Capítulo 1

Já sabia que teria de mudar de cidade, isso até lhe animava. Na sua cidade natal, as pessoas achavam esquisito que alguém em cidade praieira fosse tão pálido ou detestasse praia. Os colegas de escola ficavam divididos entre convidá−lo para o futebol, mesmo que fosse pequeno e magricela, ou para dançar com as meninas, coisa que ele ficava envergonhado de fazer.
Tom Sales era o irmão mais velho de Maiara, uma menina que era extrovertida, simpática e sempre tinha uma festa para ir. Tom como era solitário passava a noite inteira no PC, jogando um game de tiros, para extravasar a raiva.
Escutaram no rádio Eduardo Gomes, um empresário muito famoso na cidade.
O colégio Moreira irá ser reaberto.
Quantas medalhas você ganhou antes dele fechar?
Mais de seis. Meu sonho era a reabertura dessa escola.
Ela fechou por muitas razões inexplicadas, como por exemplo disseram que era mal assombrada. Eduardo riu−se e respondeu:
É muita imaginação.
É no Moreira que você irá, Tom.
E eu? = perguntou Maiara à mãe, viúva desde os trinta anos de idade, agora com trinta e cinco.
Para um colégio de moças.
Vou ter que usar aquelas roupas de freira?
Pelo jeito sim.
Tom resolveu brincar:
Só cuidado para evitar ser a Noviça Rebelde. Maiara deu−lhe um beliscão. O menino riu.
Segunda−feira, primeiro dia de aula. Maiara foi com o ônibus, mas Tom iria a pé. Ele botou os óculos por detrás dos olhos verdes brilhantes, penteou o cabelo que caía−lhe ao ombro. Vestiu a roupa do colégio, camiseta e shorts azul, despediu−se da mãe e pegou seu lanche.
No meio do caminho, olhando para o chão e tendo a visão bloqueada pelos livros que não cabiam na mochila, ele tropeçou.
Quando olhou para cima, achou que tinha morrido e ido para o paraíso.
Você é um anjo?
Uma risada delicada surgiu.
Claro que não. Você é o novo garoto da cidade? A cidade tinha apenas 1000 habitantes, portanto logicamente ele seria a novidade.
Sim. Você vai pro seu colégio?
O mesmo que o seu.
Ela mostrou−lhe o símbolo da escola no peito.
Vamos juntos.
Ela ajudou−lhe a carregar os materiais.
Qual o seu nome?
Isaura. Você?
Tom.
Ela estendeu a mão e ele a apertou. Estava tão nervoso que suas mãos suavam.
Vamos.
Eles descobriram que seriam da mesma classe. Abriram a porta e o professor anunciou:
Esse é o garoto novo na cidade, Tom Sales.
E essa gata?
A pergunta veio de um garoto gordinho e de cabelo crespo.
Quase esqueci que você também era novo. Essa é Isaura.
Isaura olhava Cauan, meio que em hipnose. Tom sentou−se ao lado do menino.
Muito prazer...
Cauan.
Os dois sorriam um ao outro. Isaura resolveu sentar na primeira fileira. No decorrer da aula, Cauan disse:
Copiar isso pra quê, se é o primeiro dia de aula?
Deve ser burro. − reclamou Isaura, que adorava as lições.
Por que então você não presta atenção na aula em vez de em mim?
Isaura avermelhou−se e murmurou:
Está bem.
No recreio, Tom havia ficado na sala para terminar de copiar e quando terminou ia indo para o banheiro, mas percebeu no fundo de um tapete vermelho velho e sujo, um alçapão.
"Um lugar perfeito para quem que estudar a sós".
Ele desceu, era escuro. Ele achou a lâmpada e a acendeu. Dois olhos vermelhos lhe encheram de terror. O homem era pálido, de dentes afiados, lhe observava lambendo os lábios.
Quem é você?
Tom tentou sair do local, mas o demônio (vampiro) foi mais rápido e foi se aproximando cada vez mais de seu pescoço. Um segundo restante...
- Ah!
Quando Tom olhou melhor, era Isaura que trazia uma estaca e golpeara a criatura sombria.
Está bem?
Ela parecia preocupada.
O que foi isso? − perguntou Tom.
Um vampiro. Era comum antes do fechamento do colégio e agora voltou a ser.
Quer dizer que vampiro, lobisomem, isso tudo existe?
É claro. Lendas são baseadas em algo real, isso é fato.
O povo da cidade todo sabe disso?
Só os escolhidos para serem Caçadores.
Cauan?
Não tem o tipo físico. − ela riu−se. − Nem você. Mas pode ajudar se quiser.
Eu quero ficar longe de tudo isso.
Agora que sabem que você está aqui, você precisa de proteção. Serei sua protetora.
Uma menina me protegendo?
Ou longas horas decorando tipos e características de monstros.
Tom não pensou duas vezes.
Topado.
Brenda abriu a porta, tinha certeza de que seu lápis pêgo por um aluno traquina estaria ali.
Mas seu coração deu um pulo quando ela viu aquele lobo enorme.
Antes que pudesse sair, o monstro avançou. Por sorte, ela conseguiu apagar a luz e trancar a sala.
A quem recorrer? Os alunos corriam perigo. A única que ela tinha contato de confiança era Isaura. "Cara Isaura,
Me deparei com um lobo gigante na sala vazia." Depois de uns cinco minutos recebeu a mensagem: "Mantenha em segredo, eu e Tom vamos ajudá-la nisso".
Quando Tom chegou na escola, Isaura estava preocupada. Era evidente em seu olhar.
O que foi?
Isaura mostrou-se a conversa por celular. O monstro era Ricochete, um demônio conhecido por sua brutalidade. Ele falava e tinha personalidade astuta.
Vamos deter o monstro.
Eu não quero ser arranhada de novo.
E vai deixar todo mundo em perigo?
Eu ia contar a eles! Isaura que me impediu.
É porque esse lobo, bem, é um monstro da antiguidade. Ele inclusive fala.
Brenda estava atônita.
Você vem ou não?
Brenda mordeu os lábios em indecisão e falou:
Vou com vocês.
Eles acenderam a luz da sala vazia. O monstro estava alí, lambeu os beiços ao ver.
Ora, parece a mesma de antes. Mas tem companhia.
Eu li o livro do padre e lá diz que Ricochetes podem ser bons.
Eu já matei e estraçalhei adultos, crianças, vocês serão os próximos.
Brenda paralisou-se. Parecia medrosa demais, mas ao ver o lobo gigante indo mordê-la, correu enquanto Tom pegava um pedaço de um assento quebrado e jogou-o no monstro.
Ele esquivou rindo-se.
Isaura folheava o livro em busca de ajuda. Ricochete percebeu-a e avançou. Tom enraivado correu com o cabo e lhe deu um golpe na cabeça. Brenda percebeu ser esse o ponto fraco dele, com mais confiança pegou o cabo de vassoura e acertou-o em cheio.
Vocês vão me pagar. - disse feroz o monstro, enquanto uma luz negra o envolvia e ele desaparecera.
Irá voltar? - perguntou-se Brenda.
Isaura notou que Cauan de algum jeito na sala estava desacordado, preocupou-se e foi a bordo de lágrimas até ele.
Você precisa viver!
Vamos levá-lo ao hospital.
Com uma Isaura chorosa, uma Brenda se sentindo culpada por ser medrosa e um Tom horrorizado com o poder daquela criatura.
Cauan despertou umas três horas depois. Ele tinha ido devolver um livro que tinha encontrado alí, quando o monstro estava fora. Foi dada a alta. Eles falaram para os pais que havia sido obra de bandidos.
Chegando em casa, Tom deparou-se com uma cena inusitada: Maiara lia o livro antigo que ele alugara, denominado "Monstros, Exorcismos e Lendas".
Que legal esse livro!
É só ficção.
Então por que motivo você levou estacas para a escola?
Tom se viu em apuros. Resolveu falar a verdade.
Eu vi um fantasma e um lobo gigante, da espécie Ricochete.
Tom! Para que ficar iludindo sua irmã e vá dormir!
A voz de sua mãe fez os dois irmãos se despediram e cair nos braços de Morfeu.
No dia seguinte ele encontrou Cauan e Isaura de mãos dadas, um sentimento de ciúme entrou em seu peito novamente.
Na aula o professor começou a falar sobre a Inquisiçã0.
Para a semana que vem quero um trabalho, em dupla ou trio, sobre a Inquisição na Idade Média.
Na casa de Cauan, eles leram no computador após pesquisarem:
" A Inquisição foi na Idade Média uma forma de extinguir bruxos, embora na maioria das vezes apenas inocentes padeciam. Eram postos na água e se não se afogassem eram bruxos, indo para a fogueira, onde eram queimados vivos".
Quantas pessoas inocentes já morreram por religião... - entristeceu-se Tom.
E se bruxos existirem?
Vendo o olhar furioso de Isaura, completou:
Ora, fantasmas podem.
Tom sabia que era verdade. Ele teria que ser astuto, ter coragem como tivera com Ricochete pois o destino daquela cidade, começando pela escola, poderia ser trágico. Tom quis por seus amigos estarem doloridos ele ir só patrulhar a escola. Comunicava isso a seu amigo Cauan e então sua irmã ouviu.
Você vai para o Moreira a essa hora? Tem algo com o livro que eu lí?
Sim. Mas é perigoso demais para você.
Eu só tenho um ano a menos do que você.
Você sempre foi de escolas femininas, frescas, sem nem esporte.
Erro seu. Tinha sim esportes e eu era ótima no basquete.
Está bem, teimosinha.
Os dois saíram após a mãe pegar no sono e caminharam até o colégio.
Como vamos entrar? Perguntou Tom. Mas aí viu uma luz. − Vamos pela árvore. Dá direto na janela.
Com um pouco de esforço, os dois conseguiram mas Tom caiu e machucou−se um pouco. Eles foram, ele se apoiando nela, até que viram um banheiro interditado, lugar provável de monstros. Quando abriram a porta viram que estava alagado. Tom pisou num livro velho e reparou numa pedra ônix. Maiara perguntou o que era o livro.
Está em latim.
Incantatem!
Erros juris non excusat.
Do espelho saiu uma mulher velha e seca como uva passa, os olhos vermelhíssimos e meio corcunda. Eles viram−na e se perguntaram: "será que ela comanda os monstros?"
Vou me divertir um pouco com vocês. Ah, como sentia falta!
Ela ergueu a mão e direcionou aos dois.
Nour Eles sentiram queimaduras pelo corpo todo. Ela então resolveu fazer arder as queimaduras com outro feitiço. Quando eles menos esperavam, estavam se afogando.
Iam, Nour.
Eles sofriam. Maiara estava desacordada, Tom foi mais esperto que a bruxa e agarrou a mochila, tirando de lá o celular.
"Cauan, Isaura e Brenda,
Venham para o colégio. Estou em perigo"
Ele se perguntou o porquê de chamar Cauan, mas quanto mais ajuda era melhor.
Tom tentava se erguer, mas estava quase desacordado.
Foi quando o trio de amigos adentrou e olharam pasmos.
Tortura!
Eles começaram a se contorcer de dor, Tom se sentia patético olhando, até que ele resolveu ir para a bruxa e a esfolar.
Quando apertou, a bruxa sumira. Os três caíram no chão. Tom ainda sentia arder as feridas, Maiara desacordada.
Ela engoliu muita água. − preocupou−se Isaura.
Vou fazer boca a boca, é o único jeito.
Ele começou o boca a boca e ela começou a dar sinal de vida, cuspindo água para o lado.
Você me salvou? Cauan assentiu rubro.
Obrigada!
Cauan fizera o primeiro boca a boca de sua vida, mas alguém sentiu ciúmes.
No dia seguinte, a fofoca do dia era uma serpente enorme que cospe fogo. Apesar de ter se dado mal, Tom sentia−se horrível pela tortura dos amigos e queria resolver tudo a sós.
Quando abriu a porta da sala, a serpente expeliu fogo.
Carne fresca.
Tom sentiu as pernas bambas, mas já tinha começado.
Agora, ia até o fim.
A serpente picou−o e ele desmaiou, perdendo a consciência.
Cauan ligou para a casa dos Sales.
Cadê o Tom?
Foi para o colégio.
Enfrentar a cobra gigante?
Pior que sim.
Vamos todos, afinal ele pode morrer.
Tem razão. Te encontro lá.
Os cinco foram e encontraram o garoto desacordado. A cobra ria−se.
Mais carne fresca?
Mais esperto do que ela, Cauan pegou um extintor e Brenda levava uma espada.
Assim você não poderá nos atingir com fogo. Tom despertou e surpreso deveras ficou com o ocorrido. Cauan trajava a espada e tentava derrotar a serpente. Isaura com uma flecha.
A cobra avançou em Tom.
Ah, pensa melhor!
Brenda cortou−o com a espada que outrora estivera com Cauan.
Brenda escondia um segredo. Ela era insanamente apaixonada por um cara que era mortal quando transformado em lobo. Ela amava um lobisomem.
Eles eram amigos de infância, ele era filho da melhor amiga da mãe dela. Ele era um menino dócil, cavalheiro, bonito, educado, mas sentia−se depressivo, isolando−se. Ao procurar ajuda profissional, eles entenderam que ele sentia−se culpado, mas de quê exato?
Foi quando ele tentou atirar−se do abismo. Ela claro o impediu e ele disse aos berros:
Eu mereço morrer! Sou um monstro!
O que você fez de tão errado?
Eu sou um lobisomem.
Ela chorou e entendeu por metáfora. Ela começou a freqüentar a casa dele mais vezes.
Será que ele é um assassino e diz que é lobisomem? Perguntou−se Brenda. Mas no aniversário dele, ela levou flores e disse o quanto gostava dele.
- Eu também. Eu te amo. − ele disse. − Você é minha razão de vida.
Ele aproximou seus lábios do dela e beijou−a. Ela sentiu−se aliviada por poder ajudar, por ele ter encontrado uma razão de viver, ainda mais sendo ela.

Após as experiências com os monstros, Brenda já sabia que ele era de fato metade lobo. Quando disseram que um garoto do sexto ano morreu brutalmente, ela achou que fosse um comum. Mas George lhe dissera, ele despertou ao lado do cadáver. Só podia ser ele.
Quando Tom disse que ia vencê−lo, ela desesperou−se. Ela não ia contar o segredo do namorado, todos iriam ficar contra ele. Só ela o entendia.
Isaura começou a desconfiar das atitudes. Ela encontrou o diário de Brenda e leu:
15ƒ03

Eu estou desesperada. Por mais que ele seja um monstro, ele tem bom coração. Eu sei disso. Eu não poderia viver sem aqueles olhos azuis me olhando carentes, me fazem querer me atirar naqueles braços. E o gel no cabelo louro.
Mas um assassinato ocorreu e ele diz que despertou ao lado do cadáver. Ele está em colapso. Viver sem ele!
Deus, faça que ele recupere a ânsia pela vida!

Isaura ponderou um instante. De um lado, penalizara−se da amiga, por outro, sentiu aversão ao monstro. Mas ela pesquisou e descobriu que lobisomens ficam sem consciência ao se transformar;
A próximas idéias a animaram: eles podiam trancá−lo numa cela ou tentar obter a poção que o amansava.
Ligou então.
Eu já sei de tudo. De seu caso com o lobisomem.
Ah meu Deus! Mantenha ele vivo!
Relaxa! O que vamos fazer é trancá−lo numa jaula até encontrarmos a poção que o amansa. Enquanto isso o padre Pedro realizava sua oração. No banquinho, uma jovem de cabelo louro. Mal sabia ele, a bruxa transfigurada.
Ela lembrava que padres eram motivo de piada para bruxos, mas havia um − ele estava como espião, na verdade ele era um bruxo do Submundo que tinha se infiltrado para acabar com os bruxos de direita.
Ela foi uma vítima, acabou presa no Mundo Inverso, que ficava no espelho. Lá ela perdeu seus poderes e teve que viver como humana, mas sentiu os poderes retornando a ela assim que saiu do espelho.
No final da missa, ela se apresentou à ele. Estava certa de que ele, pelo livro que portava, era como o padre bruxo.
Confesse seus pecados.
Ela riu e tomou sua forma original. Mour.
O padre caiu no chão, morto.
A notícia espalhou−se rápido. O que era estranho: ele parecia intacto, como se tivesse morrido sem causa. Isso fez Tom desconfiar da bruxa.
Compartilhou sua idéia para os outros.
Pode ser. Até esqueci que aquela velha estava por aqui fazendo estrago.
Eu vou na igreja enfrentá−la.
Isaura sentou−se. A bruxa aproveitando a brecha aproximou−se.
Você orando, tão pequena...
Na verdade, estou esperando alguém.
Seria eu?
A bruxa riu e tornou−se a velha. Ela quis matá−la:
Mour Mas a pedra ônix de alguma maneira estava no bolso de Isaura. A bruxa sentiu queimadura onde tocara−a.
A menina ria, percebendo que a pedra a defendia da bruxa. Ela passou mais uma vez o ônix na velha, que sumira.
Todos a felicitaram. Tom ficou roxo de inveja de como Isaura recebeu o título de rainha. Estava orgulhoso, no fundo, de sua amiga.

Tom lia o jornal junto de seus amigos. Ele viu algo que fez ele tremer.
"Assassinatos com furos como vampiros, sempre de noite".
George aceitara a condição de prisão e eles foram para entrevistar um olheiro.
Os dentes deles são afiados?
Os caninos, sim. Ele sugou o pescoço daquela jovem, como se fosse vampiro.
Então é mesmo um vampiro! − Cauan disse.
Percebeu certo, espertalhão. − divertiu−se Isaura. O velho riu.
Esses jovens e suas imaginações... É só um serial killer.
De noite se deslocaram para a rua, onde estava vazia, Pato era uma cidade de 1000 habitantes apenas, no interior de São Paulo. Eles viram a cena fatal do vampiro sugando o pescoço de uma criança. Brenda chutou−o e ele foi para trás, cambaleando, mas avançou nela, que teve que saltar em acrobacia para se livrar. Tom jogou para ela uma estaca, o que fez o rival apoderar−se do mesmo. Brenda correu e cravou a madeira no ser sobrenatural, reduzindo−o a pó.
Ela sentiu−se como a própria Buffy, orgulhosa de seu feito.
Eles mandaram uma mensagem para a bruxa na igreja, marcando encontro sábado no fim da tarde. Mais dois alunos do Moreira tinham desaparecido.
A bruxa queria o ônix. Ela sabia que era provável que estivesse com Isaura, para ela ter sobrevivido, porém ela queria−o para sí, pois ele era poderoso e feito para proteger, o que seria melhor no lado da Equipe Sobrenatural, composta por ela, Ricochete, antes a cobra, agora os vampiros e gigantes, monstros, bruxos, fadas que queriam o domínio da Floresta Fantástica.
Eles esperavam−na com o livro do Padre Gerô, que desaparecera há dois anos.
Traziam tudo o que era para deter bruxas. Ela chegou e ergueu a mão. O ônix apareceu no bolso de Tom, a bruxa virou− se para Brenda. Antes dele poder jogar para ela, veio o veredicto:
Mour.
A garota caiu ao chão, falecida.
Tom chorou e avançou com tudo na bruxa. Ela caiu e logo eles foram tele− transportados, estavam agora num bueiro sujo. O lar da bruxa.
Os alunos desaparecidos estavam alí, acorrentados. Ela tentou fazer o mesmo com ele, mas ele a esfolou com a mão.
A pedra! A equipe Sobrenatural precisa dela!
Não tem pedra alguma!
Está mentindo!
Tom apertou com mais força e ela ficou inconsciente, Tom vendo que estava sem pulsação comemorou internamente.
Saiu do bueiro, reconheceu onde estava e foi até a igreja, falando emocionado:
Matei a bruxa. Fomos vingados. Pesquisando o que era a Organização Sobrenatural, Tom descobriu o que era.
Vou destruir um por um.
No funeral de Brenda, George se acabava em lágrimas. Todos sentiam pena do garoto e sentiam−se tristes pela morte prematura de Brenda. Já era novembro e eles ficaram de férias.
A família de Cauan tinha chácara em Itanhaém. Eles foram para lá.
Uma coisa me deixou confusa.
O que?
A bruxa tentou me matar.
E daí?
Como Brenda morreu e eu...?
Sorte. − e ele brincou para acalmá− la. − Ou vai ver você é descendente de alguma bruxa má.

Tom era um garoto estudioso e de conduta exemplar. Seu único problema era ser banana. Tanto no outro colégio quando no Moreira, ele sempre apanhava da Trupe da Pesada, vivia cheio de roxos no corpo, mas dizia aos pais que "gostava de lutar boxe". Os pais morriam de orgulho e tudo o que ele queria era se enterrar toda vez que ouvia um elogio por isso.
Em mais um dia corriqueiro escolar, Tom se arrumou e foi para o colégio. Alguns riam da fita crepe fixando seus óculos, outros deferiam olhares de pena. Tom se enfiou na classe e rezou para os valentões faltaram. Quando viu Ricardo entrar com sua trupe rapidamente foi para o assento da frente e afastado do fortão, que sempre sentada com os amigos atrás.
O sinal do intervalo chegara. Tom desceu silenciosamente a escada, mas alguém o empurrou. Sentiu-se cair ao chão e dois pés pisaram em sua barriga.
Ele tentou se levantar, mas levou rasteira.
-Olá, mariquinhas. - e quando viu que Tom permaneceu em silêncio, continuou: - o mongol está com o osso fraturado?

Ricardo ia andando quando um pedaço de pergaminho caiu de seu bolso. Ele pareceu não notar, assim foi.
Quando Ricardo estava longe o suficiente, Dalton se esticou e descobriu o que era que Ricardo escondia.
"Um mapa das pedras que a bruxa queria!" fascinado, ele seguiu Ricardo para ter mais informações. Se enfiou debaixo de mesa e ouviu o grupo de ruindade.
-Meu pai é traficante de monstros na Amazônia. Há pouco tempo atrás ele achou o mapa. Claro que eu trouxe só uma cópia.
-E o que farão se acharem as pedras?
-A imortalidade. Expandir os negócios. Dominar a floresta e logo o mundol "Preciso deter esses podres", pensou Tom. Logo quando chegou em casa, ligou para George.
Explicou a história toda para ele e ouviu sua opinião:
-Muito arriscado, mas eu gosto de riscos.
Um sorriso se desenhou nos lábios de Tom.

-Vou mandar no meu aniversário que é amanhã e sei que vocês vêm, para combinarmos..
No dia seguinte George recebeu Tom e os seis amigos se trancaram no quarto para discutirem sem os pais ouvirem.
-Que pai deixaria o filho ir para a Floresta Amazônica sem proteção? - perguntou-se Isaura.
Ah, isso eu já resolvi!
Como? - perguntou a Maiara.
É que nós iremos à expedição ao "Circo de Manaus", que uma fundação para cuidar de eventos para crianças, com acompanhantes e tudo.
O grupo deu risada.
Brilhante, mas e quando chegarmos?
- Vamos para a Floresta. Já preparei o jato contra mosquitos, kit de primeiros socorros e torceremos para não encontrar nenhum animal peçonhento.
-E monstros? Acho perigoso Maiara ir. - falou Dalton. - É perigoso.
- Mas irá parecer que queremos ir a lugares para adolescentes a hormônios a flor da pele.
Isso num circo?
Que razão para não levar a garota num circo?
Foi de acordo com todos que a caçulinha iria. E ela estava mais animada do que eles.
Eles chegaram para onde estavam seus pais.

-Nós iremos ao circo!
George conseguiu com uma turma de educadores de Manaus ingressos ao Circo de Manaus.
E Maiara vai!
Concordo. - disse o tio da mesma. - Já está na hora dela se virar sozinha. O que diz?
Ele olhou a cunhada e ela deu o veredicto: Confio no George.
No dia seguinte, em escola, Tom divertiu-se em segredo vendo o rival procurando o mapa.
Meu pai vai me dar uma surra.
"Tomara que dê mesmo", pensou Tom comendo um sorvete de chocolate.

Ainda bem que é cópia. - suspirou Ricardo.
No dia da viagem, os pais se despediam. Maiara estava chorosa, era a primeira vez que ficava sem os pais. Para animá- la,G George pegou-a no colo e assim ficou a viagem inteira.
Isaura ouvia Beatles e Tom planejava o que fariam quando chegassem.
Quando o avião desembarcou, eles seguiram rumo à floresta. Todos cansados d tanto andar, mas chegaram. Foi quando veio um grito feminino:
-AH!
-Eram cinco serpentes gigantes vindo até eles.
Todos corriam por suas vidas. A pequena Maiara tremia de tanto medo, mas Cauan a pegou no colo para não deixa−la para trás. Isaura subia na árvore, Dalton estava quase sendo picado, quando a serpente caiu ao chão. Era um garoto de no máximo doze anos, parecido em altura a Maiara, mas que carregava o arco e flecha e lanças, que mataram todas as cobras.
Olharam para ele, que enfim se apresentou:
Sou Katou, um índio. Vivo de caça.
Obrigada por salvar minha vida! − Maiara sentia os olhos brilharem por aquele menino.
Vamos, vocês têm que me dizer de onde vêm e o que querem aqui.
Viemos à procura de deter um bando de marginais.
Os Brancos?
Como sabe o sobrenome de Ricardo? Aí caíra a ficha. Ele comemorou. Estavam perto dos malfeitores.
Eles querem ouro para continuar contrabandeando. Eu consegui uma cópia desse mapa.
Katou analisou e disse tristonho:
É do outro lado da floresta. Demoraremos meses. Temos que distrair os traficantes para ficarem aqui.
Eu sei como vamos conseguir. Todos olharam para Isaura.
Vamos libertar alguns animais deles. Começarão a procurar, mas estarão de verdade com a gente, isso dará tempo.
Ao anoitecer, eles acharam a cabana dos marginais e esperaram o guarda dormir para adentrar.
Dentro eles viram as araras azuis e encantara−se por uma fêmea dos pássaros e deu−lhe o nome de Maiara Júnior.
Porém quando quase todos os bichos saíram, Tom pôde ver Ricardo voltar com o pai.
Antes que Maiara pudesse fugir, ela teve que se esconder debaixo da mesa. Ricardo a viu e quando o pai foi dormir abaixou−se até ela, lhe dizendo:
Pode ir embora. Só mantenha em segredo.
Ela mal pôde acreditar.
Sabia que sou irmã de Tom?
Sim. Me desculpe por tudo que fiz para ele. Esses traficantes me adotaram menino e para continuar vivo eu tinha que provar que eu era o valentão, entendeu?
As pernas de meu irmão estão roxas.
Me perdoe por isso também. O que acha de eu ser espião?
Isso é um truque?
Eu não aguento mais esses caras. Ver o sofrimento dos bichos, dos índios que eles matam.
Então está decidido.
E antes de ir até seus primos ele deu− lhe um beijo na bochecha. Ela botou a mão na área da bochecha em que Ricardo tocou a viagem toda, até achar a aldeia.
Todos lhe perguntaram como ela escapou. Ela pensou melhor e decidiu manter sua amizade com Ricardo em segredo. E se os outros souberem, depois de tudo o que ele mesmo sem querer fez Tom passar? Viu o irmão mancando e suspirou.
Eu sou desprezível mesmo.
Uma voz dentro de sua cabeça disse: "Você só está amando. Na maioria das vezes, isso é até bom".
E então ela dormiu consolada.
No dia seguinte Isaura foi para a água a fim de se banhar, mas sentiu uma mordida em seu braço.
Era um jacaré.
Mas alguém retirou o bicho e fechou sua boca. Era a pessoa menos provável para ela..
Ricardo? Por que motivo me salvou?
Simples, eu sou um amigo secreto de vocês. Mas mantenha segredo pro Tom.
A jovem maneou a cabeça, ainda tremendo. Ricardo passou o casaco grosso de lã em Isauea e a menina foi conversar com Maiara. Ela curou a ferida na menina, que contou quem a salvou.
Será que ele está sendo sincero?
Te garanto que está. Isaura assustou−se.
Como?
Ele me salvou também.
E por que motivo temos que esconder de Tom? Ele me parece o contrário do que Tom dizia.
Não tomo partido de nenhum dos dois, na verdade. Mas sei que Ricardo tem motivos e Tom ainda mais para odiá−lo, mas a culpa é dos traficantes adultos. Eles obrigam o Ricardo.
Que horror!
Horrores são os roxos no corpo de Tom. − disse Cauan, chegando−se no tema.
Mesmo se ele foi obrigado a bater no Dalton e um monte de gente, ele é um valentão e ponto final. − concordou enfim Isaura.
Maiara viu que seria difícil para o grupo aceitar a amizade e talvez possível romance entre ela e Ricardo. Até Isaura que foi salva por ele disse contra o rapaz, pelo que fazia com Tom. Olhando o irmão, Bárbara sentia um carinho, mas uma culpa.
De qualquer forma, sabia que seu coração pertencia a Ricardo.
Quem detestara isso foi o índio.
De repente, quatro deles sentiram uma tontura incrível. Logo estavam num lugar horrível: sombrio, torturante e com barulhos horrendos de pessoas sendo torturadas.
Que lugar horrendo! − Isaura exclamou e George apenas assentiu. Tom se levantou e começou a andar ao lado de Cauan, que devia ter se despertado antes.
Vamos ver se conseguimos ajuda. − falou Tom, e eles continuaram andando.
Passaram por árvores secas e folhas caídas que pareciam podres. Os berros não paravam.
Eu estou com medo − confessou George.
Quem não estaria? − perguntou Cauan e eles sentiram um frio percorrer a espinha quando um vulto passou entre eles.
O que é isso? − estremeceu Tom. Logo estavam em frente a uma figura horrenda de um lobisomem.
É o mesmo que me mordeu − revelou George e os outros o olharam penalizados.
Vamos deter esse monstro. Como conseguiu se transformar de dia? − perguntou−se Tom, sem obter respostas. O lobisomem correu e tentou morder Tom, que se esquivou e deferiu−lhe um chute na perna. O monstro uivou e arranhou−lhe a barriga.
No Mundo Infernal todos os monstros se transformam para sempre. − revelou o monstro e os quatro estremeceram.
Mundo Infernal? Você é da organização? − perguntou−lhe Tom.
Mais ou menos isso. − riu−se o meio lobo. − Não estamos com tempo para conversas.
O lobo avançou e Cauan tremeu, se escondendo atrás de Tom, que após um tempo pegou um pau que estava caído ao chão e tentou detê−lo, deferindo−lhe um golpe no estômago. O monstro uivou novamente de dor. Cauan, Tom, Isaura e George não tiveram muito tempo para pensar no que fazer: correram e correram até que o lobo não estivesse em seu alcance. Depois, decidiram dormir.
Estou com medo que o monstro nos ataque durante a noite − temeu Isaura.
Temos que correr o risco, infelizmente − falou Cauan e os quatro dormiram por um tempo.
Quando acordaram, Isaura já não estava lá. Cauan a viu sendo arrastada por um monstro horrível de narinas pontudas e todo preto. Pegou o pau que estava ao chão e, mesmo sendo medroso, foi salvar sua amiga. Desferiu um golpe na cabeça do monstro por trás, que cambaleou e caiu ao chão por um tempo, o que deu tempo de Isaura voltar para onde os amigos estavam.
Obrigada, Cauan − agradeceu, dando−lhe um beijo na bochecha. O menino corou.
Não é por nada.
O monstro levantou−se segundos depois. Foi em direção a Isaura, que lhe deu um golpe voador que o fez se desviar para a direção de Tom, que o socou no rosto, o que fez que ele cambaleasse e caísse de novo ao chão. O arranho na barriga de Tom ainda ardia. Tom lhe deu um chute na cabeça e ele se desintegrou aos poucos.
Ufa! − Isaura ficou aliviada.
Essa foi por pouco − disse Cauan.
Agora vamos descansar a mente − falou Tom, e os outros realmente concordaram. − Vamos comer alguma coisa. Nessas árvores podres não tem nenhum fruto que preste?
Talvez tenha − Cauan foi procurar junto a Tom, enquanto que Isaura e George ficaram esperando.
Tomara que não demorem. Estou morrendo de fome. − Isaura reclamou.
Pior que eu também… Capítulo 12 ENVIADOS À TERRA O Lobisomem retornou um tempo depois. Ao seu lado, estava Ricochete, já extremamente recuperado e um monstro que eles não reconheceram. Era branco e tinha narinas pretas e pés de pato. Os quatro estremeceram, e sabiam que tinham que lutar.
Vamos vencê−lo! − Tom esbravejou tentando juntar coragem para avançar. Os monstros atacaram os quatro, ferindo−os, agredindo−os e arranhando−os e eles nada podiam fazer. O pau estava bem longe e eles não conseguiam fazer nada direito.
Cuidado Isaura! − alertava Tom para a garota, que se debatia entre as garras de Ricochete.
Iremos levá−los para aonde todos os espíritos malignos vão − disse o lobisomem, já com George desacordado no colo. − Não demoraria muito para vocês virem para cá também.
Eles não estavam mortos. E os monstros também não se importaram com isso.
Levaram os quatro, que estavam gravemente feridos, para uma grande mansão que ficava no meio da floresta morta. Nem frutas haviam encontrado nas árvores.
Agora vocês vão ser escravos dos monstros do Mundo Infernal. − avisou Ricochete. − junto aos outros espíritos malignos.
Os quatro tentaram fugir inúmeras vezes. De nada adiantava. Os malditos tinham câmeras que os seguiam vinte e quatro horas.
Droga! − disse Cauan. − E agora o que faremos?
O trabalho escravo era duro. Eles conheceram alguns espíritos malignos que foram enviados ao Mundo Infernal após a morte. Eles eram torturados da pior forma possível.
Vocês tem que fazer um trabalhinho para mim − Ricochete riu−se. − Vão ter que perturbar suas famílias. Quanta crueldade. Tom sentiu a vontade de dar−lhe um murro na fuça, mas ficou paralisado no mesmo lugar. Isaura pôs a mão na boca e olhou enraivecida para o monstro.
E logo. Vocês vão sussurrar coisas terríveis em seu ouvido. Também vão fazer coisas quebrarem, portas baterem, tudo para que fiquem com medo.
Tom se perguntou se foi isso que aconteceu à Dorothy, mas logo descartou a ideia.
Vão. − o monstro falou e, de repente, os quatro sentiram uma tontura enorme e logo estavam cada um em sua casa. O monstro estava os observando. Tom avançou e extremamente a contragosto fez com que a porta atrás de sua mãe batesse. Ela assustou−se, mas não deu muita importância.
Tem de ser algo mais maldoso! − avisou− lhe o monstro e ele fechou os olhos com extrema raiva. Foi até a cozinha e fez oito copos quebrarem, um arrastou e jogou em cima dela.
Isso, meu rapaz. − incentivou Ricochete. Tom estava muito enojado de si mesmo. Estava atormentando a própria mãe e não havia nada que pudesse fazer sobre isso.
Sopre besteiras em seu ouvido − Ricochete ordenou, mas Tom finalmente negou a fazer isso.
É a minha mãe. Eu não vou dizer−lhe besteiras ao ouvido. Sentiu, porém, uma grande dor no peito que o sufocava.
Faça isso já. − ordenou−lhe, e ele foi em direção à mãe.
Você vai morrer. − soprou−lhe em seu ouvido. − Você é uma mera humana insuportável que não chegou em seu destino, o Mundo Infernal.
Ricochete deu um sorriso maldoso enquanto que o menino segurava as lágrimas que se formavam em seu rosto.
Eu não quero fazer isso − dizia Tom,
trêmulo.
É assim que faço com os espíritos malignos que vão ao Mundo Infernal.
Mas eu não sou um espírito maligno − tentou argumentar Tom.
Então o problema é seu, não é meu. Tom sentiu uma raiva imensa invadir seu peito. Iria se vingar. A se ia Capítulo 13 O RESGATE DO FANTASMA Tom descobriu que o mesmo que havia feito com ele havia feito com seus amigos. Explodia de raiva dos monstros malignos que obrigavam as pessoas a fazerem esse tipo de coisa. Os espíritos deviam ser ruins para irem para o Mundo Infernal, mas obrigá−los a perturbar sua família e colocá− los em uma fogueira eterna como Tom vira uma vez já era demais. Os monstros mereciam bem mais do que isso.
Planejaram uma fuga. Não sabiam como sair do Mundo Infernal sem que os monstros os levassem até lá, mas poderiam fugir da mansão aonde eles ficavam. Quando estivessem preparados, eles iriam lá para uma batalha. Fugiram com o máximo de sigilo e velocidade possível. Eles ainda estavam meio feridos da batalha com os monstros. Eles correram bastante quando já estavam fora da mansão e foram para um local da floresta aonde achavam que os monstros não poderiam achá−lo. As câmeras 24 horas de nada serviram pois eles estavam dormindo. Tentaram cuidar dos ferimentos. Tom ainda se recuperava do trauma de ter atormentado a mãe e ouvia berros de espíritos malignos sendo postos nas fogueiras. Sentiu queimar de raiva por dentro. O local que estavam era o Inferno, e deviam sair de lá o mais rápido possível.
Está bem? − perguntou−lhe Isaura, enquanto que ele estava refletindo sobre isso.
Estou. Não se preocupe. − lhe respondeu, colocando as mãos ao queixo, em um semblante pensativo.
−Não fique assim. Poderemos detê−los − George lhe assegurou.
Logo mais monstros nos acharão. − raciocinou Cauan. − Precisamos nos preparar.
É verdade − falou Isaura. − Vamos treinar, sei lá, fazer alguma coisa. Não podemos enfrentá−lo de mão abanando.
Precisamos pensar em alguma coisa. Não podemos ficar achando que poderemos vencê−los assim. Eles virão com tudo.
Tem razão, Tom − concordou George. − Mas não sei o que poderíamos fazer.
Podemos salvar os espíritos da fogueira. − Isaura deu a ideia.
Mas como faríamos isso? − perguntou−lhe Tom.
Eu não sei. Sinceramente, me desespera ver tanta dor e sofrimento − ela lhe respondeu, levando a mão ao coração.
Todos olharam para baixo. George sentiu os olhos lacrimejavam ao ouvir mais um berro alucinante.
Pelo menos um podemos salvar.
Não podemos. Talvez ganhando dos monstros o sofrimento acabe.
Talvez apenas. − lembrou Isaura, e os outros sentiram uma tristeza ainda maior os invadirem.
Eles também não fazem nada. − disse George. − Podiam lutar, fazer alguma coisa.
Eles foram jogados na fogueira. Só podem ficar lá agonizando.
Será que Deus não fará nada a respeito disso? − perguntou−se Cauan.
Estamos no Inferno. O que ele poderia fazer?
As crianças ficaram discutindo o assunto por um tempo antes de adormecerem. Tom e seus amigos resolveram enfim salvar as almas na fogueira. Estavam pensando no que eles poderiam fazer. Poderiam avançar rumo ao Reino de Fogo, que era onde ficavam as almas penadas, e tentar resgatar uma delas. Corriam o risco de ficarem presos na fogueira e não saírem nunca mais.
Caminhavam rumo ao Reino de Fogo sem nada para comer ou beber. Estavam desidratados e não tinham a noção exata de quanto tempo estavam ali.
Quando chegaram no Reino de Fogo, avistaram vários espíritos que queimavam e alucinavam com a dor latente. Isaura fechou os olhos de pavor. De repente, Cauan avistou um monstro pavoroso. Era o dono do Reino de Fogo, que Tom reconhecera como Gigabyte, como leu no livro que tinha alugado na biblioteca. O monstro demorou um pouco para sacar que estavam ali.
Tom tentava lembrar como derrotá−lo. O monstro virou−se e contemplou os quatro jovens que o olhavam temerosos. Ele soltou fogo por suas ventas e foi em direção aos quatro, que tentaram escapar por entre suas pernas. Ele soltou fogo na direção de George, que desviou e tentou correr em direção aos espíritos na fogueira. Soltou de novo fogo pela venta e atirou−o a Cauan, que ficou queimado no pescoço. Ele ardia incrivelmente. E logo após, tentou matar George. Tom não conseguia se lembrar de como deter o monstro. Chegou a hora da transformação de George em Lobisomem, justo na hora que o Gigabyte estava tentando matá−lo. Avançou com tudo para a sua barriga, deferindo−lhe um golpe na região. O monstro cambaleou para trás e caiu na própria fogueira que aprisionava as almas.
O lobisomem foi em direção de Cauan, e aí foram pernas para que te quero. Eles correram muito e conseguiram despistar o lobisomem. Eles perderam George de vista. Não saberiam aonde ele estaria quando voltasse a ser humano.
Capítulo 14 A PROCURA DE GEORGE Meu pescoço está ardendo. − reclamou Cauan.
E o que é uma queimadura em relação a todos os ferimentos que estamos?
Precisamos encontrar um rio para bebermos água − Isaura falou, e os outros dois assentiram.
George já deve ter se transformado. − Cauan deu palpite. − Já deve estar muito apavorado sem a gente.
É verdade − preocupou−se Tom. − Vamos primeiro procurar George. Depois, vamos para fora do Reino do Fogo para podermos encontrar água.
A procura foi árdua e levou dias. Finalmente, o encontraram em uma árvore que estava ali por perto, praticamente morto.
George! − gritou Isaura ao encontrá−lo.
Ele nada respondeu. Ela atirou−se em seu pescoço, preocupada com o amigo e começou a chorar desesperadamente.
Agora vamos sair do Reino do Fogo e buscar água. − disse Isaura.
Tem razão.
Como George não tinha condições de sair do local, Tom foi buscar água fora do Reino do Fogo para levar aos amigos. Firmou o pensamento e se transportou para uma imensa floresta. Encontrar água foi difícil, até que ele escutou o belo canto de uma mulher de longe. Ele seguia o canto, que foi ficando cada vez mais forte. Finalmente, estava ali um grande riacho com quilômetros de água. Encontrou também uma sereia, que nadava tranquilamente em sua cantoria. Quando o viu, abriu um sorriso simpático.
Estava esperando um de vocês quatro. − ela lhe revelou.
Como assim?
Quero que saiba da profecia. E não se apavore: a batalha final em breve irá começar.
E qual seria essa profecia? − ele lhe disse e esperou temeroso.
E antes disso − Tom falou. − Como sou paranormal? Como consigo vir a esse mundo e a locais assim com a minha mente?
Só posso revelar que você não é paranormal e está enganado. E então a voz da Sereia começou a entoar a profecia:
Há mais de mil anos, começou a guerra entre o bem e o mal; No Mundo Infernal; Escolheram a data e a hora do nascimento de um humano para destruir a Terra. No paraíso, escolheram a data e a hora do nascimento de um humano para salvá−la. Um grupo de quatro amigos lutará e um deles não voltará para a Terra.
Sangue cairá, pessoas perecerão e morrerão,
E apenas um deles conseguirá destruir o humano no mundo infernal.
Caso não consiga, a Terra se transformará nas trevas, ou seja, a organização infernal tomará conta do mundo.
A Cidade de Pato foi a Escolhida pela profecia Tom, sem entender muito bem o que lhe fora dito, agradeceu silenciosamente a Sereia e pegou a água para os seus amigos. Gravara as palavras na memória. Agora sabia que uma guerra grande se aproximaria.
Ao sair do local, escorregou em uma ribanceira. Nem percebeu que perdeu o ônix que estava em seu bolso. Ao firmar o pensamento para voltar aonde seus amigos estavam, não teve sucesso.
Estava perdido. Completamente longe de onde seus amigos estavam. Tomou um pouco da água. O que fazer para voltar para os seus amigos? Pensou. Por que nesse lugar tão bonito, com flores coloridas e muitos frutos, os seus pensamentos não têm poder? Será que a Sereia tinha razão? Se não fossem seus pensamentos, o que seria que o guiava para várias partes do mundo?
Lembrou−se de como voltar até o riacho, para pedir ajuda à Sereia que lhe informou apenas que retornasse pelo mesmo caminho que fizera anteriormente, seguindo os seus passos que ficaram fixados na terra. Não questionou a sereia do porquê o poder do seu pensamento, ali não funcionava. Apenas decidiu seguir os seus conselhos. Durante horas caminhou pelo mesmo caminho até que, escorregou novamente na mesma ribanceira. Ao chegar no final, imediatamente, chegou até os seus amigos com bastante água e frutos colhidos na floresta.
Isaura estava cuidando dos ferimentos de George junto com Cauan. Ele estava péssimo, a beira da morte. Ele não iria morrer, apesar do que estava na profecia. Ele nem ao menos sabia se era o grupo de amigos dele da profecia, mas tudo indicava que sim. Tentou afastar esses pensamentos e se concentrou na água para beber e nos frutos para comer.
Gente, tenho de lhes falar uma coisa − revelou, e lhes falou sobre a profecia. Capítulo 15 A PERDA DE ISAURA Isaura fica um pouco atordoada com a revelação e fica questionando os acontecimentos o tempo todo. Os quatro amigos ficaram ali durante muito tempo e conseguiram se recuperar, sem ataques dos monstros. Parecia que ali estavam seguros, grande engano. Quando de repente, Tom escutou uma voz:
Finalmente encontramos vocês, seus moleques! − Era o bicho papão, Tom finalmente reconhecera a figura que os atacou no início, e o bicho papão não entendera como estavam bem e com frutos. Indagou:
−Como conseguiram água e comida? − nenhum dos quatro respondera. Foi quando bicho papão foi ficando furioso e tacou um pau na cabeça de Isaura, que desmaiou na hora com o golpe. Tom, para defender a amiga, deu um chute no bicho papão. Foi quando uma luz clareou e, quando perceberam estavam dentro do colégio em Pato.
Já estavam dois anos desaparecidos e foram dados como mortos pela autoridade da cidade, pois policiais não obtiveram sucesso na grande busca.
A emoção dos familiares, choros e risos ao mesmo tempo, tomou conta com o aparecimento dos quatro. Infelizmente, Isaura teve perda de memória com o golpe que sofrera na cabeça, não se lembrava do seu nome, quem eram os seus amigos, onde morava, absolutamente, nada.
Tom, George e Cauan resolveram não contar o fato real para os seus familiares e moradores de Pato e inventaram uma outra história, que convenceu todos da cidade, principalmente os policiais, a causa do desaparecimento dos quatro.
Inventaram que, há dois anos − no dia do desparecimento− os quatro amigos resolveram fazer uma excursão para conhecerem a cidade de Santos, onde Cauan morava. Temendo que seus familiares não iam deixar− e por pensarem voltar no mesmo dia − falaram que iam passar o dia inteiro no Colégio para fazerem atividades escolares.
Quando resolveram descer em uma das paradas do ônibus − em Araques− para comerem em uma lanchonete. Ao voltarem, o ônibus já havia partido, foi então que resolveram pedir ajuda a um homem da lanchonete. Alto, de cabelos encaracolados pretos que resolveu dar uma carona a eles para Santos− pensaram− que sorte. Pois o homem estava de carro indo exatamente para lá. Porém, não imaginavam que se tratara de um bandido e, ao invés de levá−los para Santos, foram parar em outra cidade que não sabem o nome. E ficaram presos no meio de um mato, em uma cabana de palha e tal, etc e tal, etc e tal até chegar o momento que conseguiram escapar. Apanharam, passaram fome, estavam todos muito machucados e Isaura, no meio do caminho, acabou caindo e batendo a cabeça em um tronco de uma árvore. Enfim, a longa história acabou convencendo a todos.
Agora, Tom, Cauan e George, precisavam se preocupar com a recuperação de Isaura. Sabiam, conforme a profecia, que não poderiam prosseguir sem ela. Ela precisava ficar boa e, a qualquer custo, recuperar a memória.
Passaram−se três meses e os acontecimentos tenebrosos continuavam acontecer em Patos. Porém, os três amigos não podiam fazer nada, sem Isaura que continuava internada no hospital. Tom, Cauan e George iam visitá−la todos os dias. Aos poucos, Isaura fora recuperando a memória.
Bicho Papão, pelo acontecimento, chega à conclusão que um dos quatro amigos é o escolhido pela profecia do paraíso e resolve se reunir com os demais monstros para uma reunião para revelar aos outros o que descobriu:
Pensávamos que o humano enviado pela profecia, ao se aproximar da data da batalha final, já seria um homem, mas erramos. − e continuou. − Será fácil destruí−lo na batalha que está chegando. Acho que é ela. Além de não ser homem, é apenas uma menina.
Capítulo 16 BEIJO Isaura recuperou a memória. Estranhas mortes e desaparecimentos continuavam acontecendo na cidade. Os quatro estavam no colégio. Haviam perdido dois anos de estudo passados no Mundo Infernal.
Vou ao banheiro. − revelou Tom e desceu para o mesmo banheiro sujo que havia adentrado no seu primeiro dia na escola. Nessa mesma hora, uma luz forte invadiu o local e Dorothy lhe apareceu. O menino ficou atônito.
Você não tinha sido encaminhada? − perguntou−lhe Tom e a fantasma lhe sorriu. Não tinha mais o sangue ou a perfuração no peito.
Eu fui − ela lhe disse. − Voltei para lhe dar uma mensagem. Tom suspirou aliviado.
E que mensagem é essa? − perguntou− lhe, e Dorothy começou a falar:
O ônix que vocês carregam − lhe disse Dorothy. − É o centro de tudo.
O ônix? − espantou−se Tom.
Todos os monstros que vocês derrotaram… A ida de vocês ao mundo Infernal… É tudo por causa do ônix. Ele foi feito para proteger os quatro da profecia. Tom raciocinara. Agora tudo fazia sentido. Ele pensara que todos os monstros tinham sido derrotados por ele e seus amigos.
Tudo (menos o vampiro, ele esperava) uma mera coincidência.
Inclusive Bruxa Véia?− ele lhe perguntou, e ela lhe respondeu.
Sim, inclusive ela.
Ele ficou decepcionado. Pensava que fosse ele que a tinha derrotado.
Vim para lhe avisar que vocês precisam recuperar a pedra, pois tem que guardá−la para a batalha final. O monstro Deloti foi enviado para achá−la. Só ela poderá destruir o humano enviado pelo inferno. Tom pensou e respondeu.
Perdi o ônix na floresta ao tentar retornar para o reino do fogo.
Como você acha que conseguiu retornar sem a pedra?− Indagou Dorothy. − Você esbarrou nela ao descer da ribanceira, por isso conseguiu voltar.
Tem que voltar lá para pegá−la, antes do monstro Deloti.
Como é esse monstro?− perguntou Tom.
É um monstro marrom de narinas brancas e corpo de porco.
Entendo… − lhe disse Tom. − A Bruxa Véia matou Brenda e não conseguiu matar Isaura…
Foi por causa da pedra sim. − ela confirmou com a cabeça.
E só um de vocês quatro poderá derrotar o humano do Mundo Infernal. Agora, terei que ir.
Espere! − Gritou Tom. − Quem é ele? Qual de nós quatro é o escolhido?
Tudo isso vocês que terão que descobrir. Uma luz invadiu o local novamente e logo Dorothy se fora.
Tom imediatamente procurou os amigos e lhes contou o que Dorothy revelara.
George chegou à conclusão que o enviado poderia ser Isaura, por não ter morrido na batalha contra a bruxa ou ele mesmo, por ter se transformado em lobisomem e matado o Gigabyte. Nem ao menos sabia se ele morrera. Só o vira desaparecer entre o fogo que ele mesmo criara, ressaltou Tom. Cauan completou:
Como os quatro fazem parte do grupo da profecia, qualquer um de nós pode ser o enviado.
Isaura falou:
Ótimo, sempre falando o óbvio. Pois acho que sou eu, pois sempre tive sucesso nas batalhas contra os monstros.
Convencida. − disse Cauan, e cantarolou uma musiquinha sobre a metidez de Isaura.
Para com isso, parece criança − ela reclamou e ele riu−se.
Naquela altura, Cauan, Isaura e Tom já tinham dezesseis anos. George tinha dezenove. Tom tentava pesquisar frequentemente alguma coisa sobre o Mundo Infernal, o ônix, os monstros e principalmente a batalha final. Estudara a Bíblia de sua mãe − se bem que achava que de nada iria servir. Os pais tiraram os alunos do Colégio Moreira, obrigando o senhor Eduardo Gomes a pensar em fechar a escola. Ele, porém, deu uma entrevista dizendo que não fecharia o colégio, pois os últimos acontecimentos de Pato nada tinham a ver com a escola. Cauan, Isaura, Tom e George se preocupavam cada vez menos com a profecia e cada vez mais com a vida escolar. Não queriam retardar−se ainda mais. Então, um dia Tom decidiu contar a Isaura que sempre sentiu certo ciúme quando a via com Cauan.
Eu acho isso fofo. − riu Isaura. − Eu gosto do Cauan, mas ele é muito imaturo.
Alguém para namorar eu preferia você… Tom achou que as palavras eram tudo o que era precisava ouvir.
Você me namoraria? − ele perguntou−lhe, e ela corou.
Depende. Você iria querer?
É claro − respondeu Tom e se inclinou trêmulo para beijá−la.
Ele estava acostumado a beijar outras garotas, mas ela era diferente. Isaura era uma garota muito especial para Tom.
Enfim a beijara. Tinha um gosto especial, diferente de todas as garotas que ele tinha beijado. Tom decidiu que amaria Isaura para sempre, e que o sentimento que foi há tempos reprimido não fora em vão.
Capítulo 17 FECHAMENTO DA ESCOLA MOREIRA Após o beijo, Tom e Isaura foram contar a Cauan o seu início de namoro. Eles esperavam que o menino ficasse feliz pela união dos dois. Porém, quando eles lhe disseram, Cauan sentiu ciúme. Ele disse, porém:
Estou feliz por vocês. − mas sua fisionomia o condenara. Ele estava pálido e ficou muito trêmulo.
Está bem? − preocupou−se Isaura.
Estou − assegurou−lhe Cauan, sentando− se na poltrona de sua sala para não cair.
Afinal, o que uma menina bonita iria querer com um garoto feio como eu? − ele falava, segurando as lágrimas que teimavam em aparecer.
Eu acho você fofo − consolou−o Isaura. − Eu esperava que você ficasse feliz.
Tom era tudo que Cauan não era: inteligente, atencioso, muito bonito e Isaura se encantara primeiramente pelo garoto, porém tinha uma paixonite reprimida por Cauan, que ele realmente não parecia corresponder.
Quero um tempo… − ele disse. − Para pensar. Mas estou feliz por vocês.
Os dois os deixaram sozinho, Isaura com um forte aperto no coração.
Não tivera jeito: a escola Moreira tivera de ser fechada. Com o número de alunos tirados da escola, ficou impossível dar continuidade ao funcionamento do colégio. Tom, Cauan, George e Isaura tiveram que estudar em outra escola da cidade. A prefeitura da Cidade começou a pensar em um projeto para a construção de um Parque para a área do Colégio, já que Pato ainda não contava com esse tipo de diversão.
Cauan, para esquecer Isaura, começou a namorar com Maiara, enquanto George não se interessava por nenhuma outra garota e ainda sofria pela perda de Brenda. Os quatro começaram a saírem juntos para o cinema, lanchonete, vários locais da cidade. Cauan sempre levava a namorada em seus encontros com os amigos para tratar do Mundo Infernal, e Isaura não gostava nada dela, demonstrando seu descontentamento a Tom.
Ela é muito metida − reclamava, e Tom sempre a defendia.
As brigas entre eles ficaram cada vez mais constantes e sempre o nome de Cauan estava no meio dos dois.
Você sempre gostou dele − Tom vociferou. − Você nunca gostou de mim. Ela começou a chorar, e sentou−se na poltrona ao sentir tontura.
Não é nada disso Tom. − ela disse. − Está sendo mais forte do que eu, não consigo controlar o meu ciúme. Estou muito confusa em relação aos meus sentimentos. Pode ser ciúme de amigo. Pois nos últimos anos, nós convivemos muito juntos. Tom suspirou. Já imaginava que uma hora ou outra isso iria acabar acontecendo.
Segurou as lágrimas e lhe disse:
Está tudo terminado.
Não faça isso. − pediu−lhe Isaura. − Você sabe que eu tenho sentimentos muito fortes por você.
Sinto muito − falou Tom. − Estou decidido. Você é o amor de minha vida e essa barra eu não tenho como segurar. Enquanto isso, apesar de Vitória ser uma garota super legal e fazer de tudo para agradar Cauan, ele não conseguia esquecer Isaura, mas mantinha o seu namoro com Vitória.
Capítulo 18 A HORA DA GRANDE REVELAÇÃO Tom, com lágrimas nos olhos e sofrendo muito, resolveu ir para casa descansar. Em seu quarto pegou no sono. De repente viu uma luz adentrando em seu quarto. Era Dorothy, que lhe falou:
Tom, não há mais tempo. É preciso recuperar o ônix.
Ele acordou assustado . Seria sonho? Não era. Dorothy estava ali, ao lado de sua cama, com uma fisionomia ainda mais bonita, nem parecia aquela mulher que vira no banheiro. Tom indagou ela.
Não há mais tempo. A batalha está para começar. Você foi o meu escolhido para cuidar da pedra. Você com sua bondade encaminhou o meu espírito ao paraíso.
Meu espírito ficou preso e sofrendo na Terra por 50 anos. Você tem que encontrar a pedra antes que seja tarde demais.
E, em seguida, ela desapareceu.
Espera. − Gritou Tom. − De nada adiantou. Tom pensou "como vamos conseguir voltar ao Reino do Fogo sem a pedra?"
No dia seguinte ligou para todos e marcou uma reunião em sua casa, porém pediu para Cauan não levar Vitória, pois o assunto era sério e tratava−se do Mundo Infernal. Explicou para Cauan, George e Isaura o que Dorothy havia falado e que não sabia como voltar ao mundo infernal e adentrar no reino do fogo para chegar na ribanceira, sem o ônix. George teve uma ideia:
Vamos para o Colégio Moreira. Tudo começou lá. Quem sabe encontraremos alguma solução no próprio colégio ou na biblioteca?
Como vamos conseguir entrar no Colégio, esqueceu que ele está fechado? − Falou Cauan.
Como sempre com revelações óbvias − resmungou Isaura. − Só mesmo a sua namoradinha para te aturar.
Em primeiro lugar, a minha namorada tem nome, é Vitória e em segundo lugar, não entendo a sua implicância com ela. Vitória gosta muito de você e sempre tentou ser sua amiga. − disse Cauan.
Não consigo ser amiga de uma imatura. Para namorar com você só pode ser imatura, além disso, é chata, metida e insuportável − respondeu Isaura.
Tom apenas observava e sofria calado, pois sabia o real motivo de toda a implicância de Isaura. George deu um grito:
parem com isso vocês dois. Já estão passando dos limites. A questão aqui é outra. Vamos tentar entrar no Colégio de qualquer jeito.
Os quatro saíram em direção ao Colégio, quando viram que naquele momento o Colégio estava sendo demolido para a construçãodo Parque. Passara−se mais de dois e o projeto já havia ficado pronto.
Nessas alturas, Tom, Isaura e Cauan estavam com dezenove anos e George iria completar vinte e dois anos. Todos se apavoraram.
E agora? − disse Isaura: − estamos perdidos.
Não estamos não. − falou Tom. − O senhor Eduardo Gomes é um homem muito bom. Pode nos ajudar a arrumar uma solução, afinal ele estudou no Colégio há muitos anos e também reabriu a Escola. Quem sabe ele poderia dar alguma informação ou até mesmo tenha guardado algum livro?
Todos resolveram ir à casa do senhor Eduardo Gomes, afinal não seria difícil conversar com ele, por morar sozinho. Bateram na porta e estranharam quando uma menina de uns cinco anos abriu a porta.
Quem são vocês, o que querem? − perguntou a menina.
Logo uma senhora apareceu e falou:
Desculpem. Minha filha é assim mesmo. Boa tarde. Meu nome é Afronsina. Mudei− me para a cidade há cerca de dois anos e meio.
Boa tarde. − eles responderam, praticamente juntos. Foi quando Tom falou:
Nós somos Tom, Cauan, George e esta é Isaura. Gostaríamos de falar com o senhor Eduardo.
Ah! − Respondeu Afronsina. − Deve ser o senhor simpático que me vendeu a casa. Não sei para onde ele se mudou, nem tenho o seu telefone. Infelizmente, não vou poder ajudar.
Muito obrigado− respondeu Tom e despediram−se da senhora.
Muito bem, voltamos à estaca a zero? − indagou George.
Não é bem assim. Vamos procurá−lo na sua empresa. Com certeza lá o encontraremos− falou Cauan.
Nossa!− Resmungou Isaura. − Vindo essa ideia de você é surpreendente. Cauan deu a entender que ia respondê−la, mas na hora revolveu não retrucá−la. Todos foram para a empresa do senhor Eduardo.
Chegando lá, outra decepção. Tiveram a informação que o seu Eduardo não era mais o dono da empresa e se mudara para outra cidade, só não sabiam qual era.
Decidiram então, percorrer, durante dias, pelas ruas de Pato conversar com alguns moradores para saber se tinham notícias de Eduardo Gomes, sem sucesso. Ele desaparecera de vista. Nunca mais foi visto pelos moradores de Pato, após o fechamento de seu colégio. De certo, indagou Isaura, ficou desiludido em não ter conquistado seu grande sonho: dar continuidade à escola de sua infância e tradicional da cidade.
É. − disse Tom. − Não podemos contar com a ajuda do seu Eduardo. Temos que achar um outro jeito.
Vamos desistir de tudo.− Desesperou−se George. − Não aguento mais essa agonia. Pelo jeito nunca vou me livrar desse encantamento de virar lobisomem todo mês.
Calma George. − Falou Isaura e lhe deu um forte abraço. Nós vamos encontrar a solução.
Acho que o grupo todo é que tem que decidir se desistimos de tudo ou não. − Indagou Cauan. −Também estou de saco cheio desta história. Será mesmo que essa tal Batalha Final vai existir?
Estamos todos cansados. − falou Tom. − sabemos que fomos os escolhidos. Vocês querem viver eternamente no Inferno? Já se esqueceram de tudo que passamos e que se não vencermos a batalha, toda a Terra vai se transformar naquilo?
Acho que você está errado Tom. Estou achando que fomos enganados. Afinal, há mais de dois anos que a situação de Pato se normalizou.
Peraí− respondeu Cauan. É o tempo que o Colégio foi fechado e que o seu Eduardo sumiu.
Isso não tem nada a ver. Pura coincidência. − respondeu George.
Não é não. − disse Tom. − prestem atenção. Vocês se lembram da Profecia?
É isso. − Respondeu Cauan. − O senhor Eduardo Gomes é o humano da profecia do inferno.
Agora tudo está claro. − revelou Isaura. − por isso que tudo começou no Colégio E depois completou:
−Eduardo é o chefe do Mundo Infernal e a essas alturas deve estar se preparando para a Batalha Final.
Agora temos que descobrir quem de nós quatro que é o enviado do paraíso. − Tom falou.
Vamos fazer uma retrospectiva de todos os acontecimentos, disse Isaura.
E todos começaram a se lembrar de tudo que aconteceu desde o primeiro dia de aula no Colégio Moreira. Ao terminarem, Isaura falou:
Acho que é Tom. Foi ele que encontrou a Dorothy e o Ônix no banheiro, mas Tom discordou:
Eu só vi Dorothy e achei a pedra porque entrei no banheiro, primeiro que vocês três. Pois Dorothy disse que qualquer um dos quatro poderia encontrá−la, porque ela seria a nossa proteção e só com ela que podemos destruir Eduardo. Como fui eu que entrei primeiro no banheiro, Dorothy se revelou para mim que acabei encaminhando ela ao paraíso.
É verdade. Você tem razão. − concordou Isaura.
Pode ser o George. − comentou Cauan− por ter pegado o encantamento e destruído o monstro.
Pode ser Isaura. − Disse George. − por ter tido sucesso em todas as lutas.
Qualquer um dos quatro teria sucesso com os monstros, por causa da pedra− retrucou Cauan.
Pode ser você Cauan. − falou Tom. − Afinal, foi através de você, que descobrimos que Eduardo é o enviado do inferno. Entre as colocações não chegaram a nenhuma conclusão.
Não adianta. Só estamos perdendo tempo. − George se decepcionou. − Temos agora que arrumar um jeito de pegar o Ônix, pois sem ele nenhum de nós quatro poderá destruir Eduardo.
Capítulo 19 A BUSCA DA PEDRA Quando, de repente começaram a escutar uma voz horrível.
Finalmente encontrei vocês…
Era Deloti, o enviado do mundo infernal para encontrar o ônix.
Meu chefe quer vocês presos no Reino do Fogo, pois lá não me atrapalharão aqui na Terra para encontrar a pedra. Meu chefe já sabe que vocês descobriram que ele é Eduardo e também que o Ônix não está com vocês. "Ele só não sabe" pensou Isaura, "que a pedra não está aqui na Terra".
E de repente sentiram−se zonzos e logo estavam no Mundo Infernal, aonde ficaram presos e acorrentados. Foi quando viram uma luz branca forte surgir na direção deles. Eram Dorothy e Brenda que surgiram do paraíso para soltá−los.
Brenda disse:
Os anjos já desceram a Terra − ela os avisou. − A Batalha irá começar.
Ao ver Brenda, que estava vestida de branco e toda linda, George não conteve as lágrimas que rolaram pela sua face.
Nunca mais pensei que iria vê−la meu amor− disse George com a voz trêmula.
Também te amo muito− respondeu Brenda, que completou.
Fui para o paraíso. Estou muito bem. A minha missão agora é ajudá−los a vencer na Batalha Final.
Foi uma emoção muito grande também dos demais amigos de Brenda.
Ótimo. − falou Tom. Enfim a batalha iria começar.
Eles foram ao Reino de Fogo. Duraram dias a ida, pois o Mundo Infernal era muito extenso. Quando finalmente chegaram lá, Gigabyte estava na porta do Reino. George levou um basta susto e soltou a voz: − pensei que tinha te matado seu monstro asqueroso.
Gigabyte deu uma gargalhada.
Garoto ingênuo. − Apenas me enfraqueceu e precisei de alguns anos para me recuperar. Agora, chega de conversa fiada. Nesse momento, Isaura pensou: "Será que a Bruxa Véia também está viva?"
Como vocês conseguiram se soltar, jovens cretinos. − Gigabyte deu um sorriso que a Tom lhe pareceu pra lá de maldoso.
Vão ter o que merecem! − completou o monstro.
Ele avançou diretamente para cima de Isaura, que recuou e deu−lhe um chute voador em sua cintura. O monstro nem cócegas sentira. Agarrou Isaura e desapareceu.
A Batalha começara sangrenta. Morte aconteciam e anjos sucumbiam aos monstros terríveis. O paraíso estava perdendo a batalha. Tom e seus amigos tinham que deter Deloti, achar Isaura e então ir para Eduardo Gomes derrotá−lo. Brenda descera junto aos outros espíritos do paraíso que se prontificaram a lutar. Lutava bravamente. George mal esperava para revê−la. Com ela, passou um ano em sua vida apenas, mas já a amava com todas as suas forças.
Eles buscaram por Isaura em todo o reino do fogo e acharam Deloti, que estava junto à fogueira.
Aonde está Isaura? − perguntou−lhe Tom, temendo que estivesse na fogueira.
Aonde pensa que está? − riu−se o monstro. −Está na fogueira.
Tom, Cauan e George sentiram o corpo ferver. Não iriam permitir que Isaura ficasse lá sofrendo para sempre.
Vou matá−lo − vociferou Cauan, indo em direção ao monstro, pegando um pau jogado ao chão e correndo com todas as suas forças. Foi em direção ao monstro e lhe deu um golpe na cabeça. O monstro lhe deu um chute nas têmporas que o fez cambalear para trás e cair. Tom avançou em direção ao monstro e lhe deferiu um soco no rosto de porco. Nem fizera cócegas. George enfim chutara a barriga do porco e ele cambaleou para trás um pouco aturdido. Ele avançou em direção de George e derrubou−o ao chão. Cauan se levantou e, junto a Tom, pegou o pau que estava caído ao chão e o atacaram por trás, em sua cabeça. O monstro caiu ao chão.
Cauan deu−lhe o golpe final, que acertou a sua cabeça. O monstro estava logo desacordado ao chão e desapareceu.
Isaura e todos os espíritos que estavam lá saíram da fogueira. Estavam prontos para a guerra também. Agora, teriam que decidir a que lado serviriam. Apesar da maioria ser muito má quando viveram na Terra, já tinham pago um alto preço por isso.
Estavam cansados de sofrer no inferno. Eram torturados na fogueira. Os monstros obrigavam eles a descerem até a terra para arruinar a vida de seus familiares terrenos. Quando se negavam a obedecer, eram levados para o Limo Torturador, lugar ainda pior do que o Reino do Fogo. Essa situação tinha que terminar. É claro, decidiram o lado do paraíso. Agora, tinham que ir buscar a pedra na ribanceira. Os quatro amigos conseguiram chegar à Floresta Magic, com a ajuda de Brenda e Dorothy. Tom aproveitaria para ver a Sereia que estava no riacho imenso.
Tom, Isaura, Cauan e George foram para a ribanceira. Um monstro estava a sua espera, com o ônix na mão.
É isto que vocês estão procurando, meus jovens senhores?
Enganei todos vocês− afirmou Deloti − Sempre soube que a pedra estava aqui, na floresta Mágica. Só não podia entrar aqui e consegui chegar aqui com a ajuda de vocês, seus idiotas e deu uma forte gargalhada. Tom estremeceu. Teria que lutar contra esse monstro enorme. E se não recuperasse a pedra, ela iria acabar nas mãos de Eduardo e eles teriam perdido a guerra.
Capítulo 20 A DESCOBERTA DO ESCOLHIDO Diante do monstro com a pedra, Isaura teve uma ideia: temos que distraí−lo para poder pegar o ônix, sussurrou baixinho no ouvido de Cauan. Ao também escutar isso, George começou a falar mal do monstro para irritá−lo.
Você não é de nada mesmo. − dizia ele. − Se fosse tão bom assim, não seria escravo de um humano, que manda em você e você, seu retardado, só segue o que ele diz.
Tom, ao perceber a jogada, ajudou o amigo, dizendo:
Tá vendo como você não é de nada… Nem o poder de destruir a pedra você tem. − falou Tom. − Vai ter que levá−la para um mero humano destruí−la.
Viu como você não é de nada? − ressaltou George, com um sorriso malicioso. O monstro se virou para ele e foi atacá−lo. Deixou a pedra cair por um momento e foi arranhá−lo. A raiva do monstro era tanta que ele nem percebera que deixara o objeto cair.
Nesse momento, Isaura, que estava esperta foi pegar a pedra. A pedra rolou até suas mãos suadas, que as agarraram. Ao pegar, a pedra faiscou fogo e ela soltara a pedra de imediato. Não entendendo o que estava acontecendo, a pedra pegou fogo e sua mão ficou ardendo. Cauan foi então até a pedra para tentar pegá−la enquanto Tom e George distraiam Deloti. A pedra pulava da mão de Cauan cada vez que tentava segurá−la. O louro de olhos azuis falou:
Ande logo, Cauan, vamos sair daqui!
Não consigo pegar a pedra! − reclamou o garoto.
Não somos nem eu nem você o escolhido. Vá para o lugar de George para ele pegar a pedra. − correu para aonde George estava enquanto Tom lutara com o monstro.
George corre para o lugar que está a pedra. Nessa hora, o ônix sai rolando em direção a Tom. Ele não percebe que a pedra o está rodeando. Quando George ia gritar Cauan falou: fique quieto, se não o monstro poderá escutar e pegar a pedra. Isaura correu em direção a Tom, e tentou despistar o monstro.
É você o escolhido, Tom! − exclamou Isaura. − Ande logo.
Ele agarrou a pedra e de repente ele e seus amigos foram parar no Limo Tortura.
Capítulo 20 O LIMO TORTURADOR Eles avistaram muito mais espíritos do que havia no Reino do Fogo. Queimavam em um túnel de fogo. Deveria ser o esconderijo dos monstros, para quando não tivesse na mansão. Estavam todos acorrentados em relação ao fogo, e suspiravam, gemiam, se contorciam, dava até muita pena das pobres criaturas.
Tentaram avistar um monstro. Nenhum monstro a vista. Então eles avançaram diretamente até o túnel, aonde encontraram as almas penadas e tentaram desacorrentá−las. Tom usou o poder da pedra e não conseguiu libertá−los.
Não entendeu o por que não conseguira. − O mistério era: o ônix, na Batalha Final, salvava o que estava perto do perigo. Tom estava apenas na entrada do imenso túnel. Foi então que a pedra caiu das mãos de Tom e rolou até Isaura, que estava ao lado das criaturas. Isaura, com o ônix na mão, deu ordem e quase todos foram libertados. Foi quando Isaura chegou à conclusão que haviam se enganado.
Chegamos novamente à estaca a zero − Explicou. Não é Tom.
Aqui, na Batalha Final, a pedra obedece e ajuda somente um dos quatro que estiver em perigo. Neste momento, eles ouviram um uivo assustador que parecia de Ricochete. Aquele era o esconderijo de Eduardo Gomes.
Vamos, corram! − gritou Cauan, e mandou todos correrem.
Como são idiotas, observara Eduardo de longe. Realmente, está fácil demais − o Bicho Papão tem razão. Você viu, Deloti. A pedra obedeceu a garota. Realmente, é ela a escolhida do Paraíso.
Temos que nos focar somente nela, esqueçam os outros três insolentes. Ela é a única que poderá me destruir. Temos que matá−la e deu uma forte gargalhada.
Capítulo 21 A LUTA CONTRA RICOCHETE Deixe comigo − falou a Bruxa Véia. Essa jovem metida agora vai me pagar por tudo que me fez. Os quatro amigos continuaram a correr até que George não aguentou mais.
Parem. Estou ficando muito cansado e atordoado. Estou passando mal.
Os três pararam para socorrer o amigo.
Levante logo George− disse Isaura. Precisamos sair daqui.
Os uivos de Ricochete estavam cada vez mais próximos.
Vamos, lute. Levanta− falou Cauan que, ao tentar levantar o amigo, percebeu que George estava se transformando e deu um berro.− Corram, George está se transformando no Lobisomem.
Deixaram George no chão e afastaram−se rapidamente dele.
Em apenas alguns minutos, Ricochete já estava lutando com o Lobisomem. Os três, porém, não olharam para trás, só escutaram os uivos e os ataques. − Até que perceberam que, um deles havia perdido a briga.
Pararam anestesiados. Quem seria? − De repente Ricochete pulou no pescoço de Tom. Jogue−me a pedra, Isaura. − Implorava Tom. Isaura, com medo de Ricochete pegá−la tentava, desesperadamente, ordená−la para que tirassem eles dali, mas nada acontecera− Quando viu que Tom já estava quase morto, resolveu jogar a pedra. A pedra caiu muito longe de Tom que não teve forças para alcançá−la. Ricochete, então, conseguiu pegá−la. E disse:
Agora é a hora. Vou levá−la para o meu chefe destruí−la e depois mataremos todos vocês e sumiu.
Tom não entendera porque a pedra não caiu em suas mãos. Isaura correu para ver o amigo, quase desmaiado que respondeu:
Estou bem Isaura, não se preocupe. Temos agora que conseguir chegar lá em cima do túnel, onde está Eduardo.
Cauan se aproximou e falou:
A pedra verdadeira está comigo, Tom, eu a substitui por outra mais ou menos parecida. Achei a que Isaura jogou, na entrada do túnel.
Assim que Eduardo vê−la, vai saber que é falsa e voltará aqui. Temos que correr.
Tom não aguentara. Estava muito fraco e machucado. Enquanto isso, Ricochete, todo orgulhoso, foi entregar a pedra ao chefe.
Capítulo 22 A DESTRUIÇÃO DE RICOCHETE Assim que Eduardo olhara a pedra, gritou:− seu burro, insolente, tonto. Deixou se enganar por três pirralhos.
Ricochete arregalou−se, como assim, meu chefe?
A pedra é falsa e, por sinal, bem diferente do ônix. Você está daltônico? Essa pedra é azul escuro, além de ser menor que o ônix. Ricochete ajoelhou−se aos pés de Eduardo e clamou: −Perdoe−me, chefe. Imploro a sua misericórdia. Vou até lá e trago Isaura até ti.
Eduardo deu uma gargalhada. Não estamos no paraíso para eu ter misericórdia. Você sabe como são as regras aqui. Pensei que havia escolhido bem os subalternos para reinarem junto comigo no meu castelo. Em relação a você eu errei.
Em seu lugar, deveria ter trazido do Reino do Fogo, comigo para o Limo, Pichetim − o monstro do lamaçal.
Você sabe que aqui não existe nem o perdão e nem a misericórdia.
Ricochete sabia que chegara o seu fim, porém pediu para o seu chefe que não o matasse de acordo com a regra de número oito− que era realizada por Gigabyte. Onde o monstro ia aos poucos, comendo e destroçando todas as partes da vítima, começando pelo órgão genital e terminando na cabeça.
Posso ao menos ser destruído pela regra cinco, meu chefe? − Essa era mais rápida e com menos sofrimento. Era feita pela Bruxa Véia que, apenas com uma palavra, matava as suas vítimas.
Não pode ser pela regra cinco não. Respondeu Eduardo rancoroso. As ordens aqui são muito claras.
Você descumpriu e feriu os princípios da regra oito, portanto será destruído por Gigabyte.
Na mesma hora, Gigabyte adentrou na sala e fez o serviço completo. Ricochete fora destruído pela sua própria organização.
Capítulo 23 A APARIÇÃO DE BRENDA Tom continuava caído e sem forças. Não entendiam porque a pedra não tirava eles dali. A pedra deveria lhe obedecer, afinal,
tudo apontava para ele ser o escolhido. Isaura cuidou de seus ferimentos. Tom a olhava com ternura e com um certo medo a medida que Cauan se aproximava. Sabia que aqueles dois iriam acabar juntos, por mais que Cauan dissesse amar Vitória.
A dor vai passar. − prometeu−lhe Isaura, enquanto lhe acariciava o rosto. − A gente vai vencer, você vai ver. Vamos voltar para casa felizes e nem o mundo terráqueo nem o paraíso serão destruídos. Enquanto ela lhe dizia isso, Deloti apareceu em frente a Cauan, que assistia a cena com um sorriso melancólico nos lábios.
Aonde está a menina? − vociferou o animal, enquanto que Cauan estremecia.
Não está em lugar nenhum.− lhe respondeu.
Está mentindo.
O monstro foi na direção de Cauan e logo nessa hora a transformação de George aconteceu. Ele uivava de dor enquanto que seu corpo mudava na parte inferior para o de um lobo.
Corram! − alertou Cauan e a partir dali foram pernas para quem te quero. Cauan, Tom e Isaura correram até despistar o lobo e tentaram dormir, tentativa falha, e ficaram ali até o dia seguinte.
Será que ele já voltou ao normal? − preocupou−se Isaura.
É o que iremos ver. − lhe respondeu Cauan.
Eles procuraram George por todos os cantos até encontrar o lobisomem a beira da morte no chão.
Ele lutou contra Deloti. − adivinhou Cauan.
Ele vai nos atacar − temeu Isaura.
Ele não tem forças nem para se levantar − negou Tom.
Então, de repente, o lobisomem deu lugar ao corpo muito ferido de George. Ele estava quase morto. Isaura tentou cuidar de seus ferimentos. Cauan e Tom se culpavam. Então Brenda apareceu a eles, pois George pensava que o melhor era morrer para ficar junto a ela.
Meu amor, quando vocês vencerem a guerra terão a escolha de ir para o paraíso ou voltarem para a Terra. − ela lhe consolou.
Enquanto isso, seja forte por mim e lute. George somente assentiu fracamente com a cabeça e desmaiou.
Capítulo 24 O CONFRONTO FINAL COM BRUXA VÉIA Isaura cuidou dos ferimentos de George e o grupo continuou seu caminho sem rumo. Tinham que deter os monstros um por um, até chegar em Eduardo. Naquela altura, até esqueceram−se de Bruxa Véia, que estava planejando uma vingança contra Tom. Quando eles menos esperavam, ela apareceu para eles com seus cabelos ensebados e olhos vermelhos cor de sangue.
Vocês não me escapam! − ela deu um riso cínico e Tom agarrou a Pedra para que nada acontecesse a ele e seus amigos.
Você vai sair da nossa vida de vez sua velha doida! − berrou Isaura e avançou em direção da bruxa não sem antes de pegar a pedra nas mãos de Tom.
Mour. − ela gritou e nada aconteceu. Enraivada, ela foi com toda a sua força para cima de Isaura, que esbravejou de dor ao ter seu pescoço esfolado e deixou a pedra cair.
Essa não! Cauan ficou trêmulo no mesmo lugar. Tom pegou a pedra que estava ao chão e esfregou−a na bruxa, que soltou Isaura e gemeu de dor, começando a sentir seu corpo queimar.
Seu menino insolente!
Tom continuou esfregando a pedra e começou a desferir socos e chutes na velha bruxa. Ela gemia de dor. Nenhum de seus feitiços funcionava pois agora Tom sabia como controlar a pedra. Tom a esfolou no pescoço. Prestes a se desintegrar, ela deu um aviso a Tom:
Cuidado.
Tom se sentiu confuso.
Eles te obrigam a fazer coisas que você não quer. Eduardo controla seu corpo que nem marionete. Os padres de Idade Média trabalhavam para os monstros no Mundo Infernal.
Aquela era uma história difícil de acreditar. Então bruxa começou a contar:
"Nasci num vilarejo comum no Condado. Tive uma vida de princesa, era bonita e cheia de vida, quem me visse quando pequena nunca esperaria que eu me tornasse essa velha horrível que me tornei. Tenho o poder de me transfigurar, porém. Cresci tentando controlar meus poderes mágicos, minha família inteira era de magos e nós escapávamos da Inquisição que queimava bruxas e inocentes que pensavam serem bruxas na fogueira. Um dia, eles me encontraram. Não passei no teste do afogamento. Fui para a fogueira e vim para o Mundo Infernal. Fiquei anos ardendo no fogo do inferno até que Ricochete e os outros monstros me tiraram de lá porque eu tinha potencial para me vingar, o que eu não sabia era que os padres da Inquisição trabalhavam para eles. Enganaram−me." Tom raciocinou. Será que Padre Pedro era também culpado?
"Só descobri no fim de minha vida. Não tenho muitas forças, logo morrerei de vez…"
Bruxa Véia iria dizer mais alguma coisa, mas suas órbitas tornaram−se brancas. Ela tinha morrido. Nunca mais poderia matar padres ou atacá−los novamente. Tom, porém, em vez de alívio, sentiu pena da bruxa pela história que ouviu. Depois lembrou−se do que ela fez com Brenda e sentiu−se vingado. Agora, tinham que ir deter os padres e Eduardo antes que os monstros tomassem conta de tudo.
Capítulo 25 OS PADRES E OS MONSTROS Tom e seus amigos refletiram por um bom tempo sobre o que a bruxa tinha lhes dito. Depois, foram diretamente para o esconderijo de Eduardo, aonde se preparavam para ver os monstros saindo de lá de dentro. Deloti saiu de lá, juntamente a quase todos os que eles tinham enfrentado no Mundo Infernal menos Ricochete. Era a hora da guerra.
Tom chamou silenciosamente por Brenda e Dorothy, que levaram a tropa do paraíso para lá. Quem deu o primeiro passo foi Deloti. Ele avançou para cima de Tom, e o menino agarrou−se a pedra e pediu para que ela o levasse para longe. Isso aconteceu.
Aonde está o homem? − Deloti vociferou.
Logo, sentiu um baque em suas costas que quase o desmontou. Tom tinha o atacado com a pedra.
Estou aqui!
Antes que Deloti tivesse forças para retrucar, Tom botou a pedra com dificuldade em seu ferimento, o que fez com que o monstro pegasse fogo e se desintegrasse.
AH!
Tom levou as mãos aos olhos para não ver o fim daquela horrível visão. Enquanto isso, seus amigos lutavam contra os monstros. Tom se perguntou aonde estavam os padres e Eduardo. Pareciam estar ganhando a batalha. Ele viu Gigabyte atacar Isaura e correu para ajudá−la. Ela estava ao chão, então Tom atacou Gigabyte com um chute que o fez cambalear. Então ele começou a esfregar a pedra em seu corpo. Ele começou a pegar fogo.
Cauan lutava contra Pichetim, o monstro do lamaçal. Ele era um monstro que parecia ser feito de barro e tijolo. Estava ganhando a luta, surpreendentemente.
Esse garoto é muito forte!
Cauan não era forte nem musculoso, mas parecia ser mestre em Karatê. Isaura olhou−o orgulhosa, mas sentiu um golpe em suas costas. Era um homem vestido todo de branco e com cabelo todo branco. Era um padre. Tom olhou em volta e percebeu que todos os padres haviam chegado. Eram exatamente dez.
Isaura!
Ele avançou em direção ao padre. George, porém, foi mais rápido e tirou Isaura das mãos do padre, desferindo−lhe um soco.
Isaura agradeceu silenciosamente. Dentre todos os padres, Tom identificou um que dissipou−lhe as dúvidas que havia tido antes.
Padre Pedro!
O homem virou−se para vê−lo. Ele lhe sorriu simpaticamente, o que Tom não entendeu. Então, em um só golpe, Padre Pedro derrubou cinco outros padres. Ele entendeu que ele estava ali para ajudá−lo. Tom começou a lutar contra o padre que havia atingido Isaura. Começou a esfregar a pedra e ele uivou de dor. Padre Pedro trazia uma lança, que ele atirou no coração dos cinco que estavam ao chão. Faltavam outros quatro.
Cauan vencera a luta contra Pichetim sem a ajuda da pedra ou de seus amigos. Logo ele atingiu um padre, prendendo−o ao chão. Tom jogou−lhe a pedra e ele passou no homem, desintegrando−o. Ele uivava de dor até desaparecer entre as chamas.
Isaura desferiu um chute em outro padre mais jovem, enquanto Padre Pedro jogou sua lança em mais dois, que caíram mortos ao chão. Tom lutava com o último. Cauan jogou a pedra para Tom, que atingiu o que estava lutando contra ele. Padre Pedro jogou a lança para o que estava lutando contra Isaura. Todos os padres estavam mortos. De repente, o Lobisomem e o Bicho Papão apareceram.
Ah, não… − gemeu Tom. Pensava que a batalha já estava vencida. George foi com toda sua força contra o lobisomem, que tentou mordê−lo, mas recebeu um soco na fuça. Ele enfim mordeu−o na perna esquerda, o que fez George ir ao chão.
George! − gritou Isaura, e foi ajudá−lo. Cauan e Tom detinham o Bicho−Papão com a ajuda de Padre Pedro. De repente, Isaura percebeu que Bicho Papão tinha se desintegrado. O Lobisomem parecia cada vez maior, para seu temor, mas então padre Pedro lançou sua lança, que atravessou seu peito de humano e ele caiu ao chão. Tom esfregou a pedra e ele também pegou fogo. Logo desapareceu.
Capítulo 26 A HISTÓRIA DE PADRE PEDRO Obrigado. − disse Tom sinceramente para Padre Pedro. − Por que não ajudou os outros padres?
Vou contar−lhes minha história. − falou o padre. − Que explicara tudo. Os menino lhes olharam ansiosos.
"Eu era um historiador antes de me tornar um padre. Sabia tudo sobre a Inquisição, a sujeira da Igreja Católica na Idade Média. Naquela época, eu não sabia que bruxas existiam. Na verdade, não soube até que morri por causa de uma…"
Então foi realmente a Bruxa Véia que te matou? − indagou Isaura curiosa.
Foi sim. Mas não a culpo. Ela foi presa por anos em um espelho e quando retornou… Bem, ela achava que padres eram todos iguais. Ele continuou.
"Virei padre após perder o amor de minha vida para o meu melhor amigo. Bem, eles mudaram para bem longe depois dela se decidir por ele. Comecei a me interessar ainda mais sobre a Inquisição, o que me fez enojar dos podres da Igreja da época. Claro que eu não sabia que havia vítima da fogueira que não era inocente".
Também foi surpresa para gente. − admitiu Tom.
"O dia em que ela me matou foi o mais feliz de minha vida. Após anos, meu antigo amor veio se confessar. Foi dizer que me amava e só havia descoberto isso quando meu ex−melhor amigo não se equiparou ao meu jeito amável, ela percebeu que ele não a amava como ela achava. E o que ela sentia por ele não era amor. Eu falei que ia pensar. Mas então a bruxa foi se confessar, em uma outra aparência, de uma moça linda de cabelos louros e corpo jovem".
Todos se apiedaram do padre. Enquanto ele contava aquilo, Isaura tinha sua cabeça encostada no ombro de Cauan, que corava. Foi então que Tom percebeu que quem Isaura amava… Não era ele. Lhe doeu, mas o que ele mais queria ela vê−la feliz. Então, decidiu que ela teria a chance de realmente ser sincera.
Isaura. − ele a chamou. − Vamos conversar.
A garota assentiu e foi até ele.
Diga bem alto. − ele falou alto. − Quem você realmente ama? Eu ou Cauan?
A garota pareceu se surpreender com a pergunta direta a repentina.
Eu… − a garota abaixou a cabeça. Cauan era atrapalhado, um pouco medroso, mas foi corajoso na luta contra os monstros. Ele tinha uma namorada e desde a primeira vez que o vira com ela Isaura sentiu um ciúme doentio, o que fez com que ela se separasse de Tom. Não era bonito, mas também não era feio. E ela não se importaria se fosse. Já Tom… Sempre a salvando, apesar de Cauan também ter feito isso às vezes. Corajoso, bonito, seu melhor amigo, o dono de seu primeiro beijo (mesmo que ele não soubesse)… Ela temeu ter feito a escolha errada, mas por fim disse.
Cauan.
O garoto moreno se surpreendeu. E então abriu um grande sorriso. George permaneceu frívolo enquanto Tom sentia as lágrimas surgirem, mas não deixou que caíssem. As limpou antes que lhe descessem pelo rosto.
Eu já imaginava.
Isaura sentiu um aperto no peito. Cauan, em um impulso, tomou−a pelos braços e deu−lhe um beijo de tirar um fôlego. Tom assistiu a isso calado. Quando o beijo terminou, ele falou:
Quando voltarmos para o nosso mundo, se Deus quiser, termino com Vitória.
A menina lhe sorriu. Era o dia mais feliz da vida de Cauan. Então, Tom resolveu fazer o mesmo que Padre Pedro fez.
Eu acho que vou virar Padre. Todos olharam−no surpresos.
Terão muitas garotas para você. − tentou impedi−lo George.
Para mim, só tem uma. E ela não me quer.
Isaura olhou para baixo. Tentou controlar as lágrimas e não conseguiu.
Me desculpe amigo…
Não é sua culpa, Cauan. Nem a dela se ela o ama. − Tom interrompeu e deu um sorriso tímido. − Agora vamos deter Eduardo. Desejo sorte para todos.
Capítulo 27 OS MISTÉRIOS Chegaram onde Eduardo estava. Observavam calados e escondidos atrás de uma imensa estante, com milhares de livros, de dvds e de CDs. Isaura logo pensou: para que será tudo isso?
Foram anos e anos de estudos de Eduardo que com um controle na mão, ia passando por alguns objetos da estante e observava calmamente cada um deles.
Cada um mostrava um fato: como descobriu que era o enviado para destruir a terra e o paraíso.
Quando criança tinha sonhos horríveis. Descobriu que viveu em várias épocas, uma delas foi na Inquisição, onde conheceu padre Pedro− que na época não era padre e lutava contra os padres que queimavam pessoas inocentes na fogueira. Padre Pedro ao ver levou um susto e deu um berro.
−Na hora, Cauan tapou sua boca.
Fique quieto, padre. Ele não pode perceber que estamos aqui.− sussurrou baixinho.
Mas, o que isso significa? − Indagou curioso.
São mistérios, mistérios… falou George. Como pode? Não lembro de ter feito nada do que estamos vendo.
Isaura que encontrava−se pensativa, disse:
Já li livros sobre reencarnação. São filosofias que afirmam que cada um, dependendo de como agir na terra, vai para estágios diferentes: uns vão para o paraíso, outros para o umbral, outros para hospitais. Todos os estágios, como são chamados, nos levam à encarnação, ou seja, somos preparados para nascemos várias vezes para aprendermos com os nossos erros. Acho que o umbral é o Mundo Infernal, ainda não sei. Mas um dia vou saber se são lugares diferentes, ou se há diferença apenas na denominação. Credo, Isaura. O Mundo Infernal faz parte da profecia, não tem nada a ver com o que você está falando− sussurrou Tom.
São mistérios, mistérios…resmungou George.
Da onde você tirou essa maluquice? Pelo que sei, foi Jesus Cristo que ressuscitou ao terceiro dia e foi o Messias − veio para salvar a humanidade e nos tirar do pecado. − disse Cauan.
Não sei, não. Falou George. Vocês não acham que se Jesus Cristo foi mesmo o tal Messias e morreu para nos salvar do pecado, porque então pecamos e sofremos tanto? Indagou George.
Meu filho− disse padre Pedro. Nós temos o livre arbítrio para escolhermos os nossos caminhos. De seguir o bem ou o mal.
Padre. O seu parecer não vale. O senhor estudou para ser um padre. Dentro dos ensinamentos e princípios da igreja católica. Disse Isaura, que completou:
Há livros que afirmam isso que eu falei e posso te mostrar, Cauan, quando voltarmos a terra.
Não acredite nesses livros, Isaura e sim na Bíblia− disse Cauan chocado com as palavras da amada.
−E o que é a Bíblia, Cauan, também não é um livro? A prova está no que estamos vendo. Uns acreditam nisso, outros que quando morremos, é como estivéssemos dormindo e não acordamos nunca mais. Cada um acredita no que quiser e temos que respeitar. O fato é que sabemos que há vida após a morte, não é padre. O senhor já morreu e no entanto está aqui com a gente e já viveu em outras vidas,
como Eduardo está mostrando. Não vê a história que a Bruxa Véia contou…ela já havia morrido. E a nossa amiga Brenda que aparece para nos ajudar? E a Dorothy?
Então meu amor, isso pode ser verdade e não são maluquices. Se contarmos para outras pessoas o que está acontecendo com a gente, a respeito da profecia, quem iria acreditar?
Com certeza iríamos parar em um hospício. Pensariam que estamos malucos.− respondeu Tom.
Que há vida após a morte, é fato, minha filha. Mas o único que ressuscitou e voltou novamente para a terra, foi só Jesus Cristo − tentou explicar o padre.
O padre está certo, Isaura.− falou Cauan.
Então o que estamos vendo? O padre Pedro está lutando em outra época que não era padre para impedir que pessoas sejam queimadas. É ilusão? mentira? − falou George.
Padre− disse Isaura. Fui criada na igreja católica e batizada quando bebê porque minha mãe fala que a criança tem que ser batizada porque não pode ficar pagã.
Respeito isso, porém não significa que eu concordo. Porque eu não pude então escolher os meus padrinhos? Não podemos ser hipócritas. O próprio padre sabe que muitos adolescentes se dizem católicos, mas, quando crianças são obrigados a ir á igreja pelos pais, quando crescem um pouco, não mas os acompanham e só aparecem na igreja quando precisam se confessar ou para casar. Eu mesma padre, pretendo me casar na igreja católica por respeito aos meus pais. Dizem que as moças sonham em casar de véu e grinalda e de branco, com daminhas de honra. Hora, padre. Também sabemos que o véu a e grinalda representam a virgindade, o branco, a pureza e as daminhas a honra. Que virgindade, pureza e honra são essas nos dias de hoje?
Na noite anterior, padre, me entreguei de corpo e alma ao homem que amo, mas mesmo assim vou casar de véu e grinalda na igreja católica para agradar os meus pais e estar dentro dos princípios da sociedade de Patos.
Nesta hora, Cauan ficou com o rosto vermelho como um pimentão, envergonhado. Tom, ao escutar, não conseguiu conter as lágrimas que caíam em sua face e ficou em silêncio com os seus pensamentos. "Namorei Isaura tantos anos na cidade e não consegui fazer amor com ela. Como aqui, nessa situação, os dois ainda tiveram cabeça para fazer amor?".
Quanto mais se mantinha entretido em seus pensamentos, mais o seu peito apertava de tanta dor. Foi quando George, percebendo a angústia do amigo, resolveu abraçá−lo:
Não fique assim , meu amigo. Logo essa dor vai passar. Foi quando uma ventania forte invadiu o local derrubando alguns livros e CDs da estante, levando todos a ficarem esticados no chão para não serem vistos, e uma voz do além indagou:
Quem está aqui. Quem está entre nós Eduardo? Não sentistes o cheiro dos humanos? Porque resolveu agora ver as suas encarnações? As explicações e ensinamentos que eu lhe dei, não foram suficientes durante esses séculos?
Todos permaneciam esticados no chão e trêmulos, até mesmo o padre Pedro. Da onde viria essa voz rouca e forte? Quem estaria falando?
Capítulo 28 O MAIORAL DO MUNDO INFERNAL Desculpe−me amo− respondeu Eduardo que completou:
Estava muito distraído. Não percebi a presença deles.
Procure−os e mate todos. Escolhi você para a profecia, entre milhares dos meus seguidores. Quando estavas no abismo, sendo torturado e sentindo muita dor, bastou chamar por mim uma única vez e eu te trouxe para ficar comigo no meu reino. Te dei livre arbítrio para escolher os teus seguidores para ajudá−lo na Batalha Final, porém fracassastes e perdestes todos eles. Quando te tirei do abismo falei o que eu queria em troca e você, para se livrar logo da dor, aceitou o meu convite. Não teve sabedoria e nem paciência em continuar clamando pelo outro senhor, que não podemos falar o nome dele aqui, para que ele enviasse− você sabe quem − para tirá−lo da tortura. Sempre soubestes que seria o meu escravo por toda a eternidade e que não poderia fracassar na missão que eu lhe dei. Fui bem claro e em nenhum momento te enganei e nem menti para ti, como estou acostumado a fazer com os outros para conquistar cada vez mais seguidores.
És um fraco. Até agora não sabes quem é o escolhido do paraíso para a Batalha.
Não, meu amo. Está enganado. Sei muito bem quem é. É a moça, falou Eduardo.
Eu sempre soube quem é o escolhido do paraíso. Durante séculos, entreguei a você as encarnações dos quatro, para você estudar e analisar e deixou−se basear em apenas um fato que ocorreu já no tempo em que a profecia está para acontecer.
Ignorastes todas as outras encarnações. − explicou a voz rouca.
Não meu amo. Por isso que estava revendo tudo. − tentou defender−se Eduardo.
Seu tolo. Estás mentindo para mim. Estava tentando rever tudo porque sabes que fracassastes na missão que eu te dei e para descobrir como me destruir. Não tente me enganar que será pior para ti.
Não sei o que fazer agora, amo. Perdi todos os meus seguidores. Alguns tive até que destruir de acordo com as regras porque não cumpriram ou falharam no que determinei. Peço a tua misericórdia e o teu perdão.
Nesta hora, a voz rouca deu uma gargalhada.
Tu sabes muito bem que aqui não há misericórdia e nem perdão. Agora chegou a sua vez.
Mas amo, todos os seguidores das regras foram destruídos, Bruxa Véia, da regra cinco, Gigabyte, da regra 8, Ricochete, da regra 6, Deloti, da regra 4, Bicho−papão; todos meu amo. Que regras pregarás para mim?
Você será lançado a sorte. Respondeu o amo e afirmou:− Não terás minha ajuda na Batalha. Se venceres o escolhido da profecia e sua tropa, ficará no meu reino, que dominará a terra e o paraíso, mas será julgado e castigado pelos maiorais.
E se eu perder, meu amo?
Se perderes, será destruído de vez. Não terás chance de se redimir no paraíso, pois a profecia é clara: ou você vive ou o escolhido, entendeu?
Mas precisarei da tua ajuda, meu amo. Se eu for destruído, todo o teu reino o será.
A voz rouca deu uma gargalhada e respondeu:
Seu idiota. O meu reino será destruído porque no momento não terei mais seguidores. Mas eu nunca serei destruído, e terei que começar tudo de novo.
Conseguir seguidores, até atingir um exército novamente para tirar a paz e conseguir destruir a terra e o paraíso de vez, sou eterno− deu outra gargalhada e continuou:
Assim como, se você conseguir destruir o escolhido do outro lado, o reino do paraíso e da terra serão destruídos, mas o todo poderoso não, entendes? Mas, se conseguires vencer essa batalha, será quase impossível o todo poderoso− que não posso falar o nome aqui, conseguir procriar seres dele e criar a terra e o paraíso novamente, começará da estaca a zero. Enquanto isso, os meus vão procriar e dar os meus ensinamentos para os seus e então, dominaremos tudo, absolutamente tudo. O que eu não posso é descumprir a profecia, pois ela foi selada há milênios entre o bem e o mal. O resto eu não posso revelar. Por isso, não posso destruir você, seu estúpido, insolente. Mas posso muito bem, te deixar sozinho e não te ajudar. E é isso que eu vou fazer.
Não se vá ainda, amo. − Gritou Eduardo, ao sentir que o seu amo já estava partindo. Eles já estão aqui, né? Dá para me dizer aonde estão escondidos e qual deles é o escolhido do paraíso?
Seu amo, porém, deu uma gargalhada e sumiu deixando Eduardo sozinho para a grande Batalha.
Todos escutaram a conversa entre Eduardo e o seu amo, anestesiados.
Acho que ele já se foi − sussurrou Isaura.
E agora, o que faremos? − perguntou George Ficaremos aqui quietinhos até o envio do sinal. − explicou padre Pedro.
Mas, que sinal é esse ? − perguntou Tom.
Na hora certa, saberemos. Capítulo 29 A BATALHA FINAL Eduardo estava apavorado. Andava de um lado para o outro. Às vezes sumia e quando aparecia trazia munições. Os quatro permaneciam escondidos e não tinham noção do tempo em que já estavam ali. A fome, a sede, o cansaço de ficar na mesma posição esticados ao chão sem se mover− quando Eduardo aparecia, e nada acontecia.
Uma das vezes que Eduardo sumiu, Isaura, quase desmaiando de fome levantou e começou a vasculhar todo o local a procura de alimento, deixando os demais preocupados. Achou alimentos e água.
Toda vez que Eduardo sumia, eles conseguiam beber água e pegar alimentos do próprio Eduardo que, quando retornava, ficava furioso com o sumiço da comida e procurava−os por todos os cantos praguejando. "Quando eu achar vocês, seus insolentes, antes de matá−los, vou torturá−los, um por um".
Toda vez que Eduardo ia procurá−los na estante, eles conseguiam se enfiar em um canto que Eduardo não alcançava e não conseguia empurrar a estante, por ser imensa e muito pesada. Eduardo pensava:
Eles não podem estar aqui. Como iriam conseguir se enfiar naquele canto? Só se virassem baratas. O tempo foi passando até que , os vômitos e desmaios de Isaura começaram a ficar cada vez mais frequentes. Desconfiada com a sua gravidez, Isaura pediu ao padre para se confessar. Ao mesmo tempo que Cauan ficou feliz ao saber que iria ser pai, ficou aflito por não saber o que iria acontecer e quanto tempo ainda iam permanecer naquele lugar fétido.
O tempo foi passando, até que chegou um momento em que Isaura começou a chorar desesperadamente ao perceber que sua barriga já estava crescendo. Cauan, ao invés de confortar a amada, também chorava junto com ela. Tom, por sua vez, tentava acalentar os dois. George, que não era católico, começou a rezar junto com padre Pedro. Até que não aguentou mais e falou:
Fomos enganados. Essa profecia não existe, padre. Vamos morrer aqui. Onde estão os seres do paraíso? Onde está Brenda e Dorothy? Onde está Deus?
Não blasfeme, meu filho. Tudo acontece na hora certa. Quando a hora chegar, receberemos o sinal.
Que sinal é esse padre?
Não sei. Mas receberemos o sinal. Isaura e Cauan estavam mais calmos.
George continuou conversando com padre Pedro.
Padre, não entendo como fui escolhido para fazer parte dos quatro amigos da profecia do paraíso, se não sou católico.
Padre Pedro, um pouco atordoado com a declaração de George, resolveu calar−se naquele momento. Foi quando Tom explanou a sua opinião:
Acho George, que não depende de religião, diante de tudo que vimos e passamos até agora. Depende das nossas atitudes. Somos pessoas boas, do começando a acreditar em encarnação. Por tudo que Eduardo mostrou, nós colhemos o que plantamos, tanto para nós mesmos como para os outros. É a lei da ação e reação, que é chamada a lei do carma.
Como vimos, nós quatro já vivemos em outras vidas juntos. Erramos e conseguimos aprender com os nossos erros e hoje voltamos com a missão de se fazer cumprir a profecia. Não importa a nossa religião e sim o nosso eu, entende? Apesar das provações e sofrimentos que passamos nas encarnações que vimos, sempre escolhemos o mesmo lado: o lado do bem. E pelo jeito, é isso o que importa para as leis.
George que escutou atentamente as explicações do amigo, abraçou−o fortemente. Os outros se juntaram aos dois e todos começaram a chorar, quando, de repente, uma luz forte invadiu o lugar.
Neste momento, Eduardo não estava. Brenda apareceu e falou:
A hora é agora. Eduardo não ficará sozinho. O seu amo não quer de nenhum jeito perder a batalha e falou aquilo para deixá−lo apavorado por ter perdido os seus seguidores. Todas as novas almas que chegam a cada minuto no Mundo Infernal serão transportadas para cá. Estejam preparados.
George abraçou sua amada e começou a chorar como criança.
Brenda, te amo e você terá orgulho de mim. Lutarei como um vencedor.
Eu sei disso querido, sorriu ela. Pois haviam descoberto que eram almas gêmeas. Se encontraram e se perderam em várias encarnações, mas sabiam que já estava chegando a hora de não se separarem mais.
De repente, começou a soar barulhos de trovões ensurdecedores. O lugar começou a tremer e o chão, de fronte a estante, a se abrir. Cadáveres começaram a surgir e se levantar do chão junto com bichos que eles nunca haviam visto. O pavor começou a tomar conta do local. Eram gritos,uivos, parecia uma casa do terror. A luta havia começado. Cada vez mais,seres horríveis iam aparecendo. Cauan pediu para Isaura que permanece ali na estante e ficasse calada porque não tinha condições de lutar, estava muito barriguda. Pois Cauan percebera que não conseguiam atingir a estante, só não sabia o motivo. A estante estava imune e protegida pelos seres do paraíso porque Isaura, embora não soubesse, estava prestes a dar à luz.
Enquanto os seres horríveis iam surgindo do chão, os seres de luz iam surgindo de cima, envoltos sobre uma forte luz branca. Eduardo, só dava ordens aos monstros e cadáveres e, conforme o seu amo, sabia que o escolhido, não era Isaura. Por isso decidiu não procurá−la e fixou−se primeiramente em Cauan, que lutava juntamente com George.
Mas, aonde estaria o ônix a essas alturas? Eduardo teria que primeiro recuperar a pedra para depois atacar Cauan e lembrou− se que , a última vez que viu a pedra, ela estava com Isaura que encontrava−se sumida naquele momento.
Procurou−a por toda a parte, sem sucesso. George fora atingido por um golpe forte na cabeça por um dos monstros e desmaiou. Padre Pedro acertava golpes certeiros, como se fosse um exímio lutador, mas nunca havia lutado assim antes, pelo menos em sua última encarnação. Já Tom, com a pedra em seu bolso, lutava com os monstros até conseguir chegar em Eduardo. Cauan conseguiu arrastar George, desmaiado, para junto de Isaura na estante, temendo que seu amigo já estivesse morto, pois estava muito ensanguentado ao chão. A luta entre os seres da luz e do mundo infernal permaneceu por três dias seguidos, sem interrupção. Nessas alturas, tanto padre Pedro, como Cauan e Tom estavam muito machucados e fracos.
Pois já estavam dias lutando sem comer e beber. Como tinha pouca comida e água, os amigos davam à Isaura e não comiam e nem bebiam, com medo de faltar para a amiga, que não podia ficar sem. George continuava desmaiado no chão.
Quando tudo serenou, barulhos ensurdecedores de trovões voltaram a soar. O chão, de fronte a estante que havia se fechado para o confronto, abriu−se novamente e em questão de minutos, sugou todos os cadáveres e monstros que já estavam destruídos e fechou−se novamente, exceto Eduardo, pois ninguém poderia matá−lo, nem mesmo os seres do paraíso, somente o enviado pela profecia. Os seres do paraíso continuaram no lugar. Dorothy aproximou−se de Tom e falou:
Preste bem atenção, Tom. Já sabes, pela tuas encarnações, que és o escolhido do paraíso e o porquê George, Cauan e Isaura foram escolhidos para participarem dessa missão junto contigo. Não há mais monstros, conseguimos destruí−los. As centenas de almas que eram para continuar chegando no mundo infernal, não conseguem mais chegar até aqui.
Estão em outro estágio, aguardando a luta entre você e Eduardo. Se Eduardo ganhar, dominarão com ele e o seu amo todo o mundo. Se perder, elas serão redimidas ao paraíso. Portanto, não só a Terra e o paraíso, mas também a salvação e libertação dessas almas que tanto pecaram em sua última encarnação, depende de você. Conseguimos com sucesso, chegar até aqui, não falhe agora, e logo em seguida, desapareceu com os outros seres de luz. Mesmo estando muito machucado e fraco, Tom sentia−se calmo, forte e protegido. Pois Esse pensamento o fortificou para a luta entre ele e Eduardo que estava prestes a começar. Tom foi até os seus amigos que estavam escondidos na estante e contou a eles o que Dorothy havia falado. Padre Pedro havia desaparecido junto com os seres de luz.
Tom explicou:
A missão de vocês já findou. Agora a luta só pode ser entre mim e Eduardo. Se eu estiver perdendo, nenhum de vocês poderão se intrometer entre nós, entenderam?
Os três nada disseram. Apenas balançaram a cabeça no sentido positivo. George já estava bem a essas alturas. Antes dos seres de luz partirem, Brenda, sua amada, chegou até ele e derramou raios de luz sobre o seu corpo ensanguentado e, em questões de segundos, George despertou, pois não havia morrido, estava apenas desmaiado.
De repente, sentiram a presença de Eduardo. Tom deu um jeito de sair da estante, sem que Eduardo o visse e seus amigos permaneceram no mesmo lugar. Aproximou−se de Eduardo, pelas suas costas e falou com voz alta:
Estou aqui Eduardo Gomes. Vire−se e venha para a luta. Pois já sabes que sou eu o escolhido da profecia e não adianta fugir e nem pedir socorro ao seu amo.
Eduardo virou−se furioso.
Quem diria hein? Você, logo você, um burro insolente, ser o escolhido do paraíso. Tom, com um sorriso malicioso, respondeu:
Pelos menos, os meus três amigos da profecia continuam vivos, já os seus seguidores…
Cale essa boca! − Gritou Eduardo, dando um bofetão no rosto de Tom, que foi parar longe. Nesse momento, pulou em cima de Tom e começou a socá−lo por todo o corpo. Tom, com peso de Eduardo em cima dele, não conseguia pegar a pedra em seu bolso. Vendo que o amigo estava sendo socado constantemente e paralisado, George tentou sair da estante para ajudá−lo, mas não conseguiu sair. Parecia que uma parede invisível o impedia de passar para o outro lado. Foi quando Cauan disse ao amigo:
Não adianta, George. Lembre−se; agora é entre Tom e Eduardo, não podemos interferir. Só nos resta rezar.
George esmurrou a parede de vidro, mas de nada adiantou, só conseguiu causar ferimentos em suas mãos. Enquanto Tom tentava tirar Eduardo de cima dele para conseguir pegar a pedra, Isaura, do outro lado da parede, começou a sentir as dores do parto. Cauan ficou apavorado, pois não sabia o que fazer. George afastou Cauan de Isaura e tentou ajudar a amiga, ensinando− lhe a respiração e como deveria fazer conforme as contrações iam aumentando. Tom a essas alturas, já tinha conseguido tirar Eduardo de cima e lutava como um guerreiro, até que conseguiu pegar o ônix. Eduardo quando percebeu a pedra na mão de Tom, tentou partir novamente para cima de Tom, quando ambos escutaram um choro de bebê. Com a distração dos dois, Tom deixou a pedra cair e Eduardo não conseguiu pegá−la. Ambos sabiam que sem a pedra, não conseguiriam destruir o inimigo. Neste momento, os dois viram o ônix flutuando envolto de uma luz vermelha e ficava andando de um lado para o outro, na horizontal e também de cima para baixo, na vertical.
Um olhou para o outro. Sabiam que naquele momento não adiantava continuar a luta. Tinham que correr para pegar a pedra. Quem conseguisse, com certeza seria o vencedor. Mas era muito difícil, pois ela era muito rápida. Só de tentar acompanhá−la com a cabeça, eles já ficaram tontos. Além do barulho que a pedra fazia quando se deslocava de um lugar para outro, também deixava os dois zonzos, com zumbido no ouvido, com a sensação de que iriam cair. Mas não havia outro jeito. Tinham que tentar agarrar a pedra.
Do outro lado da parede de vidro, a felicidade tomava conta dos três, com a chegada de uma linda menina. Isaura, com os olhos cheios de lágrimas, falou ao amigo:
George, se não fosse você, minha filha não teria nascido bem. Vou ser agradecida por toda a minha vida. Se fosse menino, com certeza, iria se chamar George, não é meu amor?
Cauan, também muito emocionado, ao ver o nascimento da sua filha respondeu:
Será Brenda. Concorda, meu amor?
Com certeza, respondeu Isaura. O nome dela já é Brenda.
Enquanto isso, do outro lado da parede, Tom corria para um lado, enquanto trombava com Eduardo para ver qual dos dois conseguiam pegar a pedra. A prova era de resistência. Eduardo não aguentou os zumbidos em seu ouvido e a tontura e desmaiou. Quando Eduardo caiu ao chão, a pedra parou em frente a Tom, envolta por uma forte luz branca. Tom imediatamente a agarrou e tocou no corpo de Eduardo, forçando contra a sua cabeça. Nessa hora, enquanto o corpo caído de Eduardo se desfazia em chamas, barulhos ensurdecedores de trovões começaram a soar.
Imediatamente, a barreira da parede se quebrou. Todos saíram correndo do local, enquanto o lugar todo era destruído, para tentarem passar para o outro lado, antes de serem atingidos pela destruição daquele mundo.
Quando de repente a pedra caiu em um local e apareceu um portal − que era a passagem deles para o outro lado. E uma voz rouca falou:
Desta vez vocês conseguiram destruir o que levei séculos para conseguir até aqui, mas voltarei, e uma chama preta desapareceu junto com a destruição do lugar.
Nessa hora, Brenda apareceu com Dorothy no meio do portal. Brenda falou emocionada:
Vocês conseguiram, parabéns. Todos se abraçaram e começaram a chorar.
Agora é a hora da escolha− disse Dorothy.
Que escolha?− perguntou Tom.
Da passarem do portal para o paraíso, ou para retornarem a Terra.
George abraçou os amigos e passou para o outro lado do portal. Abraçou sua amada e, imediatamente, uma luz forte envolveu os dois que sumiram da entrada do portal. O portal desapareceu, foi quando os três, mais a bebê desmaiaram e acordaram em questão de segundos. Eles já estavam na Terra.
Calçada firme! − Tom brincou se abaixando e tocando com as mãos o piso. Cauan sorriu para o amigo e Isaura pôs uma mão no rosto, como se estivesse com um pouco de vergonha. A outra mão segurava a pequena Brenda, que estava calma e aparentava estar com sono.
Cauan? − indagou uma voz perto deles. O mencionado virou para trás e deu de cara com Maiara que estava ao lado de um outro Ricardo. − Pensei que estava morto!
Não estou não. − disse o garoto aturdido.
Esse é o seu namorado?
Maiara assustou−se com a pergunta direta.
Bem, eu pensei que estava morto e…
Tudo bem. − o moreno interrompeu. − Eu também estou com outra pessoa. E tenho uma filha.
Maiara empalideceu e Isaura deu um sorrisinho.
Nenhum dos dois esperou o outro. Não há nenhuma culpa a mais em nenhum dos dois. − tentou consertar Tom. − Bem, vamos para nossas casas. Estou com saudades da minha mãe e até da minha irmã pentelha.
Todos moram no mesmo lugar que há anos. − Vitória assegurou. − Quero ver a cara da minha mãe quando souber que é avó.
Cauan sorriu e pegou a filha do colo de Vitória que estava brincando com Brenda. Epílogo Havia se passado doze anos. Tom era o único padre da cidade de Pato. Ele cumpriu o seu combinado com o Padre Pedro. − Estou aqui para unir dois jovens… − ele começou, sentindo seus olhos avermelharem−se. − Que se amam muito e para oficializar essa maravilhosa união.
Ele deu uma pausa.
Nesse momento, entrou uma linda menina, de pele morena, cabelos negros lisos e longos, de olhos cor de mel, com as alianças.
Você, moço de saúde e vitalidade, aceita essa mulher como sua legítima esposa, amando−a e respeitando−a até os últimos dias de sua vida?
O jovem deu um sorriso e respondeu:
Por toda a eternidade, padre.
E você, moça de fibra, que continuará com essa beleza interior e esse brilho que encanta a todos… Aceita casar−se com ele?
Sim, Padre. Por toda a minha eternidade. Cauan segurou a mão de sua esposa e beijou−a. Foi o dia mais feliz da vida de Isaura.
"Que sejam felizes… Para sempre" Tom disse com um triste sorriso. Ele olhou para o lado e viu o reflexo de George, Brenda, Dorothy e Padre Pedro. Olhou para o casal e trocaram sorrisos cúmplices, e ele teve a certeza de que somente os três estavam o vendo. Sem eles saberem, outra pessoa os via. Era Brenda, a filha de Cauan e Isaura que tinha levado as alianças.
Curiosamente,
parecia muito com a menina que tinha originado seu nome. Olhou para eles e abriu um belo sorriso. De repente, as luzes da igreja se apagaram e uma voz rouca soou apenas para os quatro:
"Espero que aproveitem bem o tempo de felicidade. Principalmente a menina… Sinto muito ter que destruí−la num futuro bem próximo."

AVENTURAS NA FLORESTA CAIÇARA

Capítulo I

BRENDA

Cauan era valente e muito apegado às tradições indígenas. Gostava de cultiva a terra, tomar banho todos os dias no rio que cortava sua taba e sabia manusear muito bem o arco, a flecha e a lança. Também tinha crenças profundas, apesar de ser cristão, em Tupã, Jurupari e Jaci, além de outras divindades específicas, como o misterioso Sumé, que vieram caminhando sobre as águas de um distante lugar até as terras dos tupis com a finalidade de ensiná-los a trabalhar a terra e a desenvolver seus princípios morais sólidos e eternos. Muitos esperavam o retorno de Sumé, que instalaria um Reino Sem Fim sobre os povos tupis, sem choro, nem lágrimas, sem sofrimento, nem dor — um mundo sem morte!

Curiosamente, Cauan saiu de sua tribo devido à paixão que nutria por uma mulher branca de 20 anos, chamada Isaura. Foi com ela habitar as cidades civilizadas, mas nunca se desvencilhou de suas crenças e tradições. Isaura era linda, pode-se dizer que era uma espécie de princesa de contos de fadas, com olhos muito azuis e cabelos dourados.

Para satisfazer as duas famílias, o casamento foi celebrado pelo padre na aldeia indígena, com o consentimento do pajé, o qual até ajudou o sacerdote católico na realização da cerimônia.

Durante algum tempo, Cauan e Isaura viveram felizes, mas a diferença de culturas entrou em choque. Isaura apreciava muita coisa que, para o índio, não significavam nada, como andar em shoppings center e assistir a filmes no cinema. Começaram a discutir e pensou-se até em separação, mas um acontecimento veio acalmar os ânimos exaltados: o nascimento de uma filha, de uma legítima cabocla a quem batizaram com o nome de Brenda. Menos de um ano depois, Isaura engravidou e nasceu outra menina, cujo nome foi Maiara.

Enquanto Brenda parecia-se mais com a raça branca, em Maiara predominavam características de índio. De qualquer forma, ambas eram mestiças, eram caboclas, eram filha de um índio e uma branca.

Brenda e Maiara não se davam muito bem. Na verdade, Brenda não gostava de Maiara e sempre estava discutindo com ela. Mas, na verdade, Maiara também não era flor que se cheirasse — muito egoísta e vaidosa, preocupava-se muito com sua reputação e, por causa disso, acabava sendo artificial em suas relações, buscando passar uma imagem sempre superior de sua própria pessoa. Até quando ia à missa, ela procurava passar a imagem da boa garota, fazendo questão de cantar em voz alta para que todos ouvissem sua bela voz e constatassem seu comprometimento com a religião.

O tempo foi passando e Brenda e Maiara foram crescendo, tornaram-se adolescentes e jovens. As brigas acirradas dos pais incomodavam a primeira, que achava que seria muito melhor que os dois se separassem. As brigas eram frequentes, mas parece que ambos se gostavam e, por isso, sempre se davam a chance de permanecer casados, juntos, criando as duas filhas.

O colégio onde Brenda e Maira estudavam chamava-se São Pio de Pietrelcina, em homenagem a um célebre monge franciscano a que se atribuíam milagres e que havia recebido os estigmas de Cristo em suas mãos. Quem dirigia a escola era um padre muito bondoso, o padre Tom, que se tornou, com o passar do tempo, um grande amigo de Brenda. Seu nome era Tomás e ele era um grande estudioso da Bíblia, das lendas, dos eventos sobrenaturais e da psiquê humana. Alguns acólitos afirmavam que o padre Tom tinha em seu poder o Anel Mágico de Salomão, poderoso talismã que permite ao seu possuidor dominar espíritos, compreender a linguagem das plantas e dos animais e outras proezas.

O padre Tom preocupava-se muito com a educação dos jovens, sendo a escola totalmente gratuita ainda que não fosse pública. A instituição mantinha-se de doações, mas alguns afirmavam que era o próprio padre quem custeava tudo, pois era um sábio alquimista e fabricava ouro nos subterrâneos da Igreja de São Pio de Pietrelcina.

O padre Tomás tinha cabelos longos e cinzentos, uma barba venerável que lembrava os apóstolos e patriarcas e olhos perscrutadores que devassavam a alma das pessoas nas quais se fixavam. E mantinha também o antigo hábito de andar sempre vestido em sua batina, com um grande crucifixo de metal em torno do pescoço.

Brenda gostava muito do padre Tom devido à sua natural simpatia e à atenção que dispensava aos alunos e, em especial, a ela, que costumava procurá-lo para relatar seu problemas, inclusive os que envolviam a irmã mais nova, Maiara. Também falava com ele sobre as contínuas brigas que os pais alimentavam por causa de diferenças culturais.

— Mas, você não deve desejar a separação deles, filha! — dizia o sacerdote — Um filho deve desejar que os pais permaneçam unidos. Um lar desfeito nunca é coisa boa, nem para o casal, nem para os filhos. O mais provável é que ambos se amem, mas os contrastes culturais ainda sejam um empecilho para que eles levem uma vida mais tranquila. Pelo que sei de Cauan, ele é um índio muito ligado às suas tradições. A criação de Isaura foi diferente: nasceu em cidade grande, assimilou outros valores.

Apesar dos conselhos do padre, Brenda continuava desejando que seus pais se separassem, mas nem sequer pensava com qual deles ela optaria ficar. Ela tinha 17 anos e sua irmã, mais nova cerca de um ano, estava namorando com um rapaz alto e bonito do colégio, mas que tinha 18 anos. Era Fábio.

Tanto Brenda quanto Maiara tinham cabeleira negra, mas a primeira tinha olhos azuis como os da mãe enquanto a outra tinha olhos pretos como os do pai. Brenda gostava de dançar e tinha dotes culinárias, mas Maiara preferia cantar e não entendia nada de cozinha (ao contrária de suas ancestrais indígenas). As duas gostavam de estudar e aprendiam com facilidade a maioria das matérias.

Regularmente, Cauan levava a família para visitar sua tribo, que ainda vivia na mata, distantes da civilização. Os pais de Cauan eram índios robustos que prestavam culto a Tupã e alimentavam-se bem, nutrindo-se de ervas e raízes que cultivavam nos fundos de sua oca.

Havia uma cãozinho muito dócil que as duas meninas amavam muito, chamado Tupi. Ele tinha um focinho muito fino e era um excelente farejador. Sempre que ima visitar os avós, Brenda e Maiara levavam algum presente para Tupi.

O pajé da tribo chamava-se Kauê. Era um velho da pele enrugada, quisxo saliente e nariz comprido. Era o homem mais alto da tribo, com longos cabelos escorridos. Kauê era um ancião muito respeitado não somente naquela tribo, mas em muitas outras. Era um homem devotado ao serviço de Tupã e profetizava pra breve o retorno de Sumé, o estrangeiro que ensinou o povo tupi e que voltaria para estabelecer um governo próspero, sem morte, nem sofrimento.

Quando Kauê falava, todos escutavam atentamente o que ele dizia e todos seguiam suas orientações quando havia alguém doente na tribo, pois o velho conhecia os arcanos das ervas e das pedras. A tribo Abaya e muitas outras deviam a cura de diversas enfermidades em pessoas e animais aos místicos conhecimentos do pajé Kauê.

Além de prestar culto a Tupã, a Jaci, a Iara, a Jurupari, o pajé tinha uma enorme devoção a Caipora, o Protetor das Matas. Em certas noites, ele saía, acompanhada de algumas virgens, carregando um grande cesto de frutas e verduras e saía da taba. Era uma oferenda que ele fazia periodicamente ao Caipora. O ancião depositava a cesta embaixo de um grande jequitibá. Muitas vezes, ficava lá orando enquanto as índias o aguardavam a certa distância.

Muitas vezes, o duende das matas aparecia ao pajé. Vinha das profundezas da floresta, montado em um grande porco do mato. Descia do porco e ficava junto do índio, saboreando sua oblação e conversando com ele. As virgens ficavam olhando, espantadas, a chegada do Caipora. Era uma criatura baixinha, com o corpo coberto de pelos, lembrando um tipo de macaco sem rabo — mas, tinha longos cabelos escorridos como os dos índios.

O pajé também ministrava ensinamentos sobre Jurupari, que outras tribos julgavam uma divindade malévola. Kauê ensinava que não era verdade. Jurupari, o Boca-Torta, apesar de sua aparência deformada, era um sábio que preparava leis justas para serem distribuídas entre os tupis. Nascera de uma virgem, a índia Ceuci. Jurupari era um mensageiro de Guaraci, o astro brilhante que da sua luz a todos os povos do mundo, sejam índios ou não.

A ideia de que Jurupari era mau resultava de um engano dos padres jesuítas que, há anos trás, catequizavam os índios brasileiros e atribuíam a Jurupari características negativas. Em algumas tribos, Jurupari era confundido com Sumé, outro legislador.

Conforme dizia o pajé, Jurupari podia assumir diversas formas, sendo a mais comum a de uma serpente provida de braços. Também podia ficar invisível e aparecer sem que ninguém o visse, mas podiam sentir sua presença. Jurupari também gostava de tocar flauta, como o deus Pan da Arcádia, do panteão grego.

A história de que Jurupari causava pesadelos aos índios, sufocando-os enquanto dormiam era outro erro comum entre muitos índios.

— Quem faz isso — explicava Kaué — é a Pisadeira, velha índia de cabelos longos que chegam aos pés, hedionda em sua feiura, com um nariz mais comprido que o meu. Ela senta sobre os índios que dormem de barriga para cima depois de terem se empanturrado de comida e sufoca-os com suas duas mãos. Muitos índios acabam morrendo enquanto dormem devido à Pisadeira.

Brenda gostava muito de ouvir o pajé kauê falar e ficava fascinada pelas lendas dos nossos índios. Ele contava casos não somente de divindades, mas narrava episódios interessantes envolvendo os animais, como o jabuti, o macaco, o veado, a onça, o sapo e o coelho. Uma dessas histórias dizia o seguinte:

Certa vez em que o coelho estava atrás de uma moita, comendo raízes, somente com as orelhas de fora, o macaco aproximou-se e deu um puxão nelas. O pobre coelho engasgou com a comida e deu um pulo assustado.

O macaco, muito ladino e acostumado a mexer com os outros animais, falou:

— Desculpe, amigo coelho! Vi suas duas orelhas sobre a touceira e pensei que fosse uma borboleta!

E saiu dali, rindo e pulando de galho em galho. Mas, o coelho, enquanto balançava seu focinho de veludo, pensou em dar o troco ao malandro.

Foi assim que, certa vez em que o macaco estava atrás de uma árvore comendo bananas, somente com o rabo à mostra, o coelho se chegou e desceu o pau sobre a cauda do macaco. O macaco deu um pinote e um grito e recolheu o rabo amassado, assoprando para que cessasse a dor.

O coelho, com o cacete nas mãozinhas, disse:

— Desculpe, amigo macaco! Vi sua causa se mexendo perto da árvore e pensei que fosse uma cobra!

É assim que deve ser: para quem se julga esperto demais, devemos ser espertos e meio.

Brenda se divertia com essas histórias, mas sabia que, apesar de envolverem animais, eles refletiam somente pensamentos e emoções dos seres humanos. Ela tinha certeza de que coelhos, por exemplo, eram incapazes de vingar-se, pois eram bichinhos dóceis, sem maldade alguma.

Muitas vezes, a garota tinha vontade se mudar para a mata, ou melhor, para a Floresta Caiçara, que era onde morava a tribo Abaya, onde seu pai nascera e crescera e onde ele conhecera sua mãe, Isaura. Isaura era considerada por muitas índias como uma das "filhas da Iara", por causa de sua formosura.

Maiara também gostava da floresta e até tinha amigas índias. Desejava levar Fábio para conhecer o lugar, mas ele ainda se mostrava indeciso se devia ou não ir à Floresta Caiçara.

Um dos amigos das garotas na tribo era Muri, um jovem da idade de Brenda que se sentia atraído por ela e prezava muito sua companhia. Muri e Brenda costumavam dar longos passeios pela taba, conversando, apanhando flores, comendo frutas, vendo os bichinhos que por lá existiam. Geralmente, Tupi, o cãozinho mascote de Abaya seguia o casal, sacudindo seu rabo, fino como seu focinho e suas orelhas espetadas.

Um terrível acontecimento viria a dar rumos totalmente inesperados na vida de Brenda e ligariam ainda mais, tanto ela quanto sua irmã, à Floresta Caiçara.

Capítulo II

OS PRIMEIROS CRIMES

Eventos muito sinistros tiveram lugar no São Pio de Pietrelcina e, por causa desses eventos, as vidas das duas irmãs sofreriam drásticas mudanças. Certa manhã, que era o horário em que Brenda e Maiara estudavam, aconteceu uma tragédia em um dos banheiros da instituição. Uma garota, chamada Lorraine, foi encontrada morta, estirada no chão.

O colégio entrou em polvorosa. Foi uma enorme correria. Os estudantes apinharam-se na porta do banheiro a fim de ver o cadáver da garota. Havia marcas em seu pescoço e sua roupa estava rasgada, como se afiadas garras tivessem retalhado o tecido da blusa e da saia jeans. Os olhos de Lorraine estavam abertos, contemplando alguma coisa muito feia. Certamente, eles registraram algo de horrível antes de morrer. A boca jazia semiaberta, os lábios ainda muito vermelhos devido ao batom.

O padre Tom procurou pôr ordem na bagunça, no pandemônio que se instalara no colégio. Antes mesmo de o corpo ser recolhido ao Instituto Médico Legal, muitos pais de alunos já haviam chegado a fim de saber o que estava acontecendo. Os pais de Lorraine entraram em desespero, gritaram, choraram, acusaram os líderes do colégio.

O pior é que ninguém viu nada, ninguém sabia de nada. As colegas da garota morta não sabiam o que dizer, falavam apenas que ela estava na sala de aula e solicitara permissão para ir ao banheiro. Só isso.

Os funcionários também de nada se recordavam. Muitos alunos vêm e vão pelos corredores de um colégio. Não é muito fácil ficar atento ao que cada um faz em determinado momento.

A verdade é que, quando Lorraine cruzou o corredor que separava sua sala de aula do banheiro daquela ala, não encontrou ninguém no caminho. O banheiro feminino ficava a aproximadamente 200 metros da sala onde estudava. No percurso, ela sentiu que estava sendo seguida, pressentiu a presença de alguma coisa e teve um arrepio.

Olhou para trás com olhos assustados. Olhou para cima, para o teto alto coberto de gesso. Olhou para as janelas. Em uma delas, o galho de uma árvore centenária batia repetidamente contra a vidraça.

Prosseguiu seu caminho. Agora andava com mais pressa, ansiosa por chegar ao banheiro e fechar a porta por dentro. Se tivesse sorte, ela encontraria alguma outra menina no lugar. Assim que entrou no banheiro, bateu a porta e girou a chave na fechadura. Foi se postar diante do espelho e ficou olhando a maquiagem.

Mas, a desagradável sensação de que alguém a acompanhava continuava incomodando. Lavou as mãos e foi sentar-se no vaso, pois estava há muito tempo apertada para fazer xixi.

Foi nesse momento que ocorreu o sinistro...

Mas, ela, que poderia contar tudo, tintim por tintim, estava morta e não havia nenhuma outra testemunha. Somente ela e o criminoso sabiam o que realmente acontecera.

Na verdade, conforme afirmara o padre Tom:

— Deus viu tudo! E confio nEle para desvendar esse mistério!

As aulas foram suspensas por uma semana, durante a qual a polícia investigou a fundo o incidente, recolhendo informações, prendendo suspeitos, inquirindo de todas as pessoas sobre o assunto. O detetive Fernando Policarpo estava à frente das investigações. Era um homem novo, quarentão, que tinha um bigodinho ralo e só andava de óculos escuros. Como fosse amigo do padre de longas datas, mostrou-se bastante interessado em deslindar o caso.

— Ela tinha namorado, padre? — quis saber o detetive — Ou o senhor não sabe dizer?

Essa foi uma das primeiras perguntas que Policarpo fez ao sacerdote assim que viu o corpo da menina. Mas, como Tom não sabia responder, ele consultou os pais e colegas de Lorraine. Os pais afirmaram que a filha não tinha nenhum namorado — ao menos, nenhum oficial. As colegas disseram que ela vivia flertando com Adolph, um rapaz mais velho que ela dois anos, que estudava no segundo andar (Lorraine estudava no último andar, o terceiro do São Pio de Pietrelcina).

Claro que Policarpo chamou Adolph para saber detalhes da história. Adolph jurou de pés juntos que nada tinha com Lorraine. Achava a garota bonita, apenas isso. E, para confirmar sua história, apresentou a namorada, um loira alta de 20 anos que cursava odontologia em um faculdade na cidade vizinha.

O detetive, muito experiente, percebeu que o rapaz não contara toda a história e é bem provável que tivesse dado uns "amassos" em Lorraine, dentro do próprio colégio e até fora dele. Mas, Policarpo não suspeitava dele, pois percebeu que ele era apenas um aventureiro e, provavelmente, queria divertir-se com a menina, não tinha motivo alguma para matá-la.

O que mais impressionou o investigador foi a brutalidade do crime. Parecia um homicídio saído das páginas de Edgar Allan Poe — mais precisamente do conto "Os Assassinatos da Rua Morgue", onde um orangotango fora o verdadeiro autor de dois crimes brutais. Essa associação de ideias levou o detetive a considerar a hipótese de que a jovem Lorraine havia sido morta por algum animal.

Mas, que animal?

Que animal seria tão violento a ponto de causar todo aquele estrago? Como ele teria entrado e saído do colégio sem ninguém ver? De que lugar ele viera?

As pessoas da cidade apelidaram o homicida anônimo de "Estripador de Pietrelcina". E aconteceram mais homicídios. Houve mais vítimas. Um curso preparatório para vestibular continuou funcionando à noite, no segundo andar. Com vigilância redobrada. Havia cerca de 20 alunos e alguns professores que ministravam aulas de Matemática, Português, Química, Física, Redação, Geografia, História, Língua Estrangeira. O professor de História Universal era o próprio padre Tom.

Em uma dessas noites, por voltas das 10 horas...

Os vigilantes, armados até os dentes, começaram a sentir um torpor intenso. Incapazes de controlar essa sensação, eles foram, um a um, caindo no sono, estendendo pelo chão, pelas mesas, pelas bancos. Um deles, que estava flertando com a professora de Geografia, a sensual Amélia Rosa Maria, bem provida de seios e de boca, despencou da mureta onde estava sentado e, junto com a amante, foi ao chão, dois andares abaixo — por sorte, caíram sobre folhas secas e lá ficaram adormecidos.

Alguém penetrou no colégio. Saltou do solo até o segundo andar com habilidade, como faria o Homem-Aranha ou algum outro super-herói. Lentamente, ele foi caminhando pelos corredores. Diante da sala de aula, estacou e ficou escondido atrás de um pilar, observando os estudantes que tinham aula de Física. O professor Brás estava falando sobre magnetismo, explicando como as forças eletromagnéticas agem, sobre os polos da Terra e suas peculiaridades.

Volta e meia, o mestre lançava olhares lascivos para as pernas de Solange, uma formidável garota de cabelos negros que vivia na academia e sempre gostava de exibir seus atributos físicos: a barriga "tanquinho", as pernas lisas e bem feitas, sem sinal de celulite, o busto de onde afloravam os seios redondos, mal disfarçados pela blusa "tomara que caia" de tecido fino que só chegava até o diafragma, deixando visíveis o abdômen malhado e o umbigo redondo como uma "taça de prata", no dizer do poeta bíblico. Os meninos peraltas costumavam dizer que Solange vivia de "faróis acesos" — entendesse quem quisesse.

Naquela noite, Solange vestira, além da miniblusa, um shortinho azul muito ousado, ideal para chamar a atenção e tirar a concentração dos rapazes que estudavam com ela.

— Como posso decorar as fórmulas de Física se Solange ficava distraindo a gente com seus "talentos"? — reclamava Paulo — Até o Brás perde o rumo do que está ensinando.

As duas irmãs, Brenda e Maiara, também frequentavam o curso e estavam assustadas com os últimos acontecimentos. Sempre com rixas com a irmã, Brenda se sentava bem longe dela, em uma carteira no canto da parede, próxima a uma janela que permitia visualizar a rua.

Brenda notara algo quando o invasor pulara do chão até o segundo andar, penetrando no colégio. Notara um vulto que parecia "voar", deslocando-se com agilidade. Isso deixou-a de sobreaviso. Pensou até em falar com Brás, mas não tinha certeza se vira alguma coisa efetivamente ou se tudo não passara de sua imaginação. A morte de Lorraine vinha provocando terríveis pesadelos na menina de olhos azuis: sonhava com Lorraine viva, correndo pelos corredores do São Pio de Pietrelcina, perseguida por um maníaco que tinha uma máscara — uma máscara de lobo!

Apesar de não gostar da irmã, Brenda aproximou-se de Maiara após a aula de Física, que era a última daquela noite. Isaura e Cauan, seus pais, havia reiterado diversas vezes o conselho de que "não largassem uma da outra". O próprio índio prontificou-se a ir buscar as filhas depois das aulas.

Naquela triste noite, o estranho assassino faria outra vítima: a bela Solange.

Ele ficara observando-a do lado de fora da sala de aula, ora cruzando as pernas, ora descruzando-as, ora cruzando as duas, uma sobre a outra, sobre a cadeira. A visão luxuriosa despertara nele desejos profundos, que sempre se manifestavam de forma violenta.

Quando percebeu que os estudantes deixavam a sala de aula, manteve-se oculto atrás da coluna, em estado de alerta. Poderia atacar todos se quisesse, mas não era assim que atuava. Sempre agia com cautela, esperando as melhores oportunidades e escolhendo as vítimas.

Brenda e Maiara iam conversando. Fábio, o namorado de Maiara, também fazia o cursinho e, com a mão envolvendo o ombro da namorada, ia comentando:

— Adolph ficou se "borrando" de medo quando o detetive chamou ele pra conversar. Coitado... Mas, não acredito que ele tenha feito aquilo. Sei que não é tão inocente como diz, pois já vi ele agarrando Lorraine atrás do muro do colégio. É um espertalhão que deseja dar uma de inocente. O medo dele também é porque Lorraine era de menor, já que tinha 16 anos e ele já tem 18. Não está nos planos de Adolph ser acusado de assediar "crianças".

— Nem parece que foi um ser humano que fez aquilo com a coitada — lembrou Maiara.

— O ser humano é capaz de tudo, querida! Com uma navalha, eu acho que alguém poderia ter feito aquilo sim. O que me intriga é o motivo.

— Tinha cara de crime passional — falou Brenda.

— Ou alguém que tinha inveja dela — falou a irmã.

— Quem sabe não foi a namorada de Adolph, que descobriu o caso do namorado e resolveu vingar-se? — sugeriu Fábio, em tom de brincadeira.

Rindo, os três iniciaram a descida da escada. Mas, antes, Brenda olhou para trás, em direção ao longo corredor que tinha atrás de si, cheio de colunas clássicas, cheias de simbolismo hermético. Ela não sabia — embora desconfiasse — que, escondido atrás de uma delas, estava o "Estripador de Pietrelcina".

Solange foi a última a sair, pois ficou flertando com o professor, na esperança de que ele melhorasse suas notas de Física. Apesar de se tratar de um cursinho, Brás era quem dava as aulas normais de Física no colégio e a garota não andava muito boa na matéria. Mesmo estando suspensas, um dia as aulas iriam voltar e seria preciso melhorar o quanto antes aquelas notas.

Quando ela saiu, deixando a marca de seu batom na face de Brás, como resultado de um "carinhoso" beijo de despedida, o estranho oculto atrás da coluna resolveu segui-la. Com passos suaves, ele foi atrás dela. Ela passou por um vigilante que dormia a sono solto, encostado contra a parede.

— É assim que ele toma conta da gente? — falou ela para si mesma.

Solange passou pela biblioteca Santa Irene. Pelo vidro, ela contemplou os livros lá dentro. Muitas estantes repletas de livros antigos e modernos. Ela ficou imaginando como o padre Tom fazia para manter aquele colégio com seus próprios recursos e doações. Será que era verdade que ele fabricava ouro, que ele era um perfeito alquimista?

Pensando nisso, a garota começou a imaginar-se dando em cima do padre e usufruindo de suas regalias. Imaginou-se dona do colégio, mergulhando em um mar de moedas de ouro, tal como fazia o Tio Patinhas em sua caixa-forte.

E, enquanto assim pensava, ia rebolando com seu shortinho azul, sacudindo seus longos cabelos negros submetidos à selagem, observando as coisas com seus olhos da cor da esmeralda.

Em seu encalço, ia lentamente o criminoso, seguindo-a com cautela, entusiasmado. Solange era uma excelente vítima, uma presa ideal para os sonhos insanos de qualquer maníaco. Era um belo exemplar de "Chapeuzinho Vermelho", ainda que não tivesse a mesma inocência da garota do conto de Perrault.

Antes de alcançar a saída, Solange percebeu que estava sendo seguida. Havia efetivamente alguém atrás dela. Quando ela se voltava, não via ninguém, mas tinha certeza de que alguma coisa estava vigiando seus movimentos, acompanhando cada passo que ela dava. Pensou em voltar à sala de aula no segundo andar e pedir ajuda ao professor Brás, mas não teve coragem. Além disso, quem garantia que ele ainda estava lá. Podia ter pego a outra escada e saído por outro caminho. Ela se arrependeu de não ter esperado por ele.

Foi então que ela ouviu um ruído. Um tipo de respiração ofegante partindo de algum ponto. Os seus lindos arregalaram-se ainda mais, espantados e despertando ainda mais a euforia do misterioso perseguidor que a observava.

Ele saiu de seu esconderijo, aparecendo perante Solange, cujos olhos se arregalaram ainda mais. Seus lábios se abriram e ela gritou. Começou a correr, pedindo ajuda. Mas, os vigilantes, sentados á porta do colégio, estavam completamente adormecidos.

O jogo de gato e rato durou pouco. O criminoso saltou sobre a garota, derrubando-a no chão. E repetiu seu ritual de sacrifício. Rasgou a roupa de Solange, sua blusa, seu shortinho. Arranhou suas pernas e sua face. E deu-lhe seu "beijo" mortal, deixando-a morta, de olhos arregalados, fitando o infinito, e boca aberta. O corpo ficou estendido no chão, revelando seus segredos sob as roupas rasgadas, os braços abertos em cruz, a cabeça virada de lado.

Satisfeito, o "Estripador de Pietrelcina" foi embora. Saiu tranquilamente pela porta da frente, passando pelos vigilantes bem armados e despareceu na noite escura, saltando agilmente.

Meia hora depois, os vigilantes despertaram de seu sono profundo. Pareciam bastante reconfortados. Inclusive, alguns haviam sonhado com coisas semelhantes. Um deles afirmou que estranhas sensações, como se sua alma tivesse saído de seu corpo e vagado por outras regiões, por zonas etéreas e desconhecidas, inalcançáveis em situações normais.

— Eu voei alto, bem alto — falou ele — Ia subindo para o céu azul, em uma noite estrelada. Passava sobre mares brilhantes. Ia subindo sempre, para o alto, para os céus dos céus.

— Isso é projeção astral — explicou outro vigilante — Certa vez, o padre Tom me falou sobre esse fenômeno.

— E como vão as coisas aí dentro? — perguntou outro — Será que está tudo como em nossos sonhos também?

E foram verificar. Mas, o que viram, deixou-os aterrados. No chão, a menos de 50 metros da porta de saída (que também era porta de entrada), jazia o cadáver de Solange, estendido no chão frio, rígido e pálido, com os belos olhos esverdeados bem abertos, contemplando alguma coisa assustadora.

— Preferia ter permanecido no meu sonho, voando para perto de Deus! — comentou o vigilante.

É verdade. Os sonhos geralmente são melhores que a realidade. É uma pena que não possamos trasmudar os bons sonhos em realidade — não haveria ninguém infeliz no mundo.

Capítulo III

A SURPREENDENTE DESCOBERTA

A morte de Lorraine comoveu ainda mais a população da cidade e, em especial, os alunos e pais de alunos do São Pio de Pietrelcina. Foram suspensas também as aulas do cursinho visto que o misterioso criminoso continuava atuando, perseguindo as jovens bem na cara dos vigilantes.

— Suponho que ele usa algum estratagema especial — comentou o detetive com o padre — Esse sono estranho em que os vigilantes caíram parece uma coisa muito bem planejada.

— Magia — respondeu Tom convictamente.

— O senhor realmente acredita nessas coisas, não é, padre?

— Ora, Policarpo, a magia nada mais é que a ciência desconhecida, a ciência praticada por um número limitado de pessoas, os "iniciados". A tão falada magia egípcia era nada mais que um conjunto de conhecimentos sobre a natureza que um grupo privilegiado de sacerdotes detinha.

Policarpo fez um gesto de dúvida, mas nada falou — afinal de contas, tudo é possível nesse mundo. Como disse o célebre dramaturgo inglês William Shakespeare: "Há muito mais coisas entre o Céu e a Terra do que pode supor nossa vã filosofia".

Padre Tom tinha certeza absoluta de que o criminoso não era um simples homem. Era algo mais, extremamente perigoso, capaz de hipnotizar e induzir ao sono uma porção de homens superpreparados, bem armados, prontos para entrar em combate.

Uma coisa inesperada aconteceu. Brenda não esperava por aquilo. Nem sua irmã. Nem os seus pais. Nem o namorado de sua irmã. Ninguém esperava. E suponho que nem o leitor dessa história esperava também por isso que vou dizer agora.

As pessoas começaram a suspeitar de Brenda! Começaram a achar que era ela o "Estripador de Pietrelcina". Apesar de a ideia ser efetivamente absurda, foi o que aconteceu. Policarpo descartou essa ideia, considerando que os homicídios foram obra de alguém muito forte e não de uma garota relativamente frágil fisicamente como era Brenda.

Mas, o que levou as pessoas a concluírem que fora Brenda a autora dos misteriosos crimes?

Bem, primeiramente, o fato de Brenda ser filha de índio despertou as suspeitas de certas pessoas. Como Cauan fosse um praticante dos rituais indígenas, muitos consideravam que ele era um herético, um praticante de magia, adorador de deuses pagãos e coisas assim. A curiosa história dos vigilantes que adormeceram no colégio e nada viram do incidente envolvendo Solange deu o que falar.

— Magia Negra!

— Coisa de bruxas!

— Artimanhas do Tinhoso!

— Coisa do Jurupari, que os índios costumam adorar!

Depois, pesou para as difamações o fato de Brenda já ter discutido com as duas garotas mortas. Lorraine chegara mesmo a chamar a outra de "índia de araque", "índia da cidade" e "bicho do mato", pois sabia que ela frequentava a aldeia onde vivera seu pai na Floresta Caiçara.

Maiara também era cabocla, mas sempre procurava manter as aparências, criar uma imagem "mais civilizada" de si mesma, que não a deixasse tão exposta assim às suas origens tupis. Namorava Fábio, que era um rapaz muito conhecido e no qual a maior parte das pessoas confiava.

Além disso, o temperamento meio briguento de Brenda não ajudava em nada. Vivia discutindo com a irmã e desejava que os pais se separassem, o que geralmente não é o desejo dos bons filhos.

Ninguém sabia explicar como ela cometera tais crimes, mas acreditavam que ela estivesse por trás deles. Era uma menina engenhosa e podia usar garras artificiais para atacar as vítimas. O torpor geral em que caíram os vigilantes parecia coisa de alguma erva do mato soporífera, muito forte, conhecida somente por índios. Além do mais, sendo uma garota, Brenda podia transitar livremente pelo colégio sem chamar a atenção, o que não seria possível se o "Estripador de Pietrelcina" fosse alguém de fora. A morte da primeira menina aconteceu no banheiro feminino, o que servia para confirmar ainda mais as suspeitas sobre Brenda, que teria livre acesso a esse banheiro.

As dúvidas começaram a se apresentar como certezas e Brenda tornou-se, em pouco tempo, o alvo dos comentários e falatórios dos alunos, dos pais de alunos, dos profissionais que trabalhavam no São Pio de Pietrelcina. O pai de Brenda ficou furibundo e, com seu temperamento um tanto violento de índio, ele bem quis brigar com todos e até lançar sobre toda a cidade uma praga. Contudo, Isaura dissuadiu-o de tal ideia arriscada, pois ela serviria somente para confirmar a natureza malévola de Brenda.

Além disso, o nome Brenda, tal como Glenda ou Glinda, era associado, na imaginação dos jovens, a bruxas, a perigosas feiticeiras. Por isso, muitos deles chegaram a chamá-la de 'Bruxa Indígena".

Revoltada com as difamações, Brenda trancou-se em seu quarto e ficou estudando. Estudou Matemática e Física, mas também estudou sobre bruxaria. Conversou mais com o pai sobre as ervas mágicas dos índios. Lembrou-se das conversas que mantivera com o pajé da tribo, um velho sábio que conhecia todos os tipos de sortilégios e até falava com o Caipora, o maravilhoso duende das matas, que protegia os animais e as plantas, a fauna e a flora.

Certo livro que pegara emprestado na biblioteca falava muito sobre bruxas e magos e Brenda familiarizou-se com nomes como: Circe, a feiticeira que transformava homens em animais e conhecia toda sorte de venenos; Medeia, que pode ter sido filha, irmã ou sobrinha de Circe, cujo caldeirão mágico era seu maior trunfo; Pasifae, irmã de Circe, mulher voluptuosa, cheia de luxúria e ciúmes, que, além de se manter sempre jovem, parira o terrível Minotauro; a Bruxa de Évora, famosa feiticeira espanhola, preceptora de São Cipriano (alguns a identificavam com a Moura Torta); Jezebel, a adoradora de Baal, rainha de Samaria, sedutora de homens; a Cuca, uma feiticeira terrível, devoradora de crianças, que ora tomava a forma de uma velha corcunda e repulsiva, carregando um saco, ora assumia a forma de uma coruja ou dragão, ora se apresentava como realmente era: uma bela mulher de cabelos longos, dona de eterna juventude, vestida como uma índia.

Brenda bem que sentiu vontade de se transformar em uma daquelas feiticeiras e transformar todo mundo da cidade em pedra. Como é que eles podiam suspeitar dela? Uma simples menina que nunca fizera mal a uma mosca?

E assim pensando, Brenda adormeceu naquela noite...

E, enquanto dormia, mais uma tragédia estava prestes a se desenrolar no colégio. Ainda que as aulas tivessem sido proibidas até o total esclarecimento do caso e o prédio ficasse vigiado constantemente, há sempre jovens cheios de arroubo que estão prontos a desafiar as regras e o perigo — mesmo que isso custe sua própria vida.

Michel era um desses jovens, estudante do terceiro ano. Desejou entrar no colégio única e exclusivamente pelo motivo de que era proibido fazer isso. Para ele, conseguir despistar a atenção dos vigilantes e penetrar em "território proibido" era coisa que somente homens muito espertos e corajosos podiam fazer. Por esse motivo, marcou um encontro com a namorada perto do prédio. Havia combinado com ela que, naquela noite, eles namorariam lá dentro, em uma das salas sinistras ou até no próprio banheiro feminino, onde fora encontrada a primeira vítima: Lorraine.

A namorada de Michel que, curiosamente, chamava-se Michele, era parecida com ele e gostava de desafiar o perigo. Para ela, quanto mais exóticos e proibidos os locais de namoro, melhor ainda. Por isso, não foi difícil convencê-la a participar da empreitada.

Os dois conseguiram pular o muro, fugindo à vigilância dos homens armados. Dentro do colégio, subiram até o último andar, sempre soltando risinhos e desviando-se dos patrulheiros que guardavam a parte interna do prédio.

Visitaram as salas, trocaram beijos e abraços, contaram lorotas e histórias de horror. Até que Michele resolver ir mais além:

— Vou tomar um banho! Vou me banhar no banheiro onde Lorraine foi morta!

— Vai mesmo? Tem coragem?

— Gosto de mexer com fogo! Além disso, se é como estão dizendo, que Brenda é quem anda matando as pessoas, ela não me assusta nem um pouco.

— Então, eu vou com você e tomamos banho juntos.

— Nada disso, seu assanhado! Você fica aqui me esperando.

— E vai se enxugar com o quê?

— Com qualquer coisa: papel higiênico, toalha de rosto, com o vento — tá fazendo muito calor mesmo. Além disso, talvez tenha alguma toalha de banho dos vigilantes lá dentro. Eles passam o tempo todo aqui e tomam banho em qualquer banheiro mesmo, já que tá tudo interditado.

E assim dizendo, Michele se foi, deixando Michel sentado em uma carteira, ansioso para vê-la de volta, com os cabelos molhados.

A menina era realmente corajosa e muito atrevida. Foi cantarolando uma música bem baixinho, alerta aos vigilantes que rondavam os corredores do colégio de lanterna acesa, prontos para reagir ao primeiro sinal de perigo.

Ela entrou no banheiro, olhou e reolhou sua maquiagem. Depois, tirou a roupa e entrou embaixo do chuveiro, ajustando-o para água quente. Havia realmente uma toalha felpuda pendurada em um gancho. "Certamente, é de um dos vigilantes", pensou ela.

Depois de ficar bem molhada e espremer os longos cabelos platinados com as duas mãos, Michele apanhou a toalha, cheirou-a e, não encontrando nada de errado, começou a se enxugar. Como gostasse de provocar o namorado, envolveu-se com a toalha vermelha e carregou as roupas consigo — deixaria para se vestir na sala de aula, perto de Michel.

A pobre garota teria, contudo, uma terrível surpresa.

Ao entrar na sala, Michel estava de cabeça baixa sobre a carteira.

— Demorei tanto assim, amor? Já está dormindo?

Ele não respondeu.

— Que sono, hein? Não está curioso para levantar a cabeça e ver como eu estou? Nem me vesti, de tão ansiosa que estava para voltar e te beijar.

Michel continuava de cabeça baixa, sem esboçar reação alguma.

Desconfiada, Michele aproximou-se e tocou o corpo do namorado. Ele pendeu para o lado e caiu no chão, revelando dois olhos esbugalhados e o pescoço cortado.

Estava morto.

Michele deu um grito de pavor. Os patrulheiros, ouvindo, correram para lá e, assustados com a presença daqueles jovens no colégio, dividiram sua atenção entre o corpo de Michel e o corpo de Michele que, ao se dar conta que o namorado estava morto, soltara a toalha que a envolvia e abrira um berreiro, gritando e chorando, esquecendo-se de que estava como Eva no Paraíso.

...

Mesmo com o colégio fechado e vigiado 24 horas por dia, o "Estripador de Pietrelcina" prosseguia em sua colheita de vidas humanas. Parecia realmente um fantasma, uma criatura sobrenatural em que ninguém conseguia pôr as mãos.

A notícia da morte de Michel abalou a cidade e deixou a população em polvorosa. Mais uma vez, o detetive Policarpo foi chamado para averiguar o estranho homicídio e o padre Tom ficou abalado, julgando que aquilo fosse coisa sobrenatural e passando suas impressões para o agnóstico detetive.

Michele não dizia coisa com coisa, somente falava que havia ido ao banheiro e, quando retornara, encontrara o namorado morto, sentado na carteira. Mal tocara nele e seu corpo resvalara para o chão. Questionada sobre o que foram fazer dentro de um colégio interditado, a menina gaguejou e não teve como inventar uma desculpa.

— Esses jovens são um caso sério! — comentou o investigador para os policiais — Procuram sempre uma forma diferente de morrer. O colégio vigiado, palco de crimes misteriosos e eles ainda sentem vontade de desafiar o perigo.

Brenda ficou mais intrigada ainda com a morte de Michel, considerando que era o primeiro rapaz morto pelo misterioso criminoso — as outras vítimas foram garotas. Botou uma ideia na cabeça, mas precisava de coragem para executá-la. Desconfiava, como o padre Tom, que aquilo era obra de algum ser do além, alguma bruxa ou monstro. Não podia ser obra de uma pessoa comum. Ela cogitou a possibilidade de o criminoso ter poderes para ficar invisível.

Resolveu inventar uma desculpa para poder sair à noite. Seus pais naturalmente não desejavam vê-la exposta na rua com um celerado atacando jovens na cidade. Mas, também percebiam que o foco de atividade dele era o colégio, ou seja, era somente lá que ele agia.

— Tenho a impressão de que o criminoso continua lá no colégio — falou Cauan — Acho que ele vive lá, escondido em algum lugar. Deve existir alguma passagem secreta por ali. Deve ser um local tão bem oculto que nem o padre Tom sabe onde fica.

— Pode ser... Quem sabe? — disse Isaura, que não sabia o que pensar.

O artifício criado por Brenda para sair à noite e investigar o caso de Michel foi dizer que precisava de umas aulas de Matemática e havia contratado os serviços de um professor particular no outro quarteirão. As aulas seriam das sete às nove da noite e, como não era muito distante, o perigo era mínimo — inclusive, porque o caminho era oposto ao do colégio São Pio de Pietrelcina. E Cauan estava quase convicto de que o "Estripador de Pietrelcina" vivia dentro do colégio, escondido em algum local.

Foi assim que, duas noites depois do incidente com Michel, Brenda saiu de casa às 6 horas e 40 minutos para ter aulas de Matemática no próximo quarteirão.

Bem, era isso que os pais dela julgavam. E Maiara também pensava assim.

Mas, indo na direção oposta à do colégio, Brenda fez o retorno mais à frente, aproveitando a esquina da Rua Monteiro Lobato (onde morava) com a Rua Joaquim Osório Duque Estrada. Assim, seguia pela rua paralela, a Rua Dom Quixote, e alcançava o São Pio de Pietrelcina pelos fundos, através da Rua São Nicolau de Tolentino.

Fora por ali que entraram Michel e Michele, saltando o muro alto através de uma árvore centenária que certamente sabia quem era o misterioso homicida, mas nada dizia, permanecendo muda.

Brenda percebeu que havia uma vigilância pesada em torno do colégio. Um carro de polícia mantinha as luzes girando no alto a alguns metros do muro e três vigilantes altos e fardados rondavam o local, prontos para entrar em ação.

Diante de tanta vigilância, a menina considerou que seria uma missão impossível alcançar a velha árvore e entrar no colégio pelo muro. Ficou imaginando como Michel e Michele conseguiram essa proeza.

Ansiosa, roendo as unhas, Brenda via os ponteiros de seu relógio andarem e ela continuar estática, sem um plano de ação. Desse jeito, logo seriam nove horas e ela ainda estaria ali, escondida atrás daquela moita, escondida da vista dos policias e vigilantes, mas completamente inutilizada.

Por voltas das oito horas, no entanto, aconteceu algo...

Algo surpreendente e assustador...

Brenda percebeu que os vigilantes que caminhavam na calçada começaram a cambalear, como se de repente tivessem ficado embriagados. Um deles, sentou-se no chão e apoiou as costas contra a parede do muro. Os outros deitaram-se na calçada. Em breve, dormiam profundamente.

O carro continuava com as luzes piscando. Mas, será que seus ocupantes estavam acordados dentro dele? Ou estariam dormindo também?

Brenda lembrara-se da história contada pelos homens quando Solange foi morta. Eles disseram que haviam caído em sono intenso sem mais nem menos. Provavelmente, era aquilo que estava acontecendo novamente.

"Então", pensou Brenda, "o estripador deve estar por perto".

A garota sentiu um calafrio diante de tal ideia e arrependeu-se de ter ido até aquele local sinistro. Afinal de contas, o que ela poderia fazer contra o homicida? Em sua mochila, levava água benta, um crucifixo, um medalhão representando o Signo de Salomão e um punhal de prata.

Mas, ela era somente uma menina e nem sabia direito com quem teria que lutar!

Ainda assim, Brenda resolveu arriscar-se em mais um impulso de coragem. Se já estava ali, o melhor era terminar o que começara. Aproximou-se devagarinho, apertando a mochila contra o corpo. Certificou-se de que os policiais realmente dormiam dentro do carro e correu para a árvore. Subiu rapidamente por ela e chegou ao muro.

Havia vigilantes também dentro do colégio, mas todos dormiam profundamente, vitimados por um sono mágico de origem desconhecida. Parecia o reino do conto de A Bela Adormecida do Bosque dos Irmãos Grimm.

Havia uma escadinha de corda pregada ao muro pelo lado de dentro. Os meninos costumavam usá-la para chegar ao alto do muro e, daí, à árvore e também para fazer o caminho inverso, quando vinham pelo lado de fora e desejavam ter acesso ao colégio.

Foi por essa escadinha que Brenda desceu.

Ela sabia exatamente em que sala Michel havia morrido, pois os comentários foram muitos. Subiu ao terceiro andar, sempre usando a lanterninha de pilha para iluminar os locais mais escuros.

Ela caminhava atenta, esperando ser flagrada a qualquer momento por um vigilante que se mantivera acordado ou — o que era pior — pelo próprio estripador.

A menina entrou na sala, cuja porta estava aberta, mas jazia na mais completa escuridão. Ela procurou cuidadosamente por todos os cantos. Havia uma fita de interdição cercando um lugar específico: o local onde estava a carteira em que Michel morrera. Brenda ultrapassou esse limite e, lançando a luz da lanterna em diferentes direções, procurou por alguma coisa, um indício, uma pista.

E encontrou.

Algo que passara despercebido aos olhos dos policiais, mas que Brenda notara: um montinho branco de pelos, localizado perto da parede, atrás da carteira em que Michel estivera sentado.

Brenda pegou aquela pista e guardou-a na mochila. Depois, continuou sua busca, mas percebendo que nada mais havia a encontrar, resolveu ir embora.

O "Estripador de Pietrelcina" também estava no colégio, mas não atacou ninguém naquela noite. Ele viu Brenda, mas nada fez contra ela. E a garota tomou rapidamente o caminho de volta, alcançando o muro e passando pelos vigilantes profundamente adormecidos.

Quando chegou em casa já eram quase dez horas!

Capítulo IV

OS PELOS DO LOBO

Com aqueles pelos brancos, Brenda julgava que conseguiria descobrir muita coisa. Sua aguçada intuição dizia isso. Procurou o velho e sábio padre Tom e mostrou-lhe sua descoberta. Tomás ficou assustado com aquela bola de pelos alva como a neve que a menina lhe mostrava, mas também ficou satisfeito porque aquele indício podia levar ao verdadeiro autor dos crimes do seu colégio.

O padre mostrou ao detetive Policarpo a descoberta de Brenda. O investigador aceitou fazer um exame no laboratório do Departamento de Polícia para identificar o que era, de fato, aquilo. Eram pelos brancos, muito bonitos e espessos, provavelmente de algum animal.

Em pouco tempo, a análise dos pelos foi feita e constatou-se que os pelos eram de um lobo.

Lobo?

Lobo sim.

Mas, como poderia ser tal coisa? Quer dizer que no São Pio de Pietrelcina andava vagando um lobo?

De onde viera? Por que nunca fora avistado por ninguém? Como poderia ser lobo se no Brasil não existem lobos — a não ser em cativeiro?

Uma coisa era mais que certa: na Floresta Caiçara, a mata mais próxima da cidade, não existiam lobos — a não ser os lobos guarás, mas aqueles pelos não correspondiam aos de um guará, eram pelos de lobo branco, um animal que só vive em terras mais frias da América do Norte, Europa e Antártida. Isso significa que não existem lobos brancos na vida selvagem do Brasil — não naturalmente.

O detetive ficou muito admirado com a descoberta e comunicou-a imediatamente ao seu velho amigo padre Tom.

— Estou realmente surpreendido, padre! Não há nenhum zoológico ou reserva florestal aqui por perto. Não existe nenhum circo nas imediações. Não foi comunicado o desaparecimento de nenhum lobo branco. Na Floresta Caiçara, não há lobo de nenhuma espécie, muito menos lobos brancos. De onde este animal veio? Caiu das nuvens?

— Pode ser que não seja um simples lobo...

Policarpo ficou olhando o amigo, que cofiava a longa barba branca, muito pensativo. Pouco tempo depois, Tom foi à casa de Brenda. Além de ser muito amigo dela, era mais amigo ainda de seus pais. Gostava do índio Cauan e da bela Isaura. Uma de suas novelas preferidas era A Escrava Isaura, que contava a história de uma escrava que sofrera muito até conquistar a verdadeira liberdade. A novela tivera uma versão da Rede Globo e outra da Record e fora inspirada romance de estilo romântico de Bernardo Guimarães.

Falou para todos acerca do rumo das novas descobertas, mas não disse que fora Brenda quem encontrara a bola de pelos no colégio, pois isso certamente causaria preocupação aos seus pais.

— Lobo? — perguntou Isaura com ar de dúvida — Não é possível! Não há lobos por aqui!

— De fato, não — concordou o padre — Mas, pode ser algo mais que um lobo.

— Ou algo menos, padre — falou Isaura, com um sorriso — um disfarce, talvez. Pode ser alguém fantasiado de lobo com o intuito de assustar as pessoas e omitir sua identidade.

Era uma possibilidade sim. Muito plausível, por sinal. Mas, não era nisso que o padre Tom acreditava e havia boas razões para ele pensar assim. Ele revelou suas suspeitas para Isaura, Cauan, Maiara e Brenda:

— É verdade, Isaura. Um serial killer poderia facilmente se disfarçar em lobo, usar pele de lobo de verdade para perseguir suas vítimas. Já houve psicopatas que usaram máscaras de porco, coelho, palhaço e assim por diante. Nada impede que um homicida use uma roupa de lobo para praticar crimes. Mas, existe uma razão muito forte para eu acreditar em outra coisa.

— Em quê, padre? — indagou Brenda com olhos esbugalhados, muito atentos.

— Em um lobisomem!

Um calafrio percorreu os corpos de todos os presentes. Isaura fez o pelo-sinal. Cauan não duvidou, pois acreditava em muitas criaturas sobrenaturais, como o Caipora, o Curupira, a Iara, o Capelobo, o Saci.

— Isso é um pouco de exagero, não padre? — insistiu Isaura.

— Não, não é, minha filha. Saiba que a escola já foi assolada por um lobisomem tempos atrás.

Isaura e Cauan não sabiam, pois nessa época remota ainda não moravam ali.

— Algumas pessoas mais velhas ainda lembram dos eventos. Há os que resistam à ideia e julguem que nunca houve lobisomem. Mas, eu sei o que vi. Tratava-se de um grande homem-lobo de pelos cinzentos, alto, formidável e violento. Eu o vi cara a cara e enfrentei-o sozinho.

Essa história macabra realmente acontecera muitos anos atrás, quando Tom era um jovem sacerdote, mas já bastante interessado em assuntos místicos e cheio de fé em Deus e força espiritual. A escola estava começando e ainda havia poucos alunos. Na época, chamava-se Escola Arcanjo São Rafael. Os crimes começaram com uma jovem de 15 anos, que foi raptada pela besta e encontrada morta há muitos quilômetros de distância do colégio. Foi um pandemônio. A cidade ficou revoltada e preocupada.

O padre Tom pediu forças a Deus para solucionar o mistério. Recebeu a visita do Arcanjo Miguel, o qual disse que se tratava de um caso sobrenatural, que envolvia uma criatura perigosa. Foi assim que o sacerdote descobriu a verdadeira natureza do criminoso. Pesquisando em velhos livros, de páginas amareladas e meio roídos por traças, o padre ficou consciente das diferentes formas de lidar com as criaturas das sombras, os seres que vagam na noite, acometidos por alguma estranha doença, como é o caso da mula sem cabeça e do lobisomem.

Entre os livros, estava o de um judeu que explicava como combater lobisomens. O padre leu sobre a importância da prata no combate aos licantropos. A prata é o segundo metal mais nobre do planeta, vindo logo depois do ouro. Ela possui grandes propriedades místicas e terapêuticas, podendo ferir vampiros e matar lobisomens. O judeu explicava que, sendo um poderoso antimicrobiano, a prata atuava sobre os vírus do vampirismo e da licantropia, podendo, em alguns casos, curar o doente.

Esse judeu integrava uma ordem mística antiquíssima, chamada por nomes diferentes ao longo dos séculos, mas pertencente a Melquisedeque. O próprio judeu praticava o sacerdócio de Melquisedeque, que era um Elohim, um ser divino.

O padre Tom entrara em contato com a ordem através do Vaticano. Muitos padres do Vaticano conheciam a ordem e a apoiavam. Foi através do Cardeal Rudolph que Tomás conheceu membros da ordem e o próprio judeu, autor do livro, que parecia ter centenas e centenas de anos. Esse velho sábio enviou ao jovem padre poderosos talismãs para usar contra a Besta de São Rafael. Um deles era um grande medalhão de prata com a efígie do Patriarca Abraão. Outro era um grande e pesado Signo de Salomão, todo em prata pura, com a inscrição do Nome do Todo-Poderoso em torno da imagem da Estrela de Seis Pontas. Também foi enviada água benzida pelo próprio papa e um Agnus Dei, símbolo místico que protege das tempestades e perigos.

Foi assim, bem armado, que o padre preparou-se para o combate que teria que travar contra a Besta de São Rafael, que já fizera três vítimas. Tomás esperou no colégio, sozinho. Já sabia que se tratava de um homem-lobo extremamente perigoso, mas não sabia quem era o homem por trás do lobo. Mas, isso ele descobriria em breve...

Por volta das 10 horas da noite, o sacerdote ouviu um ruído, uma espécie de ronco. O colégio era bem menor e só havia o térreo. Uma belíssima lua cheia resplandecia no firmamento limpo, sem uma única nuvem.

Logo após o ronco, veio um uivo.

O padre empunhou o Signo de Salomão com sua destra enquanto segurava o vidrinho de água benta com a mão esquerda. Estava dentro de sua batina preta e trazia um escapulário em torno do pescoço. Lentamente, a fera aproximou-se dele, andando sobre as patas traseiras. Era um bicho descomunal, forte, peludo, cinzento, de olhos vermelhos como rubi, os quais flamejavam nas trevas.

Diante do jovem padre, ele arreganhou seus dentes afiados como navalha e urrou alto. Impulsionado por sua fé, Tom avançou com o Signo de Salomão e a água benta. O licantropo recuou diante do símbolo místico, totalmente em prata. Percebia-se que ele estava furioso, pois se sentia acuado.

Tomás proferia uma oração em latim enquanto caminhava de encontro à fera cabeluda. Conseguiu acuá-la contra uma parede e, milagrosamente, começou a ocorrer um processo de reversão: o monstro foi, pouco a pouco, retomando a forma humana. O padre acompanhou cada detalhe dessa transmutação, mantendo firme o símbolo do Rei Salomão e aspergindo água benta sobre o corpo do lobisomem.

Diante de seus olhos espantados, apareceu a figura do professor Abreu, figura muito respeitada no círculo docente do colégio, pois conhecia muito bem a Língua Portuguesa e a Literatura, disciplinas que ele ministrava.

O pobre homem chorava de desgosto e, certamente, de felicidade, pois sabia que agora estava livre da maldição do lobo. Estava completamente nu, pois antes da transformação, a pessoa rasga suas roupas e só então vira lobo.

Tomás, ainda orando, estendeu sua mão para o homem encolhido à parede, cobrindo sua nudez com as pernas, braços e mãos:

— Nada temas, meu filho! Agora, você está curado, liberto de sua sina maldita. Ora a Deus e agradece!

Abreu nunca mais voltou a virar lobo. Mas, sentia-se muito culpado pelo mal que causara às pessoas e chegou mesmo a confessar perante os familiares de suas vítimas o que fizera. Continuou morando na cidade até se mudar para a capital, onde provavelmente ainda vivia. Ele chegou a publicar um livro sobre licantropia, contando sua história e a forma como adquirira a doença. Ele fora atacado por um lobisomem há muitos anos, em uma viagem que fizera à Europa. Esse lobisomem pertencia à estirpe dos "Lobos de Circe", descendentes dos homens que foram transformados em lobo pela feiticeira Circe. Esses lobisomens possuíam algumas peculiaridades, como a capacidade de andar mesmo em alguns horários fora dos convencionais, ou seja, eles também podiam caminhar pelo dia embora, nesses momentos, não apresentassem tanta força quanto à noite.

Foi esse livro que o padre Tom mostrou à Isaura, Cauan, Brenda e Maiara naquela noite. Brenda olhou avidamente a obra, que era ilustrada com gravuras muito reais e fotos que o professor tirara de si mesmo. A própria Isaura, que duvidava do fato, passou a acreditar depois que viu o livro.

— Então, precisamos de um talismã para vencer o lobisomem? — perguntou Isaura, muito ansiosa para resolver aquela situação e ver-se livre da acusação que caía sobre a filha.

— Talvez mais que só um talismã, filha! Depende do tipo de licantropos. Mas, acredito que o Signo de Salomão é suficiente para a maioria dos lobisomens. O importante é tomarmos cuidado, agirmos com cautela, colocarmos a fé antes de tudo. Como disse São Paulo:

Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes. Estais, pois, firmes tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça, e calçados os pés na preparação do evangelho da paz, tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.

Cauan mostrou-se disposto a enfrentar a fera, mas Isaura se opôs. O padre tranquilizou a mulher, afirmando que aquela missão, como da primeira vez, cabia a ele. — Mas, vou comunicar o fato a Policarpo. Caso ele acredite e queira me ajudar, não hesitarei em receber sua ajuda, pois me lembro nitidamente do primeiro encontro que tive com uma criatura dessas. Mas, espero que, em breve, Brenda ficará livre da calúnia da qual é vítima.

— Irei com o senhor, padre! — decidiu o índio — Se o senhor não aceitar minha companhia, irei sozinho. Mas, faço questão de caçar essa besta perigosa e provar a todos a inocência de minha filha.

Tom percebeu que seria inútil dissuadir o valente tupi de sua ideia. Isaura suspirou. Brenda, por sua vez, estava "matutando" algumas coisas dentro de si. Na verdade, ela não estava muito convencida daquela história de lobisomem — a hipótese de Isaura parecia muito mais plausível. Apesar de tudo que lera sobre bruxas, feitiços e criaturas da mata, Brenda achava que o "Estripador de Pietrelcina" era um homem comum, disfarçado de lobo. Era alguém que desejava trazer para a vida real o conto de Perrault e dos Grimm sobre Chapeuzinho Vermelho.

Maiara chorava em desespero, suplicando ao pai que não fizesse uma loucura daquelas, que deixasse aquilo a cargo do sacerdote, que era experiente e saberia lidar com a situação. Além disso, o padre receberia ajuda do investigador e de seus policiais. Mas, o índio, abraçando a filha, falou:

— Para mim, isso é uma questão de honra, filha! Amo você tanto quanto amo Brenda e farei qualquer coisa para defender a honra de ambas. Assim me ensinaram meus pais, da tribo Abaya. Assim me ensinou o velho pajé, um dos meus preceptores.

E ficou decidido que o sacerdote, o índio e o detetive (caso ele realmente acreditasse na história), iriam enfrentar o lobisomem. Mas, Brenda não queria que seu pai, nem o padre se arriscassem tanto por ela (e pelo colégio). Ela mesma estava decidida a enfrentar o suposto homem-lobo.

No dia seguinte, ela confrontaria o rival.

Capítulo V

BRENDA DESCOBRE O AUTOR DOS CRIMES

Brenda resolveu se aventurar mais uma vez no colégio para descobrir o verdadeiro autor dos crimes, o suposto lobisomem. Mais uma vez, a menina usou do artifício de ir à aula de reforço para sair à noite. Ia armada com água benta e com o Signo de Salomão. Embora duvidasse que fosse um lobisomem de verdade, sentia-se mais segura portando essas armas místicas. Para entrar no São Pio de Pietrelcina, valeu-se do mesmo caminho que usara da vez anterior.

Como da outra vez, os vigilantes caíram em profundo sono — um fato que indicava que o lobisomem estava por perto. Mas, a garota julgava que fosse um homem com poderes mágicos disfarçado de lobo. Não sei por que razão era assim que ela interpretava os fatos. Acreditava no poder da magia (por sinal, lera bastante sobre o assunto), mas duvidava que fosse um verdadeiro homem-lobo que estava atacando pessoas no São Pio.

Ela levava uma lanterna para ir iluminando o caminho. Tinha dúvidas sobre o que encontraria no caminho, mas ia preparada com um recurso especial, além dos outros já citados.

Era uma erva hipnótica que, ao que parece, só existia na Floresta Caiçara. O pajé da tribo Abaya conhecia bem seus poderes e falava dos perigos que ela traria para quem não a usasse corretamente. Brenda pretendia aplicar a erva para exercer domínio sobre o "Estripador de Pietrelcina".

Enquanto caminhava pelos corredores do colégio, ouvia os roncos de alguns vigilantes e suas vozes, pois muitos conversavam enquanto dormiam. Ela esperava ver, a qualquer momento, um daqueles vigilantes se levantar e apresentar-se como o criminoso.

Mas, isso não aconteceu.

Enquanto vasculhava o terceiro andar, disposta a encontrar o autor dos crimes, aquele para o qual ela estava servindo de bode expiatório, ele apareceu...

Os olhos de Brenda arregalaram-se a ponto de quase saírem de suas órbitas. Ela começou a tremer como vara verde e sua boca também se abriu em espanto. O mais curioso é que os cabelos ficaram literalmente arrepiados tal foi o choque que ela recebeu diante da visão.

A alguns passos dela, parado, com ar majestoso e terrível, estava um grande lobisomem, branco como a neve. Suas orelhas eram muito compridas e pontudas, os olhos cintilavam como rubi, o focinho também era longo e fino, suas narinas dilatavam-se sem parar enquanto ele resfolegava, a boca hiante era repleta de dentes afiados e uma grande língua estava posta para fora, deixando cair uma baba nojenta e voluptuosa.

A criatura estava sobre as quatro patas, mas devia ter mais de um metro e setenta. Ou seja, se ficasse de pé, ultrapassaria facilmente os dois metros de altura. E era bastante corpulenta, o que conferia um ar de gigante ao conjunto.

Brenda, que esperava poder usar a erva soporífera, abriu rapidamente a mochila. Contudo, nervosa como estava, deixou cair o vidro com a poção, o qual se espatifou no chão. Em poucos segundos, o líquido se volatilizou e preencheu o ar com seu cheiro, fazendo valer suas propriedades hipnóticas.

O lobisomem começou a sentir os efeitos da erva mágica. Brenda não sentia porque tomara, ainda em casa, o antídoto recomendado pelo pajé, feito com outra erva. A poção hipnótica rapidamente se evaporava em contato com o ar, impregnando o ambiente com seu cheiro, que induzia ao estado hipnótico.

A besta sacudiu a cabeça, fungou, espirrou. Começou a bambear, tonto, mas ainda teve firmeza suficiente para dar um salto e sair correndo, fugindo da influência daquela poção.

A intenção inicial de Brenda era abrir o pote com o líquido em uma sala fechada, de modo que o "Estripador de Pietrelcina" (que ela julgava ser apenas um homem) não tivesse muita oportunidade para fugir. Ela não esperava ver um lobo gigante, resistente, ágil e astuto.

Ainda assim, estimulada por sua primeira vitória, Brenda correu atrás do monstro, sabendo que o gás liberado tinha potencial para alcançar uma grande área. Enquanto ia no encalço do lobisomem, ela apanhou a Estrela de Seis Pontas — talvez ocorresse com ele o mesmo que acontecera com o lobisomem do padre Tom.

O lobo corria depressa, dando saltos formidáveis. Isso dificultava a aproximação de Brenda. Quando se sentiu livre da ação do gás hipnótico, a besta estacou e virou-se, esperando que a garota atrevida se aproximasse. O bicho ficara furioso com aquilo. Ainda estava tonto e cambaleava sobre as quatro patas, buscando apoio nas paredes do prédio.

Aquela poção era ainda mais forte que o seu sopro de torpor, que ele costumava emitir antes de invadir um local. Era um forte sopro, semelhante ao do Lobo Mau dos Três Porquinhos. Ele inchava seu peito e soprava forte na direção do lugar em que pretendia penetrar. Esse sopro lançava as pessoas em um sono profundo. Dessa forma, o lobisomem conseguia agir com cautela, sem ser percebido e sem a necessidade de aplicar mais violência.

A erva mágica usada por Brenda era ainda mais poderosa que seu sopro e isso enfurecia a criatura.

Quando viu a garota penetrar no corredor em que ele se encontrava, os olhos do lobisomem brilharam ainda mais. Brenda parou, assustada, mas empunhou o famoso talismã. O brilho nos olhos da fera esfriou e apagou, ficando sua visão opaca. Mas, ele ainda teve ânimo de saltar na direção da inimiga, de olhos fechados, evitando fixar os olhos no símbolo místico.

Suas patas dianteiras atingiram o peito de Brenda e ela, perdendo o equilíbrio, caiu no chão, soltando o amuleto. Brenda sentiu o hálito quente da besta a poucos centímetros de seu rosto. A comprida língua lambeu sua face, deixando-a molhada. E Brenda, cheia de nojo, fechou os olhos ao sentir aquela língua babada e cálida.

Por algum motivo, o lobisomem evitava violentar a garota, agredi-la, fazer o mesmo que fazia com suas outras vítimas. Permanecia fungando sobre ela, olhando seu rosto assustado. Isso deu a ela tempo para tatear no chão, buscando o Signo de Salomão que soltara. Assim que conseguiu agarrá-lo, enfiou-o no corpanzil do monstro.

O lobo branco urrou de dor e pulou. Caiu a poucos passos de Brenda e ficou deitado, ganindo e tendo espasmos, esticando as longas pernas peludas. Pouco a pouco, aconteceu o mesmo fenômeno que ocorrera na luta do padre Tom.

O lobisomem estava se transformando em homem.

Ou melhor, em um garoto.

Foi com grande espanto que Brenda viu, no lugar do lobo branco, um jovem de 17 anos que ela conhecia muito bem. Era um menino que estudava em sua aula e chamava-se Márcio. Era um menino por quem Brenda nutria certo sentimento de amor. E, ao que parecia, o sentimento recíproco, já que o lobisomem nada fizera contra ela em nenhuma ocasião.

Agora ele estava ali, estirado no chão, inconsciente, com o Signo de Salomão cravado em sua carne. Apiedada, Brenda retirou o amuleto. Mas, Márcio permaneceu inconsciente. E também não estava curado de sua sina. Isso porque o Signo não era de prata, mas como era um símbolo mágico fazia efeito sobre o lobisomem. Além disso, os símbolos exercem efeitos diversos sobre a criatura, dependendo do tipo de lobisomem.

Assim que Márcio voltou à sua forma humana, os homens adormecidos foram acordando de seu sono profundo. Mas, nenhum deles viu Brenda e Márcio, que estavam em um corredor distante do terceiro andar. Para evitar chamar a atenção dos homens, Brenda apagou sua lanterna e abraçou-se ao corpo do menino.

Pegou o smartphone e ligou para o padre Tom. O velho estava fazendo uma oração quando seu telefone fixo tocou:

— Alô!

— Padre? É a Brenda! — falou a menina num cochicho — O senhor precisa me ajudar. Descobri o autor dos crimes. É um lobisomem mesmo! É o Márcio, aquele garoto que estuda comigo, lembra?

— Que conversa é essa, minha filha? Onde você está?

— Estou no seu colégio, padre. E o Márcio está aqui. Eu vi ele na forma de lobisomem branco e vi ele se transformar em gente de novo por causa do Signo de Salomão. Estou com medo dos vigilantes pegarem a gente.

— Fique onde está! Estou indo para aí.

O padre avisou Doralice, sua empregada doméstica que daria um pulinho na escola. Correu para o São Pio de Pietrelcina e, seguindo as indicações de Brenda, chegou ao corredor. Os vigilantes não estranharam a presença do sacerdote, pois ele costumava ir ao colégio a qualquer hora do dia ou da noite.

Assim que encontrou os jovens, Márcio começou a voltar a si e sentiu-se confuso e envergonhado, pois estava nu diante de uma jovem e de um padre. Ainda estava muito debilitado e, por isso, foi andando apoiado aos ombros do padre e de Brenda. Saíram pelos fundos, depois que o padre pediu ao vigilante do local que fosse a outro ponto do prédio.

Márcio foi levado primeiramente à casa paroquial, onde Tom deu uma roupa para ele vestir. O garoto contou sua história a Brenda e ao sacerdote:

— Nasci com a maldição do Lobo Branco. Herdei-a de minha bisavó que era um portuguesa que comandava uma matilha de lobos no Minho. Ela teve relações com um desses lobos, um belo lobo branco, e nasceu meu avô, pai de minha mãe, que é uma mulher comum, sem nenhum dote sobrenatural — apenas gosta muito de cachorros. Vovô não se transformava em lobo, mas eu me transformo. Apesar de não virar lobo, meu avô tinha um faro aguçado e compreendia perfeitamente a linguagem dos cães, lobos, raposas e canídeos em geral.

Em Portugal, essa pastora de lobos é conhecida como peeira. O padre Tom logo concluiu que Márcio era um lobisomem de espécie diferente da espécie que havia enfrentado quando jovem. Não se tratava de um Lobo de Circe, mas também não fora vítima da mordida ou arranhão de outro lobisomem. Era o bisneto de uma peeira. Por isso, ele começou a cogitar as possibilidades de curar o menino por outros meios, se realmente existissem outros meios.

Brenda ficou comovida com a narrativa de Márcio e entristeceu-se pela sorte do menino. Sabia que ele seria execrado pela população se o fato fosse revelado. Por isso, combinou com seu amigo padre uma forma de esconder o segredo de Márcio e, ao mesmo tempo, impedi-lo de continuar atacando pessoas.

— Será que o signo sagrado não já curou ele, padre?

— Pode ser, minha filha, pode ser... Como Você se sente, Márcio? Sente que alguma coisa mudou dentro de você depois que foi ferido pelo Signo de Salomão?

— Sinto-me fraco, padre. Mas, não acredito que esteja livre de minha sina.

— Mas, não podemos nos arriscar. Lembrei agora de um episódio curioso sobre Dom Quixote. Para evitar que ele desse suas saídas loucas pela Espanha, o frade e sua sobrinha o trancafiaram em uma jaula. Podemos fazer o mesmo com Márcio até descobrirmos a cura para o seu mal.

E assim ficou combinado. Resolveram construir uma grande jaula, mas grades de prata para conter a fúria do lobisomem. Prata e ouro não eram problemas para o padre Tom que, conforme falavam, era um grande alquimista e conhecia o segredo da transmutação dos metais.

Os pais de Márcio sabiam da sina do filho, mas não sabiam como dominar a criatura de modo que ficaram muito contentes com a descoberta feita por Brenda e pelo padre Tom. Dispuseram-se a ajudar em tudo que fosse possível, pois não queriam o filho atacando pessoas na cidade, mas também não desejavam matá-lo. Enquanto construíam a jaula, deixaram Márcio trancado no colégio, durante as noites, em uma sala fechada diante da qual colocaram o Signo de Salomão feito de prata, que o sacerdote ainda guardava consigo. Brenda e sua mãe levavam comida para ele. Quando a jaula ficou pronta, levaram-na para um porão na escola e, todas as noites, colocavam Márcio em seu interior.

Somente assim, com a certeza de que o "Estripador de Pietrelcina" não atacaria mais, as aulas recomeçaram.

Capítulo VI

A CURA

Juntamente com seu velho amigo (e amigo da família), o sábio padre Tom, Brenda pesquisou alguma forma de curar a maldição de Márcio. Os ataques realmente acabaram definitivamente, mas as explicações não satisfizeram completamente as pessoas. Encontraram um bode expiatório, uma pessoa que nunca existiu na vida real, a qual nomearam de Marino Iga, um tipo de anagrama para "imaginário". Para não mentir demais, o padre procurou um artifício para aproximar o estripador inventado do estripador real: ele sofria de uma doença que levava a pessoa a acreditar que era, realmente, um lobisomem.

Mas, a população desconfiava ainda de Brenda, pois continuamente viam a menina saindo à noite do São Pio. Na verdade, a jovem ia dar comida a Márcio, que estava contido entre as grades de prata de sua jaula.

Revoltada com as persistentes acusações e receosa de que a identidade de Márcio como lobisomem fosse descoberta, a garota tomou uma atitude bastante atrevida e desafiadora. Percebendo que alguns rapazes ficavam na cola dela, vigiando-a, seguindo seus passos, ela os ameaçou:

— Vocês dizem que sou eu a bruxa que matou os estudantes do colégio, não é? Acusam-me de forma leviana e eu bem podia processar vocês por isso. Mas, talvez vocês estejam certos e eu realmente seja uma bruxa indígena. Por isso, tomem muito cuidado comigo, seus salafrários! Posso transformar vocês em ratos e devorá-los! Talvez, prefira transformar em pedra pra enfeitar o jardim de minha casa.

E fazendo trejeitos com as mãos na direção deles, Brenda colocou todos para correr, batendo com os pés na bunda, rápidos como lebres perseguidas por algum predador.

Brenda divertiu-se à beça nessa noite. Gargalhou tão alto que parecia uma bruxa de verdade.

Os rapazes, assustados, falaram à diretora do São Pio o que Brenda lhes dissera. Quando as aulas recomeçaram, o padre Tom nomeara uma diretora para administrar a instituição: era uma pedagoga da capital, jovem e bonita, chamada Marili.

Pesquisando em alfarrábios com centenas de anos, Tom descobrira que existe uma forma de curar qualquer forma de licantropia: o controle das emoções. Descobrira que alguns lobisomens haviam se curado de sua doença habitando os monastérios tibetanos, aprendendo a meditar e a manter sob domínio completo suas emoções. Claro que o uso de algum amuleto ajudava bastante, principalmente o Signo de Salomão.

Márcio foi informado sobre o método e achou muito interessante, mas um pouco difícil, pois um lobisomem é facilmente dominado por seus instintos e por emoções intensas. O jovem iniciou uma série de exercícios espirituais para manter controle sobre o que tinha dentro de si. Isso se tornava mais fácil dentro da jaula, que estava guardada pela prata e pelo talismã de Salomão. Mas, ele não poderia permanecer a vida toda preso em uma jaula.

O controle de si mesmo é mais difícil do que parece. Costumamos dizer que, se quisermos mudar, podemos mudar. É verdade, mas é preciso que a pessoa realmente queira mudar, tenha força de vontade suficiente para isso — força de vontade, no entanto, é algo que nem todos conseguem desenvolver. É por isso que vemos pessoas ficarem velhinhas cometendo os mesmos erros de juventude.

Essa foi a rotina de Brenda durante muito tempo. Ela saía do colégio tarde da noite, provendo alimento e conforto para Márcio. Para se fortalecer e obter sua cura, ele lia diariamente livros de técnicas budistas, os Provérbios de Salomão, fábulas que falam sobre paz e harmonia interior. Nem sempre era fácil conter a fúria indômita que nascia dentro dele, pronta a explodir, como um vulcão poderoso e devastador.

Foi assim que Brenda resolveu convidá-lo para ir à chácara da família. O contato com a natureza, longe dos locais onde ele praticara seus crimes, talvez o ajudasse a se recuperar e a controlar melhor suas emoções. Os pais permitiram que ele acompanhasse a menina, percebendo que ela era de confiança e gostava muito dele.

A viagem ocorreu no período de férias no final do ano. O índio Cauan sabia dirigir muito bem o seu Corolla. As pessoas costumavam dizer que ele era um índio civilizado. Mas, nessa viagem, quem foi guiando o auto foi sua esposa, a bela Isaura. Na parte de trás do carro, iam Brenda, Maiara e Márcio, com um pesado Signo de Salomão pendente do pescoço.

A chácara ficava a aproximadamente 100 km da cidade. Era um grande terreno cercado por muros alto com ilustrações em alto relevo de gnomos e fadas (sugestão de Brenda). Márcio ficou fascinado pelo local, achou que naquele pequeno pedaço do Paraíso poderia efetivamente ficar curado de seu mal.

Havia um belo pomar com pés de manga, goiaba, laranja, jaca, banana. Havia muitos gnomos de jardim espalhados de espaço a espaço. Além das árvores frutíferas, existiam árvores de diferentes espécies e flores variadas, como girassóis, lírios roxos, rosas vermelhas e brancas, cravos, jasmins, beladonas, orquídeas, comigo-ninguém-pode e até pés de mandacarus, recheados de espinhos. Sobre as árvores, cantavam bem-te-vis, canários e cardeais, arrulhavam pombas e rolinhas, faziam algazarra um papagaio e muitos periquitos, além de uma calopsita com sua crista de galo. Um cão vira-lata e um gata siamesa completavam o rol de animais da chácara.

Não, não... Minto! Havia ainda um grande jabuti, com cerca de 40 anos, muito grande mesmo. Chamavam-no de Matusalém. As crianças das redondezas sempre vinham brincar com ele e algumas até montavam em seu casco enquanto ele, morosamente, caminhava pela grama.

O amor de Márcio por Brenda crescia mais e mais e vice-versa, pois a natureza tende a aproximar as pessoas, inclusive os de sexo oposto. O auto controle do garoto alcançou o máximo nível na chácara. Além disso, Cauan ensinava preces indígenas muito poderosas ao menino, o que ajudava ainda mais a dominar a maldição do lobo.

Os pais de Márcio também forma convidados a participar da reunião e tudo parecia perfeito para ele. De fato, passaram-se algumas noites em que ele não passava pela transformação. Ele se sentia um novo garoto, pronto para começar uma nova etapa em sua vida, livre de sua outra natureza.

— Sim. Mr. Hide — falou Brenda, brincando — Parece que você será somente o Dr. Jekyll doravante!

Maiara recebeu a visita do namorado, o que aliviava suas discussões com a irmã. Cauan e Isaura também discutiam, mas depois estavam se beijando e se abraçando e Brenda não compreendia direito o que se passava nas cabeças e nos corações de seus pais.

Mas, o que mais ela gostou foi a visita inesperada de uma criatura da mata, um duende da Floresta Caiçara.

O Curupira.

Esse duende de cabelos vermelhos e revoltos, que pareciam chamas de fogo, era considerado, por muitas índias da tribo Abaya, como o mestre da Floresta Caiçara. O pajé sempre dizia que o Curupira e o Caipora eram irmãos, os defensores da mata, dos bichos e das plantas.

Mas, o que o Curupira fora fazer na chácara de Cauan?

Ele havia aparecido lá logo depois de uma visita que o índio fizera à sua tribo. Ele conversara com o pajé e ficara ciente de que estava acontecendo algo muito ruim na floresta. O sacerdote perguntou a Cauan se ele permitiria que sua filha participasse da aventura que estava prestes a se desenrolar.

— Tupã falou comigo — explicou o ancião — Ele me falou que sua filha tinha o potencial necessário para enfrentar os perigos e mudar o destino trágico a que a floresta poderia sucumbir.

Cauan, como todo pai, ficou em dúvida. Sentia muito amor à filha para permitir que ela se arriscasse tanto. Mas, confiava no pajé e sabia que ele não mentia. Logo, se ele dissera que recebera uma revelação de Tupã é porque tinha efetivamente recebido essa revelação.

Confiante na honestidade do pajé, no poder de Tupã e na capacidade de sua própria filha, Cauan concordara em ajudar. O ancião disse que, em breve, Brenda receberia a visita de um dos duendes da mata e ficaria a par de tudo.

Foi o que aconteceu naquela noite. Surpresa, a garota viu na chácara o Curupira, que viera montado no grande porco do mato, que pertencia tanto a ele como ao seu irmão.

O Curupira relatou tudo que estava acontecendo na floresta:

— Uma criatura má está tentando dominar nossa mata, Brenda! Por isso, o próprio Tupã enviou-me até aqui para que você me acompanhasse e nos ajudasse a combater essa criatura.

Brenda ficou assustada. A ideia de enfrentar uma criatura perigosa assustou-a. Mas, em seus veias corria o sangue indígena de seu pai e, logo, ela recobrou o ânimo e, sobrenaturalmente, sentiu-se motivada para a viagem:

— Posso ajudar sim. Mas, quem é essa criatura?

— A Cuca!

Esse nome tenebroso fez as pernas de Brenda bambolearem e ela quase caiu. Para a garota, a Cuca seria a pior de todas as feiticeiras do mundo. Seu nome era invocado pelas mães para assustar as crianças teimosas e malcriadas. E Brenda sabia de casos reais em que meninos peraltas, que batiam na mãe mostravam a língua ao pai, havia desaparecido misteriosamente.

A Cuca alimentava-se das crianças. Fervia-as em seu caldeirão, bebia seu sangue, fazia botões de seus ossos. A aparência da bruxa seria repugnante: olhos tortos, nariz comprido e curvado, queixo saliente, verrugas. Vestia-se como uma maltrapilha, uma mendiga suja, e sempre carregava um saco nas costas, local em que metia suas vítimas.

Brenda enfrentara um lobisomem... por amor ao menino. Mas, seria suficientemente corajosa para enfrentar a Cuca?

Ela duvidou de si mesma e teve mesmo um desejo imenso de correr para o seu quarto e meter-se debaixo de seus cobertor. Contudo, apesar do medo, ela tinha tendências corajosas e foram essas tendências que prevaleceram naquele momento. Se ela tinha a proteção de Tupã, nada havia a temer, já que a proteção divina é uma proteção contra a qual nenhum ser (nem a Cuca) podem vencer.

— Seus pais já estão sabendo do caso — explicou o Curupira — Se quiser, despeça-se deles e podemos partir agora mesmo.

Brenda fez o que o duende recomendara. Cauan e Isaura abraçaram a filha e entregaram-na nas mãos de Deus Todo Poderoso. Isaura, muito desconfiada das coisas de que falava seu marido, não pode deixar de se surpreender com a presença daquela figura exótica em sua chácara.

Não se podia dizer que o Curupira fosse bonito, mas também não era tão feio assim. Tinha cabelos de fogo que se moviam como chamas. O rosto apresentava certa beleza indígena. Em torno da cintura, ele levava uma tanga feita de folhas. Mas, o mais surpreendente eram seus pés tortos, virados para trás — uma deformidade que ele transformara em vantagem para acabar com os caçadores, os quais se perdiam na mata e acabam morrendo de fome ou sede, ou esgotados pelo cansaço, ou devorados por alguma onça ou sucuri.

Márcio e Maiara, que escutaram toda a conversa entre Brenda e seus pais, dentro de casa, resolveram participar da aventura.

— Você não vai! — gritou Isaura para Maiara — Os seres da mata chamaram Brenda e alguma razão deve existir para isso. Você não tem o que fazer lá nesses confins!

— Deixe-a ir, Isaura! — falou Cauan — Ela também tem sangue de índio em suas veias e certamente mostrará o seu valor nessa aventura.

— É por isso que brigamos! Como um pai pode permitir que a própria filha se embrenhe numa mata obscura para enfrentar monstros e feiticeiros? Só sendo louco!

— Não, não sou louco, Isaura! Confio no poder de Tupã e nas forças benévolas que povoam a Floresta Caiçara. Eles irão proteger nossas filhas.

Márcio pediu que Cauan e Isaura comunicassem sua decisão aos seus pais e os quatro partiram da chácara, montados nas costas do porco do mato, cujas dimensões eram realmente assustadoras. Márcio chegou a comentar:

— O Javali do Erimanto devia ser mais ou menos desse tamanho. Nunca vi um porco tão grande em minha vida!

Quando eles deixaram a chácara, era aproximadamente meia noite. Observando as filhas perderem-se na escuridão, montadas sobre um porco do mato sobrenatural, Isaura e Cauan permaneceram abraçados. Curiosamente, eles estavam começando a compartilhar as mesmas ideias, a tornarem-se menos briguentos um com o outro.

Capítulo VII

A CUCA

Todos conhecem a Cuca. Ela é uma das mais populares feiticeiras da História. Conhecida por raptar e devorar crianças, essa bruxa é o tema de antigas canções de ninar que punham medo nas crianças. No Brasil, provavelmente, a sua canção, juntamente com a do Boi da Cara Preta, são as mais famosas entre as crianças.

As crianças costumavam ser amedrontadas por criaturas terríveis, como a Cuca, o Boi da Cara Preta e o Velho do Saco, que é uma versão do Papa-Fígado. Talvez, sua mão já tenha lhe dito quando você ainda era uma criança de 4 ou 5 anos e ficava fazendo birra, teimando ou maltratando algum animalzinho:

— Não faça isso que o Velho do Saco vem te pegar!

A Cuca tem uma longa história, que se perde nas brumas do tempo. Ninguém sabe, com certeza, dizer onde ela nasceu, quando apareceu, o porquê de devorar criancinhas.

Apesar de não existirem certeza, existem teorias. Muitas delas fazem total sentido.

Por exemplo, conforme uma lenda judaica, Adão teve uma mulher antes de Eva. Essa mulher, que fora criada do próprio barro, chamava-se Lilith.

Lilith era uma mulher sedutora e independente e, logo, começou a ter muitas discussões com Adão. Ela mesma começou a despertar no homem desejos insanos de luxúria. Adão estava se tornando um homem extremamente lascivo. Certa vez em que discutia com Adão, ela pronunciou o Nome Impronunciável do Criador e, voou, saindo do Jardim do Éden.

Como se vê, ela possuía asas de águia, o que lhe permitia voar. E, muito provavelmente, o Éden ficava na África, e não na Mesopotâmia, a alguns quilômetros do Mar Vermelho.

Deus enviou anjos para persuadir Lilith a retornar ao Éden, mas ela se mostrou intransigente. Ficou lá na beira do Mar Vermelho, local onde, mais tarde, muitos anjos caídos se reuniriam para coabitar com a bela e sedutora Lilith. Da união com esses anjos, Lilith paria cem filhos por dia. Esses filhos, quando do sexo masculino, eram chamados íncubos e, quando do sexo feminino, eras chamados súcubos. Essas criaturas são vampiros que se alimentam da energia sexual de homens e mulheres durante a noite.

Lilith, mais revoltada ficou, quando soube que Deus havia criado outra companheira para Adão, a bela Eva. Juntamente com o majestoso dragão que guardava a Árvore do Ciência, ela decidiu perder o casal. O Dragão era muito poderoso, tinha o dom da fala e longos chifres, além de belas asas e uma cauda colossal, toda brilhante. Tanto andava sobre quatro patas como sobre duas patas, alcançando mais de três metros de altura.

O Dragão seduziu Eva e, com ela, manteve relações sexuais. Eva engravidou e, mais tarde, já fora do Éden (de onde fora expulsa com Adão por sua desobediência), ela deu à luz Caim, que se tornaria o primeiro vampiro "oficial" da História.

Lilith teve relações com Caim e teve um filho com ele, chamado Enoque. O casal fundou a primeira cidade do mundo na Terra de Nod e puseram na cidade o nome de seu filho.

Mas, Lilith não se satisfazia. Sua raiva contra a humanidade persistia e ela jurou perseguir os homens, tirando-lhes seus filhos, principalmente quando recém-nascidos.

Ela subiu ao Céu e, seduzindo Samael, um dos anjos de Deus, iniciou a terrível rebelião que culminou com a queda de muitos anjos. Miguel, o Arcanjo Guerreiro, líder do exército celestial, travou uma dura batalha contra os anjos revoltosos e os lançou a Terra. Muitos foram aprisionados nas profundezas do planeta com longas correntes de prata, ferro e titânio. Alguns, que tiveram mais liberdade, foram habitar com Lilith nas margens do Mar Vermelho.

O pior é que Lilith não desistiu de Adão. Costumava aparecer em sonhos a ele e mantinha relações com ele e, dessa união adúltera, nasceram muitas criaturas, como o demônio Asmodeus, que viria a governar Sodoma muitos anos depois.

Lilith gostava de seduzir os maridos de outras mulheres, levando-os a traírem suas esposas. Depois, castigava-os, matando-os, ou mutilando-os, ou deixando-os loucos. Era sua eterna vingança contra Adão e Eva.

Ela gostava de sequestrar as criancinhas e levá-las para longe, onde as devorava ou as criava para serem suas escravas. Por isso, alguns acreditam que a Cuca é a própria Lilith — ou alguma de suas filhas.

Para proteger as crianças contra a influência nefasta da primeira esposa de Adão, os pais podem usar um amuleto especial, que traz gravado a imagem e/ou os nomes dos três anjos que foram enviados para redimi-la quando ela deixou o Jardim do Éden. São os anjos Sanvi, Sansavi e Samangelaf. Da mesma forma, esse poderoso amuleto protege as crianças de hoje contra a Cuca!

Outra história interessante que dá o que pensar sobre a Cuca é a de Lâmia. Lâmia foi uma rainha da Líbia, nação situada no norte da África. Sendo amante de Zeus foi castigada por Hera, que matou seus filhos. Lâmia passou a viver em uma caverna, longe da civilização, mas atacava os vilarejos, alimentando-se do sangue de crianças como uma forma de vingar-se contra o castigo que recebera de Hera.

E as comparações não param por aí. A lenda de São Jorge também alude à bruxa comedora de crianças. O terrível dragão que ameaçava a Líbia, vivendo escondido em uma caverna, era nada menos que a própria Cuca. Isso porque a bruxa tem o poder de se transformar em outros seres, como corujas, dragões (serpentes) e gatos.

Como se vê não faltam hipóteses para explicar as obscuras origens das megera. Seu nome parece se referir à cabeça. Quem já não ouviu falar de expressões como: "esfria a sua cuca", "fulano tá de cuca quente" e outras similares? O Coco é um tipo de bicho-papão português, masculino da Cuca (ou Coca, como é chamada entre portugueses e espanhóis).

Bem, feita essa básica preleção sobre a Cuca, voltemos à nossa história.

...

A Cuca habita uma caverna. Mas, sua caverna é um verdadeiro palácio natural, com três andares e sete torres. Tudo construído pela Mãe-Natureza.

Ao contrário do que supõem muitas pessoas, ela não é feia, estando longe de ser uma velha coroca, zarolha, verruguenta e suja. A verdade é que ela assume essa forma quando assim o deseja ou quando passa muito tempo sem se alimentar de crianças e jovens. Mas, na verdade, é uma belíssima mulher, uma mulher que conseguiu conservar sua juventude e vigor ao longo dos séculos.

A bruxa é alta, possui olhos verdes, lábios rubicundos e cabeleira negra e longa, que conserva em desalinho, o que lhe confere certa beleza selvagem. Veste somente um tanga, que pode ser de folhas ou flores afrodisíacas. Às vezes usa também colares de flores variadas que cobrem parte de seu opulento busto. Anda sempre descalça, mantendo contato direto com a terra, de quem recebe certos fluxos poderosos. Mantém as unhas das mãos sempre longas. Seus poderes permitem que ela hipnotize crianças e homens, a quem seduz e leva à perdição.

Pode transformar pessoas em estátuas de pedra e possui uma vasta coleção dessas esculturas na entrada de seu palácio de pedra. Os répteis (como jacarés e serpentes) obedecem ao seu comando, bem como aves noturnas, como a coruja e o mocho.

Em alguns casos, pode até alterar seu tamanho, tornando-se uma giganta!

O pior é quando ela se transforma em dragão alado. A transformação é horrorosa e ela pode voar, lançar fogo pela boca hiante e esmagar completamente seu inimigos. O seu rabo alcança quase três metros de comprimento e torna-se uma arma mortal para quem se colocar no seu caminho.

Já há algum tempo, ela planejava dominar toda a Floresta Caiçara e agora, contando com o apoio de outras criaturas, decidira impor uma monarquia sobre a região — uma monarquia onde ela seria a soberana absoluta e controlaria tudo, até o Caipora e o Curupira.

Não era à toa que os índios estavam preocupados com essa ideia. E a bruxa realizasse seu intento, todos sofreriam sob seu jugo cruel.

E faltava muito pouco para isso, pois ela se unira a criaturas muito fortes, cheias de desejo de poder e prontas para eliminar qualquer um que se pusessem em seu caminho. Todos sabem o poder que os gnomos possuem, mas existem alguns que são bons (a maioria, diga-se de passagem) e os malvados. Um desses malvados estava do lado da Cuca. Viera de longe para prestar seu apoio à bruxa — era o terrível Rumpelstiltiskin, cujo nome complicado quase ninguém sabia saber pronunciar. Sua capacidade de fabricar ouro era notória, mas não era exclusividade sua, já que todos os gnomos podem fazê-lo, pois são os elementais da terra e trabalham os metais.

Os sacis, que também são gnomos, prestaram seu apoio à bruxa. Capazes de formar grandes remoinhos de vento, eles podiam enfrentar todos os oponentes. Além disso, possuíam capacidade de ficar invisíveis, de aparecer e desaparecer, de realizar desejos. Seu gorro vermelho era um poderoso canalizador de energia telúrica e eólica.

Outro que se dispusera a ajudar a bela feiticeira fora o Arranca-Línguas, uma criatura descomunal, com quase três metros de alturas. Muitos o consideram o King Kong brasileiro, da região dos cerrados. É um gorila que anda sobre as pernas traseiras, como todo homem e seu prato predileto, apesar de todo o seu tamanho, é a língua, seja de animais, seja de gente.

A Cuca prometeu-lhe muitas coisas, mostrou-se generosa com o monstro. Disse-lhe que lhe daria uma sede exclusiva para governar. O macaco, muito astuto e ambicioso, não hesitou em aceitar a oferta da Cuca e passou a ajudá-la.

Por causa de suas dimensões e de seus hábitos sinistros, o Arranca-Línguas era uma criatura muito temida pelos índios e até por outros seres da mata. Muitos guerreiros valentes perderam sua vida lutando contra o monstro e, consequentemente, tiveram suas línguas arrancadas e devoradas pelo gorila.

Outro aliado da bruxa era o Negro D'Água, uma criatura que vive dentro dos rios. Alguns ufólogos consideram que ele é um exemplar dos reptilianos ou dos alfa centauranos, ETs que vivem sob a superfície e nas profundezas dos mares, respectivamente. A população em geral, contudo, descarta essa hipótese e afirma que ele foi resultado da união de um homem negro com a Iara ou de um sapo gigante com uma mulher negra. De fato, o Negro D'Água tem pele muito escura, é alto, seus dedos das mãos e dos pés lembram os pés de um anfíbio ou pato, com um película entre eles e a criatura possui escamas misturadas sobre o corpo, entremeadas com a pele humana comum.

O ser gosta de virar embarcações, furar a rede dos pescadores e já foi responsável pelo afogamento de muitos pescadores. Sua cabeça é completamente careca e suas gargalhadas são retumbantes, varando a noite, que é o momento em que ele mais costuma aparecer, dando suas risadas. Para evitar tragédias nos rios, os pescadores têm o hábito de atirar nas águas uma garrafa de cachaça, pois o Homem-Anfíbio adora uma pinga e, assim, evita fazer algum mal aos homens. A criatura mostrada no filme "O Monstro da Lagoa Negra", uma obra bem antiga (1954), nada mais é que uma versão do Negro D'Água. Também é uma versão dessa lendária criatura, o estranho ser apresentado no filme de Guillhermo Del Toro, "A Forma da Água" (2018), que arrebatou 4 estatuetas do Oscar,

Outros que simpatizaram com a causa da Cuca foram a Pisadeira e o Corpo-Seco. A primeira é uma velha de nariz comprido e recurvo, cabelos lisos muito longos (iguais aos da menina de "O Chamado"), muito feia, magérrima, que anda arrastando chinelos velhos. Ela gosta de ficar sobre os telhados, vigiando. Quando a pessoa cai em profundo sono, ela desce pelas paredes, penetra no quarto da vítima e senta sobre seu peito, fazendo com que a pessoa sinta falta de ar e fique sufocando.

O outro é uma entidade ainda mais assustadora. Trata-se de um morto-vivo peculiar. Tendo feito muitas maldades quando vivo, depois de morto, a terra o rejeita e ele fica vagando pelo mundo na forma de corpo-seco, semelhante a uma múmia. Ataca as pessoas nas estradas durante a noite para sugar-lhes o sangue. Geralmente, vira corpo seco a pessoa que bateu na mãe ou no pai, que torturou pessoas ou animais ou que fez outras grandes maldades.

Um grande lobisomem da mata também aderira ao grupo. Era um licantropo comum, ou seja, daqueles que adquirem a maldição após terem sido mordidos por outro lobisomem. O Cavalo de Três Pés, conhecido como o Cavalo da Morte, também integrava o grupo. Esse cavalo, além de só possuir três pernas, é provido de asas e não tem cabeça.

O Boi da Cara Preta, terror da criançada, também aderiu à Cuca e até ajudava a bruxa a traçar suas estratégias. Para quem não sabe, o Boi da Cara Preta é ninguém menos que Milcom, ou Moloque. Trata-se de uma divindade antiquíssima, adorada por fenícios e amonitas nas terras do Oriente Médio. Ele devorava crianças e sua cara ficava escura quando acendiam a fornalha dentro de sua imagem, o lugar onde lançavam as vítimas que seriam sacrificadas em sua honra.

Finalmente, também Asmodeu, o antigo rei de Sodoma, demônio famoso citado na Bíblia, a quem o anjo Rafael aprisionara no Egito, também resolver participar da brincadeira. Volta e meia aparecia na floresta e ajudava a Cuca no que fosse preciso.

Todos esses seres aliaram-se à Cuca para que ela exercesse seu domínio sobre a Floresta Caiçara, pois todos receberiam boas recompensas por sua fidelidade.

Quando o grupo, chefiado por Brenda, alcançou a Floresta Caiçara, montados no grande porco do mato do Curupira, infelizmente a Cuca já havia alcançado seu intento. Toda a floresta estava sob seu domínio, dividida em sedes que eram governadas por uma criatura específica.

Capítulo VIII

EXPLICAÇÕES

Assim que chegaram à tribo Abaya, o pajé Kauê explicou tintim por tintim tudo o que acontecera na Floresta Caiçara. A famigerada bruxa de mais de mil anos conseguira apossar-se de toda a mata, burlando até a proteção do Curupira. Contava com poderosos aliados, cheios de malícia e ambição.

Cabia à Brenda e aos seus amigos libertarem a mata daquela opressão, conforme comunicara Tupã ao próprio pajé. Brenda era um garota predestinada a uma grande missão e jamais deixaria a Terra sem cumpri-la. Fizeram até um ritual em que invocaram Tupã, a divindade do trovão para manifestar sua opinião sobre a menina.

Isso aconteceu na oca do pajé, onde se reuniram Brenda, Kauê e as virgens tupis que serviam na oca sagrada. Ofereceram uma bebida doce à Brenda, que o pajé afirmou ser mágica.

Depois de beber, Brenda entrou em êxtase espiritual. Sentiu-se voar pelo céu noturno da Floresta Caiçara. Ia subindo e subindo, cada vez mais perto das estrelas que cintilavam, cada vez mais perto de Jaci.

De repente, ela se viu diante de uma grande montanha, coberta de verde. Havia um palácio de ouro no topo dela. Era a morada de Tupã.

A deusa Jaci, esposa de Tupã, veio receber Brenda. Era linda e seus olhos brilhavam como prata. Seus cabelos eram azuis e dele escorriam pontinhos brilhantes como se fossem estrelas. Ela estava despida e, assim, sem nada que cobrisse seu formidável corpo, Jaci era ainda mais bela.

Tudo na morada de Tupã brilhava como se fosse o próprio sol. E, lá dentro, estava realmente Guaraci, irradiando seu intenso brilho. Também ele amava Jaci, cada um governando um período do dia: ela controlava a manhã e parte da tarde; ela controlava a outra parte da tarde e a noite. Guaraci era alto e corpulento e sentava-se ao lado de Tupã, que era ainda mais alto.

Tupã era um formidável gigante vestido em uma tanga de folhas de bananeira e com um cocar de penas de arara sobre a cabeça. Em seus ombros, estava pousado um tucano e um papagaio e, sobre ele, não paravam de esvoaçar aves coloridas que faziam grande algazarra.

Tupã segurava um grande tacape na mão direita e uma flauta na esquerda. Seu rosto estava pintado como costumam fazer os guerreiros tupis. Os cabelos caíam pelos ombros, negros como as penas do corvo. Seu peito nu mostrava toda sua robustez, como se nada pudesse ferir aquele tórax divino.

Quando ele falou, parecia que todo o palácio estremecia ao som de sua voz, que era como um trovão. Mas, Brenda, apesar do temor, sabia que ele era um amigo e nenhum mal lhe faria.

— Menina Brenda! Aproxime-se de meu trono!

Brenda foi, acompanhada de perto por Jaci que, tal como Tupã, exibia seus opulentos seios, fartos e cheios de vida, significando que poderiam alimentar todos os seres do mundo.

— Você tem uma missão a cumprir! De sua ação depende o destino da Floresta Caiçara, incluindo a tribo Abaya, local de nascimento de seu pai.

E, então, ele repetiu com outras palavras o que lhe dissera o pajé Kauê. A Cuca estava dominando a floresta, mantendo sob sua governança todos os seres da mata e ameaçando até mesmo o Caipora.

— As ambições da Cuca não têm limites! Mas, você Brenda está destinada a enfrentar a feiticeira e as suas hostes. Seus amigos podem te acompanhar. O menino que vira lobisomem será seu braço direito nessa luta. E sua irmã também será de grande ajuda. E eu sempre estarei do seu lado quando você precisar. Portanto, volta à Terra e age o mais rápido possível. Mas, antes, escuta o que tenho a dizer. É uma bela história — uma história sobre suas origens divinas.

E Tupã revelou à Brenda um segredo maravilhoso.

Há muitas e muitas luas,

E, mais uma vez, Brenda foi lançada ao espaço e voou de braços abertos, fazendo o percurso de volta à tribo Abaya.

Despertou assustada e viu, ao seu lado, as índias jovens e o pajé proferindo palavras em sua língua enquanto sacudia um chocalho bem diante de seu rosto:

— Acho que, depois dessa viagem, se você tinha alguma dúvida, agora não tem mais.

Realmente, Brenda não alimentava a menor dúvida sobre sua missão. Ela fora escolhida pelo próprio Tupã para lutar contra a Cuca e seus comparsas. Ela tinha em suas veias o sangue de Cauan, índio destemido e, curiosamente, descendente de Tupã.

Era verdade.

Tupã contou toda a verdade:

— O bisavô de Cauan foi um homem especial. Ele teve relações com uma divindade muito célebre. Ela é Yebá Bëlo, a Mulher Que Apareceu do Nada. Dessa relação nasceu seu avô, Brenda, o pai de seu pai. Assim, em suas veias, corre o sangue divino da Mulher Que Apareceu do Nada.

A revelação fez Brenda sentir-se, ao mesmo tempo, estupefação e uma incontida alegria. Ela descendia, então, de uma família de índios tupis. Descendia diretamente de uma deusa da qual seu pai sempre falava muito. Descendia dela como Enéas descendia de Vênus, como Hércules e Perseu de Zeus, como

Yabá Bëlo fora a verdadeira criadora dos homens e habitava uma bela morada de quartzo nas regiões elevadas.

Essa revelação deixou Brenda mais entusiasmada para lutar. Não somente ela, mas Maiara também — afinal de contas, ela também era descendente de Yabá Bëlo, era sua bisneta. Na verdade, Maiara começou a sentir-se confusa, considerando que, até então, sempre se preocupara com as aparências e julgava que suas origens era motivo de vergonha para ela. Ser civilizada é que seria motivo de orgulho, ser nascida em uma metrópole, descendente de europeus, de gente que dominara terras selvagens e construíra impérios. Ela achava que o fato de ter subjugado índios e negros representava um exemplo de força poderosa do lusitano.

E, agora, diante da revelação que Brenda lhe fizera depois de seu retorno do palácio de Tupã, Maiara sentia vergonha de si mesma por ter desejado rejeitar sua raça. Sentiu-se tão mal consigo mesma que se afastou para chorar amargamente, mas Brenda percebeu o seu comportamento e sentiu dó da irmã.

Brenda vinha percebendo que a irmã não era realmente má, mas tinha tendências nada boas. E lutar contra elas nem sempre é fácil.

Kauê também disse algumas palavras a Márcio, que procurava a cura para seu mal. Enquanto Brenda era descendente de seres divinos, ele era descendente de lobisomem. Mas o pajé prometeu-lhe que, ao final da missão, ele ficaria finalmente curado. Seria a recompensa que Tupã lhe daria por sua contribuição.

A notícia deixou Márcio muito satisfeito, pois ele desejava libertar-se daquele sério problema para poder viver uma vida normal com sua família e não cometer mais crimes.

Lá na tribo Abaya, além do velho pajé, do cacique, do cãozinho Tupi e de todos os outros conhecidos, Brenda reviu, de modo especial, o jovem e valente Muri, que nutria por ela uma grande paixão. Muri também prontificou-se a acompanhar Brenda e seus amigos durante a luta contra a Cuca. Kauê e seus pais deram-lhe permissão, pois sabiam que o índio tinha muitas qualidades: era hábil no manejo de armas (principalmente, arco e flecha), era ágil como uma suçuarana e também possuía um nível elevado de inteligência.

Sim, Muri seria muito útil na batalha que se iniciava.

O que mais deixou Brenda assustada foi o fato de que eles não precisariam ir muito longe para começar a batalha. A primeira sede do governo da Cuca era ali mesmo, na tribo Abaya. Fora o último reduto de resistência na Floresta Caiçara. Ainda que o Curupira não tivesse deixado isso claro quando foi à chácara dos pais de Brenda, a tribo Abaya ainda era o único obstáculo ao poderio completo da Cuca. Porém, entre a ida e o retorno do Curupira, ela havia dominado o local e colocado o terrível Arranca-Línguas como guardião da sede.

Devido à sua sabedoria e conhecimento de magia, Kauê tinha certa liberdade. Recebia visitantes e mantinha certa autonomia sobre a administração da tribo. De qualquer modo, tudo era fiscalizado pelos mensageiros do Arranca-Línguas, que erguera para si uma grande oca e mantinha-a protegida com uma alta paliçada.

Para iniciar seu reinado de horror, a primeira coisa que o gorila fizera fora arrancar e devorar a língua do cacique, mostrando assim que quem mandava na área era ele agora. Ao saber disso, Brenda ficara horrorizada. Olhou para o pobre cacique, que estava ali perto, cabisbaixo e macambúzio.

Quando Brenda o fitou, ele simplesmente anuiu com a cabeça e lágrimas rolaram de seus olhos. Ela ficou revoltada com aquilo, sentindo crescer dentro de si o desejo de arrancar a língua do Arranca Línguas. Maiara também ficou compadecida do que acontecera ao valente índio, tão amigo de seu pai. Até o cãozinho Tupi parecia triste, ganindo ao lado do cacique.

Ela percebeu que a tribo Abaya fora entregue nas mãos de um piores seres da mata. Era, certamente, um domínio de terror que precisava ser destruído a qualquer preço. Outros índios logo teriam suas línguas arrancadas também e os bichos do lugar, já que língua era o prato predileto do monstro.

O pajé apontou para uma colina, no alto da qual estava a alta paliçada, na qual vivia o Arranca Línguas, governante da tribo por delegação da Imperatriz Cuca.

Brenda não pode conter um arrepio pelo seu corpo ao ver a paliçada, formada por grandes toras de madeira. Conforme explicara o pajé, a fortaleza fora erguida por meio de artes mágicas da Mulher-Serpente (Kauê, em algumas ocasiões, referia-se assim à Cuca).

— Vivem outros monstros com ele — falou uma jovem índia de pele muito bronzeada — A Onça da Mão Torta, por exemplo. E o Velho do Saco também. Algumas bruxas também vivem lá, ajudando o gorila em tudo que ele precisar.

Brenda conhecia bem a história da Onça da Mão Torta. Tratava-se de um cruel vaqueiro que costumava fazer mal a todos: homens, mulheres, animais. Maltratava principalmente os negros escravos. Uma de suas características era a mão torta. De tão ruim que era, ele morreu sozinho dentro de casa e as formigas devoraram seu cadáver. Depois, disso ele se metamorfoseou em uma onça, cuja pata dianteira esquerda é torta, tal como a mão do vaqueiro.

Não há como ferir essa fera, pois ela não morre.

A Onça da Mão Torta é um animal extremamente cruel. Tem grandes dimensões e ataca qualquer ser vivo que apareça à sua frente.

Mesmo sabendo de todos os perigos que cercavam aquela paliçada, Brenda instigou os amigos a partirem logo. Sabendo que descendia de deuses, sentia-se mais confiante em si mesma. Maiara também tinha o mesmo sangue. Já Márcio era um formidável lobisomem que poderia muito bem peitar o Arranca Línguas. Quanto a Muri, era um índio inteligente, cheio de qualidades que o destacavam dos outros.

Foi assim que, sem mais perda de tempo, ela e os outros caminharam decididamente em direção à colina, em direção à paliçada onde vivia o Arranca Línguas e seus comparsas.

Lá dentro da grande oca, o Arranca Línguas estava fazendo um grande comemoração. As bruxas mais belas dançavam bem no meio da oca, arrancando aplausos dos seres presentes. As bruxas feiosas riam e batiam palmas, acompanhando a alegria dos convivas. Suas risadas eram esganiçadas e altas de modo que, de bem distante, era possível escutá-las.

Sobre uma alta plataforma, sentado em uma espécie de trono, estava o gigantesco Arranca Línguas com um cocar sobre a cabeça. Ele estava devorando um punhado de línguas e bebia vinho forte.

Era uma criatura que admirava e espantava ao mesmo tempo. O seu pelo era muito escuro e os olhos eram muito rubros. Sentia-se animado diante de tantas feiticeiras bonitas, algumas muito famosas, como Jezebel. Jezebel, possivelmente, era a mais sedutora de todas aquelas feiticeiras bonitas.

De origem fenícia, adoradora de Moloque, tinha os cílios compridos e as pálpebras bem pintadas de preto. Ela sabia dançar muito bem, rebolando seus quadris e sacudindo a cabeleira negra e lisa, ora lançando-a sobre os olhos, ora lançando-a para trás.

O Arranca Línguas sentia seu sangue ferver quando estava junto dela, o que despertava ainda mais seu apetite monstruoso por línguas. Nesses momentos, ai de quem estivesse perto dele ou caísse na sua ira — certamente perderia sua amada língua e, talvez, até a vida. Embora só se alimentasse de línguas, o Arranca Línguas costumava tirar a vida quando assim desejava, jogando o cadáver para as feras.

A Onça da Mão Torta ficava muito contente quando isso acontecia, pois se regalava com os corpos das vítimas.

Outro que estava ali, observando a Dança das Feiticeiras era o Velho do Saco. Era um negro alto, ossudo, de cabelo pixaim, sempre carregando seu malfadado saco sujo, dentro do qual jogava suas pobres vítimas: as crianças. Ele, no começo, era um escravo de um rico senhor de escravos. Esse rico fazendeiro sofria de lepra e uma curandeira recomendara alimentar-se do fígado de crianças para ficar livre da moléstia. O homem ordenara, então, ao seu escravo de maior confiança, um negro já velho, de carapinha branca, a andar pelas vilas, povoados e cidades, recolhendo as crianças que andassem sozinhas pelas ruas ou estivem fugindo, escondendo-se de seus pais ou responsáveis.

O senhor alimentar-se à vontade fígado, mas de nada adiantou, pois morreu leproso. O velho negro continuou vagando pelo mundo, arrebatando crianças para entregar a outros ricos senhores que padeciam de lepra, recebendo em troca objetos de ouro, joias caríssimas, tecidos valiosos que ele guardava em um grande baú, enterrado em algum local da mata, que somente ele sabia.

Quando Brenda, Maiara, Márcio e Muri chegaram ao alto da colina, um vigia que estava no topo da paliçada, imperceptível, deu o alarme. Era um grande morcego, conhecido pelo nome de Kupe-Dyep. Somente tarde demais, os heróis perceberam que estava no alto, quando ele soltou um estridente guincho, notificando todos dentro da grande oca. Imediatamente, a festa foi suspensa e o gorila levantou-se do trono, pronto para atacar.

— Invasores — resmungou o Arranha Línguas — Estava mesmo com vontade comer línguas novas!

E, assim dizendo, ele passou sua língua em torno de seus l[abio de macaco que vive sempre faminto.

Capítulo IX

A PRIMEIRA SEDE

Em questão de segundos, os jovens se viram cercados por criaturas sobrenaturais, como as bruxas, os homens-morcegos e a Onça da Mão-Torta. A onça parecia sequiosa de sangue e lambia os beiços sempre que olhava para os garotos, especialmente para Maiara.

Brenda não levava consigo nenhum artefato mágico além do Signo de Salomão, a Estrela de Seis Pontas. Mário, além da coragem, carregava consigo sua licantropia herdada do avô. Ele olhou para o horizonte e viu que a noite vinha caindo lentamente sobre a Floresta Caiçara — assim, ele estaria pronto para lutar contra seus adversários.

Feitos prisioneiros, os jovens foram conduzidos para dentro da paliçada onde ficava a grande oca central do Arranca Línguas. Muri desafiava a todos com seu olhar de guerreiro intrépido, como os heróis das obras alencarianas. De qualquer modo, estava sem armas, pois sua lança, o arco e as flechas foram recolhidos pelas bruxas.

Perante o trono do Arranca Línguas, Brenda não pode deixar de sentir um arrepio na espinha. O bicho era muito feio, enorme e fazia questão de fazer cara de mau. Os olhos fuzilavam, soltando faíscas de ódio.

— Quem são vocês, crianças atrevidas? — esbravejou o monstro sem se levantar do trono, mas estremecendo o chão da oca — Vieram me desafiar em nome daquele pajé velho? Devia ter arrancado a língua daquele velho de mil anos!

Ninguém disse nada. Mas, lembrando-se de que era descendente de Yabá Bëlo, Brenda tomou coragem e desafiou a besta peluda:

— Venho em nome de minha ascendência reclamar o direito que todos têm sobre a Floresta Caiçara! Ela não pertence à Cuca, nem a você gorila comedor de línguas!

O monstro ergueu-se furibundo, soltando fogo pelas ventas e ordenando que levassem aquela menina atrevida para o Poço Escuro, sem contato algum com o mundo. Uma velha bruxa do nariz comprido e curvado levou Brenda para os fundos da oca, onde havia um poço escuro com mais de 10 metros de profundidade. Demonstrando um força formidável, a velha dominou a garota, amarrou-a com uma corda e desceu a menina até o fundo do poço.

Brenda ficou mergulhada em trevas, olhando o céu distante pela boca do poço, inacessível. O pior foi que, da lama que profunda que havia em alguns trechos daquele imenso buraco, começaram a emergir cadáveres e esqueletos, que eram as vítimas do Arranca Línguas. Ela não pode deixar de dar um grito de terror.

Enquanto isso, Maiara, Márcio e Muri foram conduzidos às dependências do palácio-oca do gorila. Havia lá atrás, sob a sombra de algumas árvores, uma construção de madeira que fugia aos parâmetros das construções indígenas tradicionais: era retangular e baixa.

Era a cadeia.

Para lá foram levados os prisioneiros por alguns homens-morcegos mal encarados, guiados pela fatal Jezebel. Dentro da cadeia, existiam alguns cubículos muito apertados com porta de ferro. Márcio, Maiara e Muri foram jogados, cada um, em um cubículo diferente.

Pouco iluminada internamente, a cadeia era um ambiente de penumbra, povoado por morcegos e aranhas cabeludas. Maiara sentiu um pavor enorme e desandou a chorar, sentindo falta do conforto de seu lar e saudades de seus pais amados. Márcio, na cela vizinha, procurava consolar a companheira de infortúnio, lembrando-a do que, em breve, aconteceria:

— Logo chega a noite e, com ela, a minha sina. Eu poderei romper facilmente essas grades e libertarei todos nós.

Maiara, no entanto, ficou imaginando se, na forma de lobo, Márcio realmente seria um aliado. Os sinais indicavam que sim, pois o menino, devido ao seu treinamento, vinha dominando cada vez mais sua natureza lupina.

O Arranca Línguas pretendia realizar uma grande festa onde daria cabo de seus prisioneiros... depois de arrancar suas línguas, é claro. Quem ficou muito alegre com a novidade foi a Onça da Mão Torta — sua fome era insaciável.

Depois que o monstro acalmou-se, a festa com as bruxas recomeçou. Mais uma vez, Jezebel mostrou toda a sua arte da dança, atraindo e prendendo os olhares do King Kong com seus movimentos de quadril na célebre dança dos sete véus. A cada véu lançado, o gorilão ficava mais animado e intempestivo, derrubando as coisas ao redor, desejoso de arrancar ainda mais línguas.

A mulher girava sobre si mesma, rodava a cabeça com a basta cabeleira negra, dava pequenas corridas pelo centro da oca. O ventre nu e móbil parecia ter vida própria enquanto ela dançava sensualmente.

Jezebel facilmente controlava o monstro, conseguindo subjugá-lo com seus encantos feminis e suas feitiçarias. E, curiosamente, foi por causa dela que Maiara descobriu a forma de derrotar o líder da Primeira Sede.

Morta durante a época de Elias, Jezebel renascera na época cristã e instituíra um culto pagão na cidade de Tiatira, na Ásia Menor. Desde então vem seduzindo multidões, praticando toda sorte de feitiçarias, perseguindo os puros de coração, desencaminhando-os, conduzindo-os aos caminhos da perdição. Era de origem fenícia e adoradora do terrível Moloque, o Devorador de Crianças, conhecido no Brasil como o Boi da Cara Preta.

A coisa que mais ela mais teme é cachorro, pois foram os cães que lamberam seu sangue e devoraram seu corpo quando, muitos anos antes, ela foi atirada da alta janela de seu palácio em Jerusalém.

...

No fundo do poço, Brenda via-se em maus lençóis, sentindo que não resistiria muito tempo, mesmo sendo descendente de uma divindade. O mau cheiro da lama, o frio que começou a sentir naquele poço profundo, a presença de grandes baratas cascudas e fedorentas — tudo contribuiu para deixar Brenda cada vez mais vulnerável.

E ele esqueceu-se de que era filha de deuses e chorou cheio de amargura, sentindo-se impotente.

Foi nesse momento que aconteceu o inesperado.

Assim é com a vida da gente também. Nos momentos de maior desespero, quando tudo parece estar perdido, tudo parece ter chegado ao fim — o poder de Deus se manifesta!

Um luz brilhou na boca do poço e uma figura majestosa apareceu de pé.

Era o próprio Tupã, que descera de seu palácio celeste para socorrer Brenda. Estava gigantesco. Curvou-se sobre o poço e, estendendo sua mão, apanhou a garota na palma de sua mão, como se fosse um pequeno bichinho, trazendo-a para fora do buraco tenebroso.

Com um sopro, limpou-a de toda a sujeira, deixando-a totalmente renovada e aquecida. Esse sopro também deu força moral à menina, a qual se sentiu pronta para enfrentar não somente o Arranca Línguas, mas a própria Cuca.

— Escute tudo o que sua irmã vai dizer, pois ela tirará vocês daqui! — assim falou Tupã.

Brenda, portanto, não se apresentou, permanecendo oculta, como se realmente ainda estivesse no fundo do poço.

Enquanto isso se desenrolava, a noite lentamente caía sobre a Floresta Caiçara, a tribo Abaya e a sede de governo do gorilão. Em seu cubículo, Márcio sentia que alguma coisa estava acontecendo. Ele olhou por um estreita abertura no alto da parede e viu que tudo se escurecia pouco a pouco.

O sangue começou a ferver em seu corpo. Ele sentiu uma vertigem. Seus olhos começaram a piscar rapidamente e a se comportar como os de um moribundo. Ele rasgou as roupas, agoniado. Muri ficou de sobreaviso, preparado para lutar de mãos nuas contra a fera caso fosse necessário — o índio nada temia e estava disposto a encarar os dentes do lobo para salvar-se a si mesmo e a Maiara.

Quando a lua cheia apareceu, Márcio contemplou-a pela abertura e uivou longamente. Um uivo de provocar arrepios em qualquer um, até nas bruxas. De seu trono, o Arranca Línguas olhou em redor, como que perguntando o que era aquilo. Mas ninguém soube responder.

Jezebel, que já lançara de si os sete véus, estava sentada nas pernas peludas do gorila. Estremeceu prontamente diante do uivo, pois os cães também uivam. Pouco tempo depois, ouviram um estrondo, um ruído de ferros retorcidos seguidos de urros violentos.

— Vou olhar o que é isso! — falou o macacão com sua voz gutural.

Atirando a bela feiticeira ao chão, ele se ergueu e lá se foi, gigantesco, olhar o que estava acontecendo lá atrás. O Arranca Línguas era uma criatura destemida, não tinha medo de enfrentar nada — pelo menos, nenhuma criatura dotada de força física como ele, por mais grande e furiosa que fosse.

Todos o seguiram, bruxas, homens-morcegos, duendes, o Velho do Saco, a Onça da Mão Torta. Menos Jezebel, que permaneceu sentada no chão, cobrindo a nudez com as mãos e atemorizada pelo uivo.

Antes que alcançasse a cadeia, o Arranca Línguas encontrou com o lobisomem, cheio de fúria, arreganhando seus caninos alvos na direção do gorila. Todos sabiam o que aconteceria agora.

Haveria uma luta de titãs, de monstros poderosos, que se engalfinhariam até que somente um saísse vencedor.

Eram dois Hércules, dois Sansões, dois Gilgameshs, dois Golias. Embora a verdade é que o Arranca Línguas fosse muito mais forte.

Sem titubear, o gorilão de quase três metros de altura avançou contra o Homem-Lobo e travou-se uma batalha horripilante. Pegando Maiara pela mão, o denodado Muri correu com ela para um local mais seguro. As bruxas pareciam completamente absorvidas pelo duelo dos monstros, de modo que nem prestaram atenção na fuga dos prisioneiros.

A Onça da Mão Torta, contudo, ao vê-los se afastando, resolveu persegui-los. Não queria perder a oportunidade de devorar dois jovens de carne fresca, com sangue quente circulando nas veias. Mas o índio, vendo-se perseguido, correu ainda mais rápido e, percebendo que Maiara não conseguiria acompanhar seu ritmo, apanhou-a nos braços e correu com ela.

A onça, contudo, era mais ágil que o índio e logo apanharia ambos. Com aquela carga nos braços, Muri jamais conseguiria fugir da onça. Percebendo isso, ele parou e ordenou a Maira que continuasse correndo.

— E você? — perguntou a jovem.

— Melhor que morra somente um que morrer os dois! Além disso, Muri tem chances de lutar e sobreviver. Maiara não.

— Mas você não tem armas, Muri!

— As armas de um índio guerreiro são improvisadas.

E dizendo assim, ele apanhou uma grande vara que havia ali, preparando-se para enfrentar a onça faminta que se aproximava.

Maiara não queria deixar o amigo. Por outro lado, sabia que ele tinha mais chances de sair vivo que ela. Se ela permanecesse ali poderia até atrapalhar o guerreiro. Estava se decidindo a correr quando, do alto de uma peroba, caiu uma escadinha feito de cipó trançado.

Olhando para cima, Maiara divisou alguém, em um galho bem alto da peroba — um galho que devia estar a uns dez ou quinze metros do chão.

Era Brenda.

Ela abanou as mãos em desespero, gesticulando para que o casal subisse rapidamente pela escada. Puxando o índio pelo braço, Maiara e ele começaram a escalada. Assim que eles pisaram nos degraus, alguém lá em cima começou a recolher a corda com muita agilidade. Dessa forma, quando a Onça da Mão Torta alcançou a peroba, Muri e Maiara já se encontravam no alto galho, completamente a salvo de suas garras.

A besta urrou, furibunda. Como as perobas têm trocos retos, as onças não conseguem subir por elas. Aquela árvore devia ter uns trinta metros de altura, mas o galho onde se encontravam Brenda e seus amigos estava a meio caminho do topo da árvore.

— Ah, se eu tivesse uma grande pedra comigo! — queixou-se o índio — lançava agora sobre a cabeça dessa onça cruel!

Brenda lembrou-se da história que seu pai, certa vez, contara a ela e à sua irmã, sobre um coelho que, trepado a uma árvore, pedira à onça que estava embaixo para abrir sua boca que ele jogaria um queijo para que a bicha devorasse. Em vez de queijo, ele jogara uma grande pedra que matou a onça lá embaixo.

O fato é que a onça permaneceu sob a peroba, esperando que suas vítimas descessem. Além de Brenda, ali estava um ouriço-cacheiro muito redondo. Também conhecido como porco-espinho, o ouriço-cacheiro é uma mamífero que costuma viver nas alturas. Aquele ali fora enviado por ninguém menos que o Caipora a fim de ajudar os escolhidos de Tupã. Era dono de uma superforça e fora ele quem puxara a corda de cipó com Maiara e Muri.

Maiara ficou encantada com o bichinho e teve uma louca vontade de agarrá-la e apertá-lo, mas ficou receosa de seus espinhos longos. Limitou-se, portanto, a passar a mão sobre sua cabecinha. O animal ainda fez mais pelos amigos: posicionando-se bem sobre o galho e mirando a onça lá embaixo, o ouriço começou a lançar seus espinhos que nem o Gavião Arqueiro lança suas flechas.

Os espinhos voavam diretamente de seu corpo redondo e acertavam a malvada Onça da Mão Torta que, acossada desse jeito, não viu outra solução senão colocar pernas pra te quero e desaparecer na mata, vociferando pragas.

Brenda, apesar de tudo, ainda sentiu pena da onça.

A irmã contou-lhe o que estava acontecendo. Márcio transformado em lobisomem estava um luta ferrenha contra o Arranca Línguas. Brenda também contou que fora salva pelo próprio Tupã do poço cheio de lama e cadáveres.

Muri imediatamente disse:

— Vamos voltar lá! Talvez, o lobisomem precise de nossa ajuda!

Eles desceram da árvore pela mesma escadinha, sustentada lá em cima pelo vigoroso ouriço de 1 quilo. Já no chão, os três despediram-se do animalzinho que, com uma de suas "mãozinhas" deu adeus aos companheiros e saiu andando pelo galho da peroba.

Assim que chegaram perto da cadeia, Brenda, Maiara e Muri contemplaram uma batalha titânica entre o gorilão e o homem-lobo. Naquele momento, o Arranca-Línguas erguia o lobisomem nos braços e jogava-o contra a cadeia. Parte da construção foi demolida com a violência do golpe. Mas isso deixou a fera lupina mais furiosa ainda e ela partiu contra seu agressor, pulando de entre as toras de madeira e urrando ensandecida.

Capítulo X

A ESPERTEZA DE MAIARA

O lobisomem e o Arranca-Língua novamente se atracaram, mas se mantiveram de pé, cada um testando a sua própria resistência e a resistência do adversário. As bruxas bradavam em alta voz, torcendo pelo gorilão. Escondidos, Brenda, Maiara e Muri torciam pelo lobisomem.

Ora, o gorila erguia o lobisomem e jogava-o a metros de distância; ora, o lobisomem é quem agia assim, pois também tinha muita força e, quanto mais enraivecido ficava, multiplicava sua força.

Maiara, aproveitando a distração das bruxas e dos índios-morcegos, resolveu penetrar na grande oca. Esperava encontrar, lá dentro, algo que pudesse ser usado contra o King Kong.

E encontrou.

Era Jezebel. A sensual feiticeira, ainda descomposta, estava sentada no chão, bastante apreensiva. A ideia do lobisomem invadir a oca dava-lhe arrepios. Claro que um lobisomem não era a mesma coisa que um simples cão — era uma assombração. De qualquer modo, os uivos que a criatura dava causavam calafrios em sua espinha.

Ao ver a bela Maiara, Jezebel pôs-se de pé e foi em sua direção, desafiadora:

— Então, quem temos aqui... uma fugitiva? Acho que nosso líder não ficará nem um pouco satisfeito em ver uma de suas prisioneiras, a quem ele certamente arrancaria a língua, andando pelo seu palácio como se fosse alguma de suas amantes prediletas.

Maiara, que conhecia a história da adoradora de Moloch, tomou-se de grande coragem e provocou:

— Eu não tenho medo de uma feiticeira que tem medo de cãezinhos!

Os olhos de Jezebel fuzilaram sobre a menina. Ela atitou-se como uma pantera sobre a outra, com as unhas à mostra e arrancou-lhe a face. Maiara, por sua vez, mesmo com as marcas das unhas em seu rosto, desviou o corpo e agarrou a outra pela cabeleira negra.

A bruxa sentiu a força guerreira que jazia adormecida dentro da garota, descendente de uma divindade e filha de um corajoso índio. Por alguns instantes, sentiu-se amedrontada com a energia da jovem, mas logo se lembrou de sua condição e rogou pragas contra ela.

Fazendo movimentos cabalísticos com as mãos, a bruxa invocou uma legião de serpentes voadoras que atacaram Maiara. Na verdade, eram alucinações causadas por Jezebel, pois não existiam de verdade.

A jovem de olhos grandes ficou espantada ao ver-se cercada por voluptuosas serpente aladas que silvavam em torno dela, mostrando as línguas bífidas que não paravam de se mover, de tremular como bandeiras ao vento. Em seguida, começou a reagir ao invés de gritar e percebeu que, espantando corajosamente as serpentes, elas desapareciam. Descobriu assim que tudo não passava de alucinação criada pela pérfida Jezebel e o medo desapareceu inteiramente.

Jezebel encontrava-se, pela primeira vez, diante de uma rival de peso. Nascida na Fenícia, o país que fora o Portugal da Antiguidade, fazendo grandes descobrimentos através dos sete mares, Jezebel orgulhava-se de sua origem e de sua posição como rainha de Israel, esposa do rei Acab. Acab fora o fundador da cidade de Samaria, que se tornara a capital de Israel e uma cidade de obscenidades e pecados.

O rei fora, na verdade, um homem fraco, sem fibra suficiente para governar, dominado pela mulher. Por causa dela e de sua covardia, cometera muitos crimes e morrera em batalha.

Rapidamente, maiara armou-se com uma lança que estava encostada à parede e avnçou contra Jezebel.

— Tola! Acha então que com uma simples arma indígena poderá me derrotar? A mim, uma mulher com milhares de anos, que morreu e ressurgiu para ser adorada e seguida?

Maiara, ainda assim, lançou a arma. A bruxa fez a arma estacar no ar em pelo voo. Movendo as mãos, fez a lança virar-se na direção da garota e disparar atrás dela, que saiu correndo. Enquanto corria pela oca adentro, Maiara escutava as gargalhadas estrídulas de Jezebel.

Se Maiara virava em uma curva, a lança também o fazia, seguindo-a sempre. A arma estava dotada de vida própria. Essa é uma prática comum entre grandes bruxas e feiticeiros: o animismo. Eles conferem vida a objetos e a qualquer coisa inanimada, como uma pedra ou rocha.

Se fosse Brenda, que andava estudando livros sobre bruxaria e feitiçarias (principalmente aquelas de origem tupi), talvez tivesse conseguido reverter aquele feitiço e livrar-se daquela perseguidora de lâmina aguçada.

As ocas dos índios não tinham portas de modo que, ainda que aquela casa fosse enorme, a garota não podia se trancar em nenhum cômodo. Ela lembrou de Mjolnir, o Martelo de Thor, uma arma com vida própria, que era um fiel companheiro do deus e seguia-o aonde ele fosse.

Ela estava nesse desespero quando encontrou Muri, que viera procurar a garota e contar-lhe a triste derrota de Márcio. Ágil como um felino, Muri atirou-se contra a lança encantada, apanhando-a no ar. A lança, no entanto, continuava agitava-se, desejando libertar-se das firmas mão do jovem índio.

— Feitiço de Anhanguá! — falou ele, entre espantado e determinado — A lança está viva!

— Feitiço de Jezebel! — corrigiu Maiara.

Nesse momento, ambos tiveram uma surpresa.

Era Tupi!

O cãozinho da tribo Abaya, que viera atrás de seus amigos depois que eles partiram em direção à colina onde reinava o Arranca Língua. A alegria de Maira e Muri foi imensa. A menina apanhou-o nos braços, afagou-o e beijou-o enquanto ele latia feliz.

Agora Maiara sentia-se cada vez mais encorajada a enfrentar a bruxa. Mas era bom se apressar, pois logo a oca estaria cheia novamente. A derrota do lobisomem certamente seria comemorada por aquelas criaturas terríveis no interior do palácio, regada a vinho e orgias.

Ela correu com Tupi nos braços e encontrou Jezebel, ainda despida, conversando sozinha sentada no trono do macaco, de pernas cruzadas. Recordava os tempos em que fora rainha e fizera atrocidades, como perseguir o profeta Elias que, segundo diziam alguns judeus místicos, transformara-se em anjo.

— Oi, Jezebel! — foi dizendo Maiara enquanto entrava na ampla sala com Tupi nos braços.

Jezebel virou o rosto na direção da garota. Julgava que a lança viva a atravessara e agora ela jazia estendida no chão, em alguma parte da oca, mortinha da silva.

Mas que nada!

A jovem aparecia vivinha da silva e ainda trazia nos braços um animal que Jezebel detestava. Maiara colocou Tupi no chão e ordenou:

— Ataque essa bruxa malvada, Tupi! Vá, meu amor!

Sentindo que a formidável mulher que estava sentada no trono era uma adversária, o cãozinho partiu em rápida carreira, latindo sem parar. Ao ver que estava sendo hostilizada pelo animal, a ex-rainha de Samaria arregalou ou seus lindos olhos e sentiu que todos os pelos de corpo se eriçavam. A basta cabeleira dela ficou literalmente em pé como se ela tivesse segurando em um fio desencapado de energia elétrica.

Soltando um grito de horror, ela saiu em disparada com Tupi atrás dela. Agora a situação se invertera: não era mais Maiara que fugia da lança enfeitiçada — era Jezebel que fugia do cão Tupi.

A perseverança de Muri começava a surtir efeito e ele conseguia domar a lança, tal como Alexandro Magno dominara Bucéfalo. O índio não pode deixar de se divertir ao ver uma bruxa tão poderosa sair em pânico por causa de um simples cãozinho sem raça.

Maiara foi atrás deles e viu quando Tupi encurralado a bruxa contra uma das parede do palácio. Jezebel cobria os olhos com as mãos, evitando fitar o animal diretamente. E gritava em desespero, como uma criança chamando pela mamãe.

Maiara aproximou-se e, de mãos na cintura, disse:

— Podemos fazer um acordo. Se eu te ajudar, você me ajuda também, certo?

Jezebel gritava e dizia:

— Faço qualquer coisa, mas tire esse animal daqui!

Tupi avançou e cravou seus dentes em uma das coxas nuas e fartas de Jezebel. A pobre gritou ainda mais alto e agachou-se, encolhida contra a parede, vendo o sangue que escorria pela sua perna direita. E Tupi estava tão furioso que não largava da mulher, com os dentes bem cravados em sua coxa.

— Chega, chega, Tupi! — foi falando Maiara enquanto aproximava-se e afagava a cabeça do cãozinho — Vem cá!

Ele apanhou o animal nos braços, mas ele continuava latindo contra Jezebel. A feiticeira, sacerdotisa de Moloque, não teve ânimo para se levantar e continuou sentada, encolhida, com a coxa bem marcada pelos dentes de Tupi.

— Eu faça o que você quiser! Mas tire esse animal da minha frente — chorava ela, debulhando-se em lágrimas.

— Pois bem, pois bem... Você certamente é capaz de fazer transmutações, não é?

Virando lentamente a face na direção de Maiara, Jezebel fitou-a sem entender direito aonde ela queria chegar.

— Sim, tenho — falou a feiticeira baixinho.

— Era isso que eu queria saber. Que tal trocarmos de lugar?

— Simples. Faça com que eu assuma sua aparência.

— Por quê? Para que você quer tomar minha aparência?

— Isso não importa... Não para você. Mas, se preferir, pode ficar com Tupi. Ele é um excelente, companheiro. E bastante fiel.

Tupi rosnou para Jezebel, arreganhando os dentes e mostrando suas gengivas vermelhas. Jezebel estremeceu.

— Tudo bem! Tudo bem!

Muri também se aproximara, armado com a lança, que agora já estava sem vida novamente — era apenas uma arma como qualquer lança e o índio considerou que seria uma excelente arma para ele utilizar.

Jezebel, de pé, abriu os braços e olhou para o alto. Começou a proferir palavras em língua antiga, em fenício e hebraico. Seus olhos começaram a revirar e a piscar rapidamente. Maiara sentiu medo e abraçou com mais força Tupi, que agora parara de latir.

Maiara entendeu ela chamar nomes como Moloch e Asmodeu. Depois, sentou um formigamento pelo corpo todo. Teve estremecimentos e soltou Tupi. Ela começou a revira os olhos também. E uma forte ventania vinda não se sabe de onde soprou sobre as duas mulheres.

Depois de alguns minutos, duas Jezebel estavam uma diante da outra. Maiara olhou suas mãos, seu corpo, os cabelos.

Sim. Ela era goara a própria Jezebel e poderia dar continuidade aos seus planos. Ordenou que Muri e Tupi ficassem de olho na verdadeira Jezebel.

Ferida, a bruxa foi conduzida pelo índio e pelo cão até para fora da oca. Chegando a uma região de densas árvores, Muri amarrou-a a um tronco em quanto Tupi olhava para ela, inutilizando qualquer tentativa de fuga de sua parte.

Dentro da oca, Maiara tirou sua própria roupa e vestiu o saiote de sete véus que Jezebel costumava vestir.

E foi bem na hora.

Logo, ela ouviu uma barulheira e o King Kong entrou em seu palácio, cercados pelos índios-morcegos e pelas bruxas. O Velho do Saco também os acompanhava. E a Onça da Mão Torta, que ainda trazia em seu corpo alguns dos longos espinhos do ouriço.

Maiara sentiu um estremeção ao ver que o Arranca-Língua, muito cheio de si, penetrava na grande oca arrastando o lobisomem desacordado por uma perna.

Como comunicara Muri, o gorilão de três metros vencera a luta.

Capítulo XI

A VITÓRIA

Maiara não pode deixar de sentir um estremeção ao ver seu amigo Márcio, na forma de lobisomem, sendo arrastado por uma perna pelo gorila gigante até o seu trono. O Arranca Lígua, demosntrando força surpreendente, ergueu o adversário derrotado pela perna, exibindo-o para todas as bruxas e índios-morcegos presentes, bem como para o Velho do saco e a Onça da Mão Torta.

Deu um urro vitorioso e, como costumam fazer os gorilas, bateu com os punhos cerrados em seu peito largo e peludo exibindo os dentes brancos.

Maiara, na forma de Jezebel, conteve-se para não soltar um grande grito. Ela desconfiava que Márcio estivesse não apenas vencido, mas morto. As outras bruxas, por sua vez, não paravam de gargalhar e bater palmas, tantas as velhas e feias quanto as novas e bonitas. Os índios-morcegos soltavam guinchos assustadores e volitavam pela sala, homenageando seu grande líder.

Maiara-Jezebel, para não destoar do grupo, também soltou uma gargalhada — a princípio, meio desajeitada, mas logo ela conseguiu exercer controle sobre as cordas vocais tão afinadas que tinha agora.

O Arranca Língua, soberbo, chamou-a com os dedos enquanto se sentava em seu trono. Deixou o corpo imóvel do lobisomem aos seus pés e pisou sobre ele. Uma velha bruxa verruguenta servia vinho em uma taça de prata para seu senhor.

O gorila, com grosseria, puxou Maiara para suas pernas, sentando-as sobre elas. A garota não pode reprimir uma sensação de incômodo quando tocou as penas cabeludas do gorila. Os pelos eram ásperos e feriam suas coxas descobertas.

Depois de sorver o vinho de uma só golada, o Arranca Língua beijou a suposta feiticeira violentamente. Maiara teve ímpetos de libertar-se daquele monstro asqueroso, babão e estúpido, mas pensou melhor e considerou que seria melhor ceder aos seus baixos desejos, já que a verdadeira Jezebel agiria assim.

Ele agarrou-a pelos cabelos longos e, inclinando abruptamente sua cabeça, passou a língua sobre seu pescoço. Maiara viu o mundo girar tamanha foi a dor que sentiu na cabeça. Esse era o tratamento que o gorilão costumava dispensar às suas amantes. Com lágrimas nos olhos, a garota esforçou-se para não dar um safanão no monstro e sair correndo dali, de volta a sua casa, ao seu lar aconchegante e terno.

O Arranca Língua ergueu a jovem em seus musculosos braços e atirou-a ao chão, ordenando:

— Dance, bruxa! Mostre sua sensualidade para seu líder e senhor!

Maiara estava dolorida da pancada e puxões de cabelo, mas percebeu que aquela era a hora propícia para tentar fugir ou, quem sabe, derrotar a fera. Por sorte, ela era uma exímia

dançarina, tendo frequentado a Escola de Dança Ninfas do Parnaso. Sabia desenvolver muito bem a Dança dos Sete Véus, que deixavam enlouquecidos os monarcas da Antiguidade. Ela desenvolveu tão bem a dança que o gorilão nem percebeu que se tratava de outra pessoa e não da efetiva Jezebel.

Enquanto rebolava e mostrava seus talentos para o monstro devorador de línguas, Maiara cogitava em uma possibilidade de fugir dali com sua irmã e seus amigos.

Maiara arrepiou-se no momento em que o monstro disse:

— Vou devorar a língua desse lobo!

E, agarrando o lobisomem desacordado pelo pescoço, teria arrancado sua língua, se a garota não intervisse com rapidez:

— NÃO! ...Ainda não, meu gorilão! Tenho muita coisa para te mostrar!

E assim dizendo pegou o Arranca Língua pelas mãos e conduziu-o para o centro da sala a fim de dançar com ela. Mas, o bicho era desajeitado demais, não sabia dançar. Suas atitudes eram bruscas, violentas, animalescas, pouco cordatas.

Durante esse tempo, felizmente Márcio foi retornando a si, ainda como lobisomem. Sua fúria e a vergonha da derrota colocaram-no logo de alerta e ele teve ímpetos para partir sobre o primata gigante. Imediatamente as outras bruxas gritaram, alertando o líder.

Contudo, ao contrário do que se esperava, o lobisomem não concluiu seu ataque. A um gesto de Maiara, ele estacou. Isso significava que Márcio estava efetivamente conseguindo controlar seus instintos, que o treinamento proposto pelo sacerdote estava funcionando. Dando as costas a todos, ele saltou quase à altura do teto da oca e desapareceu, fazendo um enorme buraco na parede de palha do palácio do Arranca Língua.

— Deixe que se vá! — disse Maiara ao gorila — É apenas um covarde que foge diante de sua majestade.

O gorila, como gostava muito de ser elogiado, pois tinha um ego do tamanho do planeta Júpiter, ficou cheio de si. Maiara retomou sua dança, arrancado mais um véu de sua cintura e deixando o monstro peludo babando, de olhos fixos no corpo flexível de sua suposta Jezebel.

Ele havia planejado com Muri que ele colocasse algumas soporíferas em uma jarra de vinho e a depositasse pertos dos fundos da oca sem que ninguém percebesse.

— Vou apanhar uma coisa. Venho já! — disse a garota e correu para os fundos do palácio sem que ninguém desconfiasse que aquela Jezebel era uma fraude.

Encontrou uma jarra no chão, repleta de vinho bem rubro. Sorriu e olhou para os lados, mas não viu a presença de ninguém. Muri e Brenda, e Tupi, certamente estavam vigiando a verdadeira Jezebel.

Maiara retornou à sala do trono, carregando a jarra de barro cheia de vinho.

— Tem para todos! — foi dizendo ela — Onde estão os cálices?

E assim ela mesma foi distribuindo o Vinho do Sono para os presentes. Temia que não desse para todos, que não fosse suficiente para colocar todos para dormir. Mas Muri conhecia bem os segredos das ervas mágicas, pois aprendera muito bem com o pajé Cauê.

Bruxas e índios-morcegos, bem como o Velho do Saco e até a Onça da Mão Torta beberam do vinho, que estava realmente delicioso, pois as ervas mágicas adicionadas por Muri tornavam o sabor da bebida ainda mais gostoso. O Arranca Língua, então, nem se fala, bebeu e lambeu seus beiços de macaco.

E o que aconteceu em seguida, espantou Maiara e, ao mesmo tempo, deixou-a muito satisfeita. As bruxas caíram ao chão, completamente entorpecidas. Os morcegos antropomorfos também. O Velho do Saco ainda ajeitou seu saco para servir de travesseiro e, em pouco tempo, roncava como um porco barrão. A onça caiu de lado, como morta, e adormeceu também.

E, o melhor de tudo, sobre o trono, com a cabeça pendente sobre o peito largo, o Arranca Língua dormia e babava, tendo sonhos intensos com Jezebel. A taça de ouro caiu-lhe das mãos e rolou pelo chão. Maiara temeu que o ruído acordasse os outros, mas não foi isso aconteceu.

Parecia que, à medida que o tempo passava, os efeitos das ervas mágicas intensificavam-se ainda mais e o sono tornava-se mais e mais pesado.

Enquanto Maiara contemplava extasiada a cena, lembrando a velha história da Bela Adormecida (quando todos no palácio caíram em sono profundo), Maiara e Muri apareceram.

— E Jezebel?

— Está bem amarrada embaixo de uma árvore sob a vigilância de Tupi — respondeu Brenda.

— O que fazemos agora? — indagou o índio — Damos cabo do macacão?

— Vamos amarrá-lo com correntes de aço! — falou Brenda — Foi isso que me recomendou Tupã há alguns minutos. E ele mesmo me forneceu as correntes.

A menina estendeu uma longa corrente de aço, muito prateada. Amarraram o gorilão com ela e os outros com cordas e cipós. Se Tupã dera a corrente é porque certamente o Arranca Língua jamais terias forças para rompê-la. Provavelmente fora confeccionada por uma divindade do fogo (o próprio Tupã, quem sabe?) e tinha poderes mágicos.

Assim e ficaram todos manietados e inofensivos. E o efeito das ervas durou muito tempo. Mas brenda afirmou que o certo era eles esperarem que os vilões acordassem e explicassem que agora a sede não mais pertencia ao Arranca Língua. Doravante, ele e seus cúmplices seriam aprisionados na tribo Abaya para posterior julgamento.

O gorilão, depois que acordou, bem que tentou romper as correntes de aço, mas foi inútil. Apesar de toda a sua força, ele estava completamente impotente. Mais enfurecido ele ficou quando descobriu que fora enganado por Jezebel — ou melhor, por Maiara na forma de Jezebel.

Parecia repetir-se a velha história de Sansão e Dalila, mas com os polos trocados, ou seja, a mulher agora era a heroína e sua fraude era considerada um sinal claro de suas qualidades, inclusive de sus esperteza de coelho.

Pela primeira vez na vida, Brenda e Maiara abraçaram-se fraternalmente, cheias de amor uma pela outra. A primeira não cansava de elogiar a segunda e repetia sempre que Tupã lhe dissera para confiar plenamente em Maiara, pois ela os tiraria daquela situação tal como ele a arrancara do poço profundo, cheio de lama.

Jezebel foi jogada no poço por sugestão de Muri e Tupi, que fora o verdadeiro herói contra a sacerdotisa de Baal Moloque, desceu a colina e retornou à tribo, levando consigo uma mensagem escrita em um pedaço de papel, comunicando a primeira vitória. Tupi cumpriu lealmente a tarefa e alcançou a tribo, cheio de alegria, sacudindo deu rabo e latindo, como se desejoso de falar a língua dos homens.

Foi uma velha índia quem primeiro o avistou e pegou a mensagem, amarrada com uma fita em torno de seu pescoço. Imediatamente, ela foi contar o fato ao pajé, que estava fazendo oferendas de frutas a Tupã e a Yebá Bëlo, bisavó de Brenda e Maiara. Recebendo a boa nova da velha índia, o pajé agradeceu aos deuses sua intervenção em favor da tribo Abaya.

O pobre cacique, de quem fora arrancada a língua, liderou o grupo de soldados que subiu

colina e, usando paus e instrumentos agrícolas, pôs abaixo parte da paliçada que envolvia a majestosa oca-palácio do gorilão.

Ao escutar o barulho dos índios que derrubavam o símbolo de seu poder, o Arranca Língua sentiu muita raiva. Porém, mais que raiva, ele teve um sentimento que não estava habituado a sentir.

Era medo.

Pouquíssimas vezes, o Arranca Língua tivera medo de alguma coisa. Sua coragem era espontânea e tinha bastante confiança em si mesmo. Estava habituado a que todos o temessem, mas ele mesmo a nada temia.

Fora um fraco. Deixara-se enganar por uma garota. Como podia desconfiar que por trás de Jezebel estava outra pessoa? Caíra em uma armadilha. Como pudera ser ludibriado por uma simples menina da cidade, uma jovem que, por mais bonita e inteligente que fosse, não poderia ser superior a ele?

Se pudesse romper aquelas correntes, o monstro certamente teria esganado Maiara e todo os outros em poucos minutos. Mas ninguém conhece o poder que as divindades possuem — a não ser aqueles que experimentam esses poderes em sua vida.

O pior foi quando o cacique invadiu a oca, procurando com os olhos seu algoz. O próprio gorila estremeceu ao ver os olhos cheios de raiva que o índio mutilado lhe dirigia. Ele, então, percebeu que tudo tem um preço e, quando somos maus com outras pessoas, elas também podem ser más conosco.

O índio golpeou o rival uma porção de vezes, usando sua lança, cacetes e os punhos. Enfiou a ponta da arma várias vezes pelo seu corpo, ferindo-o em diferentes lugares. E o gorila sentiu dor. E, quanto maior o medo, quanto mais vívida a ameaça, maior era a dor.

Mas como fosse um homem honrado, o índio sabia que o Arranca Língua deveria ser levado para julgamento. Todos foram conduzidos para a tribo, menos os índios-morcegos, a Onça Boi e o Velho do Saco que foram libertados. Jezebel foi deixada para morrer no poço, mas sabiam que, como feiticeira devota de Moloch, ela acabaria escapando. Mesmo assim, colocaram uma tampa de pedra sobre a boca do poço, por precaução.

O pajé recolheu todos a uma prisão subterrânea: o gorila e suas feiticeiras. O julgamento não tinha data marcada, mas o próprio Tupã se encarregaria de presidir o Tribunal de Justiça.

Amazonas vieram de longe para atuar como carcereiras, vigiando os prisioneiros e certificando-se de que jamais poderiam escapar. A prisão subterrânea era, na verdade, uma grande gruta, cavada por uma grande serpente dos tempos de outrora. Todo o local foi lacrado com símbolos mágicos do bem para evitar que as bruxas, usando seus poderes sobrenaturais, conseguisses fugir.

Brenda, Maiara, Muri e Márcio (e o cãozinho Tupi) haviam obtido sua primeira vitória contra as hostes da Cuca.

Por falar em Márcio, ele desaparecera e não tornara a aparecer. Até o dia seguinte, ele não deu as caras – nem o focinho lupino. Mas, no outro dia, já perto do meio dia, ele surgiu todo arrepiado, na sua forma humana. Estava satisfeito com a vitória apesar da derrota que sofrera nas mãos do Arranca Língua. Brenda consolou-o dizendo que, se não fosse por ele, a vitória de Maiara não seria possível, pois fora o lobisomem que libertara todos da cadeia.

Márcio e teve ímpetos de beijar a boca de Brenda, mas se conteve. Bem que ela desejou que ele fizesse isso...

...

Longe da tribo, em sua gruta que era um verdadeiro palácio de pedra construído pelas mãos da Mãe Natureza, a Cuca ficou sabendo da derrota do Arranca Língua e uivou de desespero. Moloch, o Boi da Cara Preta, estava ao lado dela e também soltou um urro de raiva.

O palácio da bruxa era enfeitado de forma macabra, com objetos feitos com os ossos das crianças que eram suas vítimas. Havia também armadura medievais e armas de todos os tempos dispostas pelas paredes de sua gruta-palácio. O grande caldeirão, sempre fervendo e borbulhando, ficava na cozinha, bem no interior da morada, nas proximidades da saída. O caldeirão ardia sobre grades achas de madeira.

Como forma de extravasar sua cólera, a bruxa invocou uma violenta tempestade que caiu sobre toda a Floresta Caiçara, assustando pessoas, animais e plantas.E pouco tempo, um dos rios transbordou e alagou a região próxima.

...

O pajé, na tribo Abaya, bem sabia que aquela tempestade era obra da "Cabeluda". Alguns índios chamavam-na desse jeito por causa de sua cabeleira desgrenhada e abundante que lhe conferia uma beleza selvagem, mas muito feminina.

O velho disse que, para a próxima sede, Brenda e seus amigos teriam a ajuda de uma criatura especial: a Mula Sem Cabeça. Ela conhecia o caminho até lá e os levaria em segurança.

ENQUANTO ISSO,

EM ALGUM DA FLORESTA...

Enquanto isso, a Cuca, oculta em seu majestoso palácio de pedra, bradava de fúria e derrubava a pontapés todos os objetos que via em seu caminho. Através de sua bacia de prata sempre cheia de água, ela acompanhara a derrota do Arranca-Língua por Brenda e seus amigos.

A primeira sede caíra — restavam, pois, apenas três.

A bruxa chegou a arrancar grandes tufos de cabelo de sua cabeleira desgrenhada, rangendo os dentes de ódio. Julgando-se muito superior aos "pobres mortais", ela não esperava que o gorilão peludo pudesse ser tão facilmente enganado.

João, o Cabeça de Abóbora, que estava perto dela naquele momento, tentou acalmá-la com palavras reconfortantes, mas nada havia que pudesse deixá-la serena. Uma derrota já era muita coisa e minava seu poder, estimulando a resistência — afinal de contas, se um dos mais poderosos seres da mata fora vencido, a verdade é que os demais também poderiam ser derrotados.

— Precisamos aumentar nosso poder, João! Precisamos enviar reforços para a segunda sede! Eles já estão a caminho. É preciso recrutar novos combatentes, novos aliados! Encarregue-se disso. Voarei até a segunda sede para tomar algumas medidas.

João bem sabia o significado da palavra "recrutar". Muitas vezes, a Cuca obtinha o que queria através de ameaças ou oferecendo o que tinha de melhor para conquistar adeptos. Enquanto ela tomava a forma de uma enorme coruja e partia voando pelo céu noturno, o Cabeça de Abóbora montou em uma serpente alada, semelhante a um dragão, e voaram em direção oposta.

Alcançando a segunda sede, a Cuca retomou a forma de bela mulher. A Segunda Sede estava controlada pelos sacis. Eles existem em grande número e nascem em ocos de bambu. Sua média de vida é de 70 anos, mas alguns podem viver muito mais.

São gnomos negros com características peculiares. Por exemplo, possuem uma perna só, mas isso não é um obstáculo, nem um defeito para eles. Pois faz parte de sua conformação natural. Sobre essa única perna, os sacis fazem coisas mirabolantes, como pular com agilidade, dar saltos admiráveis, fazer piruetas no ar e outras coisas.

Outra característica de um saci é a sua carapuça, ou gorro vermelho, que tem poderes mágicos. Sem a carapuça, qualquer saci fica fragilizado, vulnerável, podendo ser dominado por qualquer pessoa. A palma da mão de um desses gnomos é furada, sua cabeça é pelada, lisa como bola de bilhar e suas orelhas são pontudas, lembrando as orelhas de um morcego. Ele também aprecia muito fumar cachimbo.

Os sacis andam nus e não existem sacis fêmeas. Em algumas ocasiões, eles usam o poder da metamorfose, transformando-se em pássaro, o matinta-pereira. O sai costuma ser malvado, perseguindo os cães, dando nó nas crinas dos cavalos e sugando seu sangue, assustando crianças e adultos, fazendo azedar o leite na panela, escondendo objetos e até, em alguns casos, matando a pauladas a vítima, se se sentir, de alguma forma, ameaçado.

A saída dos sacis acontece no horário noturno. Todos os que fazem "artes" costumam esconder-se nas trevas, pois, como está escrito no Evangelho de São João, quem pratica o que é errado não gosta muito de se expor.

Os sacis costumam fazer redemoinhos de vento, que podem inofensivos ou até catastróficos, dependendo da intenção do saci e da quantidade de gnomos dentro deles. Para

apanhar um desses duendes malévolos, a pessoa deve jogar uma peneira com uma cruz gravada no fundo ou um rosário sobre um redemoinho. Basta ficar de "tocaia" e quando vir se aproximando um redemoinho, por menos que seja, carregando folhas e poeira, lançar o objeto sobre ele.

Uma garrafa deve ser enfiada sob a peneira para aprisionar o saci em seu interior. Assim, a pessoa poderá pegar a carapuça mágica e ficar dona de um poderoso escravo, uma espécie de gênio que realizará todos os seus desejos. Para lacrar a boca da garrafa, deve ser usada uma cortiça com uma cruz desenhada, pintada ou mesmo feita a faca.

No lugar da cruz na peneira e na rolha de cortiça, pode ser usado o Signo de Salomão, ou Estrela de Seis Pontas, símbolo mágico muito poderoso que exerce domínio sobre quase todas as criaturas fantásticas e sobrenaturais.

O saci pode fazer qualquer coisa. Mas as pessoas geralmente pensam mais em riquezas. Além delas, o gnomo aprisionado pode dar saúde, fazer o homem conquistar as mulheres que quiser, fazer a jovem encontrar seu príncipe encantado, fazer aparecer comida para quem está com fome, fazer uma pessoa feia ficar bonita e diversas outras maravilhas.

Pode até mesmo ressuscitar quem já faleceu — não importa há quanto tempo a pessoa já tenha morrido.

Em um pequeno vilarejo, chamado Cabra Branca, um grupo de sacis havia se revoltado com os humanos e produziram um redemoinho tão forte e intenso que acabou com o local. As casas tiveram seus telhados destruídos e muitas paredes ruíram também.

Tudo isso em apenas uma noite.

Os moradores tiveram que deixar o lugar, que se tornou uma espécie de cidade morta. Os sacis revoltosos passaram a visitar o antigo vilarejo, transformando-o em covil para seus encontros e estripulias. Virou um lugar mal-assombrado que ninguém queria chegar perto. De longe, contavam os passantes, era possível ouvir as gargalhadas sonoras dos gnomos de uma perna só e das bruxas que eles levavam para lá. Dizia-se que, com essas belas feiticeiras, os sacis praticavam todo tipo de orgias.

Um caso bem mais motivador foi o de uma mulher que ficara viúva de marido e perdera o filho na Guerra de Canudos. Ambos haviam morrido sob os bombardeios da "Matadeira". Ela fugira com sua filha e refugiara-se em um quilombo remanescente dos tempos da escravidão, nas brenhas de uma mata escura da Bahia. Foi lá que, com a ajuda de um negro velho muito experimentado na arte de caçar sacis, essa mulher aprisionou um saci em uma garrafa de vinho e fez o maior pedido que alguém, cheio de amor, poderia fazer:

— Desejo que meu marido e meu filho voltem para casas!

Qual não foi sua surpresa (e a de sua filha de 15 anos) quando, na noite seguinte, bateram

porta de sua casinha de madeira o marido e o filho que haviam morrido na guerra. Estavam até rejuvenescidos e com muito mais saúde que antes.

Houve quem duvidasse do fato, alegando que os dois não tinham morrido na guerra e por isso retornaram. Mas o preto velho, a viúva e a garota sabiam perfeitamente que aquele prodígios fora realizado pelo saci da garrafa. Mãe e filha haviam visto os dois bem mortos, em um estado deplorável, vítimas da guerra insana que movia tanto os partidários do Conselheiro quanto os soldados do Estado.

Pois é... O saci pode ser um bom aliado, mas também pode ser um perigoso rival.

Naquele momento, eles aliaram-se à Cuca, na esperança de conquistarem mais poder. E estavam dispostos a tudo para defender sua sede contra quem quer que fosse. Entre eles, vivia o Canhambora, um negro que fugira da senzala há muitos e muitos anos e fora viver no mato, na companhia dos gnomos pretos.

O Canhambora não era mau. Sofrera os reveses de uma vida de escravo e sabia perfeitamente que não compensa fazer o mal. Por esse motivo, apesar de viver na Segunda Sede, abstinha-se de opinar e de participar das artimanhas de seus companheiros de uma perna só.

Tinha um velho chapéu de baeta, com o qual cobria sua cabeça, e vivia pitando em um cachimbo preto, sentado em toco de pau, vivendo sua vida. Os sacis haviam concedido a ele o dom da imortalidade e assim o quilombola vivia aguardando a vinda de Nosso Senhor jesus Cristo e o Julgamento Final, quando todos seriam julgados segundo as suas obras e começaria a tão sonhada Era do Espírito Santo. Nessa era gloriosa, ninguém mais morrerá, nem ficará doente, nem haverá nenhum tipo de sofrimento.

Quando a Cuca chegou na forma de uma grande coruja e retomou sua forma humana, estava completamente despida. Logo, um dos sacis aproximou-se trazendo uma tanga de flores afrodisíacos. Ela vestiu-a e convocou uma reunião com os gnomos. Explicou tudo que estava acontecendo, o que deixou em alerta os pequenos duendes.

Um deles que, curiosamente, tinha longa barba branca, aproximou-se para saber a razão de tão inesperada visita de bruxa, que se abalara de sua fortaleza de pedra para ir à Segunda Sede. A Cuca falou sobre a menina chamada Brenda e seus amigos, que estão chegando à Segunda Sede, guiados pela Mula Sem Cabeça.

O velho saci, chamado de O Ancião pelos outros, cofiou sua longa barba e ficou pensativo. Ele era o mais sensato de todos os sacis e nem concordava muito com aquela história toda de dominação sobre a mata, mas acatava os desejos de seus parentes e da própria Cuca, por quem nutria um grande apreço devido à sua longa (e bota longa nisso!) história.

O Canhambora também ouviu o que disse a bruxa, mas se manteve, como sempre, indiferente. Desde que fugira da senzala, ainda na época do quilombos, o negro preocupava-se somente com uma única coisa: ser livre. O pássaro que mais admirava era o urubu, que voa a centenas de metros acima do chão. Para ele, quanto mais alto voa uma criatura, mais perto de Deus ela está. Por isso, pouco se importou com a notícia e continuou pitando seu velho cachimbo, sentando sobre um toco de pau.

— É preciso tomar providências! — falou a bruxa, sacudindo sua cabeleira desgrenhada e fitando bem nos olhos o velho saci com seus belos olhos hipnotizadores — Vocês não podem permitir que essa sede também seja tomada, como a do Arranca-Língua, que é agora um prisioneiro dos índios da tribo Abaya!

Todos os sacis reuniram sob um grande pé de jequitibá, chamado de Grande Tronco. O Ancião passava horas conversando com ele, pois a árvore tinha muita sabedoria, acumulada ao longo de seus quase mil anos de existência.

A Cuca presidiu a reunião, pois o velho saci preferiu deixar que ela tomasse as rédeas da situação, já que ele mesmo não era a favor de todas as ideias e as ações da bruxa.

A feiticeira explicou aos sacis — centenas e centenas deles — sobre a situação em que se achavam:

— Estamos correndo perigo! Nosso poder está ameaçado por algumas crianças, simples crianças! Mas há um porém! Duas delas, chamadas Brenda e Maiara, são descendentes de uma deusa: descendentes de Yabá Belö.

O nome de Yebá Bëlo causou temor nos duendes negros. Todos sabiam que era ela, uma divindade bela e poderosa que visitava a Morada de Tupã e ela mesma habitava um belo palácio de quartzo, nas alturas mais altas do ceú. Ela a consideravam tão poderosa quanto a própria Jaci, que governava a lua, e o próprio Guaraci, que governava o sol. Isso porque, conforme falavam alguns índios, fora a própria Yebá Bëlo quem criara o sol, nascido na Torre do Grande Morcego a partir do bastão de Yebá Ngoamãn. E também ela teria sido a criadora de toda a humanidade.

Assim, se Brenda e Maiara era suas descendentes, elas eram realmente muito poderosas.

Lendo seus pensamentos, a Cuca disse:

— Mas, elas ainda são mortais! Podem ser derrotadas e mortas. Vocês podem acabar com elas se trabalharem juntos. Um grande redemoinho. Vocês devem formar um grande redemoinho, capaz de varrer árvores e levantar do chão até o porco do Caipora, que é maior animal de nossa mata!

Os sacis sentiram-se animados para o combate. Começaram a murmurar entre si, traçando planos, mas a Cuca trouxe-os de volta ao seu discurso:

— Além disso, João, o Cabeça de Abóbora, que vocês conhecem muito bem, foi em busca de novos aliados.

O Ancião escutava tudo calado, de pé sobre um galho do jequitibá. Ele desejava que aquilo tudo tivesse um fim sem a necessidade de mortes, nem sofrimento. Sua política era sempre a da paz, a do acordo, a da conciliação. Sua vida longa e suas conversas com o Grande Tronco haviam-no ensinado que viver em harmonia é bem melhor que viver em guerra e que muitas das revoluções realizadas no mundo dos homens tinham simplesmente gerado mais sofrimento e dor, tinham substituído uma dominação opressora por outra dominação opressora.

A ideia de liberdade seria, portanto, um conceito muito difícil de ser descrito, mas envolveria muitos valores subjetivos. Assim, o velho saci dizia que "viver em paz consigo mesmo é viver em liberdade".

O Grande Tronco também ouvia toda o discurso da bruxa e lamentava que ela fosse tão ardilosa; A sua crueldade parecia não ter limites. Sua ânsia por seduzir os homens e devorar crianças parecia uma tendência impossível de ser controlada.

O Grande Tronco, naquele dia, ouvindo as palavras da Cuca, não pode deixar de chorar. O espírito do jequitibá saiu de dentro do tronco grosso e vagou pela mata, chorando e lamentando o destino dos maus e dos bons, pois eis que os bons também sofrem.

E espírito do Grande Tronco era um gigante de quarenta metros de altura, com uma longa barba e com longos cabelos rosados que arrastavam no chão. Ele afastou-se dali para não ser obrigado a escutar os desatinos da bruxa, que alimentava rancor, desejos de vingança e vontade de dominar tudo.

O Ancião, vendo o espírito do Grande Tronco sair do interior da árvore e tomar a floresta sem rumo também ficou triste e pensativo. Tomando a forma de um redemoinho, ele afastou-se dali, deixando a bruxa e os outros duendes entregues às suas loucuras.

Foi uma noite de orgias. A Cuca convidou outras bruxas e outros seres. Vieram monstros de toda parte, trazidos por João Cabeça de Abóbora para auxiliar os sacis na batalha iminente. Vieram lobisomens, corpos secos, almas penadas, o fogo-corredor, índios-morcegos, casais de onças-boi.

Veio também Moloque, ou Milcom. O Bicho-Papão. O Boi da Cara Preta, que vivia hospedado no palácio da Cuca. Ele era um formidável monstro de quase três metros de altura, corpo humano e cabeça de boi, com grande guampas.

O Canhambora participou da festa, bebeu muito vinho, beijou os lábios quentes das belas bruxas jovens. Ele, que sempre fora repelido por muitas mulheres brancas, encontrava nos corpos cálidos das feiticeiras o amor feminil.

O fogo-corredor, que não era o Boitatá, era um casal de compadres que tinham mantido entre si relações de homem e mulher. Segundo a Moral, um compadre não pode deitar-se com sua comadre. Os que assim fazem, transforma-se em fogo corredor e ficam vagando pelas noites afora, iluminando os caminhos com seus corpos em combustão.

A Cuca dava longas gargalhadas e bebia o sangue de crianças, que ordenara ao seu dragão que fosse buscar em sua caverna-palácio. A raiva que tivera devido à derrota do Arranca-Língua dera lugar a uma enorme satisfação e a uma farta bebedeira.

Ela tinha certeza que venceria os garotos. Brenda e Maiara se tornariam suas escravas.

...

Enquanto essa festa desenrolava-se na segunda sede, a Mula Sem Cabeça trotava, carregando em seu lombo as duas irmãs e o índio Muri — e o cãozinho Tupi. Ao lado dela, na

forma de um lobisomem, Márcio acompanhava, saltando por entre árvores e pedras com sua notável agilidade.

No entanto, antes de alcançarem a segunda sede, os heróis ainda encontrariam outra criatura sobrenatural.

A Mãe de Ouro.

Capítulo XIII

A MÃE DO OURO

O Arranca Língua fora aprisionado, por ordem do cacique, em uma gruta, acorrentado por potentes longas de aço enviadas por Tupã. Ali ele ficaria até que Tupã, por intermédio do pajé ou de outra pessoa, decidisse que outra ação deveria ser tomada.

Brande, Maiara, Muir, Márcio e Tupi seguiam sua jornada rumo à segunda sede, montados no grande lombo da Mula Sem Cabeça, cujo corpanzil era negro lustroso. Curiosmanete, ela caminhava tanto pelo dia quanto pela noite, pois tinha permissão superior para isso. A diferença é que durante a noite, ela não lançava fogo pelas ventas e era possível perceber sua grande cabeça de mula.

Toda ela era preta, com olhos vermelhos como fogo. Trotava velozmente percorria muitos quilômetros em poucas horas. Dificilmente se cansava. Mantendo sempre a disposição e a agilidade, já que seu ritmo nunca diminuía, era sempre o mesmo, fossem os caminhos brandos ou ásperos.

A noite, o fogaréu que subia de suas ventas iluminava os caminhos a longa distância, subindo a uma altura que ultrapassava os dois metros às vezes. Os animais da floresta saíam de caminho quando a viam de longe, fossem onças, serpentes, coelhos, antas ou capivaras. Até os morcegos temiam a mula.

Antes de alcançarem a sede, a mula contou sua história. Antes, ela fora uma jovem mulher, que vivia na cidade de Salvador, perto do Pelourinho. Envolvera-se com um jovem sacerdote, traindo seu noivo com ele. Era uma mulata de belas proporções, cobiçada pelos homens da região.

O padre era um sedutor sem escrúpulos, habituado a ter todas as mulheres aos seus pés. Gostava mesmo de envolver-se com as mulheres casadas, pois para seu ego do tamanho do Titanic, se as mulheres traíam seus maridos por causa dele isso significava que ele realmente era irresistível, um Don Juan soteropolitano, um Casanova da Bahia.

A bela mulata de lábios voluptuosos deixou-se envolver pelo padre e traiu seu noivo. Não sabia ela o destino que lhe estava reservado...

Sete meses após o relacionamento adúltero, Maria dos Prazeres transformou-se em Mula Sem cabeça, em uma Sexta-Feira Santa, à meia noite, durante uma lua de sangue. Ela sentiu um calor e um formigamento pelo corpo todo. Seus pelos arrepiaram-se e, sobrevoando o céu, uma rasga-mortalha, a coruja branca, soltou seu lúgubre pio.

Maria dos Prazeres arrancou suas roupas e saiu correndo pelas ruas, desesperada. Bem diante da célebre Igreja de São Francisco, na ladeira do Pelourinho, ela teve sua primeira metamorfose. De quanto nas pedras da rua, ela viu um longo rabo crescer entre as suas pernas. Seu belo nariz, juntamente com seus lábios, esticaram-se tanto que ela sentiu uma pontada no coração. Formaram uma focinho de mula. A cabeleira formou a crina. Sua pela amarronzada ficou negra como a noite, como um poço de piche. Ela também mudou de tamanho e criou cascos,

Em poucos minutos, corria pelo Pelourinho uma grande Mula Sem Cabeça, que lançava fogo pelas ventas e gemia como uma mulher, mas também relinchava como uma mula.

Depois disso, Maria resolveu fugir do mundo. Conversou com um velho benzedor que curava bicheira e perguntou o que poderia fazer. Ele indicou a ela o caminho da Floresta Caiçara e também lhe deu uma poção mágica para que ela virasse mula definitivamente, com o privilégio de poder correr durante o dia e não somente pela noite.

Foi assim que Maria passou a cumprir sua sina de Mula Sem Cabeça, punição por ter se envolvido com um padre.

Brande e Maiara comoveram-se com a triste história de Maria dos Prazeres.

— Maria dos Prazeres? O nome dela deveria ser Maria das Dores, isso sim! — cochichou Maiara para a irmã.

...

No caminho para a segunda sede, o grupo encontrou um local curioso e muito atraente. Uma gruta cheia de ouro. Repleta de ouro em grande barras reluzentes, em pedra bruta, na forma de joias, em grandes baús de pedra.

Márcio ficou extasiado. Não compreendia como pudesse existir tanto ouro no mundo e, aparentemente, sem nenhum guardião. A gruta estava completa aberta, oferecendo generosamente a quem passasse pelo caminho.

A Mula Sem Cabeça, com sua voz de mulher misturada a zurro, alertou:

— Isso é deveras estranho... Uma gruta cheia de ouro guardada por ninguém? Pode ser uma armadilha.

E era.

Repentinamente, a entrada da gruta fechou-se sozinha, como se acionada por algum mecanismo invisível, como o covil de Ali Babá e os quarenta ladrões. Márcio já estava enfiando barras de ouro nos bolsos de sua nova roupa, que Tupã lhe dera de presente.

Brenda e Maiara, apesar de corajosas, abraçaram-se. Muri permaneceu impassível, olhar vigilante, empunhando sua arma, pronto para o combate. Tupi começou a latir em todas as direções, sentindo a presença de alguma coisa.

Márcio, voltando a si, sentiu medo. Efetivamente alguma coisa estava ali — era impossível negar a presença dela.

Minutos depois que a gruta fechou, uma forma apareceu bem no alto, junto ao teto.

Era uma bola amarela, radiante, ígnea, que girava em torno de si mesma como faz o planeta Terra. Em seguida, ela começou a girar em outro sentido, sempre com muita velocidade. Lentamente, a bola foi baixando, baixando, baixando...

Ao chegar à altura da cabeça de Márcio, ela transformou-se em uma linda mulher, alta, de cabelos dourados, vestes branquíssimas. Ela flutuava e sua longa cabeleira de ouro parecia bafejada continuamente pelo vento.

— A Mãe do Ouro! — comentou a mula, recuando.

— O ouro atiça a cobiça dos homens da cidade, não é mesmo, Márcio?

A voz dela era doce, mas em tom de reprovação. Márcio deixou cair as barras de ouro que segurava nas mãos, mas manteve as que guardava escondidas nos bolsos de sua roupa.

— É fácil falar assim quando se vive em outra dimensão, quando se tem uma natureza sobrenatural. Nós, os homens, precisamos de dinheiro para sobreviver, pois é assim que as coisas funcionam em nossa sociedade. De modo geral, a gente vale o que tem.

Essa resposta tão incisiva e verdadeira, causou admiração em Brenda, Maiara e Muri.

A Mãe do Ouro sorriu benévola e anuiu com uma inclinação de cabeça.

— Realmente, é assim meu filho! Mas, chegará o dia em que os homens descobrirão que o ouro não é somente um meio de proporcionar riquezas materiais. Ele também pode dar saúde e vida eterna. Na antiga Era do Ouro, que um dia voltará, os homens tinham ouro em seu sangue e, por isso, nunca morriam, nem adoeciam, nem envelheciam. Tupã, o grande deus dos guaranis, tem ouro puro correndo em seu organismo e da mesma forma todas as divindades.

Essa era uma grande revelação, que deixou Márcio, Brenda e Maiara estupefatos.

— Transformar metais em ouro e encontrar o Elixir da Longa Vida foram os grandes objetivos dos alquimistas de outrora. E alguns o encontraram, como Nicolau Flamel e Perrenele, um casal que ainda hoje vive, pois suas descoberta os agraciou com a vida eterna.

Olhando para o rapaz, a Mão do Ouro falou:

— Agora, devolva-me o ouro que ainda tem escondido em sua roupa. Vocês não levarão nem uma barra ou pepita de ouro desta caverna.

Márcio hesitou, mas diante do olhar da bela mulher, ele cedeu. Ela, por sua vez, explicou:

— Eu uso este ouro para alimentar tribos indígenas que passam necessidades na Floresta Caiçara.

— Como é que é? — perguntou Maiara, admirada.

— Sim. Há muitas tribos passando fome na floresta, principalmente depois que a Cuca passou a dominar a região. Tupã, então, me incumbiu de cuidar desses pobres coitados. E eu estou cuidando. Na forma de uma mulher comum, negocio o ouro com mercadores, em troca de comida, e alimento os famintos. Negocio principalmente no Reino dos Macacos, com o grande rei Simão. Ele usa ouro pra construções e para fazer o Elixir da Saúde.

Brenda ficou surpresa com a revelação da Mão do Ouro. Seu pai sempre lhe falara do misterioso Reino dos Macacos, mas ele mesmo não sabia se o lugar existia de verdade mesmo ou era somente uma fantasia.

— Mas faço mais que isso — continuou a mulher — Transformou o ouro em bebida, em elixir e dou aos índios. E eles ficam curados de suas mazelas. Rejuvenescem. Ganham o precioso dom da vida — o dom da vida eterna.

Brenda e Maiara notaram que, da basta cabeleira da Mãe do ouro, caíam centenas e centenas de estrelinhas e, fascinadas, começaram a apanhar algumas delas.

— Elas têm o poder de realizar os seus desejos — explicou a bela mulher, que ainda flutuava, sem tocar os pés no chão da gruta.

Brenda apertou as estrelinhas douradas contra seu peito e fez um desejo. Maiara também.

A Mula Sem Cabeça observava tudo, calada e admirada. Muri baixara a guarda e escutava embevecido a Mãe do Ouro narrar suas histórias. Tupi também estava quietinho, deitadinho aos pés da bela dama.

Depois, a mula levou os jovens para fora da gruta a fim de que continuassem seu caminho rumo à segunda sede. Ao contrário do que dissera, a Mãe do Ouro presenteou os jovens com um pedrinha de ouro presa a uma corrente, advertindo:

— Façam bom uso desse tesouro!

A noite colheu os viajantes no meio da floresta. A mula, lançando fogo pelas ventas, alumiou o caminho escuro. Em dado momento, no entanto, ela falou:

— Vamos descansar. Ou melhor, vocês devem descansar, pois eu não me canso fácil. Amanhã pela manhã, prosseguiremos rumo à segunda sede.

Debaixo de uma grande árvore, cada um arrumou um leito de folhas e deitou-se sobre ele. A mula, mais adiante, estirou-se no chão, mas ficou de alerta, com o tronco erguido e a coluna de fogo emitindo fagulhas, como se fosse uma grande fogueira.

Brenda e Maiara dormiram abraçadas. E ambas sonharam...

Sonharam?

Não! Aquilo fora muito real para ser somente um sonho!

A Mãe do Ouro vinha buscá-las para conhecer seu palácio no fundo do rio. Iam Brenda, Maiara e a Mula Sem Cabeça também. Mas, a mula não ia na forma de mula, ia na forma de mulher — na forma da bela mulata que ela fora um dia.

O palácio era todo de ouro puro, reluzente, muito reluzente. Porém os olhos dos visitantes conseguiam contemplá-lo em toda a sua beleza. Havia até estátuas de ouro que caminhavam e falavam, cumprimentando Brenda e seus amigos enquanto eles seguiam a Mãe do Ouro pelos longos corredores e salões.

E o palácio estava repleto de jovens. Jovens que namoravam, beijavam-se, conversavam.

Parecia o Templo de Vênus.

Todas as mulheres presentes no palácio, inclusive Brenda, Maiara e Maria dos Prazeres, estavam trajando vestidos maravilhosos, cheios de pedrarias e muito transparentes. Eram roupas de princesas, certamente muito parecidas ao vestido da Cinderela quando ela foi ao baile do príncipe.

Os jovens eram príncipes de diferentes épocas. Jovens belíssimos, altos, de cabeleira dourada ou negra, de olhos claros ou escuros. Muitos tinham lutado em guerras nacionalistas, ou construído reinos poderosos. Em deles era Alexandre Magno. Brenda reconheceu-o imediatamente. Era o jovem que morrera com pouco mais de 30 anos e, em tão pouco tempo, dominara grande parte do mundo.

Lá estavam também Aquiles e Teseu, heróis gregos e formosos, dotados de grande denodo e amor pela vida. Outro era o rei Davi, amante das mulheres e cantor lírico-religioso, que escrevera salmos piedosos que ainda hoje comovem os leitores.

E havia príncipes da Idade Média e da Idade Moderna, príncipes europeus e americanos, africanos e asiáticos, da distante China e da remota Índia.

As mulheres beijavam-se com eles, entregavam-se aos amores mais intensos. Algumas eram casadas lá em cima, outras eram solteiras.

A Mãe do Ouro explicou que todas as mulheres que apanhavam suas estrelinhas eram levadas àquele palácio durante as noites para conhecerem os garbosos príncipes. Ali, elas até mudavam de forma: Brenda percebeu que algumas estavam com pernas tão enlaçadas uma na outra que mais pareciam a cauda de um peixe. Em outras, essa cauda era bem mais evidente.

— Elas viraram sereias! — comentou Maiara.

Foi uma maravilhosa viagem, que nenhuma das três jamais conseguiu esquecer.

Na manhã seguinte, elas acordaram assustadas e contaram umas às outras o que havia acontecido. E os detalhes eram tantos e tão coincidentes que elas não puderam duvidar de que tudo fora efetivamente real.

Depois, o grupo seguir caminho e, após algumas horas, alcançaram a segunda sede: a sede dos sacis.

Capítulo XIV

A SEGUNDA SEDE

Finalmente, o grupo alcançou a Segunda Sede. Uma sede maior que a primeira. A primeira pessoa que Brenda avistou foi o Canhambora pitando um cachimbo preto. Seus pés descalços estavam descansando sobre um tronco velho, carcomido de cupins e em sua cabeça havia um velho chapéu de palha. Ele pareceu não se importar com a chegada dos visitantes e continuou pitando, despreocupado.

Tudo parecia deserto e Brenda desconfiou. Maiara também. Muri farejava o ar em busca de alguma coisa, como se fosse um cão. Márcio também sondava os arredores, perscrutando os cantos mais sombrios.

Tupi era o mais alerta de todos, com suas orelhas esticadas e o focinho girando de um lado a outro, farejando o perigo.

Ao contrário doa Primeira Sede, essa sede não tinha nenhum muro protegendo-a, estava totalmente a descoberto, aberta a quem quisesse entrar.

Isso parecia muito estranho...

O aspecto tranquilo do Canhambora era motivador. Mas podia ser uma armadilha. Muri sabia que os sacis tinham o poder de ficar invisíveis. E a invisibilidade pode ser uma estratégia decisiva em um combate.

Já imaginaram se, na Segunda Guerra Mundial, todos os alemães ou americanos ficassem invisíveis? Eles seriam imbatíveis, pois ninguém poderia lutar contra eles de igual para igual.

Muri aprendera, desde cedo, que a aparente fragilidade dos sacis era um ledo engano, pois eles muito espertos e cheios de habilidades. Seu próprio tamanho era uma vantagem para eles, pois permitia que eles se deslocassem por lugares onde uma pessoa de tamanho normal jamais se deslocaria.

Como fosse manhã, o medo dos aventureiros era menor. A Mula Sem Cabeça apresentava-se completa, com sua grande cabeça preta e seus olhos ígneos.

— Nesse mato tem coelho... — sussurrou Maiara. Coelho não tinha.

Mas tinha saci.

Uma multidão incontável de sacis. Eles estavam todos juntos e formavam um vendaval enorme: dez, vinte, trinta... cem vezes mais forte que os pés de vento habituais que eles costumavam formar isoladamente.

O céu ficou completamente escuro, como se fosse noite. Noite sem lua.

Tupi começou a latir incontinenti. Maiara agarrou-se a Brenda. E, curiosamente, Márcio começou a passar por uma transformação, virando lobisomem.

Todos ouviam as gargalhadas sonoras dos duendes. Eram gargalhadas escandalosas. O pequeno grupo foi envolvido pelo vendaval.

E levado por ele mata a dentro.

Brenda sentou-se como Dorothy, do livro "O Mágico de Oz". Ela ia girando, girando, girando... a uma velocidade alta, mas ainda assim se mantinha lúcida. Maiara e os outros também. Era como se estivessem dentro de um grande pião, de um pião gigantesco que não parava de rodar.

Os ruídos também eram muito elevados. Os meninos sentiam um zunido persistente nos

ouvidos: zummmm...zummmm... zummmm...

Eles estavam literalmente no olho do furação, do maelstrom de vento. Viam os olhos ígneos dos sacis e escutavam suas risadas desbocadas, que nem pareciam provir de seres tão diminutos.

Márcio, já transformado em lobisomem, urrava raivosamente e saltava mesmo de um ponto a outro dentro do vendaval, tentando agarrar os donos daqueles olhos inutilmente.

O grupo nem sequer havia conseguido penetrar na Segunda Sede e fora varrido para o meio do mato. Em determinado momento, o vendaval dissipou-se, largando no centro de uma clareira o grupo atordoado. Lá estavam à espera deles um bando de bruxas velhas, de cabelo arrepiado e nariz curvado, com grandes verrugas em cima dos olhos.

Elas também gargalhavam escandalosamente. E um enorme caldeirão de metal fervia sobre achas de madeira, espumando e derramando o líquido pelas bordas. Alguns estranhos duendes entravam e saíam do caldeirão fervente, completamente imunes ao fogo.

Algumas vassouras de piaçava, dotadas de vida própria, voavam em círculos e dançavam ao redor do caldeirão. E grandes corujas brancas piavam lugubremente do alto das árvores, observando a festa. Havia gatos pretos de olhos reluzentes que agitavam suas caudas lentamente, sentados sobre as patas. Em breve, começaram a miar, longos miados desagradáveis, fúnebres, que, juntamente com o piado das aves, formavam uma canção hedionda.

O lobisomem, enfurecido, avançou contra as velhas, mas foi imediatamente detido por outra criatura que, saltando do matagal inesperadamente, atracou-se com a besta lupina, medindo forças com ela.

Era o Boi da Cara Preta, o grande Moloque dos fenícios e amonitas.

Mais uma vez, tal como acontecera na Primeira Sede, travava-se uma luta entre duas poderosas criaturas. Mas, Moloque era cem vezes mais forte que o lobisomem e poderia enfrentar, ao mesmo tempo, o licantropo e o Arranca Língua. Por esse motivo, em poucos minutos, Márcio estava fora de combate.

A divindade de cara escura ergueu o adversário combalido acima de sua cabeça e exibiu sua força às bruxas e aos membros do grupo. As velhas acorrentaram a fera derrotada com potentes correntes de prata a uma grande árvore de tronco esgarçado, com ramos e galhos que pareciam braços e garras prontas para atacar.

Brenda e Maiara ficaram sem saber o que fazer, pois sempre contavam com a força de Márcio para enfrentar perigos diversos. Muri, no entanto, arrojado como era, lançou-se contra o gigante de cara de boi, armado com sua lança. Mas foi imediatamente desarmado e lançado a dezenas de metros do local onde estava — como se fosse uma simples pena para Moloque.

Brenda pediu ajuda à sua ascendente, Yebá Bëlo. Maiara pediu o socorro de Tupã. Tupi pediu a ajuda de São Lázaro e de São Roque e também do Caipora, que é o duende protetor dos animais. Os monges franciscanos que, certa vez, visitaram a aldeia, contaram uma história interessante: a de que São Cristóvão, antes de ser homem, era um animal gigante, um cinocéfalo, criaturas que habitam as florestas do outro lado do mundo. Os cinocéfalos têm cabeça de cão e corpo humano. Por isso, Tupi também apelou para ele.

Apesar de ser muito corajoso, o pobre Tupi não se sentia nada bem depois de rodar, de girar e de corrupiar dentro daquele vendaval de sacis e depois de cair no meio de bruxas feias de doer. Ainda por cima, aparecia aquele Bicho-Papão que lhe dava farnesim, um bichão grande e peludo, de cabeçorra de touro, chifres alto e afiados, com a cara mais preta que ele já havia visto em sua vida.

Sinceramente, temos de admitir que não há cãozinho valente que aguente tanta coisa.

Depois tanta bruxa feia, finalmente começaram a aparecer as bruxas bonitas, sempre jovens e sedutoras, donas de corpos exuberantes e beleza sem fim. Entre elas, veio a própria Cuca, vestida em sua tanga de flores, com um diadema de flores e colar de flores cobrindo seu esplêndido busto.

Ela desceu montada sobre seu dragão, tal como a terrível Babilônia do Apocalipse montada sobre a Besta-Fera de sete cabeças e dez chifres. O dragão tinha longos e recurvos cornos e seu ventre reluzia, como se de ouro fosse feito. Sua goela hiante expelia fogo e fumaça, cujo cheiro forte deixou as duas irmãos tontas.

Ela o chamou pelo nome de Leviatã, que era o maior monstro dos mares. Com certeza, ele tinha o poder de alterar seu tamanho para menos. Naquele momento, ele estava bem menor do que era na verdade.

As verdadeiras dimensões desse monstro ainda são um mistério. Ele é descrito no Livro de Jó como uma criatura invencível, a quem muito valentes heróis tentaram debalde derrotar.

Fala-se que seu dorso formava as grandes montanhas abissais. Fala-se que ele é o verdadeiro responsável pelos desaparecimentos no Triângulo das Bermudas. Fala-se que é ele quem forma ao grandes redemoinhos marítimos que arrastam para as profundezas as maiores embarcações.

Fala-se muita coisa dele.

A Cuca desceu do lombo do monstro e dirigiu-se diretamente para as garotas. Apesar de sua coragem, elas ficaram com medo. A antiga canção de ninar "A Cuca Vai Pegar" não saía de suas cabeças. Elas imaginavam a bruxa como uma velha feia e verruguenta e tinham diante de si

uma mulher madura, cheia de beleza, viçosa, com lábios muito vermelhos e olhos verdes que hipnotizavam qualquer um.

Sua gargalhada era tão aterrorizante e escandalosa quanto a das bruxas velhas. E, como que para atender a imaginação assustada das meninas, a Cuca transformou-se em uma vela repulsiva e esmolambada, com um saco sujo nas costas, encurvada e com dentes podres.

Que diferença!

Muri, que estava admirado diante da formidável beleza e sensualidade da mulher que, há poucos segundos, estava diante dele, ficou de queixo caído e fez cara de aversão, de nojo mesmo. Para provocá-lo, a velha ainda deu um beijo em sua boca.

As outras bruxas danaram-se a rir, as perversas.

Depois, a Cuca retomou a sua forma de mulher bonita e riu a sua gargalhada de bruxa, muito semelhante àquelas que estamos acostumados a ver na TV e no cinema.

Não era à toa que ela era chamada de cabeluda. Sua cabeleira desgrenhada dava-lhe uma beleza selvagem, indomável, encantadora. Muri sentia um enorme desejo de esconder entre aqueles cabelos abundantes e perder-se no meio deles, como acontece quando se penetra uma floresta desconhecida, cheia de mistérios. Para o jovem índio, ela era como uma verdadeira sereia, como as divindades que habitam as águas profundas, como a formosa Mãe do Ouro, que tinha um palácio maravilhoso no fundo das águas.

Conforme dissera o pajé certa vez em sua preleção sobre "A Cabeluda", a Cuca também tinha uma morada no fundo do rio Minho, que atravessa Espanha e Portugal.

Logo depois, a bruxa tomou a forma de uma serpente enorme e desafiou Muri, ameaçando-a com sua língua bífida enquanto ciciava. Um das bruxas devolve à lança ao menino e estimulou-o a lutar. Brenda e Maiara, assustadas, gritaram para que o índio não fosse, pois certamente seria morto.

Muri, no entanto, que era teimoso, aceitou o desafio e, com a lança em riste, partiu contra a serpente gigante.

As bruxas imediatamente fizeram uma roda no meio da qual estavam a serpente e o índio. O Bicho-Papão bufava, soltando fumaças por suas ventas dilatadas. Era um monstro violento, que gostava de cenas aterradoras, de brigas e desafios. Como quase sempre saía vencedor, orgulhava-se de sua força, de seu poder, de sua virilidade. O lobisomem, atado às corrente de prata sob a árvore assombrada, já voltara a si e começou a retomar sua forma humana.

O duelo da serpente com Muri foi tenso. O jovem índio lentamente circundava a cobra, sempre com a lança apontada para ela. Ela, por sua vez, sempre o ameaçava, dando-lhe pequenos sustos, mas sem fazer nada.

Foi quando Moloque, cansado da espera, gritou:

— Engole logo esse moleque!

Muri, estremçando diante da voz potente do monstro, desviou sua atenção da cobra para ele. Os gritos das meninas alertaram-no e ele voltou seu olha para sua oponente.

E o que viu foi assustador.

Uma enorme goela, completamente escancarada e profunda como o abismo, apresentava-se diante dele. O pobre não teve tempo de fazer nada. Largou a arma e ainda lançou um grito pavoroso que varou as distâncias.

A cena seguinte foi terrível. Brenda e Maiara fecharam os olhos e chamaram por Deus.

Maiara pediu que Tupã tivesse pena do índio.

A serpente engoliu primeiro a cabeça de Muri e levantou-o no ar. Assim, com a bocarra voltada para o alto, o animal foi engolindo pouco a pouco o índio: o pescoço, os ombros, o tórax e os braços, o abdômen e, finalmente, as pernas e os pés.

Ao abrir os olhos, Brenda ainda divisou um dos pés de Muri, que se agitava fora da bocarra da serpente para, em seguida, desparecer em sua profunda garganta, que parecia um abismo sem fim.

Maiara chorava. Márcio tentou livra-se das correntes que o prendiam. Tupi gania silenciosamente, encolhido junto aos pés de Brenda. Toda sua coragem de cão de índio se esvaíra completamente diante daquela mulher de mil caras, ora bela e jovem, ora velha e feia, ora serpente monstruosa.

Brenda caíra em um estado de estupor. Mantinha os olhos vidrados, fitando o nada. Não chorava, não gritava, estava muda como uma porta.

Elas também estavam amarradas, com as mãos atadas às costas. Maiara estava em desespero, chorava sem parar, sentindo-se indefesa, muito diferente da habilidosa garota que derrotar o Arranca Língua, fazendo uso de sua astúcia.

A Cuca retomou sua forma de mulher novamente, lambendo os lábios e passando a mão sobre o ventre nu, como se tivesse feito uma excelente refeição.

O Bicho-Papão aproximou-se da bruxa e carregou-a nos braços, escanchando-a depois sobre seus ombros largos. As outras bruxas batiam palmas alvoroçadas. Os gatos pretos miavam, andando de um para outro lado. Os duendes mergulhavam no caldeirão fervente, como ele fosse uma piscina ou um mar. E muitos sacis reapareceram, não em um ventania, mas pulando em suas pernas únicas, fumando seu cachimbo. Eles também se uniram ao coro das bruxas risonhas, gargalhando desabridamente — da forma como somente um saci sabe fazer.

Maiara, que soluçava de cabeça baixa, não viu a transformação que se operara em Brenda.

Pois Brenda estava se transformando.

Levantou-se com aquele olhar vidrado no nada, no desconhecido. O mesmo olhar que as pessoas dizem que os loucos têm. Ergueu a face para o alto, para o céu.

Talvez, ela estivesse lembrando aquele salmo que diz: "Meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra!"

O único que atentava para essa transformação de Brenda, era Leviatã. O dragão de milhares anos olhava-a desconfiado. Parecia pronto para atacar ou bater em retirada.

De repente...

Brenda rompeu as cordas que prendiam seus pulsos atrás das costas. Era como se essas cordas não passassem de simples fios de linha.

Seu olhar endureceu.

Estava possuída pelo espírito do Porco do Mato, o animal que servia de montaria para o Caipora. Ela começou a grunhir como se fosse realmente um poderoso queixada. Avançou assim contra o grupo de bruxas. Corria com a cabeça baixa como se fosse um touro. À medida que passava entre elas, ia derrubando todas. Até Moloch foi atirado ao chão diante da fúria de Brenda.

Os sacis também ficaram sem entender como aquela garota estava possuída por tamanha fúria e dotada de tanta força. A imprevisibilidade do acontecimento atrapalhou um contra ataque e o que se seguiu depois foi uma massiva derrota das bruxas. Sentindo-se incapazes de vencer aquela menina mesmo com seus feitiços, elas se transformavam em gralhas ou corujas e desapareciam no ar.

Só naquela noite, Brenda descobrira que seu animal xamã era o Porco do Mato — mais especificamente, o queixada do Caipora. Fora assim que Yebá Bëlo presenteou suas descendente no dia de seu nascimento.

Brenda revirou de pernas pra cima o caldeirão fervente, Uma proeza que exigia realmente a força de muitos homens.

Na verdade, caldeirões não têm pernas, mas o leitor certamente entendeu o que o narrador aqui quis dizer...

Na dúvida, Moloque também não atacou e erguendo-se aos céus voou como se um pássaro fosse, mesmo sem ter asas. Como divindade, ele tinha certos poderes.

Acabou ficando a Cuca e seu dragão. Mas logo ela também foi vitimada pela raiva de Brenda, que a agarrou por sua cabeleira abundante e deu três voltas com ela, girando-a no ar e jogando-a a muitos metros dali. A Cuca bateu a cabeça violentamente contra o tronco de um velho jequitibá.

O dragão, abrindo suas asas, pegou sua companheira com suas garras e, tal como fizeram as bruxas, sumiu no céu noturno em busca de plagas mais amenas.

Brenda tinha um estranho olhar, a respiração estava acelerada e, vez ou outro, ela emitia um grunhido forte.

Aproximando-se de Márcio, rompeu suas correntes de prata, libertando-o. O jovem foi soltar Maiara. Tupi estava encorajado novamente.

Voltando gradualmente à sua condição de Brenda normal, a garota foi dizendo:

— Vamos logo! Ainda temos que vencer a Segunda Sede!

Capítulo XV

A VIAGEM ASTRAL

Maiara ficou surpreendida ao ver que Brenda possuía um espírito protetor animal tão poderoso. Ficou curiosa para saber qual era o seu próprio espírito protetor animal. Torcia para que fosse uma pomba ou um papagaio.

Mas, não era...

Posteriormente, ela descobriu que o animal que a protegia era nada menos que a serpente. A serpente é um animal meio polêmico. Há que julgue que ela seja representativa do mal devido

sua atuação no Jardim do Éden. Contudo, muitas civilizações antigas viam na serpente um símbolo da cura e da sabedoria.

Quem não lembra do cajado de Hermes, o Mercúrio dos gregos? Ele tinha duas serpentes enroladas, uma olhando diante da outra. Esse símbolo, o caduceu, ainda hoje serve como emblema para a Medicina.

Moisés, ao que parece, também tinha apreço pelas serpentes. Seu primeiro milagre diante do faraó foi transformar seu cajado em cobra. Depois, ele ergueu uma serpente de bronze que curou os israelitas mordidos por cobras no deserto do Sinai. Essa serpente ficou conhecida como Neustã.

Entre os índios brasileiros, no folclore tupi, existe a Boa, a Cobra-Grande, serpente aquática que governa os rios e que costuma virar embarcações.

Enfim, a serpente nem sempre é vista de forma negativa. Está associada a coisas muito boas, como curas e sabedoria.

Mas, retomando nossa narrativa, vimos que Brenda e seus amigos, à exceção de Muri, dirigiram-se para a Segunda Sede a fim de derrotar os sacis, que estavam trabalhando para manter a Cuca como Imperatriz da Floresta Caiçara.

Para vender os sacis, a força bruta de nada servia, pois sendo seres muito espertos, dotados de muitos atributos, eles venciam facilmente seus oponentes. Apanhar cada saci usando a técnica da peneira de cruzeta era praticamente impossível. Além disso, havia aliados agora no sede, enviados pela Cuca e levados até lá pelo Cabeça de Abóbora.

A Segunda Sede estava cheia de monstros de toda sorte: um grande licantropo; o Pé de Garrafa, com seu corpo peludo; o Cavalo de Três Patas; o Fogo-Corredor; a Aranha Gigante; índios-morcegos; o Papa-Fígado, que saíra da Primeira Sede e estava ali agora.

Márcio achou que bem poderia derrotar o lobisomem, mas ainda assim restavam outros seres para vencer. A Mula Sem Cabeça prontificou-se a lutar contra o Cavalo de Três Patas.

De qualquer modo, parecia ser uma luta perdida. Naquele momento, centenas de sacis poderiam estar observando o grupo, escondidos, invisíveis.

Na verdade, para derrotar vários sacis, somente outro saci teria capacidade efetiva.

E, entre todos aqueles seres minúsculos, havia um que não estava nada satisfeito com tudo aquilo, que não apoiava as ideias pretenciosas da bruxa.

Era o velho saci barbudo, chamado de Ancião pelos outros.

Ele deu ao ar de sua graça quando Márcio, já bastante impaciente e querendo ir à fora e vencer, ao menos uma luta, já se preparava para "forçar" sua transformação em lobo e bater de frente com aquele outro lobisomem. Ele sofrera duas derrotas seguidas — isso não era coisa boa para alguém que desejava ajudar Brenda e Maiara, bem como transformar-se em um herói, salvador da Floresta Caiçara. Provavelmente assim ficaria livre de sua maldição definitivamente.

A princípio, as meninas assustaram-se ao ver o duende ao lado delas, pulando em só perna, com seu gorro vermelho e uma longa barba de profeta.

— Não tenham medo! Não farei mal a vocês! Também não estou de acordo com as ações da Cuca. A Floresta Caiçara deve permanecer livre, como sempre foi. Estou disposto ajudar vocês. Eu sei o que poderão fazer para aprisionar todos o sacis de uma só vez. Mas devem me

prometer que não farão nenhum mal aos meus familiares. Sei que seres humanos não têm palavra. Prometem e não cumprem.

— Nem todos são assim, meu amigo — explicou Maiara — Existem seres humanos de palavra.

— A categoria de políticos é que costuma prometer e não brincar — pilheriou Brenda — Mas não fazemos parte dela.

O velho saci prosseguiu, explicando o que deveria ser feito para vencer os sacis:

— Existe um poderoso anel mágico, pertencente ao Rei Salomão. Nesse anel estão gravados a Estrela de Seis Pontas e o Nome Impronunciável de Deus. Era com esse anel que o rei aprisionava todo tipo de criatura sobrenatural e deixava-as seladas dentro da Arca de Bronze.

— Bem, se não me engano, Israel fica muito distante daqui, não é, meu velho amigo? — falou Maiara, quase sem esperanças — Como podemos ir lá.

— Isso não chega a ser um obstáculo — continuou o saci — Existe a erva chamada Erva de São João, ou artemísia. Essa planta é uma das preferidas pelas bruxas.

Brenda sentiu um arrepio.

— Ela tem o poder de fazer as pessoas voarem e alcançarem qualquer região, do presente ou passado. A alma das pessoas sai de seus corpos e vai para onde quiser. Brenda e Maiara poderão ir até as proximidades de Jerusalém e procurar em uma gruta do Monte Nebo a Arca de Bronze.

— Mas como poderemos apanhá-la se apenas nossas almas estarão lá? — indagou Brenda, muito interessada.

— Vocês irão plasmar uma arca idêntica à verdadeira Arca de Bronze. Voando pelo espaço, trarão a arca. Cada uma de vocês deve segurar um lado do vaso enquanto estiverem voando. Quando as almas de vocês retornarem aos seus corpos, vocês devem fazer com que essa arca se materialize no mundo físico. Para isso, nunca deverão largá-la, Brenda segundo de um lado e Maiara do outro.

As garotas acharam muito interessante essa aventura. Mas Brenda ainda tinha dúvidas:

— Isso realmente é possível? Além disso, o anel mágico do rei é fundamental para prender os sacis dentro da arca e nós não o temos.

— Mas eu sei quem o tem — replicou o Ancião — Ele está em poder da Cuca!

— Então, dá na mesma — falou Márcio, desanimado — Nunca conseguiremos pegá-lo da bruxa!

— Vocês realmente não podem, mas eu sim.

— E você faria isso? — perguntou Maiara, surpreendida.

— É certo que sim. Pois sempre penso no que é melhor para minha comunidade e não aprovo, em nenhuma hipótese, as ideias transviadas da Cuca de querer tornar-se imperatriz da Floresta Caiçara. Todos aqui sempre vivemos em completa liberdade e é assim que deve continuar sendo.

Ficou combinado que Maiara e Brenda se iniciariam no ritual da Erva de São João para a viagem astral pelo espaço. O próprio saci reparou a poção e deu para que bebessem. Márcio ficou bastante preocupado com Brenda. Brenda sorriu, feliz pelo fato de o rapaz sentir preocupações com ela.

Elas sentiram um sono profundo e adormeceram, penetrando os mistérios da Terra Mágica de Orfeu. Nos sonhos, elas completamente lúcidas e conversavam conscientemente uma com a outra.

— Estamos sonhando, Brenda!

— Sim! Mas é tudo tão real...

— E estamos sonhando a mesma coisa. Parece um único sonho para ambas.

— Sonho lúcido, como me falou meu amigo padre.

— Então, devemos deixar nossos corpos e partir para onde o Ancião nos indicou.

Assim, elas deixaram suas almas flutuar levemente para fora do corpo e ganharam os ares, voando da mesma forma que Peter Pan, Wendy e seus irmãos.

Era um sensação maravilhosa! Elas voavam alto e alto, cada vez mais alto — tal como fizer Ícaro com suas asas. Mas elas voavam sem asas e não havia sol, pois era noite. Havia milhões de estrelas piscando no céu e as garotas tinham a nítida impressão de que estavam chegando cada vez mais perto desses astros luminosos.

Brenda achou que se continuassem voando daquele jeito, iriam chegar até Deus.

Elas cruzaram o Oceano Atlântico. O mar azul embaixo confundia-se com a cor da noite, mas era possível ouvir o bramir de suas ondas. Havia algumas embarcações andando movendo-se sobre as águas.

Aquela não era somente uma viagem no espaço. Era uma viagem no espaço, pois tinham que chegar ao Monte Nebo poucos anos depois que Salomão escondera a Arca de Bronze no interior do monte. Nesse mesmo lugar, muitos anos mais tarde, o Profeta Jeremias esconderia a Arca da Aliança, salvando-a assim do saque dos babilônios.

Bastava desejar ir para tal tempo e pronto! Quando a alma emancipa-se do corpo pode fazer milhares de coisas: voar, ir para qualquer local, viajar no tempo...

Elas sobrevoaram pela estreita passagem que conduz as águas do Mediterrâneo ao Atlântico e adentraram o Grande Mar, alcançando logo a costa de Israel. A Cidade Santa de Jerusalém não ficava na costa, mas se localizava (e ainda se localiza), mais para o interior, nas proximidades do Mar Morto. Já o Monte Nebo fica na região chamada Jordânia.

Veja abaixo, para matar sua curiosidade, uma ilustração do Nebo.

As duas irmãs sentiam-se como se estivessem sendo guiadas por algum anjo protetor, pois sabiam perfeitamente que trajeto tinham que percorrer sem nunca, em toda a sua vida, terem ido à Israel. Nem sabiam, até o momento em que o velho saci explicou, que existia um monte chamado Nebo.

Ela haviam contemplado, antes de alcançar o cume do monte, a cidade de Jerusalém com seu Templo esplendoroso, todo de em ouro. Ele reluzia como uma construção mágica, de contos de fadas.

Diante da entrada do monte, elas estacaram.

— E agora? — questionou Maiara — Está escuro pra dedéu lá dentro! Não enxergo nada de nada!

No mesmo instante, do mato rasteiro que circundava a entrada da gruta no monte, surgiu uma cobra de bronze que resplandecia, iluminando os arredores. Nesse exato momento, Maiara sentiu, nesse exato momento, um intenso calor e exaltação e percebeu que a serpente era o seu animal protetor.

Os olhos da serpente brilhavam bastante e tinham um poder mágico, que hipnotizava que os fitava.

Uma voz, que talvez fosse do vento, da própria serpente ou alguma entidade feminina invisível da noite, sussurra a:

— Neastããã! Neastããã!

Era esse o nome da serpente.

Ela tomou a dianteira e dirigiu-se para a entrada no monte, iluminando tudo.

No início, o espaço era pequeno, mas à medida que caminhavam, descendo, tudo se tornava mais amplo. Os olhos faiscantes e o bronze reluzente que formava o corpo de Neastã iluminavam tudo muito bem. Ela conduziu as duas meninas diretamente a uma câmara onde estava a Arca de Bronze.

O metal da arca também brilhava. Seu formato era circular, representando o planeta Terra. Havia duas pequenas alças laterais, uma de cada lado. Em torno da arca, inscritos em caracteres hebraicos, estavam vários nomes pelos quais Deus era chamado pelos hebreus, inclusive o Nome Impronunciável: YAHU. A tampa, bem menor proporcionalmente ao restante do globo, encaixava-se no corpo da arca perfeitamente, formando com ela um círculo único.

Olha a arca aí embaixo, leitor!

Neastã olhou para a arca e olhou para as meninas, como que dizendo:

— Aí está o que viestes buscar!

Brenda e Maiara, conforme as orientações recebidas, fizeram uma cópia idêntica da arca com plasma. O plasma é o quarto estado da matéria, presente em todo o Universo, entre as estrelas e galáxias. Sensível aos campos eletromagnéticos, o plasma pode ser moldado facilmente.

Feita a arca plasmática, com propriedades idênticas à da arca material, as irmãs seguraram, uma cada lado, o preciso reservatório e levaram-no para fora da gruta. Antes de retornarem, contudo, perceberam que a passagem continuava descendo, descendo sempre, sempre...

Neastã, então, explicou:

— Esse caminho leva à Agharta e à cidade sagrada de Shambala. Há outras passagens espalhadas pelo planeta que também levam a esse mundo subterrâneo e maravilhoso, governado por Deus e pelos homens sábios.

Ouvindo a serpente falar, Maiara e Brenda sentiram um arrepio. Mas, no fundo, também acharam bom.

Os nomes de Agharta e Shambala fizeram Brenda lembrar-se das histórias fantásticas em torno desses lugares míticos. Alguns diziam que lá governavam Sete Sábios. Olaf Jansen, conforme relata o livro "The Smoky God" conheceu esse reino subterrâneo. Um aviador norte-americano também entrou nesse lugar através do Polo Norte.

Ela teve vontade de voltar para ir até Agharta, mas se lembrou que tinha uma missão muito importante a cumprir.

Certamente, existiriam muitas outras oportunidades...

Assim, depois de se despedirem de Neastã, as duas alçaram-se no ar e, voando juntamente com a Arca de Bronze, retomaram o caminho de volta à Floresta Caiçara.

...

Enquanto faziam sua viagem astral, os corpos de Brenda e Maiara permaneciam mergulhados em completo sono, perto da entrada da Segunda Sede. O Ancião explicou que, do Outro Lado, o tempo não transcorre da mesma forma que do Lado de Cá:

— Muitas coisas podem acontecer com ela enquanto aqui só passam alguns minutos. Ou vice-versa.

Poucos minutos depois que elas haviam adormecido, aconteceu um problema. O lobisomem que estava na Sede dos Sacis percebeu que havia intrusos. Provavelmente, um saci fora avisá-lo.

Assim, o monstro aproximou-se do grupo para tomar satisfações.

Márcio sentiu-se surpreendido ao ver a besta urrando bem atrás dele, arreganhando seus dentes afiados e com os olhos refulgentes de cólera. Mas também viu nisso uma oportunidade de ir à forra — afinal de contas, até o momento havia apanhado que nem saco de pancadas e sempre saíra derrota: primeiro, o primata gigante; depois, Moloch.

Imediatamente, começou a transformar-se e virou-se em lobisomem. O outro, atiçado, urrou alto. Márcio urrou mais forte. O outro urrou ainda mais forte. E Márcio conseguiu superar seu urro.

O pobre Ancião chegou a tapas suas orelhas de morcego para não ficar mouco ou surdo. Quanto à Brenda e Maiara, nada poderia acordá-la depois de terem tomado a poção mágica de Erva de São João. A Mula Sem Cabeça permaneceu parada, protegendo as duas irmãs adormecidas.

Tupi, por sua vez, latia destemidamente nos calcanhares do lobisomem inimigo até que foi violentamente chutado e voou, indo cair a muitos metros de distância dali, ganindo. Mas, felizmente, não sofreu nenhum dano.

Os dois monstros atracaram-se e saíram embolados um no outro pela Sede dos Sacis. O velho Canhambora olhou sem muito interesse e continuou pitando seu cachimbo malcheiroso, sentado no tronco.

Márcio estava realmente disposto e vencer, mas o que ele não sabia é que a luta seria mais difícil que o que ele pensara. Logo vieram juntar-se ao licantropo rival os outros monstros: o Cavalo de Três Patas (um sacerdote velho que costumava atacar donzelas e deitar-se com mulheres casadas de sua paróquia), o Pé de Garrafa com seu único olho de ciclope e seu único pé na forma de pilão, a Aranha Gigante (um inseto cabeludo que devorava suas presas e pertencia à Vênus, sendo habitante do fundo do mar) e o Fogo-Corredor (um compadre e uma comadre que, depois de terem cometido adultério em vida, viravam fogo depois que morriam e saíam correndo pelos campos e cidades).

O Velho do Saco não foi à luta, permaneceu sentado com seu saco, sentado no chão.

Os índios-morcegos também voaram na direção de Márcio, atacando-o. Além disso, o bom lobisomem viu surgirem na noite dezenas e dezenas de pequenos olhos para observar a luta. Eram os sacis que, para incentivar seus aliados, faziam uma tremenda algazarra, assobiando, gritando, dando gargalhadas ensurdecedoras.

A Mula Sem Cabeça, percebendo que o amigo precisava de ajuda, saiu galopando, soltando fogo intenso por suas ventas, enquanto rinchava como égua e gemia como mulher.

O Ancião ficou ao lado das garotas, observando-as. Talvez já tivessem apanhado a Arca de Bronze e estivessem retornando para seus corpos.

Tupi veio postar-se ao lado delas, sacudindo seu rabinho.

Capítulo XVI

PEDRO E ANDRÉ

A batalha entre os monstros foi ferrenha, mas Márcio saiu-se muito bem. O licantropo mau estava em evidente desvantagem, pois o outro procurava mostrar toda sua potencialidade de homem-lobo, descontando as perdas que sofrera junto ao King Kong brasileiro e ao Minotauro fenício.

Em pouco tempo, o lobo mau estava fora de combate, combalido. Márcio ficou livre para lutar apenas com os outros monstros que o atacavam: a enorme Aranha de Vênus, que tinha uma goela formidável, na qual esmagava suas vítimas e saciava sua fome indomável. O Pé de Garrafa, apesar de seu pé único e de único olho, era extremamente forte e ergueu Márcio várias vezes no ar, jogando-o longe. O lobisomem, no entanto, levantava-se incontinenti e voava na direção do oponente, revidando com golpes admiráveis.

Não é mentira dizer que o Fogo Corredor e os índios-morcegos ficaram intimidados com a fúria do lobisomem e, pouco a pouco, foram recuando, desistindo da luta.

O Cavalo de Três Patas duelava com a Mula Sem Cabeça. O mais interessante foi que ambos se reconheceram. Ele fora o padre que seduzira a bela multa, ora transformada em mula sobrenatural. Desejosa de vingança, ela bufava e expelia ainda mais fogaréu pelas ventas bufantes.

Eles trocavam coices, mordidas, cabeçadas. O cavalo, no entanto, levava certa vantagem sobre sua oponente, pois podia voar com suas asas. Cruzando os ares, como Pégaso, ele lançava-se contra a mula em rápida velocidade, fazendo a pobre rolar pelo chão.

— Você sempre será submissa a mim! — zombava o cavalo — Como mulher, servia aos meus propósitos e, como mula, é a mesma coisa!

Isso mais acicatava a raiva da mula, dando-lhe forças para continuar lutando.

Pela primeira vez depois de tantos anos, o Canhambora voltava a animar-se com alguma coisa. Relembrou a luta divertida dos capoeiristas na senzala. Ele mesmo lutara muito capoeira. Certa vez, um "sinhô" organizara uma luta cruel entre dois negros indisciplinados, que viviam tentando fugir juntos e desobedeciam constantemente às ordens do feitor. Maldosamente, o senhor de terras fizera a seguinte proposta:

— Vou propor uma coisa a vosmecês. Darei a liberdade ao escravo que vencer o outro em uma luta de capoeira. O vencedor ganha a liberdade, o perdedor permanece escravo, caso sobreviva. Quero uma luta de verdade, pois vou dar um espetáculo para os meus amigos, donos das terras vizinhas.

Os dois escravos, a princípio, recusaram. Mas logo perceberam que não se tratava de uma proposta, mas de uma ordem. Se não o fizessem seriam punidos de outras formas, com chibatadas e exposição no pelourinho. E foram até ameaçados de serem levados para o mato e assassinados lá, deixados para que os urubus comessem sua carniça.

Foi assim que, como gladiadores romanos, os dois amigos tiveram que se enfrentar em um grande espaço circular, assistidos por uma plateia abundante, formada por ricaços que eram donos de engenho e plantadores de algodão e café.

Os capoeiristas foram incitados à luta. A plateia estimulava com gritos, vaiais, assobios. Atiravam flores, maçãs podres, chapéus. Algumas damas atiravam espartilhos e braceletes — até joias de ouro puro para que o vencedor pudesse começar bem sua vida.

Os nomes dos escravos eram Pedro e André, tal como os apóstolos irmãos de Jesus.

E o Canhambora assistia a tudo de um canto. O seu "sinhô" também fora convidado para o espetáculo e dera permissão aos seus escravos para assistirem a luta. Claro que não era do alto, do conforto ode ficavam os grandes fazendeiros. Eles ficavam trepados na paliçada de madeira que fora levantada para formar a zona da luta, a arena circular.

Ainda que sentisse pena dos companheiros que lutavam, Canhambora sentia-se um tanto animado com a luta. Para ele, era como aquela batalha representasse a liberdade. Algum dia, todos os escravos estariam livres.

O desfecho da luta foi inesperado. Pedro estava vencendo. As mulheres gritavam para ele, soltavam beijos. Algumas cortesãs mostravam os seios avantajados para excitá-lo.

O senhor dos negros, que se chamava Boanerges, permitira o uso de armas brancas. Cada negro tinha um punhal e a liberdade para ferir e matar o oponente caído. Embriagado pelo vinho do Porto, Boanerges praguejava, incitava os lutadores, chamava-os de fracos, de "negros moles", que a luta terminasse logo e se mostrasse o vencedor.

André, com o nariz sangrando, tonto dos golpes seguidos que levara de Pedro, não suportou e arriou no chão, respirando com dificuldade. Parece que, de certo modo, ele não dera todo o seu potencial, na esperança de que o amigo vencesse, e fugisse, e alcançasse a liberdade. Afinal de contas, como costumava dizer o rezador Pai João: "O destino do preto é sofrê! Tanto faz a vida como a morte!"

Boanerges não prometera a carta de alforria. Mas deixaria o negro vencedor ir-se embora, para procurar sua felicidade em algum quilombo.

Pedro contemplou o rival e amigo no chão, estendido. Reconheceu que ele perdera. Puxou, então, da bainha de sua calça rasgada, o longo punhal, que brilhou àquelas horas. Já a noite começava a cair e acenderam-se tochas para e lampiões para iluminar o dantesco cenário.

Todos da plateia ficaram em suspenso. As mulheres fixaram os olhos no alto negro sem camisa, cujo corpo robusto e suado reluzia como a lâmina de seu punhal. Boanerges suspendeu a bebida (bebia no gargalo da garrafa) e olhou, esperando, cheio de excitação.

Canhambora fechou os olhos. Não queria ver o desfecho daquela luta.

De repente, a plateia começou a gritar:

— Mata! Mata! Mata!

E até alguns negros acompanharam, repetindo a frase.

Não era preciso matar o perdedor. Claro que boa parte da assistência gostaria que o final fosse com sangue, pois a festa ficaria mais divertida.

Mas por que Pedro mataria o amigo? Talvez fosse um pacto que fizeram entre si: o vencedor mataria o perdedor e assim ele não precisaria continuar sofrendo nas senzalas, entre humilhações e castigos.

O que aconteceu depois foi como um relâmpago. Canhambora não viu os detalhes, pois cerrara os olhos. Diante da gritaria estrídula das mulheres e do grito de dor que ouviu, ele reabriu seus grandes olhos e viu algo difícil de acreditar, mas logo entendeu tudo.

Do alto, do lugar mais destacado da assistência, Boanerges estava de pé, cambaleando e logo caiu, vindo estatelar-se no chão de barro de barro. Fora ele quem gritara de dor, pois recebera, certeira em seu peito, a arma reluzente de Pedro.

Pedro era habilidoso não somente com suas pernas, mas com suas mãos. Calculou rapidamente o esforço que deveria empregar para alcançar o corpo de Boanerges. Como estivesse no ponto ais alto, ficava um alvo relativamente fácil.

Pedro enganara todos. Até o próprio André. Encaminhara-se para o amigo caído com a arma em punho, dando a entender que realmente iria dar um fim em sua vida como a plateia pedia.

Mas não fez isso.

Inesperadamente, virou-se na direção do senhor de escravos e lançou a arma depois de um rápido cálculo para poder atirar.

O punhal de Pedro tinha fama entre os negros escravos. Diziam que ele era enfeitiçado, encantado. Um preto velho do Congo havia dado vida a ele e, por esse motivo, ele jamais errava o alvo.

A surpresa do fato deixou todos pasmos, sem ação, boquiabertos. Só depois de algum tempo, o povo entrou em pânico e o alvoroço começou. Foi quando os escravos invadiram a arena, derrubando acerca que os separavam dela e começaram a atacar feitores, homens ricos e mulheres nobres. Estava difícil conter a fúria dos negros!

Aproveitando-se disso, Pedro lançou André aos ombros e saiu em célere corrida, ganhando o mato, amparado pela confusão e pelos seus irmãos de cor. Muitos escravos fugiram naquele dia. Tal como acontecera no episódio dos Rapto das Sabinas, escravos pegaram mulheres brancas e desapareceram com elas na capoeira, levando-as como reféns ou como futuras mulheres.

Mas, Canhambora não fugiu. Pensou em fugir, mas não o fez.

Não naquele dia.

A trágica morte de Boanerges causou estupor nas redondezas. As autoridades ficaram abismadas. Alguns escravos envolvidos na confusão, que tinha características de uma verdadeira rebelião, foram presos e castigados. Alguns até morreram.

Canhambora, que nada fizera, não fora punido. Retornou à senzala e lá ficou, matutando sobre o acontecimento.

Até que decidiu fugir.

Certa noite em que dormia entre os escravos, sobre uma esteira, apareceu-lhe um duende, preto como ele, carequinha, apoiado em uma só perna e fumando um cachimbo.

Era um saci.

— Vam'bora, Canhambora! — chamou o saci — Deixe essa senzala suja e vamos viver em liberdade lá na floresta! O Pedro e o André estão lá, livres, livres... vivendo em um quilombo bem distante, onde as pessoas plantam pra comer e repartem o que têm entre si.

O Canhambora acordou na manhã seguinte com essa ideia na cabeça. Tinha certeza de que não fora um sonho —o saci realmente aparecera para ela na noite anterior, dizendo:

— Vam'bora, Canhambora!

Duas noites depois, Canhambora fugia. Deixava a senzala e a grande fazenda em que vivia e, com um surrão velho às costas, ganhava o mato escuro, cheio de corujas que piavam, de serpentes rasteiras, de monstros aterrorizantes.

Logo, apareceram uns vaga-lumes que mostraram o caminho para o fugitivo. E ele chegou à aldeia dos sacis, onde foi bem acolhido e nunca mais foi escravo.