, portanto, ao almoço falei com os meus pais. Os dois não se mostraram nada abertos a isso, mas eu insisti bastante. O meu pai cedeu, a minha mãe não. Mas durante a tarde, depois de muita insistência minha e negociação, consegui que ela cedesse.

- Decerto que ela não cederia facilmente, sem alguma condição – disse Justin, franzindo o sobrolho.

- Isso é verdade. Além de ela me ir ligar todos os dias, vai confirmar com os professores, semanalmente, que está tudo a correr bem e tenho de manter notas elevadas, mas isso é normal para mim – disse Madison. – Além de que os meus pais podem aparecer de surpresa, para verem se estou mesmo bem. Sim, eu sei, é demasiado.

- Pelo menos eles preocupam-se com o teu bem-estar, o que não acontece com todos os pais – disse Nicholas.

- Sim, há pais… que não podem estar a acompanhar os filhos – disse Aurea.

- Eles que apareçam, se quiserem. Serão bem-vindos – disse Justin, sorrindo. – O que importa realmente é que estejas de volta e se são essas as condições, que sejam.

Madison estava realmente contente por poder estar de volta. Claro que esperava que nada de grave voltasse a acontecer, como acontecera antes. Tendo apanhado o comboio de tarde, Madison não jantara, pelo que indicou que estava com fome e tinha de comer alguma coisa. Foram até à cozinha e Justin indicou que prepararia algo para que Madison comesse. Ela sorriu-lhe, agradecida e sentou-se. Poucos minutos depois, estava a comer uns ovos mexidos e pão.

- Espero poder recuperar o tempo perdido – disse Madison, depois de engolir um pedaço de ovo. – Talvez tenha de pedir aos professores informação sobre o que foi dado na altura em que eu estive fora.

- Para isso basta pedires os apontamentos do Justin, que escreve tudo o que é dado nas aulas – disse Nicholas. – Eu acabo por me perder, de vez em quando e copio pelos apontamentos dele.

- Eu dou-te os meus apontamentos, para passares – disse Justin.

- Obrigada – disse Madison. De seguida, ouviu-se uma melodia e ela suspirou, tirando o telemóvel de dentro do casaco que vestia. Era a mãe. Atendeu. – Sim, mãe? Sim, já cheguei. Eu sei que te prometi que te ligaria quando chegasse, mas estava a pôr a conversa em dia e a comer. Ia ligar-te a seguir. Mãe, claro que estou aqui. Como é que queres que prove isso? Pronto, está bem. Vou pôr em alta voz. Pessoal, digam olá à minha mãe.

- Olá – disseram os outros três, de forma algo atabalhoada.

- Hum… sim, estou a reconhecer as vozes – disse Jesenia, a mãe de Madison, do outro lado da linha. – Só queria ter a certeza de que a minha menina tinha chegado bem.

- Chegou, pode estar descansada – disse Justin. – Não lhe vai acontecer mal nenhum. Tem-nos a nós com ela.

- Espero que assim seja. Eu preocupo-me bastante… enfim, Madison, vou ligar todos os dias e é bom que atendas, ouviste? – perguntou a mãe, com firmeza. – E alimenta-te bem. Presta atenção nas aulas. E nada de te meteres em nada perigoso, entendido?

Madison revirou os olhos, mas apaziguou a mãe. Pouco depois, ela desligou. Madison olhou para os outros três, pedindo desculpa pelo comportamento da mãe e a desconfiança dela. Nicholas soltou uma risada e indicou que não fazia mal. Quando subiu as escadas, para ir para o seu quarto, Madison estava satisfeita. Sentia que estava onde devia estar.

E assim o capítulo chega ao fim. Madison regressou à escola e voltou a viver com os seus amigos, mas agora Shawn também vive na casa e foi revelado que no passado ele e Justin tiveram uma relação. No próximo capítulo, uma prova de equipas irá testar os alunos.