Título: Marcas da Traição

Autoria: Dream-Devil

Género: Drama. Slash/Yaoi, relação entre rapazes/homens, caso não goste, não leia.

Sumário: Slash. James descobre que foi traído e isso afeta bastante a sua vida, pois torna-se incapaz de confiar e não consegue ver-se a ter uma nova relação. Clark, um homem que conhece e com quem acaba por desabafar, torna-se seu amigo ou algo mais, mas para isso, James terá de lidar com os seus sentimentos. Conseguirá? Oneshot.

Marcas da Traição

A noite começara a cair sobre a cidade, com o sol a desaparecer no horizonte, o céu a escurecer e por toda a cidade as luzes começavam a acender-se, quer nos postes de luz das ruas, nas lojas e também nas casas dos moradores. James Saltman estava nesse momento a sair de um elevador, diretamente para o terraço da torre mais alta de cidade. A torre Skylight era conhecida como sendo um ponto turístico bastante atrativo, visto que dali se podia ver grande parte da cidade. De dia, viam-se as casas, os monumentos e as paisagens e de noite via-se a cidade iluminada e estava-se mais perto do céu estrelado.

Naquele horário, não havia quase ninguém no topo da torre. James reparou vagamente num velhote com uma criança pequena, que devia ser a neta e uma mulher do lado oposto, a olhar para a cidade. James aproximou-se da beira da torre e pousou os braços sobre o gradeamento de proteção, para que ninguém caísse da torre. Suspirou e olhou para o céu. Já se começavam a conseguir ver as estrelas e apesar de aquele ser um dos lugares favoritos de James, não estava ali para apreciar o cenário.

Com vinte e cinco anos, estatura média e cabelo e olhos castanhos, James trabalhava num escritório. Não era o seu trabalho de sonho, mas não era mau e o que ganhava dava para se sustentar perfeitamente. James alugara um pequeno apartamento, onde vivia sozinho, mas o seu objetivo seria, num futuro próximo, partilhar esse mesmo apartamento com o seu namorado. Desde muito cedo que James se apercebera que se sentia atraído por pessoas do mesmo sexo, mas a sua família dera-lhe apoio e compreensão, pelo que não sofrera com a rejeição deles, como chegara a temer.

Era por causa do seu namorado que estava agora ali, na torre Skylight, onde sabia que naquela altura não estaria muita gente, onde poderia pensar e sempre seria melhor estar ali do que fechado no seu apartamento ou nalgum bar a beber para esquecer. James suspirou. Naquele dia, a sua vida dera uma volta e infelizmente isso era algo mau. James deixou-se ficar a olhar para o céu alguns minutos e só desviou o olhar quando sentiu que havia alguém perto de si.

Quando olhou para o seu lado esquerdo, viu que perto dele, também ligeiramente inclinado sobre o gradeamento, estava um homem loiro. Devia ter a mesma idade que James, tinha cabelo curto, vestia jeans com uma t-shirt branca e mais tarde, James reparou que ele tinha também olhos verdes, mas naquele momento não notou isso, visto que o homem estava a olhar para o horizonte e não diretamente para ele. James hesitou, pensando em afastar-se para um canto em que não estivesse ninguém, mas acabou por se deixar ficar e olhou para o horizonte, enquanto a luz do dia ia diminuindo, até que o sol desapareceu por completo, dando lugar à lua no céu. Depois da luz do sol desaparecer por completo, o homem loiro olhou para James.

- A vista da cidade é ótima daqui - disse ele. - É a primeira vez que aqui venho, mas já tinha ouvido falar muito bem deste lugar e agora percebo a razão.

- Sim, a torre tem uma boa vista, é verdade - concordou James.

Os dois voltaram a ficar calados, olhando para o horizonte mais uma vez. As luzes da cidade iam aumentando aos poucos. James mexeu as mãos, algo nervoso. Eventualmente, teria de voltar para o seu apartamento e lidar com o que tinha acontecido, mas naquele momento ainda se sentia atordoado. Nem ligara à sua família ou aos seus amigos para lhes contar. Não tivera coragem. James suspirou e o homem loiro olhou para ele mais uma vez.

- Eu sei que não nos conhecemos, mas parece-me que tu estás nervoso e dás sinais de que algo se passa contigo. Se quiseres falar, estou disponível para te ouvir.

- E porque é que eu falaria contigo? - perguntou James, olhando-o frontalmente. - Como tu disseste, nem sequer nos conhecemos.

- É verdade, mas sabes que às vezes, quando temos algo a preocupar-nos, se for esse o teu caso, é mais fácil falarmos com estranhos, visto que nunca mais os vamos ver, nem nada - disse o homem loiro. - Portanto, se quiseres falar comigo e deitar cá para fora o que te possa estar a deixar nervoso ou preocupado, estás à vontade.

Os dois ficaram calados, entreolhando-se. James não conhecia aquele homem de lado nenhum, no entanto sentia que precisava de falar mesmo com alguém e naquele momento não conseguia dizer à sua família e amigos, que apesar de o irem apoiar, também teriam outras coisas a dizer e tentariam ser demasiado prestáveis, tentariam falar com ele, visitá-lo e ele queria apenas falar do assunto e depois que o deixassem sozinho para refletir. James suspirou.

- Não sei se vais realmente querer ouvir os meus problemas - disse James. - Envolvem sentimentos e uma relação entre pessoas do mesmo sexo.

- Por mim, não tenho qualquer problema com nenhuma das situações que mencionaste - disse o homem loiro, encolhendo os ombros. - Podes começar a falar, se quiseres.

- Está bem… bom, eu namoro… aliás, namorava há dois anos com o Brendan, enfim, que agora se tornou meu ex-namorado. Eu e o Brendan sempre nos demos bem e gostávamos um do outro ou pelo menos era o que eu pensava - disse James, voltando a olhar para a cidade lá em baixo, as luzes da rua, dos edifícios e dos carros. - Eu até já pensava que seria bastante bom se fossemos viver juntos, mas no final de contas, eu vivia numa ilusão.

- O que é que aconteceu e te mostrou que afinal a vossa relação não era perfeita?

- Hoje saí mais cedo do meu trabalho e como sabia que o Brendan estava de folga, decidi fazer-lhe uma surpresa e ir até ao apartamento dele. Tinha a chave, que ele me tinha dado há algum tempo. Eu pensava que se ele estivesse lá, gostaria de me ver e se não estivesse no apartamento, podia cozinhar-lhe o jantar, até ele chegar - disse James. - Só que o que aconteceu realmente foi que quando cheguei ao apartamento, o meu namorado estava lá, mas não estava sozinho.

O homem loiro abanou a cabeça ligeiramente, em sinal de compreensão.

- Estava com uma mulher. Eu entrei no apartamento e a entrada dá logo para a sala de estar. Decidi espreitar para o quarto, a ver se ele estava lá e apanhei-o enrolado com uma mulher, na cama. Acho que não é preciso entrar em pormenores nesse sentido. O Brendan não esperava que eu aparecesse de surpresa. Claro que discutimos e não foi pouco. O Brendan acabou por admitir que me traíra, mas disse que fora só aquela vez, que não quisera terminar a relação e inventou desculpas - disse James. Sentia o coração a bater muito depressa, ao recordar tudo. - Mas claro que eu não ia acreditar em nada do que ele dissesse. Terminei o namoro e saí do apartamento dele. Não sabia bem o que fazer e acabei por vir até aqui.

James calou-se, tendo terminado de contar o que tinha acontecido. O homem loiro ficou pensativo durante uns segundos e depois decidiu então falar.

- Lamento que tenha acontecido isso, mas ao menos ficaste a saber como o tal Brendan era realmente, em vez de viveres na ilusão por mais tempo. E diz-me uma coisa, já sabias que ele era bissexual?

- Sim, ele tinha-me dito, mas também me tinha dito que me amava, portanto obviamente que confiava nele completamente.

- Hum… compreendo, mas sabes, normalmente quem é bissexual tem mais tendência a estar junto de pessoas do sexo oposto. Porquê? Porque é muito mais fácil e aceite pela sociedade. Se para quem tem uma orientação sexual definida entre pessoas do sexo oposto ou do mesmo é mais simples, para quem é bissexual não é o caso. Com as duas opções, entre estares junto de alguém do sexo oposto e não teres problemas por isso ou estares junto de alguém do mesmo sexo e enfrentar todos os preconceitos… bom, acho que dá para perceber qual a opção mais fácil.

- Pareces saber muito do assunto.

- Mais ou menos. Tive um amigo bissexual que me disse isto e acho que faz sentido - disse o homem loiro. - De qualquer das maneiras, isso não justifica a traição, ainda por cima tendo-se estendido por três meses. Eu não te conheço, não sei como é tua vida, mas realmente, se pensares bem, mais vale teres uma pessoa assim fora da tua vida agora, do que mais tarde.

James acabou por acenar afirmativamente com a cabeça. Sentia-se traído, magoado, humilhado e irritado. Os seus sonhos com Brendan tinham sido destruídos, mas fora melhor saber tudo agora do que mais tarde, em que seria ainda pior. Ainda assim, com esse pensamento, a sua dor não desapareceria tão facilmente. O homem loiro pousou uma das mãos no ombro esquerdo de James.

- Força aí. Infelizmente, já muita gente passou por desgostos amorosos. Não é fácil, mas o tempo melhora sempre estas situações.

- Obrigado por me ouvires - disse James. - Realmente, sinto-me melhor agora, por ter desabafado.

- Sempre às ordens - disse o homem loiro, sorrindo ligeiramente. - Bom, tenho de me ir embora. Provavelmente não voltaremos a ver-nos, portanto boa sorte para o teu futuro. Hás-de superar isto.

O homem loiro começou a afastar-se, depois de acenar a James.

- Ei, espera - disse James. - Como é que te chamas?

- Clark - respondeu o homem loiro, olhando para trás. - Mas pensei que fossemos ficar desconhecidos.

- O meu nome é James. E só por ficarmos a saber os nomes um do outro, não faz com que sejamos conhecidos, mas é bom ficar a saber o nome da pessoa com quem desabafei. Mais uma vez, obrigado.

Clark sorriu e depois afastou-se em direção ao elevador da torre. James voltou a virar o seu olhar para o céu escuro e estrelado. Sentia-se um pouco mais calmo. O vento começou a soprar e James sentiu um arrepio de frio. Não podia ficar ali por muito mais tempo. Já se estava a fazer tarde e tinha de voltar para o seu apartamento. Esperava que Brendan não se tivesse lembrado de usar a chave que tinha do apartamento para ir até lá e estar à espera de James.

- Hoje só quero comer qualquer coisa e adormecer, para esquecer tudo - pensou James. – Isto, se conseguir realmente adormecer, mas provavelmente ficarei acordado, às voltas na cama, com a imagem do Brendan envolvido com aquela mulher… que estúpido que eu fui. Eu acreditei que ele gostava de mim e afinal estava enganado. E amanhã… bom, amanhã vou ter de falar com a minha família e com os amigos mais chegados e despachar isto. Sei que eles vão querer o meu bem e provavelmente não me vão querer deixar sozinho… mas talvez até seja disso que eu preciso, mesmo que agora pense que não.

Marcas da Traição

Passaram-se alguns dias desde que terminara o namoro entre James e Brendan. James acabara por contar à família e aos amigos. As reações tinham variado, entre pena por ele, perguntas sobre como se sentia e raiva para com Brendan. A mãe tinha aparecido logo, para o visitar pessoalmente e falara sem parar, sobre como Brendan era um enganador, que não merecia James e que ele encontraria alguém melhor. Os amigos tinham-no convidado para sair, mas ele não estivera com cabeça para isso. Só queria estar sozinho e em paz.

Arrumara numa caixa todas as coisas que Brendan deixara no seu apartamento. A princípio, pensara mandá-las fora, mas contivera-se. Sairia daquilo de cabeça erguida, com a noção de que não fizera nada de mal e que Brendan não teria nada a apontar-lhe. O ex-namorado tentara ligar-lhe algumas vezes, mas James não atendera. Nem respondera às mensagens com pedidos de desculpa. Dar-lhe conversa seria apenas aumentar o sofrimento e a sensação de traição. Brendan escrevera-lhe que aquilo nunca tinha acontecido antes, que fora um deslize seu, mas James já não conseguia acreditar nele.

- Bom dia, James – disse um colega de trabalho, quando os dois entraram no elevador. James também o cumprimentou, mas não estava com muita paciência para fazer conversa de circunstância.

James trabalhava na empresa Hightower Corporation, uma empresa bastante grande e conhecida. O seu presidente, Zac Hightower, era bastante jovem, mas bom nos negócios. Não era uma pessoa que falasse muito, nem que fosse demasiado simpático, mas garantia boas condições de trabalho aos seus empregados e os salários nunca se atrasavam. No ano anterior, quando viera a público que Zac estava a namorar com outro homem, Beckett Moore, fora um escândalo, que abalara a empresa. Mas isso já passara e a estabilidade voltara.

Quando as portas do elevador se abriram, no quinto andar, James e o colega saíram, mas seguiram em direções opostas. James foi para a direita, passando por uma porta, que dava para uma divisão grande, com várias secretárias. A sua ficava a um canto. Passou por alguns colegas, dizendo bom dia e depois sentou-se à sua secretária. Ligou o computador. Em tempos, tivera uma fotografia sua e de Brendan na secretária, mas tirara-a, depois do fim do namoro. A sua colega na secretária ao lado percebera isso e perguntara-lhe se estava tudo bem. Ele respondera que não, mas não dera mais informações e ela decidira não fazer mais perguntas.

James começou a trabalhar, tentando afastar os pensamentos negativos sobre a sua vida pessoal. Tinha muito que fazer e não queria deixar-se ir abaixo. O escritório era sempre muito movimentado, com pessoas a andarem de um lado para o outro, o som de pessoas a escrever no seu teclado, a tirar fotocópias ou a falar ao telefone. Lá fora, o sol brilhava intensamente e visto estar num canto, perto de uma janela, James aproveitava o calor do sol também. Já passava das onze da manhã e James tinha acabado de enviar um e-mail importante, quando sentiu alguém tocar-lhe no ombro. Virou-se e deu de caras com Clark. O homem loiro sorriu-lhe. Vestia um fato completo e uma camisa branca, que lhe ficavam muito bem.

- Bom dia – disse ele. Tinha uns dentes brancos e praticamente perfeitos, tirando um do centro, que era um pouco mais inclinado.

- Clark? O que estás aqui a fazer? – perguntou James. Estava realmente surpreendido por o ver ali.

- Vim a uma entrevista de emprego na semana passada e agora chamaram-me de volta. Consegui emprego aqui e começo amanhã. Mas não sabia que também aqui trabalhavas. Bem, na verdade não sei quase nada sobre ti ou tu sobre mim. Não pensei que nos voltássemos a ver, mas parece que o destino tinha outras intenções – disse Clark. Olhou à volta. A colega de James, que se sentava na secretária ao lado, fora a pausa e as outras pessoas mais próximas pareciam ocupadas, sem estarem a prestar atenção. – Como é que estás?

- Vou andando, continuando com a minha vida – respondeu James, de forma algo vaga.

- Pois, não deve ser fácil lidar com a situação… mas verás que encontrarás alguém melhor, que te mereça mesmo – disse Clark, piscando o olho a James. – Agora, tenho de ir, mas iremos ver-nos amanhã.

Com um sorriso e um aceno, Clark afastou-se, acabando por sair da divisão. Era verdade que um colega daquele departamento tinha ido embora, no final do mês anterior, mas não esperara que Clark fosse o seu substituto. Apesar de não saber absolutamente nada sobre ele, à primeira vista não parecia o tipo de pessoa que iria trabalhar para um escritório. James via-o mais como alguém que teria algum emprego em que andaria de um lado para o outro, a viajar ou talvez mesmo como modelo.

Sentia-se algo inseguro por Clark ir trabalhar para ali, tendo falado com ele sobre o fim do seu relacionamento. Depois, reconsiderou. Gostava de manter os seus assuntos privados e não lhe parecia realmente que Clark fosse andar a espalhar o que sabia. Seria um colega, como qualquer outro. Talvez até se viessem a dar bem. Pelo menos, Clark parecia simpático e ouvira-o. Não podia dizer o mesmo de todos os colegas, alguns que facilmente apunhalariam os outros nas costas, se isso fizesse com que subissem nas suas carreiras.

Marcas da Traição

James destrancou a porta do seu apartamento e empurrou-a com o ombro, enquanto pegava em dois sacos de compras. Saíra do trabalho e ainda fora ao supermercado, comprar alguns artigos de que necessitara. Não esperava fazer nada de muito especial para o jantar, visto que ia comer sozinho. Esforçava-se para fazer alguns pratos mais apetecíveis, quando namorava com Brendan e cozinhava para ele, mas agora já não fazia muito sentido ter trabalho com pratos mais elaborados. Pousou os sacos em cima da pequena cozinha do apartamento. Aliás, todo o apartamento era pequeno.

A sala tinha dois sofás, uma televisão, um móvel e pouco mais. A cozinha tinha duas bancadas, o fogão, uma mesa que dava para quatro pessoas e uma porta que dava para uma pequena varanda. O quarto era um pouco mais espaçoso, tendo espaço para a cama, um guarda-roupa e ainda uma secretária, onde James tinha o seu computador. A despensa era minúscula e da casa de banho não havia muito a dizer. No entanto, o espaço era suficiente, para quem vivia sozinho. James já considerara ter um animal de estimação, mas nunca o fizera, porque Brendan não gostava muito de animais e poderia ficar incomodado quando o viesse visitar.

Mas agora Brendan já não era um problema, portanto James pensou para si mesmo que talvez se decidisse a ter um animal de estimação. Começou a tirar do saco as compras e a arrumá-las nos respetivos lugares, quando tocaram à campainha. Ele franziu o sobrolho, mas foi até à porta e abriu-a. Do outro lado, estava Brendan Myers, o seu ex-namorado. Era moreno, com cabelo escuro espetado e nesse dia vestia uma t-shirt verde e jeans. A primeira reação de James foi fechar-lhe a porta na cara, mas controlou-se. O seu semblante ficou mais sério.

- O que estás aqui a fazer, Brendan? – perguntou ele.

- Não me atendias as chamadas, não me respondeste às mensagens, portanto fiz a única outra alternativa, vir ver-te pessoalmente – respondeu Brendan. Tinha uma voz grossa e baixa, que em tempos James achara muito sexy. – Precisamos de falar.

- Não temos nada sobre o qual falar, Brendan. Namorámos, eu confiava em ti e tu traíste-me. Não sei quem era aquela mulher e na verdade não faz qualquer diferença, porque não muda as tuas atitudes. Eu quis surpreender-te, aparecer sem avisar e deixar-te feliz, mas no final de contas o mais surpreendido fui eu.

- James, eu amo-te. Sei que fiz borrada, mas nunca te tinha traído. Aquela mulher chama-se Nancy e é minha colega de trabalho. Ela… bem, já andava a insinuar-se a mim há algum tempo, mas sabia que eu tinha namorado e eu nunca lhe dei esperanças, mas… fui fraco. Cometi um erro – disse Brendan, engolindo em seco e olhando James nos olhos. – Deixa-me entrar, para falarmos melhor.

- Não. Não te quero no meu apartamento. Perdeste esse direito, quando te apanhei a trair-me. Portanto, foste para a cama com a tua colega e agora estás arrependido?

- Claro que estou. Não significou nada para mim, foi só uma necessidade física, nada mais. Não queria magoar-te, nunca, mas…

- Mas magoaste-me e traíste-me, mesmo que agora estejas arrependido. Nós também tínhamos sexo com frequência, Brendan, portanto qual foi a grande necessidade que tinhas? Foi por ela ser uma mulher? Se querias estar com uma mulher, dizias-me e acabavas tudo. Iria doer-me, mas menos do que ser traído.

- Dá-me uma nova oportunidade. Prometo que nunca mais te irei magoar.

- Não posso dar-te mais oportunidade alguma, porque perdi toda a confiança em ti. Não deixei de gostar de ti, de um momento para o outro. Ainda gosto, mas vou esquecer-te, é a única possibilidade para mim. A confiança demora tempo a ser construída, mas pode ser destruída rapidamente. E no nosso caso, foi. Mesmo que eu te desse uma oportunidade, iria sempre ter receio de que me traísses outra vez. Aquela mulher é tua colega, vêm-se com frequência. E mesmo que não fosse com ela, como sei que não ias ter outra das tuas necessidades, com outra pessoa? – perguntou James, de punhos cerrados. – Não quero discussões, Brendan. Tu fizeste a tua escolha e eu agora fiz a minha. Agradeço que me devolvas a chave do meu apartamento e a chave do meu prédio. Tenho ali dentro uma caixa com as tuas coisas, que podes levar agora.

- James, não podes deitar no lixo a nossa relação!

- Brendan, foste tu a fazer isso, não eu.

James fechou a porta e foi buscar a caixa. Abriu novamente a porta e entregou a caixa a Brendan. Engolindo em seco, o ex-namorado devolveu-lhe as chaves que James lhe tinha dado. James indicou que o que quer que fosse seu e estivesse no apartamento de Brendan, ele podia deitar fora ou dar a alguém. Depois, fechou-lhe a porta na cara. Ficou parado, até o ouvir afastar-se. De seguida, foi até à sala e chorou. Pareceu uma eternidade, mas foram apenas quinze minutos, até conseguir voltar a ter controlo sobre si mesmo.

Sempre respeitara Brendan e o relacionamento que tinham. Podia achar outros homens bonitos, mas aos seus olhos só Brendan interessava. Nunca pensaria em traí-lo, mas Brenda fizera-o. Não havia volta a dar àquilo. Talvez Brendan também estivesse a sofrer, mas na opinião de James, se assim fosse, então merecia sofrer. James deixou-se estar sentado no sofá da sala durante muito tempo, pensado e repensando. Não queria mais namoros. Não queria ter de confiar em alguém, para depois lhe partirem o coração. Mais valia estar sozinho. Pelo menos assim, não teria de sofrer daquela maneira.

Marcas da Traição

- Muito obrigado, Clark – disse James, pegando na carteira que o outro homem lhe estendia. – Não precisavas de ter vindo até aqui, eu podia ter voltado à empresa para ir buscar a carteira.

- Eu também não vivo assim tão longe daqui, portanto não me custou muito.

- Queres entrar? Eu ia começar a fazer o jantar e posso fazê-lo para dois.

Clark sorriu-lhe e aceitou o convite. Tinham passado três meses desde que Clark tinha começado a trabalhar na Hightower Corportation. Não fora muito difícil habituar-se ao emprego e como não conhecia ninguém, acabara por se aproximar de James, de quem pelo menos sabia alguma coisa. James ajudara-o algumas vezes e costumavam almoçar juntos. Rapidamente se tinham tornado amigos. Tendo saído do trabalho um pouco mais tarde, Clark reparara numa carteira caída no chão e ao abri-la, vira que era a carteira de James. Ligara-lhe, dizendo-lhe que a encontrara e que lha iria entregar. James acabara por dar a sua morada e agora ali estava Clark.

- Hoje, quando vinha a descer no elevador, para vir para aqui, sabes quem vinha a descer também? O dono da empresa, o Zac Hightower. Nunca o vira ao vivo e ele passou o tempo todo a olhar para o telemóvel, portanto não trocámos sequer uma palavra, mas foi interessante na mesma – disse Clark, já dentro do apartamento. James levou-o até à cozinha, onde o convidado se sentou, enquanto James começava a preparar tudo para o jantar. – Ele é mais novo do que nós e tem um cargo tão alto, além de ser rico. Eu gostava de ser rico.

- Não sei se gostaria de ser rico – disse James, abrindo a porta de uma prateleira e tirando de lá um pacote de arroz. – Dizem que o dinheiro não traz felicidade.

- O dinheiro, só por si, acredito que não traga, mas ajuda muito, tenho a certeza. Não gostava de ser famoso, isso não, porque teria os olhos das pessoas em mim e jornalistas a chatear-me e tudo o mais – disse Clark. – Queres ajuda para fazer o jantar?

- Não, deixa estar, mas obrigado por te ofereceres – respondeu James, sorrindo-lhe. – Não vou fazer nada de demasiado complicado, se bem que se soubesse que teria companhia, poderia ter pensado em algo melhor. Gosto de cozinhar.

- Eu não gosto e não sou bom. Metade do tempo, mando vir comida de fora, compro comida já feita para aquecer ou algo do género – disse Clark, encolhendo os ombros. – Quando cozinho, normalmente as coisas não saem muito bom. Demasiado cruas, demasiado cozinhadas, demasiado queimadas… acho que percebes. Por isso, a minha cozinha normalmente está muito arrumada, porque tento evitar cozinhar. Mas mudando de assunto, achas que o teu vizinho vai aparecer por aqui hoje?

- Espero bem que não – respondeu James, de imediato, enquanto colocava uma frigideira no fogão. – Porque é que querias que ele aparecesse?

- Porque o queria ver pessoalmente, claro – respondeu Clark, rindo-se ligeiramente. – Afinal, se o que tu dizes é verdade e não tenho razão nenhuma para duvidar, ele é bastante bonito e quer sair contigo.

James revirou os olhos. Na altura, ainda não tinham passado duas semanas desde o fim do seu namoro com Brendan e Tyrone Duvall, o vizinho da frente de James, encontrara James no elevador do prédio. Tyrone era muito alto, com cabelo preto e pele escura. Já passara dos trinta anos e era realmente bonito. Era bem-falante, apesar de James não ter muita confiança com ele, visto que só se mudara para o prédio havia seis meses.

- Fiquei a saber que tu e o teu namorado já não estão juntos – dissera Tyrone, enquanto o elevador descia. James nem sequer perguntara como é que ele soubera, porque tinha a certeza de que fora a vizinha do rés-do-chão, que era uma mulher de idade, que passava o dia a mexericar sobre tudo e ouvira uma conversa que James estava a ter ao telemóvel, enquanto esperava pelo elevador. – Lamento por ti, mas ao mesmo tempo, para mim, isso é bom. Queria convidar-te para sair, quase desde que te conheci, mas como mencionaste que tinhas namorado, não fiz nada. Mas agora estás livre.

- Tyrone, lamento, mas não estou com cabeça para sair com ninguém – dissera James. – Não tem a ver contigo, tem a ver comigo. Preciso de tempo e preciso de espaço. Não tenho interesse em ter uma relação neste momento.

Tyrone parecera ter aceitado isso, pelo menos naquela altura. No entanto, na semana seguinte deixara uma caixa de chocolates à porta do apartamento de James. Depois convidara James para ir jantar com ele, mas James recusara. Na semana seguinte, deixara um bilhete debaixo da porta de James, com um poema. Seguiram-se outras situações. Mais por pena do que por outra coisa, James aceitara tomar um café com ele. Tyrone era interessante, mas no canto da mente de James continuava o medo de se voltar a magoar. Era melhor estar sozinho.

- O Tyrone que fique sossegado no apartamento dele – acabou por dizer James, encarando Clark. – Estou tão bem sozinho agora, que não quero nada, nem ninguém a estragar isso. Se ele quisesse ser meu amigo, tudo bem, mas para namoros, não estou interessado.

- Pois eu estou um bocadinho cansado de estar sozinho – disse Clark, suspirando. – Sabes, até me inscrevi numa daquelas aplicações de encontros. Aparecem por lá alguns homens interessantes. Já dei uns gostos, por assim dizer, mas ainda não marquei encontro com nenhum deles.

Não muito tempo depois de se tornarem amigos, Clark revelara que era gay. Isso explicava a sua forma calma de ouvir James a falar de Brendan, quando se tinham conhecido na torre e para James, não fazia diferença se o amigo gostava de um sexo ou do outro ou de ambos. Clark contara-lhe que já estava sozinho há algum tempo e parecia que finalmente queria arranjar um namorado. James pensou para si mesmo que deveria ser muito fácil, para Clark, que era bastante bonito. Em três tempos, encontraria um namorado. Só esperava que fosse alguém que gostasse dele e o respeitasse. Foi então que a campainha da porta se fez ouvir.

- Quem poderá ser? – perguntou James, em voz alta.

- Hum… talvez seja ele. O teu vizinho da frente.

James esperou que não fosse. Ainda assim, saiu da cozinha e caminhou até à porta. Espreitou pelo olho mágico e viu que do outro lado da porta estava realmente Tyrone. Deixara a porta do seu apartamento aberta, pelo que James conseguia ver, portanto podia ser que fosse algo rápido. Respirando fundo, abriu a porta, sorrindo ligeiramente. Não queria dar esperanças a Tyrone, mas também não queria ser mal-educado com ele, se pudesse evitá-lo.

- Olá, James. Estás com bom aspeto. Mas também não é só hoje que estás com bom aspeto – disse Tyrone, com uma gargalhada, piscando-lhe o olho. James resolveu que era melhor não reagir. – Desculpa estar a aparecer assim, mas vinha perguntar-te se tens dois ovos que me emprestes. É que queria fazer uma omelete e só agora reparei que não tenho ovos nenhuns e não queria ter de sair só para os ir comprar.

- Ah, claro – disse James, mas aquilo parecia mais uma desculpa do que outra coisa. – Eu vou buscar os ovos e venho já.

- É ele? – perguntou Clark, quando James regressou à cozinha e se aproximou do frigorífico, tirando de lá dois ovos. – É o teu vizinho?

- Sim, é – respondeu James e saiu rapidamente da cozinha, regressando à porta. Clark levantou-se e seguiu-o. – Aqui tens os ovos, Tyrone. Já podes fazer a tua omelete. Eu também estava ocupado, a fazer o meu jantar.

- O nosso jantar – disse Clark, colocando-se ao lado de James. Olhou para Tyrone. Admirou a sua altura, os seus ombros largos, os olhos castanhos e a t-shirt preta que ele vestia e deixava antever alguns músculos por baixo. Estendeu uma mão a Tyrone. – Eu chamo-me Clark Hallowell e sou colega e amigo do James.

- Muito prazer. Eu sou o Tyrone, o vizinho aqui da frente – disse Tyrone, mas também avaliou Clark. O seu sorriso de dentes perfeitos, o cabelo loiro. Não gostou que James o tivesse ali e viu-o de imediato como um rival. – Então, vão jantar juntos?

- Sim, convidei o meu amigo para jantarmos – respondeu James. – Precisas de mais alguma coisa, Tyrone?

- Não… eu só… vocês estão juntos? – perguntou o vizinho, indo direto ao assunto.

- Se estás a perguntar a nível romântico, não, não estamos – respondeu Clark. – Somos só amigos e nada mais. O James não está virado para namoros, com ninguém, como decerto já percebeste.

Tyrone acenou afirmativamente com a cabeça. Não estava ainda assim muito satisfeito por eles os dois irem ficar sozinhos, mas não podia fazer grande coisa quanto a isso. Tentar convidar-se a si próprio para o jantar pareceria mal. Agradeceu pelos ovos, virou costas e regressou ao seu apartamento. James fechou a porta e lançou um olhar a Clark, que encolheu os ombros.

- Tinha de vir ver como ele era. Realmente, é bonito, se bem que não gostei muito que ele ficasse desconfiado por irmos jantar juntos. Não é como se fosse teu namorado e tu não pudesses jantar com quem quisesses.

- Exatamente. Portanto, já ficaste a conhecer o Tyrone. Bonito ou não, não estou interessado em namorar com ele. E ele ficou desconfiado que havia alguma coisa além da amizade, entre tu e eu, o que não é mesmo verdade. Vá, voltemos à cozinha, para eu preparar o jantar e tu podes procurar o teu homem perfeito, na tal aplicação em que te inscreveste, apesar de eu ter algumas dúvidas sobre a veracidade das coisas que as pessoas escrevem nos seus perfis.

Marcas da Traição

Clark sentia-se algo em pânico, com o coração a bater muito depressa. Olhou para a fila de botões que havia à porta do prédio. Entre eles, estava o botão do apartamento de James. Ainda passava pouco das nove da noite, portanto não era tarde para lhe fazer uma visita. Só que, depois do que tinha para lhe dizer, talvez James o expulasse dali e Clark não queria realmente isso. Não queria perder a amizade dele. Engoliu em seco. Tinha de tomar uma decisão. Podia calar-se. Talvez James nunca viesse a saber. Mas e se viesse a saber por outra pessoa? Seria pior, muito pior.

Hesitou mais uns segundos e depois carregou no botão para o apartamento de James. Passados uns segundos, a voz dele perguntou quem era. Ao perceber que era Clark, carregou num botão para a porta se abrir. Enquanto subia no elevador, Clark sentiu um nó na garganta. Ao chegar à porta de James, ele abriu-a, mesmo antes de Clark bater. Parecia um pouco confuso por ver Clark ali, mas não estava aborrecido. Deixou-o entrar e levou-o até à sala.

- Precisava muito de falar contigo – disse Clark, ao sentar-se, com James sentando-se ao seu lado.

- Estás pálido. O que é que se passou? Não era hoje que ias jantar com o homem misterioso que conheceste na aplicação? – perguntou James. Clark não respondeu e ele tocou-lhe num dos ombros. – Clark, vá lá, diz-me o que se passa. Estou a ficar realmente preocupado. Ele tratou-te mal?

- Não, não teve a ver com isso.

- Levou-te a um restaurante nojento? Fez-te pagar a conta contra a tua vontade? Quer dizer, é a primeira vez que sais com ele, portanto não o conheces realmente. Nem me quiseste dizer o nome dele, nem nada.

- James, cometi um erro, mas eu não sabia, juro que não sabia.

- Erro? De que é que estás a falar?

- Do homem com quem me fui encontrar. Do homem que conheci através da aplicação. Eu… não te falei do nome dele, porque não queria aborrecer-te. Mas eu não podia adivinhar… hoje marcámos o encontro. Entrei no carro dele e… bem, acabámos por ir para uma zona isolada e envolvemo-nos. Não costumo ser assim, mas já não estava com ninguém há muito tempo. Depois, fomos jantar. O restaurante era normal, simples, nada a apontar, só que a meio da refeição, quando estávamos a falar, ele falou do ex-namorado… e só aí percebi. Desculpa.

- Clark, vais ter de ser mais claro. Não estou a perceber qual é o problema, nem porque estás a pedir-me desculpa – disse James, começando a ficar exasperado.

- O homem com quem saí é o Brendan. O teu Brendan – revelou Clark. James ficou a olhá-lo, atónito. – Eu não sabia, não sabia mesmo. Nunca me disseste o sobrenome dele, nem como é que ele era. Como não estavam juntos, também não me mostraste nenhuma fotografia dele. Só no restaurante, quando estávamos a falar, é que ele te mencionou. James Saltman, que trabalha na Hightower Corporation. Ele mencionou-te porque eu revelei que era lá que eu trabalhava e ele perguntou se nos conhecíamos. Fiquei paralisado, inventei uma desculpa e vim embora.

- Tu envolveste-te com o Brendan…

- Mas eu não sabia que era ele. Se soubesse, nunca teria ido sequer a um encontro com ele. Sim, é bonito, mas o que não faltavam eram homens bonitos na aplicação. Raios, podia ter escolhido outro qualquer, mas… James, por favor, não fiques aborrecido comigo. Eu não tive realmente culpa.

James ergueu uma mão, para o calar, enquanto digeria a informação. Imaginou Brendan, a beijar Clark, a envolverem-se. Depois, afastou rapidamente esse pensamento. Não queria pensar no assunto. Fitou Clark, que estava realmente pálido. James respirou fundo. Sentia-se zangado, mas porquê? Ele e Brendan já não tinham nada, portanto ele podia envolver-se com quem quisesse, mesmo que fosse Clark. Clark, o seu colega, o seu amigo, a pessoa com quem desabafara depois do fim da relação.

- Estás com receio de que fique furioso contigo? De que grite, que diga que a nossa amizade acabou ou algo assim? – perguntou James. Clark não respondeu, mas mordeu o lábio. – Ouve, estou surpreendido e não estou satisfeito, é verdade, mas acredito em ti. Acredito que não sabias realmente e se tivesses sabido, teria sido diferente. Posso ficar aborrecido contigo e perder um amigo ou deixar isto passar. Quero dizer-te que não o devias voltar a ver, mas também não tenho o direito de te pedir isso.

- Não voltarei a vê-lo, prometo. Agora que sei quem é, não quero nada com ele, não só por ter sido teu ex-namorado, mas pelo que te fez. Não serve para ti e não serve para mim também – disse Clark. – Então, desculpas-me?

- Não tens realmente de pedir desculpas. Vamos tentar esquecer o assunto, mas provavelmente, qualquer dia, vamos olhar para trás e rir-nos da situação. Pelo menos, assim espero – disse James. Ficou pensativo durante uns segundos. – Então, o Brendan está inscrito numa aplicação de encontros. Ao que parece, realmente a colega dele não lhe deve ter agradado ou então ainda está com ela, mas a traí-la, como fez comigo.

- Esqueçamos o Brendan, pode ser? – perguntou Clark. – Ele nem sequer beija muito bem e quando estivemos juntos…

- Menos, Clark, menos – disse James e o outro homem calou-se. – Vamos mesmo esquecer o Brendan. Não quero falar dele, porque ele só merece ser ignorado. Mas agora vais ter de procurar outro homem qualquer na aplicação.

- Sim, isso é verdade. E que tal se me ajudasses nisso? Quer dizer, vou supor que não namoraste apenas com o Brendan. Odiaria descobrir que me interessei por mais algum ex-namorado teu.

James riu-se e aquilo deixou Clark muito mais descansado. Pensara realmente que James ficaria muito aborrecido com ele. Afinal, James amara Brendan e fora traído por ele. Descobrir que o amigo se envolvera com o ex-namorado, parecera a Clark a receita para James ficar furioso e até poder querer acabar com a amizade. Mas não, ele não reagira daquela forma. Era algo de que Clark gostava, o facto de James conseguir agir de forma controlada. Ele próprio achava que, se a situação fosse inversa, ficaria bastante irritado e pelo menos mandaria o amigo embora, para poder pensar em paz.

- Então, mostra-me lá a aplicação – disse James, movendo-se um pouco mais para junto de Clark.

- Bem, é esta – disse o outro homem, tirando o telemóvel do bolso e iniciando a aplicação. – Vês aqui? É o ícone do meu perfil e ali…

- Deixa ver o que escreveste – pediu James, tirando o telemóvel das mãos de Clark. Clicou no ícone, onde estava uma pequena foto de Clark, sorrindo. – Ok, gostas de desporto e música. Queres uma relação séria. E adoras morangos? Nunca tínhamos falado disso e não sei porque é importante para o teu perfil, a não ser que tenhas algumas ideias eróticas com morangos.

- Que disparate – disse Clark, mas corou bastante. – Já chega de veres o meu perfil.

- Pronto, está bem. Só não percebo como é que o Brendan achou que devia sair contigo, quando tu escreveste que querias uma relação séria. Não me parece que fosse isso que ele quer ou então estou muito enganado.

- Ele disse que estava a pensar em ter uma relação séria, mas não sei, pode ser apenas algo que ele disse, porque gostou das minhas fotografias ou algo assim.

- Sim, é bem provável. Afinal, tu és bonito. Ei, puseste aqui uma fotografia em tronco nu – disse James, olhando da foto para Clark, que voltou a corar e lhe tirou o telemóvel da mão. – Pronto, pronto, não te zangues.

- Não estou zangado, mas é suposto ajudares-me a escolher um possível futuro namorado.

James indicou que o ajudaria. Clark mostrou-lhe como a aplicação funcionava. Mostrava os perfis de outras pessoas na aplicação. Como Clark escolhera no seu perfil que queria apenas procurar homens, apareciam as fotografias de alguns deles. Depois, ele podia clicar nas fotografias para as aumentar, ver o perfil dos outros e se gostasse, clicar para dar um gosto. Se a pessoa gostasse de volta, teriam acesso aos contatos um do outro e poderiam comunicar entre si.

- Olha este. Tem uma cara bonita, não tem?

- Talvez. Espera. Olha o que está escrito no perfil dele. Não quer nada sério, só quer envolvimentos de uma noite. Não, não serve.

- Então e este ruivo? É bonito. Toca na imagem dele. Oh, gosta de música clássica. Devias dar-lhe um gosto.

James estava mais entusiasmado com aquilo do que o próprio Clark, mas ainda se riram com algumas coisas que leram e algumas fotografias que viram. No final de contas, Clark acabou por dar apenas três gostos. Depois, decidiu que já chegava e desligou a aplicação. Ele e James ficaram a falar durante algum tempo, até Clark indicar que tinha de ir embora. Ao entrar no seu carro, sentia-se aliviado. A amizade dele e de James mantinha-se. Pensou nos homens da aplicação. Podiam até ser bonitos e interessantes, mas Clark deu por si a pensar que nenhum deles era tão interessante como James. E ao aperceber-se disso, o seu coração voltou a bater depressa novamente.

Marcas da Traição

- Muito obrigado por vires comigo – disse James.

Ele e Clark tinham acabado de sair do carro. O dia estava bastante frio e os dois vestiam casacos grossos. Clark usava também um barrete preto, que lhe tapava os cabelos loiros. Em frente deles, estava o canil municipal. Depois de muito pensar, James decidira-se a adotar um cão. Haviam muitos animais abandonados, infelizmente, pelo que poderia dar um lar a um deles. Pensara entre cães e gatos, mas optara por um cão, pois sempre gostara mais de cães. Mas não queria ir ao canil sozinho. Era melhor levar um amigo com ele.

Com o passar do tempo, dois dos amigos chegados de James, que também eram amigos de Brendan, tinham acabado por se afastar. Parecia que tinham de escolher lados e apesar de inicialmente terem estado contra Brendan, tinham acabado por decidir que a amizade com ele era mais importante. Dois outros amigos eram casados e se antes fizera sentido estar com eles, porque tinha Brendan e saídas de amigos de casais, agora parecia estranho ser o elemento de fora. Havia também a sua amiga Lauren, mas ela estava fora da cidade, portanto sobrava Clark, pelo que o convidara a ele. E verdade fosse dita, gostava da companhia dele, mesmo sendo o seu amigo chegado mais recente.

Clark ficara satisfeito pelo convite e aceitara de imediato. Tinha andado a pensar em James, mais do que esperara. Fora a dois encontros, já depois da situação com Brendan. O primeiro fora um grande aborrecimento. Apesar de o homem parecer interessante, em teoria, pelo que Clark lera, era um aborrecimento em pessoa. Só falara de coisas más e desinteressantes durante todo o jantar. Não houvera um segundo encontro. O segundo homem era interessante e bem-falante, mas Clark dera consigo a compará-lo a James e chegara à conclusão de que James o batia, por muito.

- Já sabes que tipo de cão queres? – perguntou Clark, enquanto caminhavam para a porta do canil.

- Tem de ser um cão pequeno, porque vivo num apartamento. Vi no site do canil e há algumas fotos de animais, mas acho que quero vê-los de perto, para depois escolher a sério – respondeu James. – Espero que o cão ou cadela se adapte ao meu apartamento e a mim.

- Claro que se vai adaptar. Os animais só querem conforto e serem amados. Tu podes dar-lhe as duas coisas.

James sorriu, agradado com o que ouvira. Entraram no canil e dirigiram-se a um balcão, onde uma funcionária estava a tratar de alguns papéis. James tinha ligado, indicando que iria lá, pelo que ela já o esperava. Falaram durante uns minutos, com a funcionária a dar-lhe indicações sobre alguns cuidados a ter com o animal que escolhesse. Deu-lhe também dois panfletos e depois indicou a James e a Clark que a seguissem. Passaram por um corredor e depois para o exterior, para um pequeno jardim, antes de entrarem num outro edifício. Era ali o canil.

Os cães estavam num lado e os gatos no outro, em jaulas de tamanho médio. Nalgumas, haviam dois animais. A funcionária explicou que estavam sobrelotados, daí isso acontecer. Não era fácil manter o canil a funcionar, ter cuidados médicos para os animais e comida. Ao ouvir aquilo e ver a quantidade de animais que ali haviam, James achou que tomara a decisão certa em adotar um animal. Haviam cachorros à venda nas lojas de animais, mas não lhe parecera que essa fosse a opção certa para si.

- Portanto, disse que vivia num apartamento, não é verdade? Nesse caso, é melhor que escolha um animal de porte mais pequeno, pois ocupam menos espaço. E se ele passar várias horas sozinho, deve escolher algum animal que seja calmo – disse a funcionária, guiando-os e passando pelas janelas. Os cãos ladraram, enquanto eles passavam pelas jaulas. – Aqui estão alguns bons candidatos. Esta é a Hester, é uma beagle e tem pouco mais de um ano. Foi encontrada há uns meses, à beira da estrada. E este é o Leron, um pug. Está connosco há menos tempo.

A funcionária foi indicando os animais e os seus nomes, ressalvando que James poderia mudar o nome, se assim entendesse. Ele foi olhando para os animais. Uns aproximavam-se da jaula e abanavam a cauda. Outros ficavam deitadas, a olhá-los. Reparou num pinscher preto, que tinha apenas um olho. Perguntou informações sobre ele. A funcionária encolheu os ombros.

- Foi devido a um acidente, um atropelamento e fuga. Uma pessoa chamou-nos ao encontrar o Fern na estrada. Cuidámos dele e ele recuperou a saúde, mas não havia nada que se pudesse fazer pelo olho. Já está connosco há mais de um ano e em breve… bem, deixará de estar.

- Como assim? – perguntou Clark.

- Como vêm, temos animais a mais. Não temos forma de cuidar de todos, portanto, quando passa demasiado tempo e um animal não é adotado… infelizmente, temos de tomar a decisão de o abater. E para o Fern, coitado, ainda só tem quatro anos de idade, mas tendo só um olho, não é realmente desejado como cão a adotar.

- Então, se não for adotado irá morrer? – perguntou James. A funcionária suspirou e respondeu que sim. – Muito bem, estou a perceber. Então, está decidido. Vou adotá-lo.

- De certeza? – perguntou a funcionária e James acenou afirmativamente com a cabeça. Ela sorriu ligeiramente, parecendo surpreendida. – Fico contente, na verdade. Ele é brincalhão, mas também sabe comportar-se. Tinha pena que ninguém o quisesse. Eu tenho três cães em casa, não tinha espaço para mais, senão tinha ficado com ele. Mas assim, fico mais descansada.

A funcionária abriu a jaula e arrebitando as orelhas, Fern saiu de lá. James baixou-se e o animal aproximou-se dele, cheirando-lhe as mãos. Abanou a cauda, enquanto James lhe fazia uma festa na cabeça. Clark sorriu. Talvez um dia viesse a ter um animal de estimação também, mas para já não estava realmente interessado nisso. Ainda assim, decidiu que quando mudasse de ideias, iria ali, dar um lar um daqueles animais. Fern deixou que James lhe pegasse ao colo e até tentou lamber-lhe a cara.

- Parece que ele também está feliz. Agora, venham comigo, para se tratar da papelada.

Não demorou muito tempo para James assinar alguns documentos, receber uma caderneta das vacinas de Fern e mais algumas informações. A funcionária perguntou-lhe se ele tinha comida e outras coisas, mas James já se preparara, comprando tudo antes. Até trouxera consigo uma mala de transporte para animais, que foi buscar. Fern não gostou muito de ter de lá entrar, mas alguns minutos depois estava dentro do carro, pronto para ir para a sua nova casa.

- Obrigado por teres vindo comigo, Clark – disse James, enquanto conduzia.

- De nada. Tenho a certeza de que tu e o Fern se vão dar muito bem.

Marcas da Traição

Fora uma semana de trabalho bastante complicada. Era o final do mês e era sempre pior nessa altura. James trabalhara muito e Clark também. Durante essa semana, tinham saído numa noite, para beberem café e tinha sido divertido. Fern tinha-se adaptado bem ao apartamento e estava sempre à espera que James chegasse. Ganhara o hábito de dormir aos pés da cama dele, mesmo tendo uma cama para si próprio. Mas agora, chegara o sábado e James podia finalmente descansar.

Como se habituara a levantar cedo, acordou à hora do costume. Tomou um duche e comeu o pequeno-almoço. Foi com Fern à rua, darem um passeio e depois regressou ao apartamento, onde se dedicou a aspirar o pó. Era quase meio dia, quando Clark lhe ligou, perguntando se ele queria ir almoçar. James já colocara uns bifes a descongelar, portanto indicou que Clark podia vir almoçar com ele e o outro homem aceitou, de imediato.

Ao estacionar o carro na rua onde James vivia, Clark pensou para si mesmo o que estava a fazer. Ele e James eram amigos, portanto ia almoçar a casa de um amigo, só isso. Só que o problema é que Clark já não via James só como um amigo. Apreciava cada vez mais a sua companhia, gostava do seu sentido de humor, apesar de ser tranquilo. Gostava da forma calma como tratava das situações, do seu sorriso e do facto de ele ter bom coração. Pensava nele de manhã e à tarde e à noite. Queria falar com ele e queria beijá-lo. E isso, no total, era um problema.

Clark sabia que estava a tornar tudo pior. Devia tentar afastar-se um pouco, manter alguma distância, mas não conseguia. Fora uma semana aborrecida, portanto queria passar o sábado com James, mesmo que fosse apenas como amigos. James já deixara bem claro que não queria ter uma relação com ninguém. Estava magoado pelo que acontecera com Brendan e não queria confiar o seu coração a outra pessoa, porque não queria magoar-se novamente.

Pouco depois, estava a subir no elevador. Ao sair do mesmo, os seus olhos focaram-se na porta do apartamento de Tyrone. Pelo que James lhe dissera, aborrecera-se com o vizinho, quando ele lhe fora bater à porta, duas semanas antes e quase exigira que James fosse sair com ele. James recusara, Tyrone não gostara e dissera-lhe que ele não sabia o que era ter bom gosto. James dera a conversa por terminada, dizendo para ele se ir embora e nunca mais o incomodar. Clark não se sentia aborrecido com isso. Era menos uma pessoa atrás de James. Tinham passado quase seis meses desde que se tinham conhecido, na torre Skylight.

- Olá Clark, entra – disse James, abrindo a porta do apartamento, logo a seguir. – Queres os bifes acompanhados com o quê? Pode ser arroz, massa, batatas, legumes, o que quiseres.

- Por mim é indiferente. Como qualquer coisa, o que interessa é a companhia.

James sorriu-lhe e começou a falar de uma notícia que vira na televisão. Clark deu uma pancada mental a si mesmo. O que interessava era a companhia. Tinha de parar de dizer coisas daquelas, antes que James começasse a desconfiar de alguma coisa. Podia achar estranho o seu amigo estar sempre a dizer coisas do género e perceber que era mais do que uma amizade. Fern veio a correr para junto de Clark e o homem baixou-se, para o afagar atrás das orelhas, o que parecia ser algo que o cão gostava.

Falaram até à hora de almoço, Clark ajudou a pôr a mesa, riram-se de uma piada que ele disse, comeram e depois decidiram que poderiam ir ao parque. Fern já tinha saído de manhã, mas de certo que o cão gostaria de dar mais uma volta. Talvez o pudessem soltar, para correr à vontade durante um pouco. Saíram do apartamento, com Fern já com a sua trela posta. O parque não ficava muito longe, pelo que podiam caminhar até lá. No entanto, ao aproximarem-se do elevador, as portas abriram-se, revelando dois homens. Um deles era Tyrone e o outro era Brendan.

- Boa tarde – disse Tyrone, de forma desprendida, tirando as chaves do seu apartamento do bolso das calças.

- Brendan? – perguntou James, olhando para o ex-namorado. – O que estás aqui a fazer?

- Estou num encontro – respondeu Brendan, encolhendo os ombros.

- Com o Tyrone?

- Considerando que subi com ele no elevador, sim, estou num encontro com ele – respondeu Brendan, com algum sarcasmo na voz. – Porquê? Há algum problema? Eu sou descomprometido. Ei, tu, a tua cara não me é estranha.

- Já saímos juntos uma vez – disse Clark, respirando fundo.

- E agora andas com o James? Interessante. Eu saí contigo e tu agora andas com ele e aqui o Tyrone, que andava interessado no James até há algum tempo, está a sair comigo – disse Brendan, enquanto Tyrone se aproximava da porta do seu apartamento e a destrancava. – Boa sorte para vocês.

- Então, desde que nos separámos, é esta a tua vida? Andas a sair com uns e com outros? – perguntou James.

- Sim e descobri que estou contente com isso. Mas não faças essa cara, eu queria estar contigo novamente e tu é que não quiseste. Agora, já não temos nada a ver um com o outro e eu posso sair com quem quiser.

- E eu também quis sair contigo e não quiseste – disse Tyrone, encolhendo os ombros. – Encontrei o Brendan, a semana passada. Ele reconheceu-me como teu vizinho e eu reconheci-o como teu ex-namorado. Começámos a falar e a sair juntos. E agora, acho que já chega de informação. Anda, Brendan.

Os dois entraram no apartamento de Tyrone, fechando a porta atrás de si. Clark mordeu ligeiramente o lábio, olhando para James, para perceber a reação dele. Talvez já não quisesse sair. Fern tinha-se sentado no chão e olhava para o dono, como se não percebesse porque ainda estavam ali. James respirou fundo duas vezes e depois moveu-se, para abrir a porta do elevador e fez sinal a Clark. Entraram e o elevador começou a descer.

- Estás bem, James?

- Não posso dizer que esteja – respondeu o outro homem. O seu olhar parecia algo ausente e aquilo preocupou Clark. – O meu ex-namorado, que me traiu, tem andado a viver a boa vida. Saiu contigo, agora anda a sair com o Tyrone e sei lá mais quantos homens e mulheres. E ao que parece, está contente, nada lhe pesa na consciência. Enquanto isso, eu continuo com a dor da traição dentro de mim. Isto não é justo.

- Não, não é, tens razão – disse Clark. – O Brendan avançou com a sua vida e o Tyrone, ao que parece, realmente deixou-te em paz. Só falta tu conseguires avançar com a tua vida.

James não disse nada e o elevador parou. Pouco depois, estavam na rua, caminhando. Haviam pessoas de um lado para o outro, umas passeando, outras às compras, outras apressadas, para irem trabalhar ou com outros afazeres. O sol brilhava no céu e estava o dia ideal para se estar no exterior. Fern ladrou a um cão que ia a passar no outro lado da rua, mas depois comportou-se, caminhando à frente do dono e de Clark, como se soubesse para onde ia. No parque, havia menos pessoas. Perto do lago, haviam dois casais com crianças e os patos nadavam calmamente.

- Olha ali para aqueles dois – disse James, apontando com a cabeça para um casal jovem, que caminhava muito junto e iam trocando beijos. – Vêm para aqui para o parque, andarem assim aos beijos…

- A mim não me incomoda – disse Clark. Se pudesse, esticaria a mão e agarraria a mão de James. Gostaria que pudessem caminhar de mãos dadas. E gostaria de o beijar. Mas não podia dizer-lhe isso. – E não me parece que te devesse incomodar também. Não estão a fazer nada de mal, pois não? Ou agora, como estás magoado, és contra o amor?

- Não é isso… só que me incomoda.

- Incomoda-te, porque eles estão felizes e tu não? – perguntou Clark. James não respondeu. Fern parou de andar para cheirar umas ervas. – Ouve, James, achas que nunca mais vais gostar de ninguém?

- Eu não disse isso, mas…

- Estás magoado, eu sei. Só que já passaram meses desde que tu e o Brendan acabaram tudo. Vou contar-te algo que ainda não te contei, sobre mim. Eu também tive relações em que fui traído. No meu caso, não foi em uma, mas sim duas relações.

- A sério? Duas? – perguntou James, surpreendido. – Nunca me tinhas falado disso.

- Não achei que fosse a melhor ideia falar dessa situação, quando tu estavas a sofrer, mas considerando o tempo que passou e como tu não pareces estar a melhorar, vou contar-te. O meu primeiro namoro foi quando eu tinha dezasseis anos. Ele chamava-se Ethan e era bonito. Jogávamos os dois na equipa de futebol e acabámos por nos apaixonar. Claro que era segredo, eu nem sequer dissera à minha família que gostava de pessoas do mesmo sexo. Ainda namorámos um ano, mas, entretanto, ele decidiu acabar tudo. Confessou-me que se tinha envolvido com outro colega e que estava apaixonado por ele. Custou-me muito, que o meu primeiro amor e único, naquela altura, acabasse assim.

- E a segunda traição?

- Bem, essa foi há dois anos. O Jordan estava a trabalhar num gabinete de advocacia e conhecemo-nos numa caminhada de grupo. Entendemo-nos de imediato, trocámos números de telefone e começámos a ver-nos. Três meses mais tarde, sendo que já estávamos a namorar nessa altura, decidi ir ter com ele ao seu trabalho, à hora de saída, para depois irmos jantar juntos. Não avisei, tal como tu não avisaste o Brendan de que ias ao apartamento dele. E então, aguardei e foi quando vi o Jordan sair, com um colega e trocarem um beijo. Confrontei-o ali mesmo. Ao que parece, ele estava a ter uma relação com os dois e o outro também não sabia. Terminei tudo naquele momento e o outro fez o mesmo, portanto o Jordan perdeu os dois.

- Mas mesmo depois disso, ainda andas à procura de outro namorado. Não compreendo.

- Eu continuo a acreditar no amor. Continuo a acreditar que há alguém perfeito para mim e não quero passar a minha vida sozinho. Sim, tive duas relações que terminarem em traição e tive outras que simplesmente não resultaram, mas deixar de acreditar no amor é algo que não quero e acho que tu devias fazer o mesmo – disse Clark. – Não queres ficar sozinho para sempre, pois não?

- Eu não disse isso…

- Mas incomoda-te os outros estarem felizes e continuas a gostar do teu ex-namorado.

- Já não gosto dele, asseguro-te, ainda mais agora, que ele se foi envolver com o meu vizinho da frente. É quase como uma provocação ou é mesmo uma provocação, com tantos homens e mulheres que há na cidade – disse James. Passaram para uma área de relva ampla e ele tirou a trela a Fern, que começou a correr pela relva, contente. – Quero ser feliz.

- É o que todos queremos.

- Mas onde é que vou encontrar um homem decente para isso? – perguntou James, suspirando. – A minha confiança está muito abalada.

- Podes encontrar alguém que perceba o que estás a passar, por ter passado por algo semelhante. Alguém que saiba o que doi ser traído e por isso nunca te faria o mesmo.

- Sim, é muito fácil encontrar alguém assim. Não estou a ver-me a inscrever-me numa aplicação de encontros, como tu. Não tenho confiança para isso.

- E que tal se olhasses para quem tens à tua frente? – perguntou Clark, subitamente irritado. James franziu o sobrolho e Clark engoliu em seco. Falara demais, mas sentira-se aborrecido por James parecer tão tapadinho quanto àquilo. Ele já lhe contara das traições que sofrera, andava à procura de um namorado e James nem parecia considera-lo como um possível candidato. – Quer dizer, aqui pelo parque, há homens a passar, pode ser que algum deles seja aquele que será a tua alma gémea ou algo do género.

James olhou-o. Não era estúpido e o tom de voz que Clark usara era muito fora de carácter, do que conhecia dele. Olhou-o intensamente e Clark desviou os olhos, corando ligeiramente. Caminharam mais alguns passos, enquanto James começava a pensar muito depressa. Seria possível que Clark gostasse dele? Não. Clark até estava inscrito na aplicação de encontros. Apesar de ultimamente não ter saído demasiado e ter dito sempre que os encontros não tinham sido bons. E ligava constantemente a James, viam-se todos os dias no trabalho e estava sempre preocupado. Mas era isso que os amigos faziam. Mas e se houvesse algo mais?

- Clark… devo olhar para a minha frente para ver algo mais que não vi, é isso que queres mesmo dizer?

- Talvez sim…

- Eu nunca pensei, não considerei…

- Eu sei…

- A tua amizade é muito importante para mim – disse James, engolindo em seco.

- Eu sei disso e a tua amizade também é importante para mim.

- Mas não é suficiente?

- Não sei se é… neste momento penso que não, mas eu percebo que tens receios e sei o que é gostar de alguém e não ser correspondido – respondeu Clark, tentando falar com calma.

- Há quanto tempo?

- Há quanto tempo? Ah… não consigo dizer ao certo. Acho que comecei a pensar de forma diferente, depois do encontro com o Brendan e de ter ido ao teu apartamento. Apercebi-me de mais coisas, com o passar do tempo. No último encontro a que fui, só consiga comparar o homem a ti. Tu percebes o que é ser traído e acredito que podes voltar a amar.

- Lamento, Clark. Não quero uma relação com ninguém neste momento e não sei se vou querer, daqui a uma semana, um mês, um ano… ou quando for. Quero ser teu amigo, mas não posso dar-te mais do que isso.

Os dois ficaram em silêncio durante alguns segundos, vendo Fern a correr, a rebolar na relva e a cheirar tudo. Então, Clark virou costas e começou a afastar-se. James não se virou, para o ver ir embora, porque lhe custaria muito fazê-lo. Não queria perder o amigo, mas também não estava preparado para uma relação. Para o bem e para o mal, a dor da traição continuava a acompanhá-lo. Amar assim, era impossível, porque para amar, tinha de confiar e não conseguia fazê-lo.

Marcas da Traição

A noite já caíra sobre a cidade Bluelake e James estava no topo da torre Skylight. Haviam pontos de luz espalhados por toda a cidade e realmente a vista era bonita. A última vez que ali fora, estava arrasado com o fim do seu namoro com Brendan. Lembrava-se disso tão bem, apesar de já ter passado um ano. Um ano completo, que parecera ter passado com mais velocidade do que ele queria admitir. Ao olhar para as luzes da cidade, sentiu-se algo vazio. Sim, vazio era uma boa descrição.

Olhou à sua volta. Só havia por ali um casal idoso, a caminhar. Estava frio e um vento gelado fê-lo encolher-se um pouco, mas decidiu não ir embora de imediato. Talvez estar ali lhe fizesse bem e lhe fizesse pensar na sua vida e nas decisões que tomara. Ou que não tomara. Olhando para trás, para os últimos meses, pensou que tinha errado e por isso, agora estava a pagar o preço. Passou as mãos pelos braços. Nem mesmo o casaco grosso que vestia ajudava muito contra o frio.

A decisão que tomara e fora acertada, tinha sido adotar Fern. O animal adaptara-se muito bem ao apartamento e era boa companhia. Saber que o salvara de ser abatido, dava alento a James. Fern era animado, estava sempre contente por o ver e sabia que podia confiar no animal. Não tinha de se perguntar se o seu cão gostava dele, porque era muito claro. Essa fora a parte boa dos últimos meses. A partir daí, parecia que tudo correra mal.

Começando pelo trabalho, cometera um erro grave e quase fora despedido por isso. Não fosse o facto de trabalhar para a empresa há algum tempo e nunca nada do género ter acontecido, teria certamente perdido o emprego. Felizmente, não acontecera, mas a promoção que gostaria de ter, ficara rapidamente para trás. Tirando isso, a sua vida sentimental continuava inexistente.

Demorara muito tempo a conseguir lidar com a traição e tivera de ter ajuda profissional para aprender a lidar com isso. Agora, sentia que já conseguira ultrapassar a situação, pelo menos a maior parte, mas isso não mudava o que fizera. Numa altura em que encontrara Brendan e Tyrone a saírem do apartamento dele, fizera uma cena. Acusara Brendan de lhe ter estragado a vida e Tyrone acabara por lhe responder mal também.

Olhando para trás, James sabia que perdera o controlo. Costumava ser calmo e contido, mas fora por isso que fora guardando as suas emoções para si e depois acabara por explodir. Agora, quando via Tyrone, ele nem lhe falava, mas felizmente não voltara a cruzar-se com Brendan, apesar de saber que ele e Tyrone pareciam continuar juntos. Isso irritava James. O ex-namorado estava a viver uma boa vida, estava acompanhado, enquanto ele estava sozinho.

- Vamos embora, está muito frio – ouviu James. Era a mulher idosa, falando para o marido.

Ele acenou afirmativamente e ambos se dirigiram ao elevador, deixando James como o único ocupante do topo da torre. O pior de tudo, achava ele, fora a situação com Clark. Depois do dia no parque, as coisas nunca mais tinham voltado ao normal. Ainda tinham falado algumas vezes, mas gradualmente Clark começara a afastar-se. Até acabara por ser transferido para outro departamento, na empresa, mas James não sabia se fora por pedido seu ou não.

Pedira só uma única vez a James para ele lhe dar uma oportunidade, mas ele voltara a dar-lhe a mesma resposta. No mês anterior, James ficara a saber que Clark estava a namorar com um colega. Parecia que a relação era recente, mas os dois estavam felizes. Claro que James ficava contente por Clark, mas ficava triste por si mesmo. Clark era boa pessoa, ele sabia isso. Era bonito, era interessado, era bem-falante e bom ouvinte. Talvez tivesse dado um bom namorado, mas James não lhe dera oportunidade.

- Fiquei demasiado perdido na minha dor, no meu rancor, nas minhas dúvidas e a achar que não conseguiria confiar em alguém, que não conseguiria amar alguém e deixei-o ir – pensou James, suspirando. – O Brendan está numa relação, o Clark está numa relação e eu estou só.

Ficou mais uns minutos na torre e depois decidiu ir embora, de volta ao seu apartamento, onde estaria quente e confortável. Iria ligar a televisão e ver um filme, enrolado no sofá com uma manta e com Fern junto de si. Pensou para si mesmo se e quando voltaria a ter uma relação. E pensou que gostaria de voltar atrás no tempo. Teria dado uma oportunidade a Clark. Mas agora era tarde demais. Por vezes, as oportunidades só apareciam uma vez e ele deixara aquela passar.

Fim

E termina assim a história. Ao contrário da maior parte das minhas histórias, o Clark e o James não acabaram juntos, porque na vida real nem sempre tudo corre bem. As traições podem deixar marcas profundas e era isso que eu queria demonstrar com o James. Enquanto a vida dos outros avançava, a dele pareceu parar, porque ele não conseguia lidar com aquela quebra de confiança e aplicou-a a todos, inclusive ao Clark, que gostava dele. E, tal como pode acontecer a qualquer pessoa, em retrospetiva viu o que perdera e desejou poder mudar, mas já era tarde, o que não quer dizer que não possa ser feliz, de futuro, mas não com o Clark. Espero que tenham gostado e até uma próxima história!