Quando tinha uns onze anos li uma daquelas coisas bobas, que jovens escrevem, que nunca mais me saiu da cabeça: Que existem dois tipos de pessoa, as que precisam amar pra viver e as que precisam ser amadas pra viver. Lembro que pensei "Definitivamente sou a segunda".

É nisso que penso deitada na cama, música alta na tv, pés suando com o ar e ventilador ligados, cogitando a possibilidade de tomar meu remédio pra dormir/me cortar, enquanto imagino como seria me jogar do 12° andar de um prédio. Choro às vezes. Abraço o travesseiro. Penso na reação das pessoas. Penso no meu corpo estirado no chão. Penso na queda. Penso na morte. Penso na minha expressão, nos meus últimos momentos.

Imagino que eu me arrependeria. Que talvez tentasse me segurar por um último momento. E então que fosse cair e pensar "Ah, não tem mais como voltar atrás". E penso que daria um sorriso dolorido.

Sei que não é a realidade. Já me conheço o suficiente para saber que eu surto em momentos como esse. Então provavelmente eu me arrependeria e cairia o resto do caminho, em poucos segundos, pensando "Não, não, não, não, não".

Hoje sonhei que estava no topo de uma montanha e que pulava de paraquedas, ou que caía. Não tenho certeza de qual dos dois. Acho que foi um acidente. Levada pelo vento. E então eu não sabia pousar, e ficava com medo de cair na água, e fazia meu melhor para ir um pouco mais longe. Caía numa praia, perto de um pai com seu filho, que puxava a criança do caminho para que eu pousasse.

Quando caía, percebia que eu tinha voltado no tempo. Não meu corpo, mas o mundo ao redor. Supostamente era para eu estar em 1867 e eu estava em 1862, ou algo assim... E ainda não tinham inventado maneiras de subir na montanha, ainda estavam descobrindo como escalar, ainda estavam descobrindo paraquedas... Então eu não tinha como voltar ao meu tempo.

Era uma confusão. Lembro de um senhor de uma estalagem gritando, de madeira podre ao redor. De eu tentar seguir por um caminho que me levasse de volta para a neve, onde estaria a montanha. Da mudança de clima e dos pensamentos de "Se eu seguir para o Norte, talvez eu avance no tempo".

Não obtive respostas. O sonho acabou.

O próximo era com uma porção de pessoas, e algumas estavam infectadas. Uma hora tínhamos que correr para uma sala. Eu estava dentro de um robô, e tomava uma decisão confusa de buscar pistolas. Depois, em um banheiro em que todas as funcionárias eram mulheres transsexuais, vários amigos meus, conhecidos e desconhecidos na vida real, se reuniam. Era uma intervenção contra mim:

Eles me criticavam, diziam o que eu tinha feito de errado. Algo sobre eu roubar comida, ou comer demais, ou esconder comida. Algo sobre eu tomar decisões que poderiam prejudicar o grupo. Basicamente ninguém estava do meu lado, e ninguém mais me queria ali. Algumas das pessoas pareciam hesitar, mas não o suficiente para erguer a voz. Eu saía dizendo que não queria mais falar com pessoa XXXX, que parecia uma menina que me emprestou um livro sobre anjos no Ensino Médio. Ela era a mandante da intervenção ou coisa assim. Pegava minha mochila e ia embora, e o sonho acabava.

Morte.

Os sonhos parecem óbvios demais sobre a posição dos meus sentimentos, o medo de rejeição, a sensação de estar perdida, o medo do COVID-19, tudo, tudo, tudo.

Eu estou tão... Cansada. E ao mesmo tempo eu tenho tanto medo de morrer. Gosto de pensar que se fulano, fulana e cicrana da minha família morrerem, é o momento: Me mato. Penso nisso há muito tempo, como um plano que planejo colocar em movimento assim que acontecer. Sei de onde quero pular, sei como chegar lá, sei as condições.

Mas não sei se teria coragem.

Parece algo bom isso. Não ter a coragem. Não saber se consigo dar o último passo. Afinal, a ideia é que eu sobreviva, certo?

Mas eu não sei mais como viver nesse mundo, nessa vida, nesse corpo. Ser eu é insuportável. Meu cérebro é podre, eu sou podre, eu estou quebrada. Eu sempre volto para isso. Eu saio e volto e saio e volto e saio e volto e saio e volto.

Penso nele.

No garoto que eu gostava quando era mais nova, que se suicidou aos dezessete anos. Lembro do que me contaram na época. Não lembro se fiquei chocada. Bem, claro que fiquei. Mas acho que na época estava deprimida também, e pensei "Ah, nós éramos iguais. Talvez se eu tivesse falado com ele...".

Nunca teria imaginado. Não estava perto dele em seus últimos anos, ele morreu bons seis anos depois de eu não vê-lo mais. Mas sempre penso nele. Ele também está na lista de "Motivos para não me matar". Pensar nele. Pensar no que suicídio significa. Pensar que é uma vida que não vai mais desabrochar, que é o fim de um futuro.

Parece tão estúpido, tão estúpido, tão estúpido, tão egoísta, pensar em suicídio com tantas pessoas morrendo nesse momento. Com tantas pessoas morrendo todo dia. Com pessoas que queriam viver, lutam para viver, e morrem.

Viver é tão frustrante.

Não é fácil.

Não é fácil, definitivamente não é fácil.

E eu honestamente nunca sei se quero mais...

Minha língua enrolada dentro da boca. Uma música de voz familiar tocando na televisão. Já cansei de digitar. Já não sei mais o que dizer.

Queria estar afogada.