Levantar da cama é difícil. Comer é difícil. Se vestir é difícil.

Gasto com comida de fora, para "mudar um pouco o clima". Compro doces aleatoriamente, do nada, pelo ifood. No meu quarto já têm quatro pratos, dois potes, um redbull e uma caixinha do Mc Donald's. Tudo distribuído pelos cantos, apenas aparecendo no canto da minha visão. Todos cheios de barata.

Sei os sinais.

Sei os sinais.

E caio de novo. É sempre assim.

Constantemente me pergunto se você realmente nunca melhora da depressão. Se ela só fica ali, te observando ser feliz (fingir ser feliz?) para te dominar outra vez. Te comer outra vez. Te engolir, consumir, destruir.

Toda vez a mesma coisa.

Preguiça de escrever meus textos estúpidos e ruins, como este. Às vezes a escrita flui, mas não é o caso hoje. Vejo vídeos de pessoas felizes e me pergunto, quase invejosa, o que eu preciso para chegar naquela felicidade. Penso também que, sei deixar este mundo, sei que eles o tornarão um lugar melhor. Seus sorrisos vão iluminar o que eu nunca consegui iluminar.

E então, penso nelas. Nas mensagens. Infinitas mensagens. Pessoas que me mandam recados, do nada, para dizer como eu estou as ajudando durante a quarentena. Pessoas que eu mal conheço me agradecendo por estar ali. Por fazê-las rir.

Por um momento, me sinto útil. Então me saboto e acho que é tudo mentira. Que sou uma farsa. Que estou manipulando a todos.

Sou inútil. Sou um lixo. Sou uma mentira. O mundo seria melhor se eu não existisse.

A voz doce do meu namorado sussurra em meu ouvido. Diz coisas bonitas. Ele tenta mover mundos por mim. Eu fico triste de retribuir com tristeza, ainda que ele diga que o faço feliz todos os dias.

Queria me ver como as pessoas me veem.

Mas não é só sobre mim. A autoestima fraca, a sensação de mentir para tudo e todos já são coisas com as quais me acostumei. Medo do abandono, medo de ser deixada sozinha, medo de morrer (querendo morrer). Tudo isso eu estou acostumada.

Eu não estou acostumada com a falta dele.

Isso é o que mais pesa. Deve ser.

Eu disse tantas vezes – aqui, inclusive -, que estava viva por conta de três pessoas. Que, se essas pessoas morressem, eu provavelmente morreria também.

E agora que uma delas se foi, eu percebo a verdade nas minhas palavras: Eu não sei se quero mais viver nesse mundo sem ela.

As coisas se desajustaram: As baratas dominaram a casa, as contas não são mais pagas como deveriam – luz cortada, estresse, e-mails, desespero, desespero, desespero -, minha relação com a única outra pessoa que mora comigo apodreceu. Eu a olho e a trato mal, e sei que nunca foi assim. Ela me irrita. As implicâncias de antes se tornaram insuportáveis. O comportamento de me ofender/me machucar parou de ser trivial e se tornou tudo pelo qual eu a vejo. Não sei mais lidar com ela. Não sei mais lidar com ela.

A comida ficou pior. Não em um sentido místico e emocional: A comida ficou pior. Não tenho vontade de comer. Tudo, tudo, tudo ficou mais difícil. O peso da realidade amassa meu corpo patético e cansado todos os dias: Se algo quebra, eu que preciso resolver. Se algo precisa ser pago, eu tenho que pagar (ainda que não seja com meu dinheiro. Eu devia ser grata por isso. Não sou). Se qualquer coisa acontece, é minha responsabilidade.

Eu tenho um medo tremendo de brigarem comigo. De fazer algo errado. De estragar tudo. Alguns meses atrás me perguntaram se eu tinha pago uma conta e eu não lembrava. Estava jogando, e pedi para esperarem.

A reação deles foi horrível e desproporcional, mas não importa. Ouvi gritos, ofensas e diversas coisas por pedir vinte minutos antes de verificar. Verifiquei, então, logo e... Surpresa! Eu tinha pago a conta (que teria estado 2 dias atrasada se eu tivesse esquecido).

E então, claro, semana passada descobrimos que essas mesmas incríveis pessoas ficaram dois meses sem pagar uma conta – e cortaram nossa luz. Para eles? Nada. Que pena que não pagaram. Ninguém ouviu gritos ou foi diminuído. Quando eu não fiz (pois disse que não faria mais depois daquela terrível experiência), eles não conseguiram fazer.

Idiotas. Idiotas. Idiotas.

E agora eu tenho medo. Medo de errar. Medo de brigarem comigo. Medo de decepcionar.

Tenho ódio disso. Deles. Da exigência. Sei que o mundo não para quando alguém morre. Sei que tenho que fazer as coisas. Sei que estamos todos estressados.

"Vocês têm que ficar muito unidos agora", me disseram, no funeral. Com certeza. Unidos.

Tenho vontade de me cortar. Três anos sem fazê-lo, meus parabéns. Sei que seria algo do qual me arrependeria eventualmente, mas tenho vontade.

Se não faço, é porque sei que ele... Que meu avô ficaria triste se eu o fizesse. Depois que ele morreu confirmei minhas suspeitas: Todas as chaves da casa foram escondidas por ele, durante a minha depressão, pois ele tinha medo de que eu me matasse.

Uma das únicas duas pessoas no mundo que eu sempre tive certeza que me amavam. Meu parceiro. Quando era pequena lembro que dizia que o melhor travesseiro do mundo era a barriga dele. E ele se foi para sempre.

Cansada.

Falar dele me faz chorar – e é claro que estou chorando. Bastou digitar "meu avô".

As coisas não vão mais ser do jeito que eram antes, nunca mais. E ele nunca mais vai voltar. Eu fingi por meses pra mim mesma que talvez eu fosse vê-lo na rua. Quando via alguém que parecia com ele, ou o carro dele, eu pensava "Talvez seja meu avô".

Me agarrava à uma esperança estúpida de que ele pudesse voltar.

Talvez agora que finalmente a ficha esteja caindo. Não sei. Sei que nos últimos meses me tornei uma completa inútil: Não consigo mais estudar, não consigo mais ver filmes/animes/ler livros.

Não sei como os dias passam. Não sei o que faço durante os dias. Só sei que eles acabam. E então acabam de novo, e de novo, e de novo. Passam sem eu fazer nada. Sem eu lembrar o que eu fiz. Sem eu lembrar o que comi. Se misturam completamente na quarentena, comigo em luto, trancada no quarto, sem abraçar nenhum amigo desde março: um ano, três meses e sete dias atrás.

Quero morrer.