Dia melancólico.

Acontece às vezes. Acho que a quarentena não ajuda. Começa com uma sensação meio angustiante de que eu quero "deixar de ser eu mesma". Fico sem saber se quero beber, me drogar, me masturbar (já que não dá para transar) ou me cortar.

É a vontade de escapar de sempre.

Tomei banho quente ainda agora, depois de assistir 8 episódios de uma série sobre adolescentes complicados deitada na cama. Levantei. Peguei meu vibrador, meu som, meu iPod e uma lâmina e fui para o banheiro. Decidi que seria lá que eu pensaria se queria me masturbar, me cortar ou qualquer coisa do tipo.

Costumava ser meu ritual. Ficar deitada bastante tempo, ir tomar banho e então me cortar durante um banho quente.

Não é mais.

A água quente escorre por meu corpo e eu olho as cicatrizes em meu pulso, em meu braço. Toco nas mais fundas, debaixo dos seios. Pondero. As dos pulsos são de dois anos e meio atrás. A particularmente grande no braço esquerdo é de seis anos atrás. Lembro da história de algumas. Das crises de algumas. Dos nomes que algumas carregam.

Pondero mais um pouco. É meio estranho ter cicatrizes de crises de anos atrás. Como elas se mantêm comigo.

Estou menstruada, então jogo o sangue que acumulei em meu coletor menstrual no ralo e jogo água nele até que ele se desgrude do chão. Não penso em muita coisa. Às vezes sinto vontade de ver meu próprio sangue, mas já percebi que não é desse jeito. Alguns dias atrás passei o sangue menstrual no meu pulso durante o banho, pensando se eu sentiria alguma coisa de diferente; um alívio, talvez.

Senti... Um gatilho. Limpei depressa, meio agoniada. Não gostei. Decidi que não faria mais aquilo.

Tem Lorde tocando no som. Estou esperando que Hard Feelings toque, mas a música não chega. Não sei se já me cortei ao som de Lorde. Acho que quando comecei a gostar das músicas eu já tinha parado de me cortar, então tudo que restou foi aquela sensação de "Ah, essas seriam boas músicas para se cortar".

Lavo o cabelo, mesmo sendo de noite. Não ligo muito pra isso. Mas penso "Estou lavando o cabelo de noite" enquanto o molho e esfrego o shampoo.

Descobri que perdi peso esses dias. Não é algo ruim. Pelo contrário. Eu achei que tinha ganhado peso na quarentena, mas descobri que perdi. É estranho. Imediatamente começo a me sentir melhor comigo mesma só de saber disso. Peso sempre foi um problema. Mas só de saber que estou mais magra do que eu pensava, imediatamente começo a me sentir "gostosa". Me olhei no espelho antes do banho, depois de tirar a roupa. Gostosa, pensei. Seria legal se eu pudesse tirar a roupa na frente de alguém, pensei. Alguém por quem eu estivesse apaixonada, pensei.

Faz tempo que não me apaixono. Penso nisso no banho também, encarando a lâmina e sentindo as cicatrizes. Encarando a parede. Limpando os pelos que grudaram nela. Sinto um pouco de falta de estar apaixonada. Geralmente, sempre estou apaixonada. Tenho algumas pausas, mas nunca foi tão longo. A quarentena contribui, é claro.

Pego a lâmina. Percebo que tem marca de sangue nela. Sangue velho, sangue de dois anos e meio atrás, no mínimo. Eu ainda tenho a lâmina que eu usava seis anos atrás também. Mas não é essa. Reconheço pela marca. Tenho cinco ou seis lâminas guardadas numa gaveta, mesmo não me cortando mais. Já usei todas em algum momento.

Penso que contar tempo é algo importante. "Contar tempo" no sentido de continuar contando quanto tempo faz desde a última vez que você se cortou. Penso que é a mesma coisa para alcóolatras (eu errei o acento no o dessa palavra, não errei? Eu sempre erro). Você mantém uma contagem de tempo, e se dá parabéns a cada mês. Então a cada ano. E então, quando você pensa "vou beber", aquilo deve te parar.

Estou assumindo tudo isso, mas imagino que seja assim. Porque é assim quando você se corta. Eu penso "Ah, um cortezinho apenas para ver o sangue escorrer. Para ver o que eu sinto. Para matar a curiosidade, a saudade". E então eu penso "Mas se eu fizer isso, vou jogar o dois anos e meio sem me cortar no lixo".

Então só limpo a lâmina, tomando cuidado para não me cortar. Leio "Super inoxidável" nela e tento me lembrar se isso quer dizer que ela enferruja ou não. Determino que quer dizer que ela não enferruja. "Bom caso eu queira me cortar", penso. Tenho medo de tétano.

Mas não me corto. Mesmo pensando que se minha mão escorregar um pouquinho eu posso acabar me cortando, não me corto.

Uns meses atrás enfiei uns troços de plástico no braço com força. Duas vezes. Não achei que fosse ficar marca, mas ficaram duas marcas escuras no meu braço. Eu sei o que você quer dizer: "Mas então você se machucou e aí quebrou os seus dois anos e meio.". Mas eu considero diferente. Foi um deslize, com certeza, e algo que eu não devo fazer. Mas a coisa toda, colocar as lâminas contra a pele e ver sangue saindo, escorrendo, caindo no chão. Estancar o sangue com uma camiseta preta qualquer e depois ficar deitada, vendo as feridas abertas e inchadas tingidas de vermelho...

Isso que é o que estou evitando. Essa é a vitória pra mim, não estar fazendo isso. Minha contagem é para isso. Então foda-se o que você acha.

Coloco o vibrador no clitóris em algum momento também. Não sinto absolutamente nada. Sem graça. Penso que só trouxe um monte de coisa pro banheiro que vou ter que levar de volta. Saco.

Meu ex passa pela minha cabeça em algum momento. Difícil digitar isso "em voz alta". Parece que estou colocando em voz alta. Mas ele passa pela minha cabeça. É estranho. Eu sei que não damos certo, fui eu quem terminei, eu não tenho vontade de namorar com ele exatamente. Mas eu o amo como se nunca o tivesse deixado, ou algo assim. Amo as memórias juntos e essas coisas.

Penso nele frequentemente. Talvez seja por causa da quarentena. Mas penso nele, na família dele. Me pergunto se ainda gosto dele ou se quero voltar, mas sempre chego na resposta "não". Quando quero me cortar penso nele também, ainda. Se ele se preocuparia se eu me cortasse, já que eu parei de me cortar quando estávamos juntos, depois de muito trabalho duro. Ele ainda é um dos motivos para que eu não me corte. É meio adorável.

Sentimentos conturbados não são novidade para mim. Mas é estranho. Ele me ligou um dia desses. Eu tinha sonhado com ele no dia, e disse pra ele. Ele tinha sonhado comigo também. Foi meio engraçado. Ah, e ele está namorando. Ele nunca me disse, mas faz tempo. Começou há quase um ano, perto de quando terminamos. Só pra você saber que não é nada como se fôssemos voltar nem nada.

Enfim, eu o amo. Às vezes penso que é como um irmão. Parece muito ser algo do tipo. Mas acho que no meio disso tudo também deve ter o desejo de ser amada de novo. Não por ele, especificamente. Não fomos feitos um para o outro e já fizemos o teste para saber que não somos compatíveis em muitos sentidos. Mas ele ainda é incrível, e eu ainda o amo. Depois da ligação que falei, terminei pensando "Meu deus, como eu amo ele! Quero tanto que sejamos amigos!". É algo assim.

Não sei onde quero chegar. Não importa.

Mas sinto falta dele. Espero que possamos ser amigos um dia, apesar de eu não saber exatamente como ou por onde começar. Acho que se nos vermos talvez fique mais natural. Depois da quarentena.

Termino de lavar o cabelo. Sim, eu ainda estou no banho. É engraçado como podemos pensar em tanta coisa em tão pouco tempo. Meus banhos são longos, mas não tanto assim. Já passei shampoo e condicionador, e estou terminando o banho. Mais uma das músicas da Lorde acaba, e eu penso "por favor".

Então Hard Feelings começa a tocar, e eu solto um "Thank you".